Prefácio
p. 11-13
Texte intégral
1Em meados do século XX, BRASÍLIA surpreendeu o mundo ao ser construída em uma região rural, desprovida de infraestrutura, distante do centro dinâmico do país. O cerrado foi rapidamente rasgado pelas rodovias e ferrovia, os campos onde pastava o gado dos latifúndios pecuaristas da região deram lugar a jardins onde se ergueram os prédios residenciais, monumentos e palácios. Em menos de cinco anos a capital foi inaugurada. A cidade construída para ser a nova Capital do Brasil encantou pela beleza arquitetônica, com as obras de Niemeyer e com o inovador plano urbanístico, o PLANO PILOTO de Lucio Costa, onde igualdade de condições urbanas para os moradores se aliava à funcionalidade e modernidade.
2A cidade planejada para cerca de 500 mil habitantes, após sessenta anos, tornou-se o centro de um dos maiores aglomerados urbanos do país. O centro, o Plano Piloto, nem totalmente edificado e ocupado, foi tombado como Patrimônio da Humanidade. Esse novo fato urbano, marcado pelo rápido crescimento populacional e expansão territorial instiga pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento. Nesta obra, estudiosos do processo de urbanização, com enfoques diversos, colocam variadas problemáticas, possíveis hipóteses e ambiciosas propostas de gestão sobre essa aglomeração, denominada ÁREA METROPOLITANA DE BRASÍLIA.
3A integração, dependência ou autonomia dos diferentes núcleos urbanos que formam esse aglomerado e suas implicações, na gestão e governança são enfocados nos diferentes capítulos desta obra. No Distrito Federal (DF) os núcleos foram surgindo como periferia do centro: o Plano Piloto, com funções periferizadas, fruto da expulsão da população pobre para novas áreas. Extrapolando os limites administrativos do DF, foram englobados municípios goianos. O aglomerado surgiu e evoluiu em forma de polinucleamento. A discussão sob diferentes abordagens do que é Brasília e sua área metropolitana permeia a obra, onde diferentes hipóteses são colocadas para explicar esse instigante fato urbano e propostas de gestão e de governança são apresentados, em diversos capítulos. A complexidade desse aglomerado é colocada por diferentes autores, em termos da sua desigualdade territorial.
4A cidade foi criada com a função exclusivamente de capital, inovadoramente terciária, sem atividade industrial, quando esta era impulsionadora do urbano. Por outro lado, estrategicamente, deveria ser um polo de crescimento para o avanço da fronteira agrícola.
5Paradoxalmente, os Polos de Crescimento pretendiam o desenvolvimento de indústrias no entorno dos mesmos. Em Brasília, o desenvolvimento industrial deu-se com turismo e com o agronegócio. Com Brasília, abriu-se o Planalto Central para a grande lavoura comercial e o potencial turístico das chapadas do seu entorno, com sua beleza cênica e cultura popular, ficou conhecido no mundo.
6Brasília, cidade implantada não evoluiu de um ponto central de uma região, e assim, as ligações com a região não se construíram, ao longo do tempo, com base na solidariedade territorial, horizontal, por meio de trocas. A Capital impôs à região (mais distante) relacionamentos verticalizados, de ordem política, econômica e institucional. Essa complexa relação é abordada em vários dos capítulos desta obra, colocando-se a diversidade dos mesmos e os níveis de intensidade que levam à possibilidade de diferentes recortes regionais. Um deles poderia ser o resultado da relação da cidade com a área contígua, que complementa a cidade central, com funções espacializadas/periferizadas. Com a parte mais distante, a relação se dá pela função de Capital Federal, por meio das leis e políticas nacionais e regionais. São laços verticais, impostos à região.
7A funcionalidade do plano urbanístico que propunha uma vida urbana amena e igualitária, em termos de equipamentos urbanos, sucumbiu aos processos dominantes da formação territorial urbana do Brasil, marcada pela desigualdade social e concentração espacial e econômica, que se retroalimentam. Os processos gerais que comandam a urbanização brasileira estão presentes em Brasília e até se acentuaram. O Planejamento da cidade, políticas de ordenamento territorial e de gestão não inibiram os processos gerais excludentes e concentradores. Processos locais, como a preservação do plano urbanístico e ações do poder local, na busca de novos espaços de moradia, alimentaram os processos gerais.
8Ao refletir sobre o futuro dessa formação territorial, se coloca a necessidade de formular novas políticas.
9Nesse sentido, a presente obra lança o desafio da gestão com propósito de integração da diversidade da região diminuindo as desigualdades.
Auteur
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Ignez Costa Barbosa Ferreira
Professora Emérita da Universidade de Brasília
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