Depoimento

Patrick Kechichian

p. 657


Texte intégral

1Jornalista literário, portanto voltado mais para a informação do que para a crítica, percebo uma contradição entre, de um lado, a imensidão de um país como o Brasil, sua heterogeneidade manifesta na diversidade e na quantidade do que lá se escreve e publica e, de outro, o inexpressivo quadro a que isto se reduz na França. Não possuo o montante anual de traduções de livros brasileiros, mas suponho que é insignificante... No meu entender a contradição de que falo só pode levar a uma deformação, a uma simplificação exagerada, precisamente a uma imagem do Brasil que corresponde, apenas de longe, à sua realidade.

2São as traduções publicadas que delineiam a imagem literária de um país no estrangeiro; neste campo, como em outros, infelizmente, são as leis do mercado que dominam aquelas da coerência cultural, mais sutis, mas mais onerosas. É díficil, por exemplo, expor o que se esta fazendo de mais atual em literatura no Brasil, através de uma amostragem que reflita claramente sua real diversidade.

3Em compensação, deveria ser possível colocar à disposição dos leitores franceses uma seleção representativa de obras e de autores de gerações precedentes. Isso permitiria, talvez, escapar às visões redutoras e deformadas da realidade literária brasileira ou, pelo menos, nuançá-las.

4Enfim, gostaria de exprimir um desejo aos jornalistas, portanto também a mim mesmo: que se faça um esforço no sentido de não se compararem constantemente autores e obras vindas do Brasil com modelos europeus. Como se fosse prerrogativa dos escritores de nosso velho continente ocupar sempre o primeiro piano, usufruir o privilégio de uma eterna anterioridade...


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