Cinema Brasileiro na França: Amigos, é preciso mudar!
p. 597-598
Texte intégral
1A gigantesca retrospectiva do cinema brasileiro organizada, em 1987, pelo Centra Georges Pompidou e o Brasil dera-me uma gigantesca esperança: um esforço como este deveria dar alguns pequenos frutos decisivos. A televisão francesca também poderia ter organizado uma retrospectiva, ao menos em um de seus famosos horários de cine-clubes, jã bem tarde da noite. Ainda estamos à espera dessas retrospectivas. Alô, alô, Patrick Brion!...1
2E você, meu caro amigo, tem visto saírem filmes brasileiros nos cinemas comerciais? Cite o nome de um nos últimos seis meses? Pois bem, meu amigo, você teria dificuldade...
3Os pequenos guetos culturais de subúrbio parisiense, onde para quatro gatos pingados (que às vezes, no escuro, coitados, não passam de dois) se deslocam oito pessoas, inclusive os próprios diretores, para apresentar obras-primas num puríssimo desperdício cultural (refiro-me aqui, obviamente, à admirável homenagem ao Cinema Brasileiro da Negritude organizado na última primavera, aliás admiravelmente organizado por meus amigos Alain Michel Assouane, Rosângela Meletti e Dominique Dreyfus, em Champigny): pois fique sabendo, caro amigo, que já estou bem farta desta situação.
4Se a França não quer saber nada do Brasil através do seu cinema, cuja obsessão, desde sempre, foi falar do país, pois então, como se diz na Brasil, que a França vá às favas!...
5Jovens diretores e diretoras estão hoje fazendo ótimos filmes no Brasil e que além do mais, não têm nada de hermético (o que hã vinte anos atrás se criticava de alguns filmes do Cinema Novo, no entanto quase sempre recebidos calorosamente na França pela crítica e pelo público): onde se pode assistir a esses filmes? Com muita sorte, aparecem nos festivais e logo depois são enterrados.
6O cinema custa muito caro. E em um país com uma inflação alucinante como o Brasil, dá para imaginar o que a realização de um filme de longa metragem pode custar de sangue e lágrimas? Então, de nada adianta chegar até a consagração simbólica de um festival, se por trás disso não há nenhuma chance do cinema brasileiro chegar aos cinemas franceses?
7Em outras palavras, o problema número um do cinema brasileiro, hoje, na França é ser comprado por distribudores franceses, e, principalmente pelas televisões franceses.
8E esse cinema possui todas as qualidades requisitadas para chegar a isso.
9O primeiro exemplo que me ocorre, é o de um excelente filme: Sonho de Moça, de Tereza Trautman, filme terminado em 1988 e apresentado em Biarritz. Belíssimo filme. Pois bem: só acreditarei que vale mais a pena discorrer doutamente sobre a recepção do cinema Brasileiro na França, depois que eu tiver visto esse filme (tão melhor do que um Claude Sautet medíocre que assistiremos dez vezes) passar uma noite na televisão às oito e meia, em versão francesa. Why not?
10Compreende, então, meu amigo, o que estou tentando lhe dizer: a vida é tão brutal, tão urgente, é preciso fazer tantas opções!... Minha opção, no caso, consiste em lhe dizer que não hã o menor interesse para o cinema brasileiro, hoje, que Sylvie Pierre continue seu douto blablablá sobre o assunto – que, aliás, ela conhece de cor – ou seja, o tipo de recepção que recebe na França. Pois esta recepção é pura e simples mente tão nula que não vale a pena falar dela.
11Ou então, se você prefere a coisa de forma resumida:
12O CINEMA BRASILEIRO NA FRANÇA: É PRECISO MUDAR! E para não encerrarmos de maneira tão lúgubre, gostaria de lembrar (ou dizer, já que pouca gente sabe) que o melhor exemplo de co-produção entre o Brasil e a França em matéria de cinema é um filme de Paulo César Sarraceni, Natal da Portela; e que, num futuro próximo, espero, temos de ficar de olho no Amor vagabundo, do excelente diretor Hugo Carvana, não só um dos atores mais inspirados de Gláuber Rocha: ele também sabia, quando vivia em Paris pelos anos de 1968, imitar o parisiense típico que passa a vida reclamando nos bistrots, com tanta afeição que tem por nosso país.
13Na hora em que devo corrigir as provas deste texto, aumentam asmi saudades e receio que nada mude no selor do Cinema Brasil-França. Acabo de saber que o negativo do belo filme Natal da Portela continua sendo seqüestrado na França. Problema de «divida extema», claro! Meu deus do céu.
14A amizade Brasil/França é irresistível. E vice-versa, como no cinema, onde é a tala que nos olha.
Notes de bas de page
1 P. Brion, um dos maiores eruditos cinéfilos vivos. Responsável pela programação cinematográfica do Canal FR3.
Auteur
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Sylvie Pierre
Professora auxiliar no departamento de cinema da Universidade de Paris VIII.
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