Eu recuso...
Posfácio
p. 173-181
Texte intégral
A recusa sempre foi um gesto essencial. [...]
O pequeno número de pessoas que fizeram
a História foram aquelas que disseram não,
nunca os cortesãos e servos dos cardeais.
Pier Paolo PASOLINI
L’Ultima intervista di Pasolini
1Junho de 1995: com a idade de quarenta e oito anos, Sony Labou Tansi, poeta, romancista, homem de teatro e ensaísta, recentemente eleito deputado em 1992, morre em vida no Congo-Brazzaville (“Sei que morrerei em vida1”). Deixa atrás de si seis romances e oito peças de teatro editadas e traduzidas depois em várias línguas, o Rocado Zulu Théâtre, uma companhia que criou em 1979 e com a qual atravessou vários países do norte como do sul, e, diante dele, uma profusão de escritos inéditos eclodindo em todos os gêneros que aliás ele prefere chamar palavras ou maneiras de respirar: romances, novelas, obras dramáticas, cartas abertas, artigos, textos críticos e numerosas compilações de poesia. Em vista da parte emergida, publicada, de sua obra (romance e teatro), o poeta e o ensaísta ficaram bastante desconhecidos2. No entanto, vinte anos se passaram de sua morte, seu pensamento ficou, ele, bem vivo e se revela visionário de todos os pontos de vista, de todos os pontos... cardeais. A “poeira descontrolada3” que aquece atualmente os quatro cantos do planeta não o desmentirá, assim como o advento do “grande mercado da miséria e da indigência”, e seu corolário, a fábrica de “um reservatório de terroristas e de desesperados” e de populações em dificuldade de manter sua resistência cultural.
2Em 1993, a tese do choque das civilizações infiltra as sociedades do norte, já inclinadas a uma forma perigosa de racialização do olhar: “O sangue e a fé: eis com o que as pessoas se identificam, é por isso que combatem e morrem4”. Três anos antes, Sony evoca a “guerra dos mundos cientificamente cevada pelo ‘caso-crise’ do Golfo”, e, em 1991, ele garante: “Nenhuma guerra é santa, todas são feitas por um punhado de homens, e contra Deus [...], a guerra do Golfo é uma guerra dos mentirosos”. A Europa, “arrogante demais pra não ser fundamentalmente racista”, não fica atrás: “Vocês promoveram amplamente a injustiça e como a injustiça é o motor central da violência vocês promoveram o terrorismo, e a desesperança dos povos externos à Europa”.
3Duas concepções opostas do “choque” ou da “guerra”: de um lado, os conflitos mais perigosos, há que temê-los entre povos de culturas diferentes, o sangue e a fé então brandidos como poderosos antídotos à hegemonia euro-atlântica; de outro, estão o horror econômico, a desesperança dos “povos consignados à periferia da história” e do progresso que terão consequências incalculáveis sobre o porvir das relações entre os seres humanos. Sony Labou Tansi avisa: “A bomba da pobreza deve ser desativada ou então será mais terrível que todas as bombas de vocês”.
O empobrecimento imposto a muitos países do Terceiro Mundo terá consequências incalculáveis sobre o porvir das relações entre as pessoas de nosso planeta. Haverá cada vez menos pessoas que aceitarão ser pequenas, ultrajadas, desconsideradas, avacalhadas, condenadas, exploradas [...] A razão cederá cada vez mais lugar à violência cega e à revolta. Aqueles a quem se recusa a menção de humano escolherão ser bichos brutos, sem lei – sem outra lei em todo caso que o reflexo de sobrevivência, o medo pânico do outro, aquele que não se assemelha a nós –, o medo do bicho encurralado que se acha obrigado a morder. Esse medo [...] não deveria ser o sentimento dos humanos, mas dos animais. Ora, a quantos seres humanos nosso mundo que se pretende o do saber, da liberdade, do humanismo, da paz e do progresso não impõe esse medo – esse medo animal – o medo bárbaro do bicho condenado a morder? O que dizer de uma liberdade vivida no terror, de um saber e de um progresso casados com o pânico, com o racismo sob todas as suas formas? Tudo se passa como se a prosperidade pertencesse a um punhado de homens e que ao resto da humanidade só restasse mendigar o conhecimento, o sonho e o alimento.5
4É um fato, pra onde quer que olhemos, norte e sul confundidos, encontram-se zonas de vergonha e de humilhação, zonas de frustração e de magna solidão. Do jeito que dá, nessa “ordem canibal do mundo6”, populações inteiras buscam “se manter vivas o máximo possível” torturadas pelo medo do outro, por uma rabugice crescente e o sentimento difuso do “estrago maiúsculo do porvir”. O medo, a rabugice e o estrago, uma suruba que leva a cenas de discórdia cada vez mais mortíferas na medida em que crescem os extremismos religiosos ou políticos e as derivas sectárias. Apesar de tudo, em meio à algazarra do que Michel Leiris chamava a “modernidade-merdonidade”, algumas cenas estimulantes são notáveis quais pirilampos teimosos sob um céu atormentado. Pensemos no sobressalto, no ocidente, do povo grego em que a dignidade reivindicada dos ultrajados, dos avacalhados e sua recusa obstinada de uma “história carniceira” batem com punhos solidários à porta de uma Europa escorada em “programas de escravizações estruturais”. Teria (re)vindo o tempo de escutar a ou sua vergonha que “já é uma revolução7”? Pois “se toda uma nação tivesse vergonha seria como o leão que se encolhe sobre si antes de saltar8”.
5Obstinadamente, Sony Labou Tansi atesta que (ainda) se está vivo. Ele não oferece nenhuma prosa depressiva, não repisa nenhuma velha utopia, não rumina nenhum amargor histórico e não se fecha em nenhuma constatação despeitada do estado do mundo. Suas palavras, sua voz estão a serviço de um pensamento fluido e luminoso, a serviço de uma cólera radical que não se deixa deter por nada. Ele “empresta suas artérias ao verbo”, lá onde o sangue contido é mais oxigenado, precisamente o mais vivo. Seu pensamento bate aqui e agora, e cria um verdadeiro evento de linguagem na língua francesa – pra qual, aliás, ele diz estar pouco se fodendo (“Je m’en fous de la langue. Que isso se diga ou não9”). Seu pensamento é um puro “exercício de lucidez” – uma lucidez crítica que preside cada frase, cada palavra.
6Intimamente altermundialista, mas acima de tudo “proscrito ideológico” como ele mesmo se qualifica, e “revoltado” como escreveu em seu cartão de visita, Sony não poupa nenhuma geografia nem ninguém. Numa mesma febre contagiosa, está em todos os fronts e em contato direto com a atualidade; envia cartas abertas aos intelectuais, à humanidade, a Mitterrand, aos ricos, aos africanos, aos intelocratas, aos cooperantes, às pessoas do norte... Se não hesita em fustigar as “teses racizantes de uma África de moleques” espalhadas no norte, não hesita tampouco em flechar suas palavras nos “guias providenciais”, passados ou por vir, do continente africano e suas “democracias” de partido único. Em 1990, dá uma alfinetada em Jacques Chirac, que estima que “para os países em via de desenvolvimento, o multipartidarismo é um erro político e um luxo” e, já em 1988 alerta François Mitterrand sobre a necessidade de “sair das rotulações tradicionais do africano pândego e do europeu imperialista fascinante”. A África, de fato, tem “sede de um outro sonho”.
7Tinta, suor, saliva e sangue encarna, página após página, ano após ano (1973-1995), a recusa do fim do ser humano, a recusa de ser “humanos nas coxas”, atores desorientados “da tragédia [contemporânea] dos ajoelhados”. Tinta (eruptiva, impertinente), suor (do trabalho, da urgência), saliva (do oráculo, da conivência) e sangue (caudaloso, solidário) repousa na absoluta convicção do alcance fundamental e universal do pensamento de Sony. Um pensamento por tempo demais relegado a uma geografia cabaça (a África, esse “curioso bicho cabeludo”) e, por isso, lastrado com um sentido único confortante e justificante para o leitor do norte – ele denunciaria as “coisas feias” dos Estados vergonhosos africanos, “um mundo invivível, o da África sanguinolenta10”. Evidentemente, essa “parte da Terra que hoje conta seiscentos anos de silêncio” está presente em todos os poros de sua escrita, todos os estratos de seu pensamento. Como poderia ser diferente? No entanto, Sony, o “negro que vai longe no caminho dos humanos”, terá de certa maneira padecido toda sua vida de homem, ou antes de pensador, desse beco sem saída geográfico e identitário, do caixão da pele: quando se é negro, continua-se sendo; está na ordem da...História. Mas “era mestiço que eu devia ter nascido. [...] O branco e o preto, em certo sentido, são estropiados”. Ao longo de suas entrevistas, encontros, conferências, textos críticos e cartas abertas, terá em vão recusado o lugar que lhe é (consciente ou inconscientemente) assinalado, terá em vão se alargado (“Parto de uma experiência humana [que] pode ser vivida por um africano ou por um asiático”), pois continuará etiquetado como escritor preto atormentado pelos problemas do preto, colonizado ainda há pouco, pós-colonizado hoje – “cooperado em desenvolvimento”, ironizará ele. Sim, “todo mundo se cagou”: todo estado/Estado é vergonhoso (“Perguntam-se o que eu quis dizer. O Estado nação? O Estado condição?”). O africano não é uma espécie – vergonhosa, desclassificada – de humanidade, escondido no posto avançado da violência bárbara. O invivível não é preto nem branco, é cinza, o cinza de um nevoeiro congelante, o da indiferença, o da derrota da razão. O invivível se propagou como um inço que se espalha por toda parte onde “a humanidade se ausenta de qualquer responsabilidade11”. Onde os sonhos são rebaixados como uma vergonha.
8Sony sente, sabe, profetiza: o único recurso diante de tempos tão sombrios é repensar tudo, provocar novas maneiras de agir. “Os conceitos, as abordagens, os hábitos, os métodos, os instrumentos, as nações, os espaços... tudo hoje em dia deve ser reinventado. É a única possibilidade que nos resta de contornar o cosmocídio de nosso planeta.” Indiscutivelmente, se essa “terra se rasga e se pega as tripas”, é bem por falta de imaginação. Então, como (re)encontrar as dimensões reais do ser humano na desfiguração contemporânea? Talvez pegando as palavras pelos chifres, pelas tripas, pelas vergonhas, para, à plena voz e à plena página, dizer obstinadamente a energia do vivo e não “se demitir de seu posto de humano”, para desenhar a cartografia de solidariedades novas para além das raças, além das classes e além do medo que é “o campo da catástrofe”. Talvez ainda respeitando a minoria em cada um de nós, quer dizer, “essa deliciosa maneira [que todos temos] de tropicar pela vida”. Talvez, enfim, mudando de desenvolvimento tornado moralmente insustentável e, ironia do (torto) destino, produtor do subdesenvolvimento. Sim, “Devemos ter uma carne de revide, uma existência de revide. Devemos ajudar o Ocidente a rebentar [...] Porque a posição venenosa hoje se chama Ocidente”.
9Por mais que haja uma consciência aguda das múltiplas faces da inumanidade, digamos ordinária, e de sua virtuosidade pra fingir (“fingir ser uma época de progresso [...] fingir cooperar, querer a paz, descolonizar, ajudar os pobres”), Sony conserva uma fé inabalável no ser humano e em sua capacidade de mudar o mundo. Então, face aos intelectuais que considera “estranhos bichos que ligam a existência de maneira absolutamente trágica a uma soma de gesticulações”, apela aos “eternos indignados12”, às “pessoas sem rabo preso”, quer dizer aos poetas e aos artistas, “aqueles cuja maneira de viver preparou pra mudança”. Criar é provocar a insurreição das consciências, pois “não há arte que não seja uma liberação de poder de vida. [...] Criar é resistir.13” De resto, Sony deixa aos “utensílios de cozinha” (os “negrólogos” armados com um “doutorado em alguma parada de feitiçaria euro-africana”) o cuidado de exercer seu “cowboyismo intelectual”, suas fantasias e seu “francês de gravata” sobre sua cólera humana, demasiado humana, que incha ao longo de suas páginas-anos obstinadas. Ele não liga pra isso: sabe (de) onde e a quem fala. “Pra espécie todinha – Contra os babacas”.14
10E é esperando que um dia a humanidade contará com mais insubmissos que com “fuças deficitárias”, mais loucos sem Deus e poetas que “carne moída”, mais “livros diante do político e dos políticos” que “livros que colocam penas no cu e dançam”, que Sony Labou Tansi saca então suas tintas, seus pensamentos pretos de socorro: “Somos o porvir do razoável. Quando digo nós, digo nós os cagados, os humanos de verdade, além das fronteiras geográficas, nós da verdadeira tribo humana, que estamos apaixonadamente concernidos pela aventura da consciência humana [...] se a África morrer, não fará mais que inaugurar o cosmocídio – porque somos a única chance de sobrevivência pra humanidade! Sobrevivência física, mas também sobrevivência poética.”
11“Escrevo pra estar vivo, pra continuar vivendo.” Tinta, suor, saliva e sangue contribui pra que Sony Labou Tansi continue vivo contra ventos, (falsas) polêmicas e desastres.
12 Greta Rodriguez‑Antoniotti
13 Fevereiro de 2015.
Notes de bas de page
1 As passagens figurando entre aspas e sem nota são de Sony e extraídas de Tinta, suor, saliva e sangue, título tirado do texto “Le Congo : les causes profondes d’un déchirement qui risque d’embraser toute l’Afrique noire centrale” (in La Lettre de l’Opposition congolaise [Brazzaville], nº 3, agosto de 1993), não reproduzido aqui.
2 Assinalemos a constituição progressiva do fundo Sony Labou Tansi estabelecido em 2012 pela Biblioteca francófona multimídia de Limoges e o trabalho considerável realizado pelo Instituto dos textos e manuscritos modernos (ITEM) sobre sua obra poética.
3 Trecho extraído da “Lettre ouverte à l’humanité”, publicada em 1986 no primeiro número da revista Équateur.
4 Samuel Huntington, Le Choc des civilisations, Paris, Odile Jacob, 1997.
5 “Lettre ouverte à l’humanité”, art. cit.
6 Jean Ziegler, Retournez les fusils ! Choisir son camp, Paris, Le Seuil, 2014.
7 Karl Marx, “Carta de Marx a Arnold Ruge”, in Marx, Engels. Correspondance, t. 1 (nov. 1835-dez. 1848). Paris, Éditions sociales, 1977.
8 Ibid.
9 In L’Atelier de Sony Labou Tansi, vol. I Correspondance (edição estabelecida por Nicolas Martin-Granel e Greta Rodriguez-Antoniotti), Paris, Revue Noire, 2005.
10 Excerto da contracapa de Cercueil de luxe, Paris, éditions Théâtrales, 2005.
11 Antonio Gramsci, Pouquoi je hais l’indifférence, Paris, Rivages Poche, “Petite Bibliothèque”, 2012.
12 Pier Paolo Pasolini, La Rage, Caen, éditions Nous, 2014.
13 Gilles Deleuze, “R comme Résistance”, L’Abécédaire de Gilles Deleuze, de Pierre-André Boutang [1980], Paris, éditions Montparnasse, 1996.
14 In L’Atelier de Sony Labou Tansi, vol. I Correspondances, op. cit.
Auteur
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