1993
A francofonia nos pertence
p. 162-163
Texte intégral
1Alguém dizia que a guerra é séria demais pra ser deixada aos militares.
2Creio sinceramente que a política é uma coisa séria demais pra ser deixada apenas aos políticos. Tem a História que nos interpela. Os maiores pensadores: Rousseau, Platão; o espírito de 1789 era de início os escritores, os criadores. Esquecem isso porque é cômodo pros políticos. Ocupam o terreno e acreditam ter todas as soluções. Os africanos precisam perder a mania de esperar tudo do chefe. É preciso fazer estalar a possibilidade de orientar as energias. O dia em que os políticos trabalharem como os escritores, o continente vai avançar, pois dar ordens, pensar que tudo funciona como num regimento, é assombroso. Me interessei pela política por objetivos precisos: promover na África uma nova classe política. Porque as antigas se desqualificaram; não amam seus povos nem seus países. As alavancas de decisão foram confiscadas ao passo que o poder político deve ajudar a liberar as energias.
3É preciso uma nova classe política que se apoie na exigência moral, a probidade. Há uma exigência ética que se impõe. As pessoas que foram empurradas pra mendicância, pra necessidade devem ver se quebrar esse círculo e encontrar novos sonhos.
4É preciso desmentir a ideia de que a francofonia pertence à França. Carece lembrar aos franceses que a francofonia não lhes pertence mais. Não é porque o francês é a língua de comunicação que as pessoas devem ficar presas à França [...] O conteúdo da francofonia? Cabe a nós defini-lo. Tá na cara que a França não tem mais nada a dizer, que ela se cale diante da maioria que somos. Não se deve admitir a ideia de um dono da francofonia. Tem disso não. O que conta daqui pra frente são as coisas que são pensadas, ditas e realizadas graças a essa língua...
Excertos – “La francophonie nous appartient”, Entrevista realizada por Hélène Koné, Ivoir ’Soir (Abidjan, Costa do Marfim), 21 de junho de 1993.
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