1991
Carta de um cooperado a um cooperante
p. 138-1144
Texte intégral
1Meu caro Christian38,
2Falar dos males que nos concernem torna-se uma necessidade e uma prioridade. Falar disso sem papas na língua é sinal de uma imparável polidez de espírito e de inteligência. Polidez no sentido de que já faz uns bons trinta anos que tentamos e ainda não conseguimos encontrar um terreno fértil de experimentação de nossa complementaridade, um terreno que permita um judicioso acionamento de nossas energias respectivas, nos autorizando a gozar plenamente das alegrias propiciadas pelos exercícios multiformes de nossas funções vistas no sentido da incontornável interdependência planetária. Pralém de toda moral, a polidez espiritual e intelectual bastaria pra nos fornecer um quadro de ação potável, ou pelo menos limpo dos pesadumes tradicionais que fazem da cooperação um empreendimento vergonhoso e de mentira fadado a desaparecer.
Cooperar ou co-operar
3Meu caro Christian, como perceberás ao primeiro piscar de olhos, o título de minha carta é um empréstimo contraído às claras nos estábulos de nosso irmão e amigo Ngoïe-Ngalla39. Evoca a Carta de um Pigmeu, em suas seivas linguageiras decerto, mas também na soma de preocupações que a concerne. Sou muntu, o plural dessa palavra é ba-gantu, o que, traduzido palavra por palavra, significa os “primeiros chegados”. A palavra kongo mutu significando a cabeça, ou o chefe, me autorizo, caro Christian, a ser o primeiro a tirar minha vareta da matilha golpeando sem outra forma de polidez no balaio de cobras que é a cooperação franco-africana, terrível doença destinada, segundo dizem, a transferir o desenvolvimento industrial e técnico aos queridos negrinhos da savana e da floresta pra que sejam submissos e prósperos. Embora grandioso, o projeto faz rir, porque se inscreve de maneira absolutamente tradicional na mesmíssima linha das ingenuidades que nutriram o antigo sonho civilizador do Ocidente pretensamente cristão, ou, no mínimo, dá ensejo a algumas interrogações quanto ao papel, ao destino e aos resultados dos atos e ações de cooperação, com o que tudo isso encerra de pontos de sombra, de zonas de vergonha, de mal-entendidos, de quiproquós voluntários ou involuntários agora que a pobreza dos africanos não é mais “rentável”. Pra que servem as missões de ajuda e de cooperação? Notarás, caro Christian, que a expressão “de ajuda e de cooperação” é trágica na medida em que conserva uma saborosa ambiguidade, e pelo fato de que nas superfícies do terreno prático desemboca numa série de anomias: Duas questões primordiais me vêm à mente:
pra que serve um cooperante em desenvolvimento?
pra que servem os cooperados em desenvolvimento?
4Não cabe a mim colocar a imparável questão de saber pra que servem os desenvolvimentos em réstias de cebola. Me atenho ao que concerne diretamente a ti e a mim, caro Christian. Estamos implicados e concernidos pelo mesmo desperdício de energias, de competências, de vontades, de abnegações. Uma palavra sobre o país onde estamos, o Congo, ou antes uma palavra muito breve sobre as geografias emocionais e mentais do país dos Kongo. O desmoronamento recente do muro de Berlim fez sonhar. Desnecessário dizer que em 1885, em Berlim e a partir de Berlim, foram erguidos muros à altura de igual mesquinharia, muros da vergonha e do desperdício consolidados pelos anos 1960 por puro e simples medo de interrogar equilíbrios físicos impostos pela força, longe de qualquer razão e longe de qualquer lógica; equilíbrios artificiais costurados no único sentido dos interesses imperialistas da época em que a “pobreza dos pretos era rentável” e os países pretos estavam atolados até o pescoço nos planos arbitrários das companhias concessionárias (CFHBC [Compagnie française du Haut et Bas-Congo], SCKN [Société commerciale du Kouilou-Niari], Union minière du Katanga etc.). Mesmo as duas gordas guerras mundiais franco-alemãs não operaram modificações notáveis no tabuleiro dos contratos resultantes da conferência de Berlim. A etnização das nações do Kongo, nações louvadas pelos portugueses detentores da civilização farol no ocidente europeu do século XV, funciona que é uma beleza com a falta de audácia de uma OUA demasiado frágil e preocupada em se erigir nas mesmas linhas de um sindicato de ditadores. As independências advindas aos trancos e barrancos na virada dos anos 1960 se caiaram com uma aparência de soberania estatal ligada às cores de uma bandeira e às bravatas dos hinos nacionais. Não preciso refletir profundamente sobre a questão pra descobrir um recrudescimento da dependência decisória e operacional das ex-colônias em relação às ex-metrópoles. Dependência multiforme que não poupa nem o mental nem os comportamentos, pois somos obrigados a constatar que os hospitais não curam, nascem as expatriações e evacuações sanitárias; as escolas locais não formam, nascem os mitos dos doutorados parisienses ou londrinos; os tecidos locais e outras roupas não caem bem, inaugura-se o lacostismo e o saint-laurentismo, subentendido que ficar vestido de lã a quarenta graus na sombra é estar vestido civilizadamente. Compreenderás, caro Christian, a que ponto nosso espaço mental e nosso imaginário tornaram-se impróprios ao desenvolvimento, essa palavra entendida no sentido estrito que lhe confere a arte de viver em harmonia com seu tempo, seu meio e seu imaginário, a arte de viver também todos os pulsos de suas emoções, no seio da complexidade sociocultural. Não acuso ninguém especialmente; constato que todos nós participamos de um vasto desperdício, vocês que pecam por arrogância e nós que vacilamos por preguiça ou por hábito. Algumas explicações pro cambalacho podem estar ligadas à natureza da escola que foi aqui introduzida, pela razão de que foi concebida pra fornecer funcionários a preços de desafiar qualquer imaginação. A escola criava evoluídos civilizados, detentores de uma promessa segura de se tornarem brancos, ou em todo caso mestres consumados na ciência de macaquear os brancos na patente de “comandante”. Note, caro Christian, que hoje a arte de macaquear produziu seus marechais, em quase todos os domínios, e as hordas continuam a macaquear habilmente a inteligência do branco. Certamente, com respeito ao verdadeiro problema e com respeito à baralhada que juntos edificamos, essa macaquice tem a dimensão de um nadica de nada. A cooperação em si mesma não é pra ser colocada em dúvida enquanto instrumento privilegiado e imparável do diálogo e da solidariedade mundial. Ela é inclusive a passagem obrigatória da complementaridade interplanetária, o lugar exato do exercício da paz mundial, do casamento das energias, no lugar exato de nossa sobrevivência. No entanto ela não se fará fora da liquidação global e definitiva dos quiproquós e litígios históricos. Brazzaville não terá sido à toa a capital da França livre, convém hoje colocar aí um preço e um traço. O preço, claro, é inestimável, e o traço só pode se conceber em termos de relação de energias, essa coisa que nos permitiria compreender que o desenvolvimento não tem nada em comum com a simples revisão em alta do mimetismo universitário e da acumulação gregária dos conhecimentos sem ligação real com os territórios. Já vão trinta anos que falamos de desenvolvimento e de cooperação sem ter experimentado na prática de campo os instrumentos de nosso falatório.
O rombo
5Será que definimos, caro Christian, além dos postos, perfis e pastas orçamentárias, o mais justamente possível o que tínhamos a fazer, com quem fazê-lo, pra quem e por que fazê-lo? É um simples caso do acaso se todos os projetos nascem, vivem e morrem sob a etiqueta monstruosa de projeto? Nossa cooperação se mostra a tal ponto inteligente que se arrogou o luxo um tanto quanto bárbaro de erigir vilas-centro no Kongo. Ora, o que é uma vila-centro senão uma falsa cidade, verdadeira monstruosidade em um país que despovoou suas roças em aberrante proveito de Brazzaville, Nkayi e Pointe-Noire, aglomerações sem grande justificação socioeconômica, cidades de todos os fracassos e de todas as desgraças, largadas como monstros nos flancos da Congo-Oceano, única ferrovia concebida pra drenar pro Atlântico mercadorias e matérias primas da África central franco-francesa, resíduo da África franco-africana e aérea. O rombo é desconforme até mesmo nesse domínio, enquanto todas as manhãs, em francês e em línguas maternas, a rádio repete um absurdo do trovão dos trovões: “Citadinos e camponeses, façamos de nossas roças cidades agradáveis...”. Não saímos da gaveta, meu caro Christian, no plano francês como no plano congolês. A cooperação é uma caixa de Pandora, sequer forjamos ainda a chave pra abri-la. Outro problema dos grandes: a total maioria dos projetos em ação de cooperação são humana, financeira e tecnicamente tonéis das Danaides. No pé em que estamos, levaremos mil anos pra sair do cu de nossa mala. Conheces, meu caro Christian, nesse país aonde acabas de chegar, um só projeto que sai do lote tirando grande proveito de todo o jogo? A educação e a saúde, alicerces do progresso real de um povo, são deixados por conta. As ações de cooperação parecem simples gesticulações financeiras destinadas a perpetuar os complexos e os arquétipos desastrosos. Conheces, meu caro Christian, um só projeto de cooperação que não seja mera gesticulação financeira etnológica, privada de qualquer bom senso? Todos os cooperantes custam caro demais e não dispõem nem de meios de trabalho adequados, nem de recursos psicológicos livres de qualquer cuidado de seu próprio medo do desemprego e das fantasias de superioridade que impõe a chegada do pesquisador ou técnico “bem vestidos”, entenda-se liberador de créditos. Note, meu caro Christian, que em torno do pesquisador ou técnico bem vestido turbilhona a turba dos técnicos ou pesquisadores indígenas, indigentes e necessitados, gestores de tantas taras e males bem adquiridos sob a lei dos regimes, baseados no arbitrário e na mediocridade, do tempo em que a pobreza dos indígenas era rentável pra Europa. Talvez seja tempo agora, caro Christian, de nomear nossas taras e nossas respectivas insuficiências, a fim de construir uma cooperação melhor urdida e menos desastrosa; em todo caso, baseada na complementaridade, na troca e no respeito ao outro. Convém considerarmos a reparação de todos os males bem adquiridos, e cuja responsabilidade essencial incumbe à supervalorização dos setores e postos com renda fulminante, ao desprezo votado ao domínio da matéria bruta e prima, e ao próprio fato de que a economia mundial que repousa sobre um equilíbrio instável de imbecilidades e absurdos privilegia absurdamente o falso brilhante em detrimento de nossa fibra vital comum. É enlouquecedor constatar que a floresta tropical, que recicla vários milhões de bilhões de metros cúbicos de gás carbônico, é hoje destripada, devastada e pilhada por bagatelas, debaixo do nariz e com o consentimento do mundo inteiro. Esse patrimônio da humanidade é gerido como um simples saco de pólen. Tudo isso simplesmente pra te dizer, caro Christian, que a cooperação deveria ser antes e acima de tudo uma cooperação das consciências e um casamento no plano das preocupações, dos cuidados, e das expectativas. Se lanço um SOS floresta tropical, tu deverias, meu caro Christian, estar visceralmente concernido pela catástrofe que engendra debaixo do nosso nariz a especialização do Kongo em país exportador de madeira, que é a própria base da estripação da floresta tropical entendendo-se que essa floresta é vital pra ambos, digam o que disserem os indicadores de nível de vida. Em outras palavras, tendo falado por cinco séculos, me ouve agora por uma dezena de segundos: aí começará a verdadeira cooperação, pois os maiores males de nosso século e do mundo de hoje têm algo a ver com o fato de que o ocidental fala demais. Não se coopera na base de um monólogo, seja ele técnico ou financeiro.
6Escreva-me pra dizer o que pensas dessa soma de medos e esperanças.
“Lettre d’un cooperé à un coopérant”, Perspectives africaines, nº 3, setembro-outubro de 1991.
Notes de bas de page
38 Sony Labou Tansi se dirige aqui a um colaborador francês, escritor e professor de história na universidade de Bayardelle (Bazzaville) nos anos 1990.
39 Nascido em 1943 em Congo-Brazzaville, escritor e professor de história, Dominique Ngoïe-Ngalla é o autor de Lettre d’un Pigmée à un Bantou. Tous frères en humanité (Paris, Bajag-Méri, 1988).
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