1990
A França doente de suas antigas colônias
p. 122-126
Texte intégral
1Abidjan, capital da Costa do Marfim, o Sr. Jacques Chirac acaba de se enganar de gaullismo e procedeu ao teste de voo de uma máquina moderníssima: a máquina de dosar a necessidade de liberdade dos povos. Vamos parabenizá-lo por essa invenção. Pois, além do papel que seu inventor lhe reservou, a máquina mágica diz claramente como, num futuro bem próximo, a França ficará doente de suas antigas colônias.
2Vamos dar um close na situação do deslize. A política (sobretudo francesa) está atulhada de frasezinhas, às vezes lançadas na cara das pessoas que são grandes de coração, de alma, de atos ou de vontade. Alternadamente assassinas ou mortíferas, engraçadinhas ou simplesmente infames, as frasezinhas são um pasto saboroso para mídias que, é preciso dizer, não param de perder a bússola num mundo em turbulência.
3Em nossa época pretensamente muito bem-sucedida, a História se fabrica como requeijão. A moda obriga, e o Sr. Jacques Chirac pensa em sua historinha secreta portátil de uma África em mutação. Mas como costuma acontecer com os revendedores de História, arrisca ser desmentido pelos fatos. O temor de uma guetificação me obriga a não responder ao Sr. Chirac enquanto africano, mas simplesmente como democrata e ser humano largado num mundo obscuro onde o espírito e a razão entraram em guerra contra a mediocracia. O mundo de hoje está condenado a inventar mais solidariedade como meio de troca e de comunicação, sem o que o progresso técnico se tornará esse riso trágico que conduz a tribo humana ao cosmocídio humano. A mesma urucubaca que se deu com os dinossauros nos espreita. Enquanto houver em nosso mundo de destino altamente comum a trágica divisão entre, de um lado, os abastados que têm tudo de tudo e, do outro, os pândegos da periferia (situação que vai muito rápido ocupar o vazio deixado pela clivagem leste/oeste) desmunidos até o sangue, predispostos ao terrorismo, proibidos de ter ingerência nas relações interiores da humanidade, o progresso estará doente. Boa parte dos seres humanos (a maioria?) apodrecerá no lodaçal da incerteza e da desesperança, se transformando, a desesperança o exige, em produtores de matérias primas e de atos terroristas.
4Mas eis aqui as verdadeiras nádegas da questão e riamos disso já que o riso é libertador. O Sr. Jacques Chirac diz que “para os países em via de desenvolvimento, o pluripartidarismo é um erro político e um luxo”31. Além do que, haveria ali “países perfeitamente democráticos onde a democracia se exerce no seio do partido”. É uma fofura! Mas desapaixonemos o caso lembrando que a duas horas de avião da democracia francesa, uma tal de Romênia era um país perfeitamente democrático... no seio de seu partido único. Como costuma ser o caso na África, essa democracia de partido único se apoiava numa rede de forças de segurança. Estamos no direito de desconfiar de uma democracia que vigia os eleitores na base do trabuco e que produz um debate nacional “dirigido e centralizado”. Estamos numa época em que, mais do que nunca, o direito à liberdade e à dignidade deve superar as barreiras raciais e se tornar um dever inalienável da pessoa humana, simples assim.
5Não levarei a indignação até o ponto de pensar que o Sr. Jacques Chirac é Le Pen sem palavra. Isso seria desrespeitoso e fácil demais. O Sr. Chirac caiu numa arapuca, a esparrela dessa tradição que consiste em pensar que os “monopartidarismos democráticos salvavam a unidade nacional das tribos selvagens”. Sobre essa questão, a experiência amadureceu a reflexão, pois em vez de produzir a unidade, os partidos únicos se tornaram todos bairristas diante da prática do poder arbitrário, desmentindo assim a sacrossanta teoria da unidade nacional no seio desses partidos. Na verdade, o que hoje espreita a África é uma exclusão, por causa de seus usos políticos e por sua falta de complexificação social e ideológica, tornada impossível pela ausência de um debate nacional aberto e verdadeiro. O que incomoda nos argumentos do Sr. Chirac é que ele toma a necessidade de liberdade dos africanos como um objetivo secundário e um luxo.
6Esse deslize é deprimente: os africanos ainda não teriam meios pra anelar a liberdade e a dignidade humana. Felizmente, a situação nas terras da África é completamente diferente. Os meios psicológicos, históricos e socioculturais da recusa da injustiça, logo da revolta, tornaram-se perigosamente enormes na África. Os países em desenvolvimento são bombas-relógio que não poderão engolir continuamente a pílula do partido único e das desigualdades sociais. Se o Sr. Chirac pensa o contrário, é porque seu exame da situação africana esbarra numa cegueira política muito grave prum homem de sua têmpera e de sua carreira. Segundo ele, aqueles que lutaram pra expulsar as companhias concessionais teriam perdido os meios de sobrevivência no leito de uma série de independências absolutamente discutíveis. Os partidos únicos, lugares da democracia perfeitamente africana que o Sr. Chirac defende, além dos monopólios do poder e dos debates, têm o monopólio absoluto da repressão. Atestam essa triste realidade os efetivos e as enormes despesas que cercam os fabricantes das nomenklaturas africanas: as securitate. Enfim, uma derradeira pergunta ao Sr. Chirac: ele, que descobre partidos únicos de perfeita essência democrática, poderia nos citar um só destes países que teria, durante vinte e sete anos, mantido um Mandela na cadeia sem mandá-lo pro cadafalso?
7Nisso a África do Sul é altamente louvável. Pois, ainda que ele fosse encontrado, o que teria feito o mundo do esqueleto de um Nelson Mandela? Lembremos a coisa: pras nações africanas moídas em Berlim em 1885, esquecer suas tradições de liberdade e de esperança se torna possível. Bem dizem os franceses em seus adágios que “ao impossível ninguém é obrigado”. O Sr. Jaques Chirac, que pra nós não é necessariamente um inimigo, não teve o tempo de dar uma olhada nas securitate que rodeiam os mágicos das democracias dirigidas. Esses países de democracia perfeita só podem suscitar desconfiança da parte dos verdadeiros amantes da liberdade e da dignidade humana – e tem um número magnífico de pessoas assim na França, felizmente.
8Preferimos a tese de um outro Sr. Jacques – a tese Pelletier32 que estima que “a África se afastará do desenvolvimento se ela se afastar da corrente democrática que sacode o mundo hoje”. Se a França quer evitar ficar doente de suas antigas colônias, ela tem interesse em reconsiderar sua política africana que goza de uma trintena de anos de atraso – sim, exatos trinta anos! Ela deve encarar de outro modo o combate contra a injustiça e o desenvolvimento, jogar fora todas as atitudes de culpabilização ao mesmo tempo em que todas as teses racialisantes de uma África de moleques. Bora sair de uma só vez das boas e das más consciências pra entabular verdadeiros debates que substituirão nossas salpicadas de África na gestão das relações de uma tribo humana chamada a um mesmo destino. E que o século vindouro seja o século da solidariedade. Ajudemos, de corpo e alma, os governos africanos a aproveitar ao máximo a oportunidade que lhes é ofertada pelo que se mexe no Leste pra operar aberturas democráticas, de maneira a ajudar a raça humana a evitar a perda de alguns milhões de vidas humanas. A hora é agora de opor um severo desmentido a essa frase de Modibo Keita33: “Nunca dirão de mim, aqui está o ex-presidente do Mali...”. Isso poderia resolver um problema que os golpes de estado sucessivos não puderam: o da saída do poder.
9Isso, claro, evitará aos bons soldados do povo o dever vergonhoso de apontar suas armas para seus próprios filhos e de exercer uma profissão que tem mil razões pra ser bela. Não esperemos que a História se ponha a correr mais rápido que nós.
“La France malade de ses anciennes colonies”, Libération, 5 de março de 1990.
Notes de bas de page
31 Excerto de uma declaração de Jacques Chirac, então prefeito da cidade de Paris e presidente do Rassemblement pour la République, em visita a Abidjan (Costa do Marfim) em 22 de fevereiro de 1990.
32 Ministro francês da Cooperação e do Desenvolvimento de 1988 a 1991.
33 Modibo Keita (1915-1977), militante pan-africanista e terceiro-mundista, primeiro presidente da República do Mali (1960‑1968)
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