1988
Intervenção na Universidade Marien‑Ngouabi
p. 100-102
Texte intégral
1Tem uma coisa que a mim, enquanto escritor, me mete medo: é uma canção lari, talvez alguém aqui a conheça: ndombi ku ndombi sadidi mukanda, komanda diandi Matswa ndele [ele canta, bis]. Podemos traduzir pros amigos, quer dizer que, no começo, ir à escola era considerado uma enormidade, era a civilização, era o próprio centro da civilização, e prum negro, pobre negro, escrever uma carta era uma coisa grandiosa. Era assim no começo, na história, aliás, não faz muito tempo, tem nem cinquenta anos. Era no tempo de Matsoua27, quer dizer, nos anos 1940, que se cantava essa canção no tanque de fazer borracha. Dizia-se: até um negro pode aprender a escrever, ulalá, o mundo avança! Então isso me mete medo, porque, pra mim, a escrita, pode ser nada como pode ser tudo, de qualquer maneira. E no contexto cultural em que estou, eu tinha mais elementos, talvez, pra não querer escrever.
2A meu ver o mundo não avança. Talvez seja por isso que escrevo. Continuamos todos suficientemente selvagens e suficientemente bárbaros e suficientemente primários pra que hoje, quando temos todos os meios possíveis pra fazer as coisas, não as façamos. Então, minha escrita em geral pode ser uma interrogação: porque o ser humano, que tem, no entanto, potencialidades inauditas, que tem capacidades inauditas, por que não participa na criação de algo maior que o alfabeto ou ABCD...? Por quê? Por que ficamos nesses ndombi ku ndombi sadidi mukanda? Por quê?
3Comecei meus estudos no Congo belga [...], e o que tinha de particular ali é que éramos alfabetizados nas línguas chamadas “línguas regionais”. E como estava entre missionários, éramos alfabetizados em kikongo. Ensinavam-nos a bíblia. Depois fazíamos aritmética. Contávamos os inhames: dois inhames mais três inhames. Mas não falávamos em francês, falávamos em kongo: kingombe kimosi, bunda kingombe kingombe biole. [...] Mas meu tio – aqui, a criança pertence à sua mãe –, que queria fazer de mim um branco, um homem civilizado, veio correndo me pegar pra me botar lá onde as pessoas falavam francês. Porque falar francês era considerado também como uma coisa grandiosa. Espero que um dia vão parar de dizer: aquele que fala francês, não entendemos o que diz, mas você escuta no bairro: lumputu kata buba kuna!, quer dizer que ele falava mesmo um francês asssim! Bom, sim, o que isso quer dizer, falar um francês assim? Às vezes dizem-se besteiras nesse francês assim. [...] Nesse contexto, meu tio veio dizendo: é preciso que você fale francês assim, porque você tem a pinta de alguém que um dia poderá falar francês assim. Então obedeci, cheguei a Mbanza-Nganga numa escola primária. Me colocaram na terceira série, nunca tinha estudado francês ou quase. [...] Tinha lá um símbolo, uma grande lata assim, cheia de merda. Penduravam isso no pescoço da gente, e éramos o “vigia”. Então seguido, quando alguém tava com o símbolo, me procurava por todo lado: cadê o Sony? Cadê o Sony? E logo me colocavam de novo o símbolo, porque tinham certeza que eu não falava francês e que cometeria erros quando tentasse falar. Durante todo aquele ano foi desse jeito. Foi muito, muito duro, e tive que aprender o francês meio que na carreira.
4Na quarta série comecei a falar um pouco, comecei a escrever, mas tinha me tornado o senhor cem erros. Isso não quer dizer zero erros, isso quer dizer que quando tinha ditados, eu errava todas as palavras ditadas porque escrevia o que ouvia, vejam só. [...] Depois fui fazer a quinta série em Boko. Quando cheguei na quinta série, isso me marcou muito porque tive de cuidar da biblioteca do colégio. Na época ainda tinha bibliotecas nos colégios, hoje não tem mais. O que é uma pena. E comecei a ler muito pra aprender uma língua que me dava caganeira, daquelas de mijar pelo cu – com o perdão da palavra, mas era assim, essa língua me enfezava. Por que cargas d’água tenho de passar justo por ela? E finalmente aprendi, e quando cheguei no sétimo ano, antes no sexto, comecei a escrever. Escrevi o primeiro romance que se chamava Le Premier Pas, e enviei pra editora Seuil. Porque nos livros, tinha o endereço dos editores. [...] Me mandaram uma carta com três páginas pra me dizer: óh, meus parabéns, tem fôlego, tem tudo, mas falta trabalho. Então falei com meus botões, vou continuar escrevendo. E escrevi livros, de lá pra cá.
Excertos – Intervenção de Sony Labou Tansi, no fim de 1988, junto aos estudantes da universidade de Marien-Ngouabi, Bayardelle, em Brazzaville, convidado pelo Prof. Mukala Kadima-Nzuji, organizador e moderador.
Notes de bas de page
27 André Matsoua (1899-1942) é considerado o fundador do movimento de libertação do Congo (Brazzaville). Pregando o respeito e a equidade entre as “raças”, conduz um combate pacífico contra o sistema colonial erguendo-se especialmente contra o código do indigenato. Preso em 1941, morre no ano seguinte em condições misteriosas. Seus adeptos, que fazem dele um mártir, um messias, fundam então o Matsouanismo, movimento político e religioso de despertar da consciência negra.
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