1985
Comigo não tem essa de me desenvolver, é pegar ou largar
p. 79-80
Texte intégral
1É preciso operar uma abertura com relação à pasmaceira da Europa. Essa estagnação, aliás, não existe apenas no domínio literário. Com poucas exceções, a África continua sendo pro Ocidente um curioso bicho cabeludo. E temos alguma culpa no cartório: aceitamos com demasiada frequência a função de humanos a desenvolver. Comigo não tem essa de me desenvolver, é pegar ou largar. A felicidade que minha escrita encontra na Europa só pode se explicar pelo fato de que não aceito a dimensão obrigatória: tenho a ambição horrível de calçar um verbo que nomeie nossa época. Todos sabem que nossa época está dominada de forma vergonhosa pela escravidão, pelo medo e pelo sono. O cara que quiser despertar aqueles que dormem no sono sem sonho dos hábitos, seja africano, americano ou outro, o cara que quiser despertar nossa época do sono incondicional, será recebido em toda parte.
2Na África – como na Europa, aliás – todo mundo me lê de forma orientada. Só veem a parte da minha escrita que grita. Não veem aquela que escreve, aquela que, após a constatação (amarga), diz a esperança. O mundo precisa de um nada. Não sou um alarmista e, a priori, as coisas não estão piores do que eram quando Pizarro assassinava os índios. O que mudou foi a mola principal das coisas: pela primeira vez, todos os seres humanos (de uma maneira ou de outra) contribuem pra marcha do mundo; pela primeira vez, a humanidade representa o drama de seu desaparecimento e apesar disso deseja a paz. Libertemos os escravos e teremos a paz.
3Negro-africano se assim querem, mas me sinto antes Negro-humano. Sem faceirice.
4“Sou minha pena e minha tinta.” O que significa que escrevo pra estar vivo, pra continuar vivo. A primeira palavra escrita, cerca de vinte e sete anos atrás, tem pra mim o mesmo valor que a última que escreverei. Sei que morrerei em vida. Todos os homens deviam morrer em vida. É tão bonito. As dimensões da coisa nomeada ditam pra gente, de certa forma, nossa própria medida.
Excertos – “Je ne suis pas à développer, mais à prendre ou à laisser”, Entrevista a Bernard Magnier, Notre librairie, nº 79, abril-junho 1985.
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