1981
Rascunho de carta às parteiras de uma consciência: ou, senhores intelectuais, a ciência é mesmo universal?
p. 45-53
Texte intégral
1Pertencemos a países em que noventa por cento da população foi condenada ao silêncio porque não fala a língua da técnica e do progresso [ilegível] Esse silêncio é ao mesmo tempo político, técnico e ideológico. Nós, os dez outros por cento, pensamos que essa situação é lógica. Que é a condição incondicional do desenvolvimento. Una salus victis (a única salvação pros vencidos).
2Não voltarei a teses que a prática esculhambou de uma vez por todas como a da universalidade da ciência, sua neutralidade, sua assimilação com a verdade. Pra que arrombar portas abertas? A ciência não é nem universal, nem neutra e muito menos sinônimo da verdade absoluta. Todas essas roupagens lhe foram dadas pra que ela participasse do grande projeto colonial enunciado por Descartes: “dominar a natureza e as naturezas através do conhecimento”. Lembrarei que entre outras prendas Descartes era militar. Não sei se com um talento como o de Alexandre da Macedônia ou de Bonaparte ele não teria tomado o mesmo rumo que Adolf Hitler. Depois de afirmações como essas na certa terei no meu encalço e no encalço do meu raciocínio todo o arsenal científico, todas as organizações e sociedades científicas abertas ou secretas. Os antigos terão razão: a lebre é tua inimiga, maldiga-a, tente afogá-la, mas reconheça ao menos que ela é rápida. Senhores sociólogos, senhores bacteriólogos, mandiocólogos, africólogos, sandwichólogos, vou avisando: não farão picadinho de mim. Falo tendo em vista uma sociologia da libertação. Então, senhores, guardem seus bisturis: não estamos no açougue. Só quero demonstrar que a ciência não é universal, que ela não é neutra, ao menos com o conteúdo ideológico que Descartes e Nietzsche legaram a ela. A ciência só foi universalizada pra participar da estratégia global do grande projeto que consiste em recusar a menção de humano aos outros seres humanos da Terra. O cara do Terceiro-Mundo que acredita numa ciência universal, neutra e sinônimo da verdade absoluta só pode ser um tolo, fraco de espírito e de razão, a menos que seja, por razões que ele bem sabe, comprado pra causa do projeto cartesiano de que falei agora há pouco. O cara do Terceiro-Mundo que crê que a ciência é neutra só pode ser uma velhinha de Taubaté, que acredita que todas as questões foram colocadas de uma vez por todas, que todos os possíveis responderam presente ao repertório de chamadas concebidas por Descartes e Fausto, que os outros seres humanos e gerações de todos os tempos por vir teriam apenas que se virar pra enfiar seus problemas na caixa de soluções inventada por esses que, mesmo sendo meus irmãos, num momento muito próximo da História (e não sei se a situação mudou lá grandes coisas), obraram de corpo e alma no intuito de recusar a qualidade de humano aos outros que não eles mesmos, que sempre foram dois terços da humanidade (hoje a fração foi alterada, sabemos por que milagre: o tráfico de escravos, o genocídio indígena, a entrada da Rússia e da América do Norte na dança). Nada de metódico nisso tudo. Por que vocês querem que a verdade seja sempre metódica? Por que não poderia ela de vez em quando ser como nós, descalça, esfomeada, molambenta, esperando um descampado de ponto de vista? Se a universalidade e a onipotência da ciência são deliberadas, calculadas, dosadas apenas em função do projeto cartesiano de dominar a matéria e as matérias (pensantes ou pensadas), por que não teríamos o direito, o dever, se ouso dizer, de inventar nosso próprio caminho e nossos próprios possíveis, ou ao menos de dissociar o que por estratégia é nomeado com um mesmo nome: ciência e progresso, desenvolvimento e ocidentalização, ou talvez orientalização global do mundo? Não podemos mesmo escapar ao imortal projeto cartesiano de fagocitose? À intenção humanitária de dominação pelo cérebro? Diria pelo cérebro e pelo bucho. Quem te pega pelo cérebro pode te atribuir seus apetites. Do meu ponto de vista, está fora de questão jogar no fogo o que pode ser considerado como um patrimônio da humanidade. Coloco o problema em termos de criatividade, e mesmo de criação. Demonstrarei mais abaixo que o atual projeto de progresso contém globalmente atrasados de vontade de poder sobre a matéria e sobre as matérias ainda uma vez pensantes ou pensadas: nem carece dizer que semelhante progresso (ou desenvolvimento, à escolha) só pode matar o mundo. Não teríamos o direito de escolher entre o progresso que mata e o que faz viver? Não é o equipamento que faz avançar as pessoas e a matéria, mas o pensamento humano, e o pensamento humano se inscreve no grande projeto de humanização tal como o cantaram os poetas, os músicos, os profetas, os gênios, Marx, Moisés, Mao, praqueles que estão em voga, tal como o viram os grandes sábios, os grandes filósofos: Epicuro, Cristo, Nzinga a Nkuvu13, Lincoln e tantos outros. Ora, sabemos que o desenvolvimento – quão lógico! – de nosso sub-equipamento, maliciosamente, tenta nos fazer acreditar que a salvação está no grande projeto racista de desumanização conduzido pela imortal dominação colonial sobre o mundo. Para uma dependência garantida e lucrativa, convém que a ciência seja universal detentora da verdade absoluta, e neutra de lambuja, que o desenvolvimento só vise o consumo e o desperdício por um punhado de indivíduos das reservas da raça humana. E se os cálculos fossem bem feitos, os condenados da terra não seriam um terço da humanidade mas três quartos. Fala-se hoje daqui e dali de proveta da ciência a serviço do desenvolvimento; é mais um engodo, outro vinagre pra apanhar moscas, um abracadabra, como logo veremos.
A assistência técnica é uma arapuca sem fim.
3Cada dia, por meio do sonho, do pensamento, pela transformação da ideia em ato, o ser humano tenta ou deveria tentar, não dominar a natureza como teria dito Descartes (a natureza não se doma nem domina, no máximo pode-se assassiná-la), mas encontrar pontos de reconciliação com ela. Todas as nossas relações com a natureza só devem e só podem ser concebidas em termos de reconciliação. E a natureza não é apenas a natureza, é as naturezas. A natureza não é universal. A importação cega de conhecimentos é um crime de lesa-natureza, uma maneira inconsciente ou consciente de se subtrair à criação, à criatividade, uma participação no projeto colonial de desumanização de que falei mais acima. O imposto a se pagar a Descartes moralmente, psicologicamente, intelectualmente e financeiramente. Cada bebê que nasce não é uma biblioteca… (vocês sabem o resto), mas um candidato à cloroquina, ao leite ninho, ao filme pornô, à carne moída e à coca-cola: eis as verdadeiras razões profundas pelas quais a ciência é universalizável.
4Vou entrar agora no cerne da questão: um compatriota do departamento de química discute comigo há meses. Pra ele o desenvolvimento (logo, o que se convém chamar o progresso e o futuro) se esconde na fabricação da bomba atômica congolesa ou mais precisamente congolo-qualquer coisa. Os outros só nos respeitarão e temerão sob essa condição. Na sabedoria local isso se chama mostrar o rio pra um pescador velho. Se pra plantar amendoim e soja em Loudima14 tivemos de recorrer a uma assistência técnica, não acredito que possamos prescindir dela pra manutenção e conservação de reatores atômicos e consortes. A assistência militar-econômico-humanitáira é justamente o que o projeto cartesiano de possessão do Mundo encerra de subentendidos. Quando se institucionaliza a ideologia do terror não se escapa da arapuca da big stick policy. Não se escapa tampouco da arapuca da dependência, e da obsessão de se remir do atraso, pois de fato nosso subequipamento só será tecnológico se enveredarmos pelos mesmos caminhos da morte que a tecnologia do desperdício e da desumanização. Precisaríamos de etapas como força destrutiva, força de dissuasão, equilíbrio do terror, bomba de nêutrons... É impensável, por maior que seja a boa vontade da assistência técnica, que cheguemos a reunir os meios financeiros (que os outros acumularam em seis séculos de pilhagem e razia), os meios humanos e materiais que tal empreitada exige. Voltarei de outra maneira ao problema dos meios materiais, tratando da questão da crise das matérias primas. Quando se escolhe a psicologia do medo e da desumanização, não se pode escapar de todos os atrasos científicos e técnicos a se pagar aos vírus do imortal projeto colonial. Pra comprar uma ciência e uma tecnologia do medo, a África deveria (se os preços da matéria prima se mantiverem como nos dias de hoje) vender cinquenta vezes todo o petróleo contido em seu solo, cem vezes todas as reservas florestais, trezentos e cinquenta vezes os produtos de sua agricultura, oitocentas vezes o produto da pecuária, novecentos e trinta vezes todos os minerais de seu subsolo... treze mil vezes sua população em equivalência em trabalho. O maior e mais vergonhoso programa de desumanização do ser humano sempre se travestiu de “missão civilizatória, ajuda ao desenvolvimento, assistência técnica, nova ordem humanitária mundial...”, claro que as palavras não param por aí. Face a uma mistificação do projeto cartesiano de dominação do mundo pelo viés do conhecimento, a responsabilidade dos pesquisadores do terceiro mundo está posta. Bastava à África renunciar ao progresso se ele era inseparável do projeto colonial travestido de todos os elãs e de todas as intenções humanitárias. Basta à África renunciar à ciência se ela não pode estar separada de todos os atrasados a pagar à vontade de poder do racismo internacionalizado; se não tinha mais a liberdade de escolher seu desenvolvimento, seus próprios possíveis, inventar sua própria lógica em detrimento da lógica do medo na selva das considerações cartesianas, se tinha de sacrificar seu sopro de humanidade, e, nas palavras de Garaudy, tornar-se apenas um pedaço de carne num mundo mecanizado. Basta à África renunciar ao progresso se ela não pode, com conhecimento de tempo, de lugar, de causa e de cultura, prescindir de um déficit de identidade. A felicidade está na decisão. Decidir sobre sua cultura, suas alegrias, suas possibilidades, seu futuro, seus sonhos, suas esperanças, sua identidade, sua participação no colossal eu humano, eis o que se chama fazer a História. E uma pesquisa que não participa da fabricação da história só serve mesmo pras lixeiras das crises de consciência.
5Talvez seja preciso citar as práticas atuais que provam que a assistência técnica é uma armadilha sem fim, a não ser que se encontrem outras bases de cooperação e se dê a esta um novo conteúdo ideológico e social. Um laboratório que vem trabalhar num país quente vem sempre com suas roupagens de condicionadores de ar e consortes; por que não se preveria como se faz com a Lua ou Saturno engenhos adaptados ao meio tropical: a filosofia se resume em vender o máximo possível. Há também a questão do tratamento dos dados. As inumeráveis e demasiado custosas missões dos consultores, que geralmente não sabem do assunto muito mais que os indígenas. E assim por diante.
COMO VOLTAR O CIPO DE AROEIRA?
6Fala-se muito da crise de energia porque por pouco ela não despertou de seu sono econômico os países desfavorecidos. É preciso dizer que na atual etapa das necessidades nenhum país pobre, sem a pilataria dos países ricos, nenhum país pobre conheceria a penúria de energia. Mas estamos todos preocupados com essa crise: porque as preocupações dos países ricos tornam-se logicamente nossas preocupações; por conta de uma dicotomia atribuída à palavra desenvolvimento, somos levados a confundir nossos problemas com os dos países tecnológicos. A tal ponto que não sabemos nem mesmo quais são nossas próprias preocupações verdadeiras. Com as promessas que lhes fizeram o sol, o átomo e a biomassa, os países abastados vão logo retomar o seu sono humanizante e humanitário. E num país como o Congo em que o potencial hidroelétrico é imenso, senão inesgotável, vão continuar a fazer pesquisa sobre a energia solar e a biomassa. Questão de luxo, ou simplesmente por causa dos atrasados ideológicos de que falava há pouco.
7Pra virar o jogo, devemos falar da crise das matérias primas. Inventá-la se for o caso. Esperá-la no caso. Por que o desenvolvimento como nos é proposto me parece uma utopia grosseira? Suponhamos que num dado momento da História, próximo ou longínquo, todas as economias do mundo atinjam nem que seja apenas o nível atual dos Estados Unidos e da Rússia, suponhamos que com as novas fontes de energia se consiga suprir as necessidades energéticas dessas novas economias mundiais, onde se encontrarão as matérias primas? Haveria forçosamente uma crise das matérias primas na nova ordem econômica mundial e uma incomensurável desordem econômica. Ou seja, o desenvolvimento só pode continuar se houver de um lado países condenados que devem pelos séculos dos séculos fornecer matérias primas e do outro lado os países favorecidos (cujo número poderia aumentar, mas não indefinidamente) consumidores de matérias primas. A menos que se transformem dois terços da humanidade em matérias primas, pra sobrevivência do desenvolvimento. Sem o que não vejo como a magia cartesiana pode inventar uma nova ordem mundial em que todos os países tenham uma chance de tecnocratização ao extremo como é o caso dos países que chamamos de desenvolvidos. Só haverá uma nova ordem econômica mundial com a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar. Essa volta só será possível com uma crise das matérias primas e uma saída da Pesquisa Científica e Tecnológica do Terceiro Mundo dos caminhos forjados pelo imortal projeto cartesiano de dominação do mundo pelo viés do conhecimento. Nosso dever é estabelecer que a ciência não é universal, que a pletora de técnicas e de tecnologias, na possibilidade que traz em si de escolher aquelas que abordam as relações do ser humano com a natureza em termos não de dominação, mas de reconciliação, poderia tirar a humanidade da civilização do desperdício que lhe impõem as sociedades de consumo. Ao lado da ciência carnívora que pasta o ser humano e a vida, que assassina a natureza, temos ainda a nobre possibilidade de inventar, de criar maneiras de pensar e agir novas, sábias, humanas. Temos em nossas mãos e em nossas cabeças as melhores chances de sobrevivência pra humanidade. Essa última possibilidade deveria guiar todas as nossas ações e toda nossa maneira de pensar. Não existe ciência já pronta, a ciência se inventa pela criatividade e a criação de ideias novas, pela escolha na massa dos possíveis daqueles que reconciliam o ser humano e o meio. A ideia de banir as ciências e as tecnologias da morte deveria nos habitar de maneira permanente e obsessiva, porque o que chamamos de Terceiro-Mundo é o mundo de amanhã.
“Brouillon de lettre aux sages-femmes d’une conscience : ou messieurs les intellectuels la science est-elle universelle ?”, inédito [6 páginas datilografadas A4], 12 de agosto de 1981.
Notes de bas de page
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