1976
Introdução a O Ato de Respirar
p. 17-18
Texte intégral
1Esvaziamos a vida com uma porrada de perguntas: quem somos – onde estamos – pra onde vamos...
2Pra todas essas questões dou uma resposta, mas pra aceitá-la é preciso ter a coragem, diria mesmo o desplante de existir. No fundo, se realmente vazio há, por que não aproveitar pra colocar alguma coisa nele? Por que não utilizá-lo pra existir? O ser humano é belo demais pra deixarmos que passe batido.
3No entanto, não se enganem. Nunca falarei do colecionadorzinho de prazeres, nem do vendedorzinho de situações, nem do montador de vinhos, nem do caixa de opiniões, nem do pastador de posições, nem do podador de slogans, nem da maquininha de calcular as raças. Jamais falarei do tratante estético, nem do porco ideológico, nem do delinquente cultural, nem do drogado linguista, nem do devasso terceiro-mundizante. Não falarei do candidato ao nada – falo do voluntário. Voluntário porque no final das contas a menção de humano é tão sebenta que só pertence aos voluntários.
4Voluntário à condição de humano. Quem vai querer? Mas sobretudo: quem diz melhor? Os revolucionários deram com os burros n’água, e seu fracasso é mais rotundo que o dos sacanas oficiais. Os burgueses fracassaram como seres humanos, os revolucionários fracassaram como deuses.
5Poeta, dirão. Mas o que o poeta tem a mais que os outros senão sua teimosia? Ele nomeia a si mesmo pra atravessar a vida ali onde a carne é firme. Designa-se pra haurir as coisas em seus nomes. Breve, fala e respira pra dar o exemplo. Nisso é diferente da pessoa que se improvisa improvisando o universo. Postulando o ato de respirar escapa deliciosamente do terrorismo de existir. Cria esse corpo-linguagem em que sua alma venta. Esse mundo-linguagem, por que não? Chega a alfinetar o universo no fundo de sua emoção. E quando o vulgar declara: “A vida é uma só” – ele explode: impotente!
6Agora, quem é poeta e quem não é? Acredito humildemente que toda pessoa é poeta, quem aceita atravessar a vida por esse lugar que tem por nome “menção de humano”. O escritor da poesia se torna então um traidor. Traidor do sublime. Traidor do natural. Traidor da beleza. Mas o ato de Respirar certamente não é uma forma qualquer de escrita. É, diríamos, a dor de uma alma que acaba de parir as dimensões exatas do universo. Obrigo as coisas a existirem e elas obedecem deliciosamente. Cês tão achando que é moleza resolver de uma vez por todas o diferendo ser humano-universo, solucionar a equação matéria-inabitado?
7Agora, isso lá me dá o mérito falado? Não creio. Tive simplesmente o desplante de existir. Por que cargas d’água chamar isso de mérito? Teimosia. Não, a teimosia não é um mérito. E teimo em nomear a vida – Teimo em esburacar a vida.
“Introduction” à L’Acte de Respirer [1976], in L’Atelier de Sony Labou Tansi (edição estabelecida por Nicolas Martin-Granel e Greta Rodriguez-Antoniotti), vol. II, Paris, Revue Noire, 2005.
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