1974
Prefácio a O Planeta dos signos
p. 7-11
Texte intégral
1Escrevo decerto por causa dessa impressão doentia que tenho de nunca ter inteiramente sido. Ou seja, sempre me senti um “corpo estranho” em minha vida. Pra piorar, em vez de desejar escrever só livros, sempre ousei uns troços com histórias, punhados de fazer dormir, estrebuchamentos, digamos, tudo aquilo que numa obra se torna um pretexto pra fazer sinal. Afinal, o que seria eu, senão um cativante pretexto pra fazer sinal. Fazer sinal pra Deus... Fazer sinal pra tudo.
2Quando vejo uma pessoa, seja branca ou preta, ou talvez, como quiserem, amarela ou vermelha, me digo: “Olha aí mais uma! As crianças da existência! Os moleques da vida.”
3Taí uma estória vivida que faz sinal pra vocês. Uma estória vivida por gente muito resistente à vida. Muito resistente também à forma de suas ventas. Não vão ficar achando que temos uma opinião tão rutilante de nós. Cem vezes nos contestamos; assim acabamos aprendendo que, no fundo, todas as vezes que dizíamos “nós”, designávamos nós, vocês, os outros, todos. A molecada da existência.
4Na verdade, sou um cara onde se atolaram todos os Outros, não pela forma de seus narizes, nem pelo número de seus dentes, nem mesmo por composição química, nem por contrato ou demonstração matemática; mas tão somente por essa deliciosa maneira de trupicar vida afora.
5Digamos que existem os imbecis, os retóricos da forma da cachola mais isso ou mais aquilo, as celebridades da largura do nariz, os racistas como são chamados em jargão culinário. Mas o racismo é pura falta de imaginação. E no fundo, não ter imaginação é ser seriamente “débil mental”. Estabeleceu-se um preconceito, digamos uma pegadinha perigosa pros pretos de pouca cultura, aquela que consiste em pensar ou fazer pensar que nenhuma raça da terra é mais fácil de insultar que a raça preta da África. Literatos se serviram dessa adivinha pra criar uma escola. O perigo é que políticos comecem a se servir dela como auréola.
6Os judeus sob o jugo de Hitler teriam podido pensar que sua raça era a mais fácil de insultar. E os Peles-vermelhas da América do Norte nas primeiras horas do que viria a ser a maior reserva mundial de vergonha e de covardia.
7Convém apresentar com toda honestidade os dados do problema, papo reto, mas de preferência com uma paixão desapaixonada.
8Um dia conversei com um escritor que me dizia ser de uma reputação não negligenciável; um mestiço mauriciano1. Ele me disse que “era negro de preferência”. Tive vontade de engolir os dois, ele e sua preferência. Depois compreendi o que ele entendia por preferência. Queria simplesmente dizer que em 1942 ele podia ter sido semita de preferência; que no tempo dos conquistadores podia ter sido pele-vermelha de preferência; e que em 1945 podia ter sido nagasakiano, e sempre de preferência. Acabei por confessar que meu amigo tinha bom gosto em matéria de preferência.
9Agora é preciso entrar na sola do problema, como se diz na tribo de minha mãe. Convém saber que a cor, assim como as dimensões da cachola não são venenosas a priori. O que mata, são as ideias dessa cachola que a gente se prega; as ideias que a gente pega dessa cachola.
10Noutras palavras, os brancos matando os pretos de Angola e os da África do Sul (mesmo se com o mesmo gesto matam todos os pretos da Terra) cometem um crime de posição. Não é seu nariz desconforme que mata, assim como não era o bigodinho de Hitler que matava os judeus, mas a posição industrial e cultural de toda a Alemanha.
11Um dia, disse a meu amigo Pivin2 ou a algum outro de meus amigos da Europa: “Quer saber de uma coisa? Na História toda da Terra só tem um dia que me mete medo, unzinho só: amanhã! Quando o Ocidente precisará de petróleo pra respirar... e que esse petróleo estará sob o leito dos saarianos cansados demais pra ir passear, ou sob as esteiras daqueles que dormem como chumbo, vão ser obrigados a enfiar a pua no cérebro deles. É atordoante pra toda a humanidade. Carne forte! Depois de vinhos fortes. Aquele que quer respirar... nenhum princípio moral pode impedi-lo. Assim como nenhum valor moral poderia impedir a galera de ir a Nice pegar um bronze seminua”.
12Meu amigo me agarrou pelos ombros com suas mãos gigantescas. Vi em seus olhos um raio de pânico. Depois falou com uma voz rasgada: “Eu achava que fosse fácil ser preto”.
13Eu também, acostumado a ouvir falar da África do Sul, acostumado a pensar nos Americanalhas e nos Índios, acostumado a pensar na Klux-Klan , uma noite, precisamente a noite do assassinato de Luther King, disse a mim mesmo com uma ponta de irritação na voz: “Finalmente, é fácil ser branco!” Entenda-se, “fácil” no sentido mais irritante da palavra. “Fácil” no momento em que essa palavra significa “merda”. Um preto de talento levou a audácia ao ponto de urinar coisas como esta: “My house is my calebash”. Não sei mais quem foi. Em todo caso, me esforcei pra esquecer seu nome. E meus esforços foram recompensados. Se quisermos viver, não podemos contar com uma cultura de cabaça. Devemos criar uma cultura de choque. Uma cultura de revide. Devemos ter uma carne de revide, uma existência de revide. Devemos ajudar o Ocidente a espocar, enquanto ele nos ajuda a empobrecer. Digo Ocidente, seja o Ocidente de Lênin ou o do Tio Sam. Porque a posição peçonhenta de hoje se chama Ocidente.
14Outro de meus amigos franceses, um pouco menos “pivinista”, me disse: “Não vale a pena estar com a bunda em outro lugar o tempo todo. É muito africano, mas acaba se tornando incômodo. É preciso de vez em quando se render à evidência. A questão, é fazê-lo no momento certo.” Respondi com uma estrondosa modéstia: “Meu amigo, é que vocês, vocês têm o direito de se render à evidência porque vocês têm uma fuça deficitária”.
15Tenho vergonha de contar pra vocês o que esse meu amigo entendia por evidência. A evidência lá dele, são as condições dos emigrados pretos na França, é o metrô toda noite, é a máscara que pregamos à cara à roda dos jardins sob o pretexto de que nos amamos, é a primeira página do Ici Paris. Pela primeira vez na vida, um amigo me deu vontade de escarrar. Seu “momento certo” é agora, quer dizer, de pijama. Vocês se dão conta!? Um cara que se entrega de corpo e alma ao foie gras, à taça de champanhe, ao cantal, às horas de bronze, aos gestos de chafariz. É preciso realmente ter uma fuça deficitária.
16Resisto. Resistencialista. Resisto ao comprimento dos meus dentes, à vida pra que ela acabe por se render a mim. Já que a evidência sou eu. Pra ti, leitor, se um dia essas páginas se tornarem um livro, trata-se de olhar tudo o que em tua experiência te faz sinal. Mas também pode ser que eu só escreva pra falar com Deus em alto e bom som.
“Préface” autógrafo do romance inédito La Planète des signes (1974) publicado sob o título “Préface à La Planète des signes” in Sony Labou Tansi. L’Autre Monde. Écrits inédits. Textos escolhidos e reunidos por Nicolas Martin-Granel e Bruno Tilliette. Paris: Éditions Revue Noire, 1997.
Notes de bas de page
1 Trata-se de Édouard J. Maunick, poeta, jornalista e diplomata das Ilhas Maurício.
2 Em 1974, José Pivin (1913-1977) é criador radiofônico na Radio France. Em 1970, Sony vai para a França pela primeira vez a seu convite e de Françoise Ligier (1929-2006), jornalista e produtora de programas que, em 1969, cria o Concurso teatral interafricano. Cf. L’Atelier de Sony Labou Tansi : vol. I Correspondances. Lettres à José Pivin. Lettres à Françoise Ligier (edição estabelecida por Nicolas Martin-Granel e Greta Rodriguez-Antoniotti), Paris, Revue Noire, 2005.
Le texte seul est utilisable sous licence Licence OpenEdition Books. Les autres éléments (illustrations, fichiers annexes importés) sont « Tous droits réservés », sauf mention contraire.
Violence et langage
Une lecture de la « Critique de la violence » de Walter Benjamin
Léa Veinstein
2017
Le printemps des intelligences
La Nouvelle Gauche en Italie - Introduction historique et thématique
Andrea Cavazzini
2017
Subjectivités, pouvoir, image
L'histoire de l'art travaillée par les rapports coloniaux et les différences sexuelles
Anne Creissels et Giovanna Zapperi (dir.)
2017
Nouvelles vulnérabilités, nouvelles formes d’engagement
Critique sociale et intelligence collective
Laurence Blésin et Alain Loute
2017
Pierre Bourdieu Philosophe
Une critique socio-philosophique de la « condition étudiante »
Thomas Bolmain
2017
Idéologies de l'enfance et éducation dans l'œuvre de Fernand Deligny
Anthropologie, pédagogie, politique
Patricia Verdeau et Antoine Janvier (dir.)
2017
