IV - Superstições populares (vária)1
p. 189-208
Texte intégral
1A exemplo do que se encontra em Grimm – Deutsche Mythologie 4.º t e Aufl., incluímos nos nossos estudos de mitologia popular portuguesa, todas as superstições, que da tradição oral no País temos coligido. Um certo número destas superstições já foi por nós publicado, quando tratámos das bruxas e da noite de São João na tradição popular. Um grande número delas publicá-las-emos quando nos ocuparmos dos restantes capítulos do maravilhoso do nosso povo, por ex. dos lobisomens, Diabo, sereias, trasgos, etc., etc. Há porém uma certa categoria desta crenças, difícil de submeter-se a uma classificação rigorosa, por isso que não se refere directamente a nenhuma das grandes criações da fantasia popular, antes pelo contrário nos aparece em ligação com os factos mais triviais, mais prosaicos, diremos, da vida humana, representando apenas uma maneira especial de os contemplar nas suas relações com a nossa individualidade. Esta ordem de superstições, importantíssima para o estudo da psicologia das raças, obedece num grande número de casos às mesmas leis de transmissão de povo a povo, e de transformação dentro de cada grupo, que nós encontramos nas superstições propriamente míticas.
2O seu modo de produção, porém, deve ter sido talvez mais independente, representando provavelmente nelas a transmissão um papel mais secundário. Como quer que seja, no entretanto, devem elas figurar de direito numa “mitologia popular portuguesa” embora pela dificuldade de uma elaboração sistemática, elas figurem de um modo especial. Incluímo-las sob a rubrica de “vária”, sem procurar estabelecer entre elas relações. Nem sequer cuidámos em colocar seguidamente as que parecem variantes de um mesmo tipo fundamental. Apenas vão indicadas por um número de ordem, que mais tarde servirá para as reconhecer, e utilizá-las porventura no nosso trabalho definitivo. De resto, procedendo desta forma, não fizemos mais do que seguir o exemplo dos mais ilustres mitógrafos – de Grimm, Wutke, Grohmann, Liebrecht, etc., etc.
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31. Quem deita fora o lixo à noite, deita fora a fortuna.
42. Quem faz uma casa de novo, morre cedo. (Cf. o provérbio: ninho feito, pega morta).
53. É mau morar numa casa de três esquinas. (Cf. o provérbio: casa de esquina, morte ou ruína).
64. É mau ter pombos e depois deixar de os ter, porque anda a casa para trás.
75. Quando se está a matar uma galinha ou qualquer outra ave doméstica, e ela tem muitas convulsões sem poder morrer, é porque alguém está com pena.
86. Quando uma visita se demora muito, contrariando os donos da casa, deve pôr-se um banco de pernas para o ar detrás de uma porta, porque logo ela sai.
97. As galinhas pretas põem ovos de duas gemas, que têm grande virtude para certas doenças.
108. Para se livrar de espectros ou de sonhar com um morto, devem beijar-se-lhe as solas dos sapatos.
119. Não se deve beber água com uma luz na mão, porque se pode morrer de repente.
1210. Quando uma pessoa casada vai à igreja, deve pôr água benta na testa à entrada; se a puser à saída fica viúva muito breve.
1311. Para fazer a testa grande às crianças, deve pôr-se-lhes todos os dias, enquanto são pequenas, na cabeça, açorda de alho ou sangue de mocho.
1412. Quando um gato se lava, é sinal de visitas; quando lambe as unhas, é sinal de dinheiro.
1513. No dia de Santa Bárbara ao meio-dia devem deitar-se algumas galinhas para tirarem na noite de Natal. O galo que nascer nesta noite, cantará sempre à meia-noite.
1614. As pessoas que dormem muito, para perderem este hábito, devem abraçar um burro logo que acabar de nascer.
1715. Não é bom balouçar o berço de uma criança, quando ela não está dentro, porque a torna brava.
1816. Não deve consentir-se que duas crianças pequenas, que ainda não falam, se beijem, porque não fala uma sem falar a outra.
1917. No dia de Santo António deve apanhar-se um raminho de erva-pinheira e pendurar-se em casa. Se reverdece é sinal de fortuna.
2018. Quando um bode espirra, é sinal de bom tempo.
2119. É mau virar o vestido de cima para baixo, porque se vira a fortuna.
2220. Para uma criança andar cedo, deve pôr-se todos os dias, em sendo ave-marias, ao canto de uma porta.
2321. Quando um galo canta ao sol-posto, é sinal de morte.
2422. Quando um mocho vem piar a um telhado, à meia-noite, é sinal de morte.
2523. Quando um gato urina no fato de uma criança, é bom sinal, porque ela há-de ser muito feliz.
2624. É muito bom as crianças irem vestidas de anjo nas procissões, porque as livra de perigos e dá-lhes felicidade.
2725. Não é bom deixar um pedaço de pão cortado com os dentes. Uma pessoa que queira fazer mal a quem fez isto, pode apanhar aquele pão, crivá-lo de alfinetes e dá-lo depois a comer a um sapo. O sapo fica padecendo, e enquanto não morre padece a pessoa também, morrendo por fim ambos.
2826. Quando o lume estala ou assobia, é porque estão falando mal da pessoa que o acendeu.
2927. Quando as vacas berram, é sinal de casamento.
3028. Quando uma pessoa se muda de novo para uma casa, a primeira coisa que deve levar é uma moeda em prata, para nunca lhe faltar o dinheiro.
3129. Quando se vai acompanhar um defunto, para ele não lembrar mais, ou a alma dele não aparecer, deve deitar-se-lhe na cova uma mão cheia de terra.
3230. Quando se sonha com um defunto, deve rezar-se-lhe uma oração, para ele não tornar a aparecer.
3331. Não é bom ver um marreca em jejum. Quando por acaso isto acontece, para se desfazer o enguiço, é preciso dar logo um nó na ponta do lenço e esperar que passe um cavalo branco, para o desatar.
3432. Quando uma casa fica de noite com a porta aberta, sem se saber, é sinal de felicidade.
3533. Quando aparece numa casa uma aranha preta muito pequena, não se deve matar, porque é sinal de dinheiro.
3634. Quando aparece uma aranha muito grande, é sinal de testemunhos, que querem levantar à pessoa que a vê. Para impedir que isto se realize, é preciso matá-la logo com o pé esquerdo.
3735. Quando a candeia espirra, ou lume estala, é sinal de presente em casa. (Cf. n.º 26).
3836. Quando se ouve uivar um cão, devem tirar-se os sapatos, virá-los de sola para cima e põem-se os pés em cima deles, dizendo três vezes: Maria dá pão ao cão. Apenas se fizer isto, logo o cão se calará, cessando o agoiro.
3937. Quando uma pessoa sai a desoras, se um cão preto a acompanhar a casa é mau agoiro; se o cão for branco, é bom agoiro.
4038. Quando um cão urina à porta ou no fato de alguém, é sinal de dinheiro. (Cf. n.º 23).
4139. Quando um cão entra em casa, é bom sinal; pelo contrário, se entra uma cadela, é agoiro.
4240. Quando arde a orelha esquerda a uma pessoa, é sinal que estão a dizer mal dela, e para evitar que continuem, deve deitar-se um punhado de sal ao lume e fugir logo para o não ouvir estalar. As pessoas que estiverem ao pé da que estiver a dizer mal, à medida que o sal for estalando, vão fugindo sem dar atenção ao que diz a maldizente.
4341. Achar alfinetes, é sinal de amores. Achar agulhas, é sinal de testemunhos.
4442. Quando aparece o arco-da-velha (arco-íris), é sinal que Deus está bem connosco. Enquanto ele aparecer, além disso, o mundo não se acaba.
4543. Quando um sino, que está a tocar a finados, prolonga muito o dobre, é sinal que chama por outro defunto.
4644. Quando morre alguém, não se devem apagar as luzes que estiveram a alumiar o morto, até que o corpo chegue à igreja.
4745. Quando uma pessoa, ao expirar, fica com os olhos abertos, é sinal que está chamando por alguém da família.
4846. Quando se vê um sapo, para não acontecer mal, é preciso cuspir fora três vezes.
4947. Não se devem matar baratas (insecto), porque são sinal de dinheiro na casa onde aparecerem.
5048. Se desaparecerem da casa onde tinham por costume aparecer, é sinal de pobreza.
5149. Casa em que as andorinhas façam ninho, é casa abençoada. É pecado matá-las, e à pessoa que o fizer, anda-lhe a fortuna para trás.
5250. É pecado também matar as lavandiscas (ave), porque lavaram os pés a Jesus Cristo, quando ele estava na cruz.
5351. Não se deve deitar água fora, depois que toca às ave-marias, porque pode dar algum ar mau na água e fazer mal à pessoa que se lavou nela.
5452. Quando se deita cabelo fora, deve cuspir-se nele três vezes e fazer-lhe uma cruz por cima, dizendo: em louvor do santíssimo nome de Jesus, eu te abençoo, meu cabelo, para que não te empeça mal nenhum.
5553. Não se deve deitar o cisco fora depois do toque das ave-marias, porque se deita a fortuna para fora da porta. (Cf. n.º 1).
5654. Quando aparece uma pulga em fato novo, é sinal de que o dono o há-de romper.
5755. Quando estalam vidros numa casa, é sinal de desgosto.
5856. Não é bom ter a cama com os pés para a porta, porque se morre cedo.
5957. Não é bom pôr dinheiro em cima da mesa onde se come, porque faz a gente pobre.
6058. O primeiro fruto de qualquer árvore deve ser comido por macho; se for comido por fêmea degenera a árvore.
6159. É mau duas pessoas lavarem-se na mesma água ou limparem-se à mesma toalha, porque se o fizerem andam à bulha.
6260. Depois que toca às ave-marias, não se deve deitar água à rua, para não empecer nada nela. Se é de necessidade deitá-la, é preciso dizer: fugi finados! que aí vai água dos pés lavados. (Cf. n.º 51).
6361. É mau ter em casa uma vassoura voltada para cima, porque é sinal de bulhas.
6462. A mulher que amamentar uma criança, não deve fazê-lo, ao levantar da hóstia e do cálice, porque a criança fica com gota.
6563. Quando cai uma tesoura ou faca no chão e fica espetada, é sinal de visita.
6664. Quando entram abelhas em casa, é sinal de visitas.
6765. É pecado fiar em Quinta-Feira Santa. Quem fia nesse dia, fia as cordas ao Senhor.
6866. É mau coser a roupa no corpo. Para não acontecer nada é preciso, ao cosê-la, dizer três vezes:
Coso vivo,
Nanja morto;
Coso isto,
Que está roto.
6967. Quando a orelha esquerda está muito vermelha, é sinal que estão a dizer mal da gente. Para se evitar que continuem, é bom trincar a camisa três vezes no peito. Assim como se trinca a camisa, assim quem diz mal trinca a língua. (Cf. n.º 40).
7068. Para as crianças perderem o medo, é bom fazê-las dar um beijo numa preta.
7169. Não é bom quando faz trovoada estar debaixo de uma figueira. Ar, que dê debaixo desta árvore, é incurável.
7270. A queda, que se dá de uma figueira abaixo, é mortal sempre.
7371. É mau enterrar folgo vivo, cães, gatos, etc., porque à pessoa que o faz, anda tudo para trás.
7472. Relinchar um cavalo ao pé da porta, é sinal de grande gosto.
7573. É mau agouro realizar-se um casamento, quando está uma cova aberta no cemitério.
7674. Queimar a palha dos enxergões em casa é mau, porque faz a casa pobre.
7775. Beber alguma cousa com uma luz na mão, torna a pessoa, que bebe, esquecida. (Cf. n.º 9).
7876. Obras principiadas ao sábado não têm fim.
7977. É mau contar as estrelas. Quantas estrelas se contam, tantos são os cravos que nascem nas mãos.
8078. No dia 1.º de Março é bom atar uma fita escarlate nos pulsos, por causa de o Sol não crestar a gente durante o Verão.
8179. Não é bom rir à sexta-feira, porque a pessoa que o faz chora ao domingo.
8280. Não se deve dobar ao domingo, porque quem isto fizer, tem de desdobar eternamente no outro mundo.
8381. É mau morar numa casa em que as tábuas do tecto fazem cruz com as do sobrado.
8482. Quando num casamento chove à entrada da igreja, é sinal que os noivos hão-de ser felizes e ricos.
8583. Quando num casamento a vela mais pequena está do lado da noiva, é sinal que ela morre primeiro; se está do lado do noivo, é ele quem morre.
8684. É pecado pescar no dia de S. Pedro, porque S. Pedro foi pescador.
8785. Quando uma pessoa está deitada na cama, e passa o viático, deve levantar-se logo, senão morre cedo.
8886. É agouro quando se acende uma luz e ela começa a estalar.
8987. Quando os gatos andam a correr pelas casas de um lado para o outro, é sinal de vento
9088. Arrancando-se um cabelo da cabeça com raiz e deitando-se na água, nasce uma cobra.
9189. Quando uma pulga salta na palma da mão, é sinal de presente.
9290. É mau que noivos pisem sal, porque se desmancha o casamento.
9391. Quando um galo canta antes da meia-noite, é sinal de navio à barra, ou que alguma filha foge de casa.
9492. Não se devem dar santos, porque é sinal de apartamento.
9593. Não se devem dar lenços, porque é sinal de lágrimas. Para evitar o agouro, é preciso que a pessoa que os recebe dê em troca cinco réis.
9694. Não se devem dar facas, nem tesouras, porque é sinal de desavença.
9795. Quando lembra uma alma do outro mundo, deve rezar-se um padre-nosso e dizer: toma lá este, mas não é para avezar. (Cf. n.º 30).
9896. Quando uma pessoa morre, é bom queimar-se-lhe a cama, para não voltar a este mundo.
9997. Nalguns sítios do Minho, quando uma pessoa se julga perseguida por um espírito maligno, deve ir deitar à meia-noite a um sítio ermo, um alqueire de grãos, de alpista por ex. ou mainço, porque são mais miúdos. Estes grãos são o alimento do espírito, que gasta apenas um por ano. Como o espírito não pode deixar aquele lugar, enquanto durarem os grãos, a pessoa rodeia com uma sebe ou parede ou muro o local assim ocupado, deixando por esta forma a alma presa. O recinto torna-se sinistro e todos lhe passam de largo e o evitam.
10098. Sonhar que qualquer pessoa morreu, é bom sinal, porque se lhe dá uns poucos anos de vida.
10199. Sonhar com sangue é sinal de desgosto; com galinhas, é sinal de desgosto e morte; com maçãs, é sinal de discórdia; com peras, é sinal de perdas; com carvão, é sinal de pancada; com uvas pretas, é sinal de letras; com uvas brancas, é sinal de lágrimas.
102100. Quando uma criança não chora na ocasião do baptismo, não chega aos doze anos.
103101. Quando uma criança, ao morrer, fica com os olhos meios abertos, morre atrás dela a pessoa que mais a estimava. (Cf. n.º 45).
104102. Quando um cão uiva de noite, é porque na rua está para fugir algum filho da casa do pai. (Cf. n.º 91).
105103. Não é bom beber água com uma luz na mão, porque entram espíritos no corpo. (Cf. n.os 9 e 75).
106104. As uvas que se guardam no dia 8 de Setembro, antes de o Sol nascer, ficam frescas todo o ano.
107105. Casa onde haja um gato preto não entram os espíritos maus.
108106. Deve dar-se aos recém-nascidos a beber a água em que são lavados, para os tonar mansos.
109107. Também para uma criança ser mansa, deve levar-se à igreja, pôr-se em cima de um altar e dar-se-lhe três pancadas.
110108. Para curar uma criança de quebranto, é bom passá-la três vezes por uma meada de linho.
111109. Quando se deitam as galinhas a pastar, para que recolham cedo é bom esfregar-lhes as patas na lareira, dizendo: para casa às horas!
112110. É bom desmamar as crianças em Sexta-Feira Santa, porque as livra de morrerem tísicas.
113111. Não se devem apagar os morrões, que caem acesos no chão, porque estão alumiando as almas do purgatório.
114112. É bom pendurarem-se à porta 5 réis, para ter dinheiro todo o ano.
115113. Nos arredores do Porto, quando uma pessoa está para morrer e não pode, é costume das pessoas da família ou amigos mandarem tocar sete badaladas a um sino de igreja; se pelo contrário, é uma mulher, que se encontra num parto difícil, o número das badaladas é de nove.
116114. Também é costume, quando alguma mulher está com um parto difícil, ir o marido a uma igreja tocar o sino com os dentes.
117115. É crença geral nos arredores do Porto que toda a pessoa que tomar um banho no dia de S. Bartolomeu (24 de Agosto), esse banho vale por vinte e quatro.
118116. Não é bom matar um gato em casa, porque começa a fortuna a desandar.
119117. Quando se tomam banhos, deve tomar-se um número de mergulhos ímpar; do mesmo modo deve ser ímpar o número de banhos. Se for par, faz muito mal.
120118. É mau sentar-se uma pessoa em cima da mesa, porque faz gota.
121119. Quando se pica o dedo com uma agulha, é bom enterrar a agulha numa cebola, para a ferida não criar
122120. Quando uma criança já é crescida e não fala, deve a madrinha metê-la dentro de um saco, e pondo-a às costas, ir pela vizinhança a pedir, dizendo o seguinte:
Dai uma esmolinha à menina do fole,
Que quer falar e não pode.
123Deve a madrinha ir com este peditório a três casas e três dias a fio, e a criança deve comer tudo o que lhe derem.
124121. A criança, que nasce com uma veia atravessada no nariz, é feliz, contanto que escape dos sete anos, que é a idade crítica.
125122. Deve guardar-se muito bem o umbigo das crianças, porque se os ratos dão com ele, tornam-se elas ladras.
126123. É crença geral que ninguém nasce ou morre, sem ser no fim da maré.
127124. É bom quando uma pessoa está para morrer, abrir a janela do quarto em que ela está.
128125. Quando se vai dar o Santíssimo a um doente, se se acaba de rezar o bendito ou a glória defronte da porta de outro doente, este último morre infalivelmente.
129126. É bom vestir a roupa do avesso, porque livra de mordedura de cão danado.
130127. Não é bom, quando a gente se penteia, deitar o cabelo fora, porque os passarinhos levam-no para fazerem seus ninhos, e isto ocasiona à pessoa, a quem pertenceu o cabelo, grandes dores de cabeça. (Cf. n.º 52).
131128. Quando faz trovoada, é bom deitar alecrim no lume, para afugentar o raio.
132129. Quando há uma pessoa que quer fazer mal a outra, esta última deve fazer o seguinte para se livrar dela: na ocasião de ir para a igreja abaixa-se para trás e apanha a primeira coisa, que encontra, metendo-a na pia da água benta. A pessoa que quer fazer o mal, não pode depois disto tirar-se da igreja, sem se tirar o que está na pia da água benta.
133130. O vestido do noivado nunca se deve tingir de preto, porque se se tingir, morre a noiva.
134131. Quando as unhas crescem muito, é sinal que cresce a fortuna.
135132. Quando uma pessoa desconfia que estão falando mal dela, para que não continuem, deve espetar uma tesoura na parede. (Cf. n.º 40 e 67).
136133. Quando um cão esgravata no chão ou à porta, é sinal de se abrir uma sepultura.
137134. Quando alguém morre afogado e não vem à praia, para que o corpo apareça, deve a madrinha ir à beira de água e chamar pelo nome do defunto.
138135. Quando ao pé de um afogado chega um parente próximo ou remoto, o morto começa a deitar sangue pelos olhos e pelo nariz.
139136. Quem corta as unhas ao sábado, vê o seu amor ou pessoa que estima ao domingo.
140137. É muito mau cortar as unhas dos pés à noite sentado na cama, porque desanda a fortuna.
141138. Não se deve, quando se fala no sapo, chamar-lhe pelo nome, mas sim dizer: “um de quatro”, senão ele entra em casa a vai ter com a pessoa.
142139. A mão do finado tem virtudes terríveis. Enquanto está acesa numa casa, ninguém ali acorda, e para se apagar é preciso atirar-lhe com vinagre.
143140. Chave macha é o melhor remédio para fazer passar os ataques epilépticos.
144141. Corda de enforcado é um bom preservativo contra desgraças.
145142. Um pau de alecrim é um remédio infalível para livrar de feitiços.
146143. O cepo da fogueira do Natal, assim como os cotos de velas, que alumiaram as festas, têm grandes virtudes contra coisas más.
147144. Uma mulher grávida passando por debaixo do pálio numa procissão, tem bom sucesso
148145. É bom amarrar uma fita encarnada ao rabo das vacas, para o leite não lhes secar.
149146. Quando uma mulher dá de mamar a uma criança, não deve beber coisa alguma, quando a tiver ao peito, senão fica com ataques epilépticos.
150147. Aos burros logo que nascem, deve pôr-se-lhes ao pescoço uma coleira encarnada, com um saquinho cheio de alhos e arruda, para não entrarem com eles os feitiços.
151148. No Minho, é crença que toda a rapariga que se chame “Maria” em pondo o pé em cima da cabeça de uma cobra, ainda que seja de leve, esta morre logo.
152149. Toda a rapariga que se chame “Maria” e que tenha dois filhos gémeos do mesmo sexo, saltando por cima de qualquer ferida, cura-a logo.
153150. Quando uma mulher está de parto, deve deitar-se num copo de água uma rosa-de-jericó (planta). A rosa começa logo a abrir-se com a humidade, e à medida que abre, vai a criança nascendo ou vão as dores tornando-se menos intensas.
154151. É bom trazer uma noz de três quinas na algibeira, porque dá fortuna.
155152. Sonhar com crianças, é sinal de novas. Se são do sexo masculino, as novas são boas; se são do feminino, pelo contrário são más.
156153. Quando as belotas ou as cebolas grelam em casa, aumenta a fortuna.
157154. Quando se varrem os pés a uma pessoa solteira, não casa.
158155. É mau agouro estarem sentadas treze pessoas a uma mesa, porque morre a mais nova ou a mais velha. Segundo outra versão, morre o dono da casa.
159156. É muito mau, quando entra um sapo em casa. É preciso ir ver logo se ele tem os olhos cosidos, para lhos descoser, porque se não se faz isto, a pessoa, a quem fizeram feitiçaria com ele, morre imediatamente. (Cf. n.º 138).
160157. Quando há dificuldade de extrair as secundinas a uma parturiente, deve pôr-se-lhe um chapéu velho na cabeça, e mandá-la assoprar numa garrafa.
161158. Deve queimar-se o umbigo da criança, quando lhe cai alguns dias depois de nascida, a fim de que não fuja de casa. (Cf. n.º 122).
162159. Quando cai o umbigo à criança, é bom deitar-se no lume e defumar-se-lhe com o fumo as mãos, dizendo: para que sejas habilidosa, feliz e venturosa. (Cf. n.os 122 e 158).
163160. O melhor caldo para as recém-paridas é o de galinha preta.
164161. Às mulheres grávidas deve dar-se-lhes caldo de perdigoto, algum tempo antes dos nove meses, para não terem dor de torto.
165162. Quando a criança vem da igreja de se baptizar, deve deitar-se-lhe por cima o casado padrinho para a tornar mansa.
166163. Quando a criança vem da igreja depois do baptizado, deve deixar-se dormir com o fato que levou, para se tornar mansa. (Cf. n.º 162).
167164. A criança que nasce de sete meses, tem uma cruz no céu da boca e possui o dom de adivinhar.
168165. Segundo outra versão, a criança que tem a cruz no céu da boca tem um futuro muito feliz, mas não se há-de isto saber antes dos sete anos. (Cf. n.º 164).
169166. Quando uma mulher grávida deseja alguma cousa que não pode comer, a criança nasce com a boca aberta.
170167. Quando uma mulher anda grávida, para se saber o sexo da criança, deita-se no lume uma folha de oliveira. Se a folha estala é menino; se pelo contrário fica a arder, é menina.
171168. Outra variante é a seguinte: quando a mulher que está grávida se acha desprevenida, pergunta-se-lhe o que tem numa das mãos. Se volta a mão com as costas para cima, é menino; se a volta com as costas para baixo, é menina.
172169. Quando se vai a uma casa, não é bom arrumar-se a cadeira em que se esteve sentado, porque não se volta lá mais.
173170. Quando cai alguma cousa da boca, é sinal que alguém nos quer falar. Sendo pão é homem; se for carne, é mulher.
174171. É mau deitar os chinelos velhos à rua, porque pode passar alguém e com eles fazer mal à pessoa a quem pertenceram.
175172. Quando se calçam as meias do avesso é sinal de fortuna.
176173. Quando uma galinha canta como o galo, deve logo matar-se porque é um agoiro muito mau. (Cf. o provérbio: galinha, que canta como o galo, põe o dono a cavalo; isto é: faz com que ele morra).
177174. Calçar uma bota e um sapato, é sinal de casamento.
178175. O galo preto afugenta as coisas ruins.
179176. As pedras preciosas, conhecidas pelo nome de “sanguíneas” têm a virtude de estancar o sangue.
180177. O mocho, o corvo, a coruja e o besouro são animais de mau agoiro.
181178. Dente de cão ao pescoço livra de dores de dentes.
182179. Havendo dores de dentes por causa do defluxo, passam com queixo de ouriço.
183180. É bom que as crianças chorem quando as estão a baptizar, porque se se conservarem caladas morrem antes de um ano.
184181. É mau entornar azeite em casa, porque é sinal de desordem. Para se evitar isto, apenas o azeite cai, é preciso deitar-lhe logo por cima um punhado de sal em cruz.
185182. Quando numa casa estala vidro de espelho sem ninguém lhe tocar, é sinal de morte de pessoa de família.
186183. É bom trincar um alho em jejum por causa do mau olhado.
187184. Quando se vê uma preta é mau agoiro; se pelo contrário é um preto, é sinal de gosto; e se se vê um preto e uma preta, é gosto certo.
188185. Quando se fala nalguma pessoa morta deve dizer-se: Deus te chame lá, que ninguém te chama cá.
189186. Quando se tem a orelha esquerda a arder, é sinal que estão a falar mal de nós. O remédio para não ir avante a praga é o seguinte: molharem-se dois dedos em saliva e na extremidade da orelha que está a arder, fazerem-se cruzes enquanto se dizem estas palavras: assim como rezes, medres; na forca te peles; e depois de pelada, que te leve o Diabo. (Cf. n.º 40 e 67).
190N. B.: No primeiro número dos nossos Estudos de Mitologia Portuguesa, pág. 20 e 21 (tiragem em separado) lê-se o seguinte: “O nosso colega Adolfo Coelho é de opinião (cf. Contos Populares Portugueses, pág. VI e VII, que os contos no nosso país estão já num estado de dissolução, indicado pela confusão de episódios, sendo além disso ‘pouco poéticos e de um carácter simplesmente enumerativo…’ Efectivamente há um certo número de contos em que o começo de dissolução é evidente, o que não admira, atendendo a que Portugal foi um dos últimos países a coligi-los. A confusão, porém, de episódios nem sempre é indício de uma dissolução próxima, etc.”
191A redacção desta passagem pode fazer atribuir ao nosso colega ideias que não são as suas, e por isso nos apressamos a indicar no seu volume de contos (ob. cit.) a pág. VII onde vem expressa uma opinião perfeitamente idêntica à nossa e à da maioria dos mitógrafos.
Notes de bas de page
1 Nota do Prefaciador: originalmente publicado em O Positivismo, 1881, 3.º Vol.: 1-21.
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O trágico e o contraste
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1991
O Estado Novo e os seus vadios
Contribuições para o estudo das identidades marginais e a sua repressão
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1997
Famílias no campo
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2000
