III – Algumas superstições e crenças populares relativas à noite e ao dia de São João1
p. 159-188
Texte intégral
1Graças à importância, que nestes últimos tempos adquiriu em mitologia comparativa a célebre hipótese, conhecida na ciência pelo nome de “teoria solar”, é desnecessário recordar aqui o papel importante, que o Sol nas suas diversas relações com a Terra exerceu na actividade intelectual dos nossos longínquos antepassados, não só do ramo árico, mas mais ou menos de todas as outras famílias humanas. A par de muitas exagerações da afamada teoria, ou pelo menos de alguns dos seus mais ousados adeptos, a determinação desta influência é um facto positivo, adquirido para o pecúlio dos nossos conhecimentos, e de um sério valor científico, quando contido em sensatos limites. Não nos parece razoável explicar tudo, mesmo o que não tem explicação no estado actual da ciência, pelo mito solar.2 Enquanto a nós, este processo em demasia cómodo e expedito num grande número de casos, precisa para ser aceite de justificar-se pela filiação histórica, único critério seguro nesta ordem de investigações. Ora isto nem sempre acontece, como os nossos leitores o sabem. Mas por não sermos dos que acham evidentes todas as explicações hoje apresentadas pela “teoria solar”, não quer isto dizer, que nos recusemos a aceitar aquelas que realmente o são. Assim, concordamos plenamente em que os dois movimentos aparentes do Sol – o de rotação e o de translação – e os fenómenos terrestres que são consequência destes dois movimentos, tendo tido uma importância capital na existência da humanidade primitiva, formam o fundo de muitos mitos, de muitas lendas, e de muitos usos, perfeitamente adequados ao meio que os produziu, e hoje decaídos em incompreensíveis superstições e ainda mais do que incompreensíveis, por vezes ridículas e absurdas.
2Assim nos velhos cultos naturalísticos, que representam um subsolo de grande consistência com relação a muitas crenças e usos actuais, as cerimónias que simbolizavam o giro das estações, que por seu turno simbolizava na imaginação do homem primitivo o drama quotidiano da luta entre o dia e a noite, ocupavam um lugar proeminente, diremos mesmo, quase exclusivo. Daí, naturalmente, duas grandes celebrações ou festividades populares (melhor seria chamar-lhes “universais”): a saída do Inverno, isto é: a chegada da Primavera, do Verão, da estação fertilizadora, por excelência; e a saída do Verão, isto é: a chegada do Inverno, da estação de torpor, a época da morte de toda a natureza. Em ponto mais pequeno, esta dupla celebração dava-se todos os dias. Não há mais do que abrir o Rig-Veda, e a cada passo ali se depara com as jubilosas exclamações do Ária à aproximação do Sol nascente que vem trazer à Terra luz, fertilidade e vigor, e com as tristes despedidas, cheias de fúnebres pressentimentos, que, passadas horas, ele envia ao astro do dia prestes a perder os seus doirados raios e a começar a sua peregrinação nocturna. A época da celebração das duas festas anuais varia segundo os diversos povos, mas oscila em volta de dois pontos extremos, que representam os dois momentos de transição – o solstício de Verão e o solstício de Inverno – coexistindo ainda assim ao lado destas, mas com um carácter secundário, festas populares referidas às diversas posições intermédias que qualquer das principais acima mencionadas conservava nos diferentes povos. Assim, temos a festa de Maio, temos a Quarta-Feira de Cinzas e a morte do Inverno, temos festas do Outono, etc., etc. mas apenas com um carácter mais ou menos local, sem a importância das outras duas. O herói é sempre o mesmo, quer se chame Adónis, ou Lino, ou Baldur; é o Sol, o jovem deus que na força da vida e em meio da sua carreira é ferido pela morte para tornar a ressuscitar.
3Afanasiev, referindo-se à representação deste fenómeno natural na imaginação infantil do povo, diz o seguinte:3
“O Sol, atingindo a plena manifestação da sua força criadora, inclina-se para a Terra, e cada dia vai perdendo mais e mais o seu vivificador brilho; os dias começam a decrescer, e a noites a aumentar. Esta volta (povorót) do Sol, isto é: a sua ida para a longínqua carreira hibernal, é acompanhada de celebrações populares, coincidindo com o dia de São João Baptista (24 de Junho). A chama das fogueiras, feita na véspera deste dia, é uma representação simbólica do abrasador sol de Junho, etc.”
4É esta a verdadeira significação do costume. Não nos parece por tal motivo fundamentada a explicação que dele dá o nosso ilustrado colega e amigo Teófilo Braga, quando diz:
“Igual fenómeno etnográfico se dá com as festas e cantos da noite de São João, que existiam nos costumes góticos e se reforçaram em presença dos Árabes. O São João era uma festa dos Germanos e Escandinavos, que variava do equinócio da Primavera ao solstício do Outono; a Igreja Católica não podendo banir completamente este costume das raças do Norte, santificou-o com o nome do precursor de Cristo. Na Alemanha e na Bélgica ainda se chamam às fogueiras que o povo acende nesta festa, oster feuer, porque antes da condenação do catolicismo a festa do solstício se chamava de Eoster, por isso que se acendiam fogueiras de alegria em honra de Freya. No Concílio de Agda do século VI, já as fogueiras de Freya se diziam feitas em honra de São João. Os Vândalos, que chegaram até África, para ali levaram a mesma festa, de que o catolicismo romano se apropriou introduzindo-a no Calendário de Cartago. Em todas as províncias do Reino ainda estão no seu vigor as fogueiras de São João, e em bastantes romances populares se alude a esta festa de Freya, pela fatalidade de uma reminiscência da extinta poesia gótica.”4
5A celebração do solstício de Verão não é uma festa exclusivamente germânica, nem mesmo exclusivamente indo-europeia, ainda que é entre os Árias onde ela hoje se encontra em maior vigor. Que não é o resultado entre nós de uma transplantação germânica simplesmente, prova-o ainda de um modo indirecto, mas eficaz, a existência da mesma celebração entre os Eslavos, onde ela tem tanta ou mais vitalidade do que na própria Alemanha, e onde está perfeitamente assimilada às velhas crenças nacionais.5
6Deixando para outra ocasião discutir especialmente o assunto, que apenas indicamos nas linhas que precedem, vamos desde já passar a apresentar aos leitores algumas crenças e superstições do nosso povo, que se ligam com a festa do São João, objecto imediato do presente escrito.
7Garrett, o inspirado denunciador das nossas poéticas tradições nacionais, por mais de uma vez alude, como abaixo veremos, às crenças e às lendas que acompanham com uma adorável ingenuidade a celebração desta festa na liturgia popular. Em nota a uma passagem a Dona Branca,6 diz o seguinte: “É crença popular entre nós, que na noite de São João todos os encantamentos se quebram: as moiras encantadas, que ordinariamente andam em figura de cobras, tomam nessa noite sua bela e natural presença e vão pôr-se ao pé das fontes, ou à borda dos regatos a pentear os seus cabelos de oiro. Os tesouros sumidos no fundo dos poços vêm à tona de água, e mil outras maravilhas sucedem em tão milagrosa noite.” Abaixo nos ocuparemos com mais detalhe da poética crença nas mouras encantadas.
8A festa de São João é, com efeito, a mais vital e a mais brilhante de todas as nossas solenizações populares.
9No Norte e no Sul do Reino, nos campos, nas aldeias e nas cidades, incluindo Lisboa, igualmente ela se manifesta pelos mesmos folgares, misturados por vezes com a mesma melancólica tristeza, como o duplo carácter naturalístico da festa – a celebração do mais alto grau de vitalidade do fecundador por excelência, o Sol, e ao mesmo tempo a comemoração da sua entrada simultânea na triste peregrinação do Inverno.
10Na noite que precede o dia do solstício (24 de Junho) isto é: no dia 23, é costume entre nós, do mesmo modo que entre os demais povos latinos e germânicos7 e os eslavos,8 acender fogueiras que, fora das cidades, se dispõem de preferência nas colinas. Estas fogueiras, principalmente nos campos, são feitas com a rama de diversas árvores ou arbustos; no Algarve em alguns sítios são de alecrim, planta que, como se sabe, tem grandes virtudes contra toda a espécie de malefícios na nossa medicina popular. Nalgumas aldeias do Minho esta fogueira é feita em volta de um pinheiro, que nesse dia se planta entre as casas. É ao que se chama galheiro.
11Em Coimbra as fogueiras são também feitas em volta de um pinheiro enfeitado todo de louro.
12No Algarve é costume na noite de São João dançar-se em volta do mastro de murta florida, enfeitado de madressilva e capelas-de-são-joão, junto da fogueira de alecrim.9 É em torno destas fogueiras, centro simbólico de toda a festa, que se reúne a mocidade de ambos os sexos para os seus bailados e descantes. Para os rapazes é de preceito o “saltar” por cima das chamas, sendo mesmo geralmente conhecida esta festa popular entre nós pela denominação de saltar das fogueiras. Este detalhe, com efeito, é essencial da cerimónia, e de um carácter bastante primitivo, porque se encontra com a mesma persistência entre os Germanos e Eslavos. Têm as fogueiras além disso uma influência benéfica sobre a saúde e o poder de afugentar os malefícios e ainda outras virtudes. Assim nalguns sítios as mães passam por elas as crianças doentes para sararem, e mesmo as sãs para não adoecerem.10 Também às fogueiras do São João se liga no maravilhoso popular a ideia de um poder de penetração do futuro, principalmente no que toca aos mistérios do amor, que nessa noite de excepcional pureza se patenteiam sem véu aos ansiosos olhares da mocidade cheia de vida e esperanças. Em Lisboa e nos arredores, por exemplo, as raparigas, depois de se extinguirem as últimas labaredas da fogueira, no borralho que fica, metem cinco réis. No outro dia vão buscar o dinheiro e dão-o ao primeiro mendigo que aparece, cujo nome é o nome do homem com quem casarão. Mas de todas as superstições deste género com relação à fogueira a mais poética é sem dúvida a da “alcachofa”.11
13Toda a rapariga solteira, na noite de São João queima à fogueira uma alcachofa florida, dizendo estas palavras: em louvor de São João, a ver se o meu amor me quer bem ou não, e dedicando-a secretamente ao namorado, que pela sua parte faz o mesmo. Esta alcachofa com a flor assim queimada é cuidadosamente levada para casa e posta ao relento. Deve recolher-se de madrugada antes de o Sol nascer, e se floriu de novo durante a noite é um sinal de felicidade e que o namorado ou namorada corresponde ao afecto que lhe é dedicado; no caso contrário, isto é, se se conserva queimada, é o pressago indício de um amor infeliz. A força com que floresce, representa além disso a intensidade da paixão.
14Na Noite de São João12 vem esta crença popular descrita pela seguinte forma:
Como eu queimo esta alcachofa
Em vossa fogueira benta,
Assim queime a saudade
Que no peito me arrebenta.
Como arde esta alcachofa
Na vossa fogueira benta,
Assim arda a negra barba
Do moiro que me atormenta.
Como esta fogueira abrasa
A minha alcachofa benta,
Ao meu cavaleiro abrase
A chama de amor violenta.
Sacudi do alto do céu
Vossa capela de flores,
Que neste ramo queimado
Renasçam por meus amores.
15Em Alenquer,13 e ainda noutros pontos, esta superstição apresenta a seguinte variante: queima-se à fogueira da véspera de São João a “erva-pinheira”,14 e depois leva-se para casa e pendura-se à cabeceira. Se reverdece é a pessoa (rapariga ou rapaz) correspondida no seu amor, se não reverdece, pelo contrário, não é. Ainda na Beira se encontra uma terceira variante: na noite de São João colhe-se uma folha de figueira, passa-se três vezes pelo fogo (da fogueira?) e põe-se no quintal ou no telhado ao relento. Se de manhã está orvalhada é a pessoa correspondida no seu amor, se não está, não é.15
16Também é uso, principalmente nas grandes povoações, e em Lisboa de todo ponto geral, o queimar-se à fogueira e em toda a duração da festa, fogo preso ou do ar em grande quantidade. Este costume igualmente é popular na festas e Santo António (13) e nas de S. Pedro (29) e S. Marçal (30) que entre nós são como que um desdobramento e uma repetição da festa principal.
17Depois da fogueira, tem lugar a vigília, porque nessa noite abençoada, nessa “noite mais clara que o dia”16 é de preceito ninguém se deitar. Este uso é geral em todo o País. “De todas a festas populares do Algarve, diz o Sr. Estácio da Veiga,17 as da vigília e dia de São João constituem as mais gerais e as mais folgadas.”
18A fragância porém da natureza desabrochando nessa noite em um florescimento universal, a embriaguez que o rescender das flores rociadas do bento orvalho espalha pelo ar embalsamado, transformam às vezes esta vigília num doce e delicioso sono, cheio dos mais suaves encantos e das mais castas felicidades. Assim descreve Dona Ausenda ao pai que a interroga, esta noite maravilhosa, em que a criação inteira parece fecundar-se num voluptuoso beijo:
– Há quanto tempo, senhora
Vos sentis embaraçada?
– Os nove meses faz hoje
Que ali naquela ramada
Na noite de São João
Adormeci descuidada;
Sentia o cheiro das flores
E da erva rociada,
Sentia-me eu tão ditosa
Tão feliz e regalada,
Que o despertar me deu pena
Quando veio a madrugada.18
19Além disso, a vigília prepara para a madrugada, momento o mais ansiosamente esperado, pelos prodígios que desvenda e pelas maravilhosas virtudes que possui, como vamos ver:
… manhã de São João
Manhã de doce alvorada.19
20Nalguns sítios, porém, é este momento supersticiosamente temido, como por ex. em Vila Alva (Alentejo),20 onde é crença que no dia de São João ninguém deve sair para o campo antes do Sol nado, porque se encontram cobras encantadas, a pentearem os cabelos negros. Mas em geral a madrugada de São João é considerada como extraordinariamente benéfica. Logo ao romper da alvorada, nas nossas aldeias, raparigas e rapazes se vão ao campo colher as flores bentas e o orvalho da noite, que como veremos possui maravilhosas virtudes. É a esta cena que alude a seguinte passagem da Serrana tal como ainda hoje se encontra na tradição do Algarve.21
Ao campo se vai Jacinta
Mananhita22 de São João
Com seu borzeguim de seda,
E saia cor de limão.
Para a ver se erguera o Sol,
As aves cantando vão;
Jacinta a flor das campinas,
Sobre as flores corre a mão;23
Uma capela tecera
Das capelas-de-são-joão,24
Da cheirosa madressilva
Da verde murta em botão.
21Com relação às flores e ervas bentas, que sendo apanhadas na madrugada de São João antes de o Sol nascer, têm grandes virtudes medicinais e servem para cortar feitiços, já vimos num trabalho anterior, que delas se faz menção numas Constituições do Bispado de Lamego do século XVII.
22Póde-se também por exemplo, no que se tem introduzido e dia de São João Bautista, que se colhão hervas e levem a agua da fonte para casa, ou se lave a gente, e os animaes nella, antes do Sol nascer, metendo na cabeça á gente de pouco saber, que redunda em honra, e louvor do Santo: E que depois de nascer o Sol, ou em outro dia, colhidas as hervas em nome e honra delle, não terão igual virtude.25
23Sá de Miranda também faz alusão ao mesmo costume nos seguintes versos:26
Mañana de San Juan, quando a las flores,
Y al agua todos salen, quien tal gala
Vio nunca y tal donayre entre pastores.
24Em Penela, dia de São João, apanham as pessoas da terra a cabeça da “marcela”, a “salva do monte” e a “flor de sabugo”, que depois de secas são remédio para sezões.
25As superstições, que se referem à água, são ainda mais variadas e mais geralmente acreditadas e seguidas. A par das relativas às ervas, vêm elas indicadas também nas duas passagens que acabamos de transcrever. Mas não se limita a essas vagas referências, o que sobre tais superstições já temos coligido. Assim, com relação ao orvalho caído na noite de São João, ou às “orvalhadas” propriamente ditas, temos mais as seguintes:
26O orvalho caído depois da meia-noite até ao nascer do Sol é bento, e cura todas as enfermidades. Cf. os seguintes versos da Noite de São João:27
Orvalhadas milagrosas
Que saram de tantas dores,
Neste coração, meu santo,
Acalmem os meus ardores.
No Porto e arredores as “orvalhadas” são ainda festejadas com o seguinte estribilho:28
Orvalhadas!
Minhas orvalhadas!
Viva o rancho
Das moças casadas!
Orvalhadas!
Minhas orvalheiras!
Viva o rancho
Das moças solteiras!
Orvalhadas!
Minhas orvalhudas!
Viva o rancho
Das mulheres viúvas!
27Em Aveiro era costume há algum tempo (não sabemos se o é ainda agora), quando uma pessoa tinha moléstia de pele, ir rebolar-se ou espojar-se nua em cima dos linhos orvalhados na noite de São João.
28Em Oliveira do Hospital, porém, diz-se que as bruxas costumam apanhar o orvalho desta noite, para fazerem dele o óleo com que se untam, a fim de poderem voar quando saem para as suas bruxarias. Mas a virtude do orvalho da noite de São João, estende-se nessa ocasião a toda a água. Assim: na madrugada de São João (Celorico da Beira), antes de o Sol nascer, devem correr-se sete fontes para beber a água delas. É ao que se chama: “Beber a água das sete fontes.” O mesmo costume se encontra em Oliveira do Hospital, e ainda em outros pontos do País.
29Em Lisboa e nos arredores é costume as raparigas na noite de São João irem a uma fonte à meia-noite lavar a cara. Se vêem a Lua a reflectir-se na fonte ficam mais bonitas.
30Em Penela (Coimbra), no dia de São João, antes de nascer o Sol, vão as raparigas aos chafarizes ou fontes buscar água. É crença que a primeira que enche o cântaro encontra um anel de oiro ao de cima de água. Por isso e à porfia logo ao romper da manhã vão para o pé das fontes, para serem as primeiras aí a chegar.
31A água apanhada à meia-noite no dia de São João é benta e livra de feitiços. Em Aveiro, as raparigas, na madrugada de São João vão lavar-se ao rio, cujas águas nessa ocasião têm grande virtude.
32Em Lisboa as raparigas têm também o costume de ir à meia-noite aos chafarizes buscar uma bilha de água, para terem em casa todo o ano.
33Nos Açores é crença29 que a água que fica ao relento na noite de São João é incorruptível; pão amassado com ela dispensa o fermento.
34Em Lisboa também é costume pôr uma porção de água ao relento na noite de São João. Depois tira-se antes do nascer do Sol e benze-se a casa com ela para dar felicidade.
35Em Oliveira do Hospital, na madrugada de São João, vão os pastores para o pé dos ribeiros e molham com a água o gado para ficar bento.
36No Minho existe o mesmo costume, para o livrar da tinha.
37As superstições porém relativas à noite e ao dia de São João não se limitam às que deixamos apontadas, e vamos apresentar ainda outras muito comuns, e que da mesma forma se encontram em diferentes povos,30 tendo por isso um carácter tradicional. Como nestes estudos apenas coligimos o material, que posteriormente há-de ser cientificamente coordenado, não classificaremos as superstições que adiante damos, reconhecendo contudo desde já, que o seu valor tradicional e mítico não é igual em todas elas, como de resto se devia esperar.
38Nas Caldas da Rainha e arredores, é costume na noite de véspera de São João apanhar-se um molho de erva cidreira e ir-se passear com ela. Fazendo depois chá e tomando-se, livra de feitiços.
39Na noite de véspera de São João as raparigas de alguns lugares nos arredores de Lisboa e nas Caldas da Rainha cortam as pontas do cabelo, arrancam um olho de cana verde e põem o cabelo dentro, plantando-o depois. Se a cana cria raízes e cresce, cresce o cabelo também.
40É crença entre o povo que no dia de São João o Sol quando nasce começa a dançar, ou, segundo outra versão, que dá três voltas.31 Por isso, em muitos sítios (Celorico da Beira por ex.) algumas pessoas se levantam de madrugada para presenciarem tão extraordinário fenómeno.
41Na noite de São João,32 é bom colher um figo de uma figueira à meia-noite. Se o figo se conserva verde até à seguinte noite de São João, é sinal que ninguém quer mal à pessoa que o apanhou. Se seca é porque a pessoa que o apanhou anda metida em mãos de bruxas sem o saber, e deve ir lavar-se a uma fonte, em sendo meia-noite, para se livrar delas.
42Em Penela (Coimbra), é costume no dia de São João33 ir-se a searas e sementeiras e espetar-se nelas uma cruz de louro ou de alecrim, para lhes não dar o mal.
43Na noite de São João segundo a crença popular, o “feto real” (planta) larga a flor à meia-noite. É costume estender-se um lenço por baixo da planta, para a flor, que tem grandes virtudes, cair nele. Mas é muito difícil depois ir buscar o lenço, por causa das bruxas que o não consentem. No entretanto se lá se pode chegar, apanha-se a flor, mete-se dentro de um canudo de lata, e quando se quer saber alguma coisa, vai-se ao canudo porque se sabe logo (Oliveira do Hospital). Nalgumas terras do Minho esta crença apresenta a seguinte variante:34 acredita-se que o feto deita semente invisível, que só na noite de São João cai com as sacudidelas do Diabo. Por isso antes da meia-noite vai-se pôr debaixo do feto um guardanapo com 120 réis em prata em cada ponta. Leva-se uma espada, para à retirada vir fazendo cruzes com ela a fim de não se ser apanhado pelo Diabo. No outro dia vai-se buscar o guardanapo com a semente, que fica com a virtude de atrair para o dono dela quem lhe esteja próximo.
44Ainda o Brasil nos apresenta outra variante da mesma crença:35 Diz-se aí que a arruda dá flor no dia de São João, mas que o Diabo vai buscá-la na hora em que desabrocha, sendo por isso que não se encontra.36
45Já vimos que a fogueira de São João tem certas virtudes para a nossa medicina popular; em Lisboa porém e arredores, tais virtudes são em geral o característico de toda essa noite em que tem lugar mais de uma cura milagrosa. Assim quando se quer curar uma criança quebrada, faz-se a seguinte operação: na noite de São João, à meia-noite em ponto, abre-se um vime, coloca-se de um lado um rapaz chamado “João”, e do outro uma rapariga chamada “Maria”,37 que sejam ambos puros, isto é: até à idade de dez ou onze anos. Depois tomando o rapaz a criança nos braços diz:
Maria! em louvor do Senhor São João
Toma lá o meu menino doente
E dá-me um são.
46E passa-a através do vime para os braços da Maria, que responde por seu turno:
João! em louvor do Senhor São João
Toma lá o meu menino doente
E dá-me um são.
47Tornando a entregá-la ao rapaz, sempre através do vime. Repete-se isto três vezes, feito o que, rasga-se a camisa da criança em tiras e ata-se o vime com uma delas. Se o vime solda as duas metades em que foi aberto e continua verde, sara a criança; se pelo contrário seca é porque a quebradura é incurável.
48No Ceará38 (Brasil) existe a mesma superstição, que se realiza pela seguinte forma: na noite de São João vai-se a um lugar do campo onde existam alguns pés de pinhão bravo, arbusto de natureza silvestre. Marcam-se tantos destes arbustos quantos são os doentes que se pretendem curar, e faz-se diante de cada um deles uma pequena fogueira. Abre-se depois com uma faca uma fenda longitudinal na haste do pinhão, que tem ordinariamente de duas a três polegadas de diâmetro, deixando-a todavia unida nas duas extremidades; e como as partes divididas sejam bastante flexíveis, abrem-se com as mãos e abertas se conservam, até que o doente seja passado três vezes pela fenda e por cima da fogueira, recitando a cada passagem e em voz baixa uma ave-maria. Feito isto, unem-se muito bem as duas partes da haste, ligando-se. Se depois de um certo prazo as partes divididas se reúnem, e o arbusto continua a desenvolver-se, está o doente curado; no caso contrário não se cura.
49Também na noite de São João se faz o seguinte remédio para tirar as verrugas (Meãs, Coimbra): contam-se as verrugas e contam-se depois tantas pedras de sal dentro de um bocado de pão, que se dá a comer a um cão, ficando assim a pessoa livre das verrugas, ou então embrulham-se as pedras de sal num papel e atiram-se a um pobre, que, quando as apanha, passam para ele as verrugas. Dissemos já, quando nos ocupámos da superstição da alcachofa e das suas variantes, que a fogueira de noite de São João tinha em certos casos o poder de revelar o futuro, principalmente no que toca a questões de amor. Este mesmo poder de revelação tem em geral toda essa noite, pelo nosso povo dedicada às sortes que lhe hão-de simbolicamente profetizar acontecimentos, que estão por vir. Estas sortes quase sempre limitam-se a inquirir pouco mais ou menos o seguinte: quantos anos se estará solteiro, com quem se há-de casar, se o casamento há-de ser feliz ou infeliz, rico ou pobre, etc. etc., ainda que com diversas variantes, como vai ver-se.
50Nos arredores de Lisboa as raparigas solteiras na noite de São João fazem três bolas de massa, uma das quais tem dentro um grão de pimenta. Depois de as terem misturado, deitam uma da janela abaixo, põem outra debaixo do travesseiro, e a terceira atrás da porta. Ao outro dia vão-as procurar. Se a que ficou debaixo do travesseiro é a que tem o grão de pimenta, casam breve: se é a que ficou atrás da porta casam tarde: se é a que atiraram à rua não casam nunca. Também na noite de São João é costume em Lisboa as raparigas solteiras subirem uma escada com um chinelo na ponta do pé, e quando chegam ao último degrau atirarem com ele para trás das costas. Quantos degraus faltarem para o chinelo chegar ao fundo da escada tantos anos lhes faltam para se casarem. Estas superstições têm um grande número de variantes, pode dizer-se de aldeia para aldeia, algumas das quais coligimos, mas que é inútil aqui apresentar. Assim por ex. para se saber quando se casa, põem-se na noite de São João debaixo do travesseiro uma chave, um rosário, e uma mão cheia de terra. Quando a rapariga de madrugada acorda e vai procurar a “sorte”, se primeiro toca na chave, casa nesse ano, se toca no rosário fica para freira, se põe a mão na terra morre antes de chegar o outro dia de São João (Caldas da Rainha). Em Lisboa usam-se mais as seguintes sortes. Na noite de São João as raparigas solteiras arranjam três favas: uma toda despida da pele, outra meia despida, e a terceira com a pele toda, e põe-nas debaixo do travesseiro, Pela manhã, antes de se levantarem, devem sem ver tirar uma das favas. Se tiram a fava que tem a pele toda, hão-de ser ricas, se tiram a que tem a meia pele, nem hão-de ser ricas nem pobres. E se tiram a fava nua, hão-de ser pobres toda a vida.
51Na noite de São João, à meia-noite em ponto, as raparigas solteiras de Lisboa e arredores, põem-se à janela com um bochecho de água na boca, e esperam até que se oiça pronunciar um nome de homem na rua ou caminho, o que em geral não se faz muito esperar porque nessa noite e a essa hora são as ruas muito concorridas. Apenas o ouvem pronunciar deitam a água fora e o nome é o do homem com quem hão-de casar. Há ainda a sorte do ovo e a da cera, muito usadas e com um certo número de variantes,39 que se executam da seguinte forma: à meia-noite deita-se um ovo, depois de aberto, ou uma porção de cera derretida aos pingos, num copo cheio de água, que depois se deixa ficar ao relento. Pela manhã antes de nascer o Sol recolhe-se o copo para casa e vê-se a forma, que na água tomou a clara do ovo ou a cera. Assim por exemplo, se aparece a forma de um navio, casará a pessoa, que deitou a sorte, com um homem do mar; se pelo contrário se percebe a forma de um caixão, morrerá antes de um ano, etc., etc. Ainda, se bem que menos vezes, em Lisboa existe a seguinte superstição para uma rapariga solteira saber com quem há-de casar: na noite de São João a rapariga, que deseja conhecer a sua sorte, deve pôr uma mesa numa casa às escuras e aí ficar sem dizer nada a ninguém, nem ninguém saber. Na mesa deve haver ceia para duas pessoas, dois talheres e dois pratos. Ao dar da meia-noite deve começar a comer, e nessa ocasião aparece no lugar que está vazio, a comer também, a figura do homem que há-de casar com ela. Podíamos ainda apresentar outras superstições idênticas relativas ao mesmo assunto, mas, como acima dissemos, as que indicámos são, por assim dizer, o tipo do género e por agora tanto nos basta.
52Mas o dom de revelação da noite consagrada ao Baptista não se limita a simples horoscópios ou vaticínios; vai ainda mais longe. E se bem que nesta parte das nossas investigações não tenhamos colhido até hoje grande resultado, não temos dúvida em afirmar que explorações futuras hão-de preencher esta lacuna. Como diz o Prof. Angelo de Gubernatis:40 “o nascimento do precursor João precede seis meses o nascimento do Cristo redentor; o que precede anuncia o que vai chegar.” É provável pois, ou pelo menos é possível, que esta circunstância reagindo no espírito popular concorresse para fazer valer o poder de revelação que tem na tradição do povo a noite de São João, sem contudo querermos avançar que tal crença é apenas um resultado de adaptação da lenda cristã, e que não é um dos muitos elementos primitivos que nesta festa sobreviveram. “Assim, na noite de São João põe a gente do povo em Beja numa tábua doze montinhos de sal, aos quais se dão os nomes dos meses, começando por Janeiro, Fevereiro, etc; passam depois a tábua pelo fumo de uma fogueira e deixam-na ficar toda a noite ao relento de manhã, antes de o Sol nascer, correm à tábua para examinarem qual dos montinhos de sal está mais húmido, e é então que sabem quais os meses em que choverá mais, segundo os nomes que lhes deram e a humidade de cada um.”41
53Mencionamos ainda as duas seguintes superstições: É bom sangrar-se no dia de São João antes de nascer o Sol, para não ter sezões. Na noite de São João põe-se debaixo de um copo um vagalume (insecto) e umas pedras de sal. É crença que ao outro dia em lugar de sal aparecem cinco réis.
54Na noite de São João deve destapar-se o pote e olhar para dentro; se se vê a imagem reflectindo-se na água é bom sinal, se não se vê é porque se morre antes de ano e dia. No Brasil existe também a mesma superstição: quem na madrugada do dia de São João Baptista, não vê a sua sombra ao chegar à borda de um poço ou fonte não vive até ao ano seguinte.42
55Também na nossa feitiçaria existe a crença de que têm uma força terrível os esconjuros feitos no dia de São João ao nascer do Sol.
56Restava-nos apresentar aos nossos leitores os vestígios, que da festa de que nos ocupamos e das superstições que lhe são conjuntas, se encontram na poesia popular. Temos os elementos para fazer esse trabalho, por isso, coligimos um grande número de cantigas inéditas a São João, principalmente dos arredores do Porto e Abrantes, que não se acham mencionadas em cancioneiro algum até hoje. Mas como essas cantigas, com outros fragmentos, inéditos também, da poesia do nosso povo, devem ser publicadas numa revista científica do estrangeiro,43 entendemos que não nos era lícito antecipar aqui parte dessa publicação. Bastará dizer, por agora, que quase todas as superstições que temos apresentado, mais ou menos a elas se alude nas cantigas populares. Há mesmo nelas alusões a superstições provavelmente hoje perdidas e não compreendidas já.44 Não chegámos contudo ainda ao fim do nosso trabalho. Devem ter reparado os leitores, que sistematicamente temos evitado aludir a uma das mais poéticas crenças, digamo-lo mesmo, mais nacionais do nosso maravilhoso popular. Referimo-nos às mouras encantadas. Foi porém pela importância do assunto que o reservámos para este lugar, hesitando mesmo se o deveríamos fazer objecto de uma “Contribuição” à parte. Incluímo-lo no fim do presente escrito, reservando-nos para o futuro fazer dele um capítulo especial da nossa Mitologia. Já encontrámos uma alusão de Garrett a esta superstição do nosso povo e agora vamos ver como ele no-la descreve na Dona Branca. Diz o seguinte numa bem conhecida passagem:45
E vós, fermosas moiras encantadas,
Na noite de São João ao pé da fonte,
Áureas tranças com pentes d’oiro fino
Descuidadas penteando – enquanto o orvalho
Nas esparsas madeixas arrocia
E os lúcidos anéis de perfas touca…
57Todos os detalhes, que nestes versos se lêem, são rigorosamente verdadeiros, e por mais de uma vez os temos encontrado confirmados pela tradição oral, com novos pormenores ainda como veremos. Mas antes digamos duas palavras sobre a natureza dessas entidades da nossa mitologia. As mouras encantadas (e abstraindo do nome, que bem claramente indica o facto nacional que o fixou) são divindades femininas das águas, análogas às nixen germânicas e às rusálki eslavas.46 Contudo parece que entre nós nem sempre tiveram este carácter, como se depreende dos fragmentos que em seguida publicamos, extraídos de dois processos da Inquisição:
“Prometia também (o reo, Francisco Barbosa, chamado “o tio de Massarellos”) descobrir thesouros e minas de muitas legoas, e dizendo-lhe certa pessoa que para isso poderião conduzir muito algüas palavras que referia, o Reo lhe respondeu que para o intento só servia hum livro que tinha; convidando logo para esta empreza muitas pessoas de ambos os sexos, segurando-lhes, que dentro do Mineral acharião doze Mouros ricamente vestidos com seus espadins nas mãos, e outras tantas Mouras muito bem adereçadas, com sayas bordadas, e muitas pessas de ouro, e diamantes, o que tudo se havia de repartir entre o Reo e a sua comitiva; e que despoiz de despojados os Mouros cahirião por terra reduzidos a cinza, e entrarião a repartir entre si copiozissimos thesouros.”47
“Disse (Rosa Maria) que haverá dois annos e meyo, estando asistente na vila Gaviam do Priorado do Cratto, e sahindo hum dia com seo Marido ao campo buscar lenha, entrando a cavar para arancar algumas sepas, achou duas pedras que lhe parecerão duas pias munto mal feitas, e vendo que aquelas pedras erão estranhas naquele sítio; por não haver nele qualidade alguma de pedras; entrou na concideração de quem as poria naquele lugar; e para que serviriam. E lembrada de ter ouvido a varias pessoas, que naquelle lugar haviam muntas Minas do tempo dos Mouros; teve pensamento se serião as ditas pedras sinal de alguma Minna, ou se teriam servido para no seo vam se meter algum dinheiro, ou pedras preciosas; e recolhendo-se para caza com esta lembrança a comunicou a sertas pessoas, as quaes entrárão a entender ser sinal de alguma Minna, referindo cada huma sucesos de Minnas, que tinhão ouvido dizer se acharão naquele sitio e de haver nelas Mouros encantados […] e por esta lembrança entrou a afirmar […] que sonhara havia naquele sitio uma mina com muntas riquezas; e que nela estava hum Mouro, e huma Moura encantados.”48
58Nestes dois documentos as “mouras encantadas” aparecem-nos unicamente como guardadores de tesouros escondidos, que a imaginação popular representa como existentes nas entranhas da terra.
59Esta crença em riquezas ocultas, de um alto valor tradicional e que se encontra também entre os Germanos e Eslavos (cf. Grimm e Afanasiev), ainda hoje, embora de um modo muito atenuado, existe entre o nosso povo e especialmente referida às mouras encantadas, como abaixo veremos. Mas por isso que as mouras encantadas actualmente só aparecem em conjunção com o elemento húmido, os tesouros a que nos referimos deixaram de ser colocados pela fantasia popular no centro da terra, para permanecerem escondidos no fundo dos poços e das fontes, a cuja superfície vêm na noite de São João, quando todos os encantos momentaneamente se quebram, e todos os esconjuros perdem o seu efeito mágico. Ao primeiro período na concepção das “encantadas” refere-se a seguinte tradição do Algarve: é aí crença muito antiga e arreigada “de que na cidadela mourisca da cidade de Tavira, reedificada em 1331 por el-rei D. Dinis, da meia-noite da véspera para a madrugada do dia de S. João, aparece sobre o terrado da muralha uma formosa e gentil moira, requerendo de amores um cavaleiro, que possa quebrar o seu encantamento”.49 Esta mesma tradição constitui o fundo do Romance da Moira Encantada,50 como pode ver-se:
Meia-noite além ressoa
Cerca das ribas do mar,
Meia-noite já é dada,
E o povo ainda a folgar
Em meio de tal folguedo
Todos quedam sem falar,
Olhos voltam ao castelo
Para ver, para avistar
A linda moira encantada,
Que era triste a suspirar.
– Quem se atreve, ai quem se atreve
Ir ao castelo e trepar,
Para vencer lo encanto
Que tanto sabe encantar?
Ninguém há que a tal se atreva,
Não há que em moiras fiar;
Quem lá fosse a tais desoras
Para só desencantar,
Grande risco assim correra
De não mais de lá voltar.
– Ai que linda formosura,
Quem a pudera salvar!
O alvor de seus vestidos
Tem mais brilho que o luar!
Doces, tão doces suspiros,
Onde ouvi-los suspirar?
Assim um bom cavaleiro
Se estava a delatar,
Em amor lhe ardia o peito,
Em desejos seu olhar.
Três horas eram passadas
Neste contínuo ansiar,
Cavaleiro d’armas brancas
Nunca soube arreceiar,
Invoca a linda moirinha,
Mas não ouve o seu falar;
Nada importa a Dom Ramiro
Mais que a moira conquistar.
Vai subir por muro acima,
Sente os pés a resvalar!
Ai que era passada a hora
De a poder desencantar.
Já lá vinha a estrela d’alva
Com seus brilhos a raiar.
No mais alto do castelo
Já mal se via alvejar
A fina e branca roupagem
Da linda filha de Agar,
Ao romper do claro dia,
Para bem mais se pasmar,
Saiu do castelo uma nuvem,
Era apenas a pairar.
Jurava o povo, jurava
E teimava em afirmar
Que dentro daquela nuvem
Vira a donzelinha entrar.
Dom Ramiro de enraivado
De não poder-lhe chegar,
Dali parte e contra os mouros
Grande briga vai armar,
Por fim ganha um bom castelo,
Mas sem moira para amar.
60Mas nas superstições actuais do nosso povo “as mouras encantadas” são, como dissemos acima, divindades ou génios femininos das fontes. Na noite de São João deixam a forma de cobras sob que vivem todo o ano no fundo dos poços ou regatos, e em figura humana vêm pentear para fora da água os seus cabelos de oiro. Este último detalhe que é característico da crença, permite-nos reconhecer uma reminiscência da mesma superstição na seguinte passagem do Romance da Infanta de França51 (versão da Covilhã):
Dom João foi para a caça,
Foi à caça à porfia,
Anoiteceu-lhe num bosque,
Era o que ele mais temia;
Seus cavalos por ferrar,
Era o que ele mais sentia!
Lá pela noite adiante
Um lindo cantar ouvia,
Deitou os olhos ao largo
Viu lá estar uma donzila,
Penteando o seu cabelo
Em um tanque
de água fria.
– Que fazeis aqui, senhora,
Que fazeis aqui donzila?
“Sete fadas me fadaram
No colo de madre minha,
Fadaram-me por sete anos,
Por sete anos e um dia.
61Na madrugada do dia de São João vão as mouras estender os seus tesouros à orvalhada no campo. Esses tesouros ficam aí encantados sob a forma de figos. Se alguém passa, os apanha e não os come, transformam-se em verdadeiros tesouros. Se porém a pessoa, que os apanha, os come reduzem-se logo a carvão (Celorico da Beira). Em Penela (Coimbra) é crença que na fonte chamada da “Doeça” na noite de São João aparecem mouras encantadas. Quando ali vai alguma rapariga antes do nascer do Sol encher a bilha de água abençoada, as mouras começam a desencantar-se e a agradecerem à pessoa que lhes quebrou o encanto. As raparigas que já sabem isso, logo que chegam batem com as bilhas ou os cântaros na água e imediatamente começam a fazer-se à superfície umas bolhas, que segundo a crença local são as “encantadas” a saírem. Em seguida as raparigas crêem que elas vão beber nos cântaros a água benta do São João.
62Nos contos populares do nosso país também se encontram vestígios da crença nas “mouras encantadas” que descobrem tesouros e enchem de riquezas quem as desencanta. (Cf. A Moura Encantada – Coelho – Cont. Pop. Portug.) Muito mais teríamos que acrescentar não só com respeito à última parte do presente trabalho, mas em geral relativamente a usos, crenças e superstições populares observadas ainda hoje na noite e dia de São João. É quase mesmo impossível ser-se completo na exposição de um assunto desta ordem. O que tencionamos fazer é ir completando todos os dias com novos detalhes o quadro, que porventura aqui fica apenas esboçado. Em todo o caso, o presente escrito, assim como o anterior, serviram para dar uma ligeira amostra das riquezas que se escondem ainda no seio do nosso povo, e que prometem farta recompensa a quem souber procurá-las com perseverança e amor. Para nós cada vez mais se torna mais evidente a possibilidade da constituição de uma “Mitologia Popular Portuguesa”.
Notes de bas de page
1 Nota do Prefaciador: originalmente publicado em O Positivismo, 1879/80, 2.º vol.: 325-347.
2 Cf. os meus Ensaios Críticos – 1 – A “mitologia das plantas” de Angelo de Gubernatis.
3 Afanasiev – Poetitcheskiya vozzryeniya slavian na prirodu (ideias poéticas dos eslavos acerca da natureza), vol. III pág. 710.
4 Epopeias da Raça Moçárabe, pág. 45 e 46.
5 Pode ver-se em Afanasiev – Poetitcheskiya vozzryeniya slavian naprirodu, vols. I, pág. 212 e 744; II, pág. 376-377; III, pág. 470-471, 710-724 e 728; assim como em Ralston – The Songs of the Russian People, pág. 239-246, a verdade do que avançamos. Uma prova do fundo indo-europeu (na hipótese actual escusamos de ir mais longe) da festa do São João é ainda a seguinte: É sabido que os Gregos representavam a constelação de Sírio sob a forma de um cão furioso – tò kynastron i.e. a constelação do Cão, para simbolizar a força destruidora (por excesso de vitalidade) do sol de Estio. Pois entre os Eslavos (russos) a festa de São João é designada pelo nome de Kupálo, e esta palavra provém de uma raiz kup, que tem segundo o Prof. Buslaev a dupla significação de brilhar, ser rápido, ser veemente ou ardente. (Vid. Afanasiev – Poetitcheskiya etc., III, pág. 713. Cf. Ralston – The Songs etc., pág. 239). Em sânscr. kup = “incender-se em ira ou agitar-se por comoção”; cf. lat. cupio; ingl. hope; e al. hoffe. Trataremos deste assunto, de que apenas aqui falamos por incidente, com o desenvolvimento requerido, quando um dia escrevermos a Mitologia Popular Portuguesa, para que estamos contribuindo com estudos parciais e que conterá sob uma forma elaborada o resultado das nossas presentes e futuras investigações. É desnecessário mais uma vez acrescentar que aguardamos como elemento indispensável para este desideratum, a publicação importante que muito brevemente sobre o mesmo assunto tenciona fazer o nosso colega e amigo F. Adolfo Coelho, o mais perseverante colector até hoje das nossas tradições populares.
6 Dona Branca, cant. III, 3.
7 Cf. J. Grimm, Deutsche Mythologie, 4.te Auf. Como já acima dissemos, não fazemos por agora um trabalho comparativo sobre a nossa mitologia popular, mas coligimos apenas os materiais que mais tarde deverão ser submetidos a um rigoroso exame. Por isso, e fica dito uma vez por todas, não aproximamos o que em outros povos existe, do que sucessivamente formos descobrindo no nosso. Saiba-se apenas que a identidade é completa, apenas com a diferença da cor local. Cf. por ex. pág. 51 ob. cit. (o saltar das fogueiras); pág. 440, Anhang (virtude das ervas colhidas na madrugada de S. João) etc., etc.
8 Cf. Afanasiev, Poetitcheskiya vozzryeniya slavian na prirodu, vol. III pág. 714-715, (o saltar das fogueiras); pág. 716, (as orvalhadas); pág. 716, (virtude das ervas colhidas na madrugada do dia de São João): pág. 717 (a dança do Sol no dia de São João); pág. 718, (as três voltas que o Sol dá no dia de São João ao nascer – variante que se encontra entre os Sérvios e que corresponde exactamente a uma variante que nós próprios coligimos nos arredores de Lisboa). Na obra monumental de Afanasiev, ainda mais do que no livro clássico de J. Grimm, se pode seguir passo a passo o paralelismo perfeito entre as crenças e superstições do nosso povo, mesmo nos seus mais insignificantes detalhes, e a dos povos germanos e eslavos; e o que é notável é que são os Eslavos os que sob este ponto de vista têm connosco mais pontos de contacto, uma prova de que com efeito, a festa do São João não é entre nós o resultado de uma simples importação germânica.
9 Estácio da Veiga – Romanceiro do Algarve, pág. 33.
10 Em S. Tiago de Cabo Verde as cinzas das fogueiras de véspera de São João são preservativo contra várias moléstias e têm a virtude de acalmar a tempestade. (Alm. de Lemb. 1872 – Prejuízos Populares na Ilha de S. Tiago de Cabo Verde).
11 Garrett (Romanceiro – I, nota à Noite de São João) estava evidentemente mal informado, quando a respeito desta superstição, pode dizer-se geral em todo o país, disse o seguinte: “A superstição da alcachofa é toda do Sul, toda lisboeta, talvez daquelas de dia de Maio, que o católico senado municipal votou e prometeu a Nossa Senhora da Escada de acabar para sempre”. No entretanto, informam-me de que no Porto o uso é desconhecido.
12 Garrett – Romanceiro, I.
13 Foi-me indicada esta variante pela Snr.a D. Maria Augusta Baldaque, juntamente com muitas outras superstições usadas ainda hoje em Alenquer.
14 Não apresentamos desde já o nome científico, não só desta planta mas de outras que adiante designaremos apenas pela denominação popular, porque a identificação é em muitos casos de uma grande dificuldade, e para isso nos reservamos num futuro trabalho sobre a “botânica mitológica” do nosso povo, trabalho para o qual esperamos o valioso e indispensável auxílio de um ilustre botânico do País.
15 Almanaque de Lembranças, 1868, pág. 244.
16 Garrett – Dona Branca – cant. IX, 5.
17 Romanceiro do Algarve – pág. 31.
18 Garrett – Dona Ausenda, Romanceiro II.
19 Teófilo Braga – Romance da filha da imperador de Roma, Romanceiro, pág. 45; e Garrett – O segador, Romanceiro III.
20 Almanaque de Lembranças, 1866, pág. 311.
21 Estácio da Veiga – Romanceiro do Algarve, A. Serrana.
22 Diminutivo de “manhã”.
23 Alusão ao costume de colher o orvalho das flores.
24 Em nota a esta passagem, o Snr. Estácio da Veiga diz o seguinte (Rom. do Alg. log. cit.): “Capelas-de-são-joão chama a gente camponesa do Algarve a uma ranunculácea trepadora (Clematis cirrhosa. L.), que nasce espontaneamente nos campos e valados. Com as floridas e extensas varas desta mui aromática e vistosa planta é que os devotos de São João tecem grinaldas e capelas e enfeitam seus mastros de murta. É pois a este costume popular que alude a cantiga” (pág. 119).
25 Constituições Sinodais do Bispado de Lamego de 1639, Liv. V, Tit. III, apud Contribuições para uma Mitologia Popular Portuguesa, I.
26 Obras de F. Sá de Miranda, ediç. de 1614, fl. 55 v.
27 Garrett – Romanceiro, I. Cf. também a seguinte passagem:
…quando o bento orvalho
Estender seu influxo a terra d’impios
(Dona Branca, IX, 5)
28 Da minha colecção inédita de cantigas. Comunicado pela Snr.a D. Elvira de Macedo Damásio, de Santo Ovídio.
29 F. M. Supico – Almanaque do Arquipélago dos Açores – 1868, pág. 106.
30 Cf. além das obras de Grimm e de Afanasiev já citadas, o curioso e erudito livro do Prof. Angelo de Gubernatis – La mythologie des plantes – tom. I, pág. 185-192.
31 Para o valor tradicional desta crença veja-se uma nota anterior.
32 É a noite da véspera para o dia de São João, que possui todas as virtudes no nosso maravilhoso popular e não a seguinte ou a noite de dia de São João, propriamente dita. Por isso, quando por brevidade aqui se disser “noite de São João”, entenda-se que nos referimos à da véspera.
33 E também no de São Pedro, que entre nós é, como dissemos, um desdobramento da festividade principal.
34 Almanaque de Lembranças – 1861, pág. 181.
35 Alm. de Lemb. – 1864, pág. 284.
36 Cf. Afanasiev – Poetitcheskiya vozzryeniya, etc. Ill, 719.
37 Para a associação dos nomes de João e Maria, cf. Afanasiev – Poetitcheskiya vozzryeniya, etc. III, pág. 722; e Ralston – The Songs of the Russian People, pág. 241.
38 Alm. de Lemb., 1860, pág. 341.
39 Cf. por ex. para diversas sortes idênticas ainda que com outro fim e Proc. de Luis de La Penha, Arqu. Nac., maço 841, n.º 8179.
40 Mythologie des plantes, tom. I, pág. 185.
41 Alm. de Lemb., 1861, pág. 225.
42 Alm. de Lemb. 1860.
43 Romania dos Snrs. Gaston Paris e Paul Meyer.
44 Quando tínhamos escrito tudo o que precede, recebemos do doutor Giuseppe Pitré, o ilustre e infatigável explorador das tradições da Sicília, cuja obra pela riqueza de materiais já rivaliza quase com as de Grimm e Afanasiev, entre outros opúsculos os dois seguintes: Usi popolari siciliani nella festa di S. Giovanni Battista e Antichi usi e tradizioni popolari siciliane nella festa di S. Giovanni Battista, em forma de cartas à baronesa Ida Von Reinsberg-Düringsfeld, que está escrevendo especialmente um livro sobre o Johannstag (dia de São João). Se porventura neste momento tivéssemos de fazer o estudo comparativo das nossas superstições e usos populares, veríamos, como já o fizemos em duas notas anteriores com relação aos Germanos e Eslavos, a extraordinária coincidência que com o nosso apresenta o folclore da Sicília. Assim, as sortes do chumbo na água para se saber que ocupação terá o homem com quem se há-de casar, a dança do Sol ao nascer no dia de São João, que já encontrámos entre os Eslavos, as invocações ao Baptista para cedo se alcançar um noivo, etc. são usos e crenças comuns nos arredores de Lisboa e nas vizinhanças de Palermo. Ainda os dois opúsculos do doutor Pitré mencionam muitas outras superstições e usos, que com ligeiras variantes se encontram em Portugal. (Cf. ob. cit.)
45 Dona Branca, III, 3.
46 Cf. Grimm – Deutsche Mythologie – 4.ª ediç. I, 406 seg.; Afanasiev – Poetitcheskiya vozzryeniya etc. I, pág. 140-141, 578; II, pág. 217, 239, 244-248, 331, etc.; III, pág. 76, 78, 122-128, 139-152 etc.; Ralston – The Songs of the Russian People, pág. 139-146, 216; Liebrecht – Zur Volkskunde, pág. 376.
47 Inquisição de Lisboa – Proc. ms. n.º 4222, Arq. Nac.
48 Inquisição de Lisboa – Proc. ms. n.º 9801, Arq. Nac. Cf. a Contribuição seguinte.
49 Estácio da Veiga – Romanceiro do Algarve, pág. 33.
50 Esta lenda coligida no Algarve pelo Snr. Estácio da Veiga, foi pela primeira vez publicada no n.º 12 da Estrela de Alva. Daí passou para o Romanceiro do Algarve, figurando também reimpressa no Romanceiro Geral do Snr. Teófilo Braga. Existem variantes da lenda, que seria interessante conhecer, mas que não estão coligidas.
51 Teófilo Braga – Romanceiro Geral, pág. 26.
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