Prólogo
p. 7
Texte intégral
1Este trabalho insere-se na série de estudos que o Centro de Estudos de Etnologia tem vindo a publicar sobre os aspectos materiais mais importantes da vida rural do nosso País, como parte indispensável para qualquer síntese consistente sobre a cultura portuguesa. Ele representa a fusão, a revisão, a ampliação e unificação de vários trabalhos analíticos prévios realizados pelo mesmo Centro, que focavam capítulos específicos desse tema, dentro do programa fixado logo nos seus primórdios, em 1947, e que tem vindo a cumprir paulatinamente.
2A alfaia agrícola é a forma concreta do próprio trabalho do campo; e basta isso para medir a sua importância e o seu valor, a sua dignidade e a sua beleza. Mas a ela estão ligados conceitos vitais basilares, económicos, sociais, psicológicos e morais. E a sua mutação, que se opera hoje de modo radical e vertiginoso, significa mais uma vez, a instauração de uma nova era na história do Homem. O nosso estudo e a recolha que ao mesmo tempo procuramos levar a cabo desse património fabuloso na sua modéstia, e que, em muitos casos, nos vem, quase sem alterações, desde os mais remotos tempos da «revolução neolítica», foi feito no limiar das possibilidades, antes que a tecnologia invasora acarretasse o total e irreversível desaparecimento, e a extinção da própria memória, daquilo que, ao longo dos milénios, foi o obscuro mas essencial suporte da vida.
3O tema central deste trabalho é o estudo descritivo da alfaia agrícola tradicional portuguesa. Para melhor a situarmos, contudo, entendemos conveniente fazê-lo preceder de uma introdução geral em que procuramos enquadrá-la nos vários condicionalismos locais, geográficos, histórico-sociais e funcionais. Por outro lado, não abordamos o estudo de certas actividades também ligadas à vida agrícola – o vinho, o azeite, o leite, a cortiça, o figo e a amêndoa, etc. –, já porque, sendo de natureza especial, tencionamos tratá-los isoladamente, já porque, relativamente a algumas delas, prevalecem os aspectos técnicos da transformação.
4Em todo este livro está presente Jorge Dias. A sua obra sobre os Arados Portugueses – de que aqui damos a súmula – inaugurou não só os estudos da alfaia agrícola portuguesa, mas também, com a monografia de Vilarinho da Furna, a sua carreira de etnólogo; e ambas constituem os marcos fundamentais da renovação dos estudos etnológicos em Portugal.
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