O Médico Aprendiz (facécia popular)1
p. 221-222
Texte intégral
1Havia numa terra dois médicos que tinham andado a estudar em Coimbra: um deles era muito procurado, o outro ninguém o mandava chamar. Um dia o médico infeliz perguntou ao seu companheiro: «Não sei como tu, que não estudaste mais do que eu, sejas tão chamado e tenhas tanta nomeada, enquanto eu não ganho vintém!» – Disse o outro: «Habilidades, amigo! Não é com o que se lá aprende em Coimbra que se faz fortuna; o segredo do negócio está em a gente saber valer-se das ocasiões.» – «Mas explica-me lá isso; aconselha-me como hei-de ganhar ao menos para o meu sustento.» – «Olha, vou contar-te um caso. Ontem fui ver um doente que ando a tratar e vi debaixo da cama dele uns caroços de azeitona. Apalpei o pulso ao doente, vi-lhe a língua e disse depois: ‘Homem, pelos sinais que dá, você comeu azeitonas.’ O doente e família ficaram pasmados da minha sabedoria. Estas coisas custam e assim um homem ganha fortuna.» O médico infeliz jurou nunca mais tornar a casa de doente que não lhe olhasse para debaixo da cama. Um dia chamaram-no para um homem que estava mal; ele entra, olha para debaixo da cama, vê lá palha que tinha caído do enxergão, e depois de apalpar o pulso ao doente e lhe ver a língua disse: «Você comeu palha, por isso é que está tão mal.» O homem e a família chamaram malcriado e atrevido ao médico, que foi posto na rua a pontapés.
2(Coimbra.)
3Esta facécia encontra-se em diversas colecções literárias, vid. Dunlop – Liebrecht, 284 a e Revue critique d’hist. et litt., 1881, art. 176 (C. Defrémery), Pitré (Fiabe, etc., n.° 180) dá uma versão popular siciliana em que, como na portuguesa, o segundo médico diz ao doente que ele comeu palha; mas o primeiro diz ao doente que ele comeu uvas, cujos engaços viu debaixo da cama. Em Straparola, viii, 5 (reproduzida no pref. da trad. fr. ed. Xannet, p. xxxiii e segs.), e em Morlini Nov. 32 (ed. Jannet), o primeiro médico diz que o doente comeu maçãs; o segundo, vendo debaixo da cama a pele de um burro, diz que o doente comeu burro, ao que o doente replica: «Perdão, há já dez dias que não vejo outro burro senão V. S.a» As versões dos Contes a rire e de Les facétienses journées divergem muito pouco dessas duas; em vez de pele de burro há debaixo da cama uma albarda. Não pude examinar as versões de Paggio, Chitella, Roger Bon-temps en Belle, Humeur, p. 29, Sérées de Bouchet, citadas por Darloy-Liebrecht. A facécia que se repete com frequência em Portugal tem muito provavelmente origem literária.
4(Lisboa, Abril de 1885.)
Notes de bas de page
1 Originalmente publicado na Revista do Minho, 1885, vol. i, p. 21.
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