LXXIV. O ovo partido
p. 287-288
Texte intégral
1Era uma vez um homem que tinha uma filha e tinha um criado, e veio por lá um brasileiro e disse-lhe: «Se me deixasse ir o seu criado até eu passar aquela serra que levo o meu dinheiro e tenho medo que me roubem?» Ele mandou-lhe o criado e o criado, de volta, disse: «Ó senhor, não me dá a sua filha que quero casar com ela?» E ele disse-lhe: «Sempre és muito malcriado! Se não fora eu ter-te amizade, punha-te já fora da porta com uma carregadeira de pau.» «Senhor, olhe que eu estou rico, que eu matei o brasileiro e tirei-lhe este dinheiro.» E mostrou-lhe o dinheiro. «Eu não duvido dar-te a filha, mas hás-de ir três vezes a eito à volta da meia-noite onde o mataste escutar o que ouvires.» O moço foi. Perguntou-lhe o amo: «Tu que ouviste?» «Eu ouvi dizer: ‘Tu pagarás.’» «Torna lá e hás-de lhe perguntar: ‘Eu quando é que hei-de pagar? ’»
2O criado foi lá e a voz disse-lhe: «Daqui a trinta anos.» E o amo disse-lhe: «Daqui a trinta anos já eu não sou vivo. Casa com a minha filha.» Fez-se o casamento, já se sabe.
3Passados trinta anos, andavam dois pobres a pedir e foram pedir àquela casa. E o pai da rapariga disse: «Venham para dentro.» E ao tempo que eles iam a entrar embarraram numa cesta que tinha ovos e quebraram um e o dono da casa ralhou com eles. Eles disseram: «Ó senhor, não ralhe connosco a troco do ovo que nós pagamos-lho, ainda que ele custe uma moeda.» E ele disse: «Não é por isso; é que a roda, enquanto anda, anda e, quando começa a desandar, má vai ela. Há trinta anos que dei a casa a minha filha; há trinta anos não dei nenhuma esmola e até hoje não tive nenhuma perda, só agora a de um ovo!»
4Os homens deitaram-se e um disse para o outro: «Tu dormes?» «Eu não; vamo-nos daqui embora; casa que há trinta anos não dá esmola nem teve perda senão hoje, aqui acontece alguma desgraça.» O outro disse: «Mas nós aonde havemos de ir agora dormir? Isto é fora de horas; não achamos pousada.» «Pois, enfim, vamo-nos, como nós fiquemos fora dos beirais dela, fiquemos mesmo detrás de uma parede.»
5Saíram; ficaram aí perto das casas atrás de uma parede e de noite ouviram um grande ruído, e disse um para o outro: «Tu ouviste aquilo? «Eu ouvi.» «Olha que foram certamente as casas do fidalgo a cair.»
6Ao outro dia, assim que foi dia, foram ver e nem viram casas, nem telhas, nem nada, e no lugar da casa havia uma grande cova.
7(Ourilhe)
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