LXVI. O burro do azeiteiro
p. 271-272
Texte intégral
1Dois estudantes encontraram numa estrada um azeiteiro que ia guiando um burro carregado de bilhas de azeite. Os estudantes, que estavam sem dinheiro, ficaram muito contentes com aquele encontro e combinaram furtar o burro do azeiteiro para o venderem; e enquanto o pobre homem seguia o seu caminho muito sossegado da sua vida, levando pela mão a arreata do jumento, um deles tirou a cabeçada do burro e colocou-a no pescoço, e o outro escapou-se com o burro e a carga. O que ficou em lugar do animal parou fazendo com que o azeiteiro olhasse para trás. Qual não foi, porém, o espanto deste vendo um homem em vez do burro! ...
2O estudante disse para ele com voz muito terna: «Ah, senhor, quanto lhe agradeço ter-me dado uma pancada na moleirinha! Quebrou-me o encanto que durante tantos anos me fez jazer burro! ...» O azeiteiro, tirando o chapéu, disse muito humildemente: «Perdi no senhor, como burro, o meu ganha-pão; mas paciência! Como homem que agora é, peço-lhe muitos perdões... por tê-lo maltratado tanta vez; mas, que quer? , o senhor fazia-me às vezes desesperar com as suas birras, e eu não era senhor de mim!»
3«Está perdoado, bom homem!» , disse o estudante. «O que lhe peço é que me deixe em paz.»
4O pobre azeiteiro, quando se viu só, lamentou-se da sua desgraça, e foi pedir dinheiro a um compadre para ir no dia seguinte à feira comprar outro burro. Quando chegou à feira, viu lá o jumento que lhe tinha pertencido e que o estudante, que ele não vira quando lho roubaram, estava a vender. O azeiteiro, julgando que o homem-burro se tinha transformado outra vez no seu burro, chegou-se ao pé do estudante e pediu-lhe licença para dizer um segredo ao burro. O estudante disse-lhe que sim e o azeiteiro, chegando a boca à orelha do animal, gritou com toda a força:
5«Olhe, senhor burro, quem o não conhecer que o compre.»
6(Lisboa, de uma pessoa de Almeida, Beira Baixa)
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