Resumo final

p. 221-222


Texte intégral

1Resumindo o que fica exposto, vê-se que a figa, de começo, foi gesto licencioso, com plena significação física, o qual fazia desviar de pessoas, animais e cousas má-olhadura, que se tinha por causadora de graves danos. Depois o gesto tornou-se propriamente apotropaico, isto é, com significação mágica ou sobrenatural: por isso se imitou sob forma de amuleto.

2No decurso dos séculos, e nas oscilações da civilização, a eficácia da figa enfraqueceu-se numas terras, e ampliou-se noutras, generalizando-se um pouco: o gesto ou o amuleto, ou o simples vocábulo «figa», serviu para se contrapor a outros danos, e evitar acção demoníaca, bruxaria, mau ar. Daqui bastava um passo para que a figa, também como gesto, amuleto ou vocábulo, passasse na vida comum a significar não só desprezo, zombaria, desdém, ainda que às vezes com uns longes de magia, manifestados a modo de praga, mas também recusa de pedidos, e derrogação de asserções.

3Por fim, quando a figa serve de enfeite a uma pessoa, ou completa artisticamente um objecto, pode dizer-se que o sentido dela está de todo ou quase perdido.

4Se quem estuda os fenómenos etnográficos se deleita na contemplação de como os costumes nascem, se desenvolvem, e se modificam ou se extinguem, segundo certas normas psicológicas e históricas: o sociólogo não pode deixar de confranger-se ao verificar que o espírito humano, apesar da brilhante civilização que o rodeia, está ainda tão pouco esclarecido, que, em vez de dar sempre fé aos preceitos da Medicina e da Filosofia, por ele próprio descobertos, se submete constantemente e sem consciência a vãs superstições.

5Conhecer e explicar estas, para as combater, é pois também uma necessidade moral.


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