V Significação primordial da figa
p. 219-220
Texte intégral
1Qual a significação primordial da figa, como gesto?
2Para repelir da gente, dos animais, e de tudo, a acção nefasta que se julgava produzida por certas pessoas e por imaginários espíritos da natureza, costumavam os Antigos apresentar-lhes hostilmente coisas tidas como pudendas, v.g. os emblemas de um e outro sexo, ou a própria realidade. Disto trataram com desenvolvimento Sittl no supracitado trabalho dos gestos dos Gregos e Romanos, cap. VI e VII, e Lafaye no Dict. des antiq. gr. et rom. s.v. «fascinam». Também o nosso Brás Luís de Abreu, no Portugal Medico1, baseado em AA. de várias épocas, assentara o mesmo. Veja-se igualmente o que sobre o assunto escreveu Adolfo Celho no seu estudo do «Quebranto»2, ainda que este quis ir um pouco além das doutrinas preestabelecidas.
3No Museu Etnológico há alguns daqueles emblemas ou amuletos, de bronze, antigos: dois, de forma de concha (Cypraea), como representativa da vulva, e outros dois de forma fálica verdadeira. Na colecção de amuletos de A. de Mortillet, levada à Exposição Universal de 1899, colecção a que já me referi, figuravam exemplares, também antigos, de conchas de Cypraea, encastoadas3, e a tradição manteve-se até hoje, pelo menos na Itália, onde se colocam ao pescoço de crianças, contra o mau-olhado, conchas iguais4. Do segundo amuleto não permitem os costumes modernos conservar representação fiel; só dele haverá alguma representação velada.
4A figa reúne em si, conjugando-os, os dois emblemas, embora figurados diversamente, pois se imitam com a posição dos dedos. Alguns dos amuletos lusitano-romanos que publiquei nas Religiões5, e outros antigos que há por toda a parte, em museus, são de carácter misto, porque, à figa, apesar do que já significa, se agregou ainda o emblema masculino. Este complexo tipo está hoje reproduzido, quanto a mim, num amuleto infantil de osso, usado entre nós, no qual a uma figa se juntou simetricamente um cornicho.
5Do acto mental de que resultou comparar-se a vulva com a Cypraea, resultou o comparar-se também com um figo entreaberto6, o que da mesma maneira acontecera em grego, onde σῦχov desfruta as duas significações7. A significação sexual conserva-se ainda no italiano fica. Em italiano antigo havia, a par, fico, em dar una fico «dar uma figa». Em português popular, da Beira e do Norte, também bêbera, ou figo temporão, significa vulva. A palavra latina ficus, que quer dizer «figueira» e «figo», e tem a variante ficum, no sentido de «figo», tornou-se em latim vulgar e em romanço, ora ficu-, ora fica, como outros nomes que com a terminação -us significam uma planta, e com a terminação -um ou -a o respectivo fruto, a baga, etc.: cfr. murtus (ou myrtus), que significa «murta», e murtum (ou myrtum) e murta (ou myrta), que significa «murtinho». Outro exemplo é pirus, que significa «pereira», e pirum, em latim vulgar pira, que significa «pêra».
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