Crenças e festas públicas
Livro II
p. 15
Texte intégral
1Em qualquer grupo humano a ordem social baseia-se no acordo dos sentimentos. A actividade é motivada pelas necessidades egoístas, e a capacidade especulativa é tão rara e absorvente, que aquele que pensa toma-se inábil para a vida prática. A actividade. pela dependência do concurso subordina-se ao sentimento, como vemos pela noção de honra, e o pensamento quando influi na transformação de uma época, é pelo sentimento que universaliza as ideias abstractas. A acção comum, que distingue a vida pública ou de nação, tira o seu impulso constante das sugestões afectivas. Diz Comte: «O serviço habitual do sentimento exige alternativamente a satisfação dos impulsos e a comunicação das emoções.»1 As crenças são o elo principal da transição da vida doméstica para a vida pública, representando sempre em todos os seus estados e transformações o esboço espontâneo de uma síntese afectiva. As crenças populares e nacionais, que formam o objecto deste livro, dividem-se em dois grupos: as crenças que são restos de religiões extintas que pertenceram às raças que ocuparam a Península Hispânica, mas que sobrevivem, mau grado o exclusivismo das outras crenças que constituem a religião do estado, impostas oficialmente, apropriando-se dos elementos míticos e cultuais anteriores já desnaturando-os, já perseguindo-os. (Fas et nefas).
2O encontro destes dois grupos hierológicos determinado por diversas situações históricas provoca um terrível conflito, em que a religião do estado sendo levada até ao canibalismo da Inquisição, os cultos decaídos fortificaram-se na alucinação patológica da feitiçaria e possessão demoníaca. Apesar, porém, desse eterno antagonismo, os dois grupos fusionaram-se como se vê pela persistência de certas práticas supersticiosas nas próprias festas do catolicismo, constituindo ambos ainda hoje a principal síntese afectiva do povo português.
Notes de bas de page
1 Politique positive, t. iii, p. 79.
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