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    Plan

    Plan détaillé Texte intégral Cantos de berço Pilinha Cavalgar Mão morta Peneirar Serrar Não subir à janela Palminhas Bichinha gata Sarilho Estiar Nomes dos dedos Diálogo dos dedos O doente Serrar Tão balalão Vassoirinha Jogo das galinhas Jogo das vizinhas O que está na varanda Puxar a orelhita Cantinhos Ginástica de língua O caçador e a velha Um, dois, três Jogos numerativos A beata Rimas várias Anfiguris Interpretação de sons inarticulados Jogos com animais Contos SEGUNDA SÉRIE Às escondidas Santo Tomé Pilha três Sape-gato Péla Anel Outro jogo do anel Lenço queimado Cabra-cega A vendedeira de fruta O padre cura O santeiro Pão queimado Punho, punhete Silêncio Sisudo Rato Pedrinhas de taixoso Maria Guindim Castelo de Chuchurumel A noiva Carrasquinha Gualdir e gualdar Jogo do pezinho Jogo da viúva Jogo da condessa Condessinha de Aragão TERCEIRA SÉRIE Adivinhar dedos Padeiro O grilo Jogo do punho Ofícios Arranca-te, nabo Pimpolhinha Fito Rixas Linhas Balancé Arco e frecha Ricochete ou chapeleta Jogos diversos APÊNDICE Sentenciar as prendas OBSERVAÇÕES SOBRE O USO PEDAGÓGICO DESTA COLECÇÃO OBSERVAÇÕES AOS PEDIÓGRAFOS Notes de bas de page

    Obra etnográfica (II)

    Ce livre est recensé par

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    Table des matières

    Primeira série

    p. 73-128

    Texte intégral Cantos de berço Pilinha Cavalgar Mão morta Peneirar Serrar Não subir à janela Palminhas Bichinha gata Sarilho Estiar Nomes dos dedos Diálogo dos dedos O doente Serrar Tão balalão Vassoirinha Jogo das galinhas Jogo das vizinhas O que está na varanda Puxar a orelhita Cantinhos Ginástica de língua O caçador e a velha Um, dois, três Jogos numerativos A beata Rimas várias Anfiguris Interpretação de sons inarticulados a) Dos sons dos sinos: b) Do toque do tambor: c) São numerosas as interpretações das vozes dos animais, do canto das aves, etc. Eis alguns exemplos: Jogos com animais Contos SEGUNDA SÉRIE Às escondidas Santo Tomé Pilha três Sape-gato Péla Anel Outro jogo do anel Lenço queimado Cabra-cega A vendedeira de fruta O padre cura O santeiro Pão queimado Punho, punhete Silêncio Sisudo Rato Pedrinhas de taixoso Maria Guindim Castelo de Chuchurumel A noiva Carrasquinha Gualdir e gualdar Jogo do pezinho Jogo da viúva Jogo da condessa Condessinha de Aragão TERCEIRA SÉRIE Adivinhar dedos Padeiro O grilo Jogo do punho Ofícios Arranca-te, nabo Pimpolhinha Fito Rixas Linhas Balancé Arco e frecha Ricochete ou chapeleta Jogos diversos APÊNDICE Sentenciar as prendas OBSERVAÇÕES SOBRE O USO PEDAGÓGICO DESTA COLECÇÃO OBSERVAÇÕES AOS PEDIÓGRAFOS Notes de bas de page

    Texte intégral

    Cantos de berço

    1O nosso povo tem alguns cantos especiais de berço, geralmente simples quadras, em que figura em parte o elemento mítico e religioso; emprega além disso, para o mesmo fim, cantos que têm ainda outras aplicações, tais como rimas de Natal, romances épicos, etc. As melodias simples, monótonas, têm talvez carácter excessivamente melancólico; fora preferível o uso de outras mais alegres.

    1. Ó meu menino
    Ru-ru...
    Cantam os anjos,
    Dormirás tu.
    2. O meu menino é d’oiro,
    D’oiro é o meu menino;
    Hei-de levá-lo aos anjos
    Enquanto ele é pequenino.
    3. Vai-te embora, passarinho,
    Deixa a baga do loureiro,
    Deixa dormir o menino,
    Que está no sono primeiro.
    4. Rola, rola, meu menino,
    Quem te há-de dar a mama?
    O teu pai foi p’ra o moinho,
    Tua mãe caiu na cama1.
    5. O meu menino tem sono,
    Tem sono e quer dormir:
    Venham os anjos do céu
    Ajudá-lo a cobrir.
    6. O meu menino tem sono,
    Tem sono e quer nanar:
    Venham os anjos do céu
    Ajudá-lo a embalar.

    Pilinha

    2Toma-se a mão da criancinha, quando ela já come, e diz-se, tocando-lhe com um dedo:

    7. Põe aqui, pilinha, o ovo,
    Que o menino papa-o todo.

    Cavalgar

    3Quando a criança se senta já com facilidade toma-se sobre o joelho, a que se imprime um brando movimento, segurando pelas mãos a criança, de modo que conserve bem o equilíbrio, e dizendo, com o ritmo do movimento, rimas que variam segundo as localidades.

    8. Arre burrinho
    Para a Mealhada,
    Sete vinténs
    De levar a carrada.
    (Coimbra.)
    9. Arre burro
    Para Azeitão,
    Que os meninos
    Já lá vão.
    (Lisboa.)
    10. Arre burrinho
    Para São Martinho,
    Carregado
    De pão e vinho
    (Alcobaça.)
    11. Tantarantana
    Minha carapuça!
    Tantarantana
    Que assim bailha a ruça!
    Tantarantana
    Meu carapuço!
    Se ele tem febre
    Apalpa-lhe o pulso!
    (Coimbra.)
    12. Minha vida,
    Vamos a Benfica,
    Vamos ver o padre2
    Que está na botica.

    Mão morta

    4Toma-se o pulso da criança e balouça-se a mão, dizendo:

    13. Mão morta, mão morta,
    Filhinhos à porta;
    Não tem que lhe dar,
    Dá-lhe com a tranca da porta.

    5Ou:

    14. Mão morta, mão morta,
    Filhinhos à porta;
    Não tem que lhe dar,
    Dá-lhe uma pedrinha de sal.

    6Ou:

    15. Mão morta, mão morta,
    Filhinhos à porta;
    Não tem que comer,
    Dá-lhe ossos a roer.

    7A segunda quadra é preferível às outras, que terminam grosseiramente.

    Peneirar

    8Tendo-se a criança sobre os joelhos, imprime-se-lhe um movimento como o de que quem peneira e diz-se:

    16. Peneirinha, peneirai,
    Que lá vem o vosso pai
    No caminho de Lisboa,
    C’um saco de pão e broa.

    Serrar

    9Tendo a criança sobre os joelhos, imprime-se-lhe um movimento como o de quem serra e diz-se:

    17. Serra madeira
    Da ponta da ceira;
    Serrar e andar,
    Que lá vem o jantar
    Para o menino papar.
    Serremos, andemos,
    Que logo jantaremos.
    (Coimbra.)

    VARIANTE
    18. Serra madeira,
    Carpinteira,
    Serremos a nós,
    Venha de cós
    Apanhar uma noz.
    (Lisboa.)

    Não subir à janela

    10Quando as crianças começam a subir à janela, diz-se-lhe:

    19. Menina bonita3
    Não sobe à janela,
    Que bicho mui feio4
    Carrega com ela.
    Se quer alvos ovos,
    Arroz com canela,
    Menina bonita
    Não sobe à janela.

    Palminhas

    11Ensinam-se as crianças a bater as palmas com ritmo, dizendo:

    20. Palminhas e mais palminhas,
    Que mamã dará maminhas,
    E o papá quando vier
    Dará sopinhas de mel.

    Bichinha gata

    12Uma ou mais crianças põem as mãos de costas para cima e outra diz o seguinte, passando a mão com um movimento circular por cima das das outras:

    21. – Bichinha gata,
    Tu que papaste?
    – Sopas de leite.
    – Não me guardaste?
    – Sim, guardei-te.
    – Com que tapaste?
    – Rabo do gato.
    – Sape-te gato
    Bicho do mato;
    Sape-te gato.

    13Ao dizer o último verso dá-se uma pequena palmada na mão a que se chegou e essa mão retira-se. Repete-se o mesmo até se retirarem todas as mãos. (Os versos têm ainda outras aplicações.)

    Sarilho

    14Quando o sol está encoberto toma-se a criança pelos braços ou pelos sovacos e diz-se:

    22. Sarilho, bondilho
    Qu’andais ao redor,
    Pedindo a Deus
    Que descubra o Sol!
    Descobre-te, Sol,
    Das águas do mar,
    Que eu sou pequenino
    E quero brincar.

    Estiar

    23. Esteia, esteia, esteia!
    Meu pai foi à quinta da areia,
    Buscar pão mole p’ra ceia
    E azeite p’ra candeia

    Nomes dos dedos

    15O index da mão direita vai indicando cada um dos dedos da mão esquerda, a começar no mínino; as crianças repetem até saberem.

    24. Dedo mendinho5,
    Seu vizinho6,
    Pai de todos7,
    Fura-bolos8,
    Mata-piolhos9.

    Diálogo dos dedos

    25. Dedo mendinho10 quer pão,
    O vizinho11 diz que não,
    O pai12 diz que dará,
    Este13 que furtará,
    E este14 diz: alto lá!

    26. Este menino um ovo achou,
    Este o assou,
    Este sal lhe deitou,
    Este o provou,
    Este o papou.

    O doente

    16Cruzam-se as mãos, fazendo-as depois girar de modo que o polegar da esquerda fique deitado entre o polegar e o index da direita; estes dois ficam levantados, assim como o index da esquerda. O polegar da esquerda figura um doente na cama, o da direita o médico e os outros dois o enfermeiro e uma pessoa da família. Figura-se entre eles um diálogo, cujos incidentes se deixam à imaginação de cada criança.

    Serrar

    27. Serra madeira,
    Carpinteira,
    Serremos a nós,
    Venha de cós
    Apanhar cavaquinhos
    P’ra fazer uma filhós.
    Filhós para mim,
    Filhós para ti,
    Filhós para Pedro,
    Filhós para a velha
    Do rabo azedo.

    17Esta fórmula, variante de n.os 17-18 pode ter o mesmo emprego que essas duas ou ser dita por duas crianças que tomam as mãos e imitam o movimento dos serradores.

    Tão balalão

    18Duas crianças apertam as mãos reciprocamente, firmam-se sobre os pés e fazem um movimento de balouço, equilibrando-se uma à outra.

    28. Tão balalão,
    Morreu o Simão,
    Ficaram os filhos,
    Comeram o pão.
    29. Tão balalão,
    Morreu o Simão,
    Focinho de burro,
    Cara de cão.
    30. Tão balalão,
    Morreu o Simão,
    Na terra dos mouros,
    Senhor capitão.
    31. Tão balalão,
    Cabeça de cão,
    Cabeça de gato,
    Não tem coração

    Vassoirinha

    19Uma criança é cabeça do jogo. Todas as outras, sentadas no chão, fazem roda, juntando as mãos abertas de palmas para baixo. A cabeça do jogo correndo circularmente com a mão direita por cima das mãos das demais crianças, diz:

    32. – Vassoirinha,15 vassoirinha,
    Varre tu esta casinha;
    Vassoirinha, vassoirão,
    Varre-m’este casarão.

    20Depois, dando ligeiros beliscos nas costas das mãos das companheiras, continua:

    – Sirolico, tico, tico,
    Quem te deu tamanho bico?
    Seja d’oiro, ou de prata,
    Mete-te já na buraca.

    21As outras crianças metem as mãos no seio; depois de curta espera, vai uma por uma deitar a cabeça no colo da principal do jogo; e esta, batendo-lhes nas costas, pergunta:

    – Tem pão quente?

    22Cada qual vai respondendo que sim, e a cabeça do jogo, apalpando-lhes sucessivamente as mãos, dá uma palmada em cada mão que acha fria.

    23Eis outra variante do mesmo jogo:

    24Começa pelo modo acima referido, dizendo a cabeça do jogo:

    33. – Vassoirinha, vassoirinha,
    Varre tu esta casinha.
    – Muito bem a varrerei
    Como a casa d’el-rei.

    25Depois, dando ligeiros beliscos nas costas das mãos das companheiras, continua:

    – Sirolico, tico, tico,
    Quem te deu tamanho bico?
    Dois, quatro, seis e oito;
    Safa já, cozei biscoito.

    26As outras crianças metem a mão no seio e fingem dormir. A cabeça do jogo pergunta-lhes sete vezes:

    – Tem pão quente?

    27A cada uma das vezes as crianças vão respondendo (imitando os diversos movimentos do padeiro):

    – Estou peneirando,
    – Estou amassando.
    – Estou levedando.
    – Estou a tender.
    – Estou a’cender.
    – Estou a cozer.
    – Quente, a ferver.

    28À última resposta, a cabeça do jogo vai apalpando as mãos das companheiras, e dá uma palmada em cada mão que acha fria.

    Jogo das galinhas

    29Uma criança é o galo; está em pé, no meio; as demais crianças são as galinhas; estão sentadas em roda. Diz o galo, tocando em cada galinha sucessivamente:

    34. A galinha da papada
    Muitos ovos põe, ou nada:
    Põe a um, e põe a dois;
    Põe a dois, e põe a três;
    Põe a três, e põe a quatro;
    Põe a quatro, e põe a cinco;
    Põe a cinco, e põe a seis;
    Põe a seis, e põe a sete;
    Põe a sete, e põe a oito.

    30Assim vai até à última galinha, e, por fim, batendo palmas, diz:

    – Vão pôr seus ovos no coito.

    31Então as galinhas metem as mãos fechadas debaixo dos sovacos, para as aquecer; fecham os olhos e permanecem quietas, como galinhas no ninho.

    32Esperado curto espaço, o galo canta, e diz:

    – Vós já tendes ovo quente?

    33Todas as galinhas cacarejam, e depois cada qual responde:

    – Eu já tenho ovo quente.

    34Galo e galinhas continuam cacarejando, e no entanto o galo vai apalpando as mãos de cada uma, e dá uma palmada em cada mão que acha fria.

    Jogo das vizinhas

    35Duas crianças, acocoradas, são simultaneamente vizinhas e patos; dialogando, dizem:

    35. – Nhôra vizinha,
    Tem lá panela?
    – Caiu-lh’o fundo.
    – Tem uma saia?
    – Falta-lhe cós.
    – Tem lá patinhos?
    – Mas não são meus.
    – Eles que comem?
    – Milho miúdo.
    – Eles que bebem?
    – Água do rio.
    – D’onde vieram?
    – D’além, da feira.
    – Quem lh’os comprou?
    – Foi meu compadre.

    36Nisto ambas as crianças trocam de lugares, indo de cócoras aos saltos; e, grasnando à imitação de patos, dizem:

    – Quá, quá, quá, quá, quá.

    37E, dialogando, continuam;

    – Ele que mais trouxe?
    – Comprou-m’um gabão.
    – De que cor é?
    – É cor de limão.

    38E logo as duas crianças voltam de pé aos primitivos lugares, e, fazendo gestos como quem toca viola, concluem, cantando:

    – Ferrum, fum, fum,
    Ferrum, fum, fão.

    O que está na varanda

    39Uma criança pergunta, outra responde.

    36. – Que está na varanda?
    – Uma fita cor de ganga.
    – Que está na janela?
    – Uma fita amarela.
    – Que está no poço?
    – Uma casca de tremoço.
    – Que está na pia?
    – Uma casca de melancia.
    – Que está no telhado?
    – Um gato pingado.
    – Que está na chaminé?
    – Uma preta a coçar um pé.16
    – Que está na rua?
    – Uma espada nua.
    – Que está atrás da porta?
    – Uma velha morta.
    – Que está no ninho?
    – Um passarinho.
    – Vamos ver se ele chia.

    40Chegadas ao fim as crianças levantam-se rapidamente e correm ou movem-se imitando os pulos das aves.

    Puxar a orelhita

    41As crianças sentam-se, com as mãos estendidas, formando roda; uma diz a fórmula e dá um ligeiro puxão de orelha àquela cuja mão tocou ao dizer o último verso; em seguida retira-se essa da roda, e assim segue até ficar só a que fala.

    37. Tim-tim
    Sarramacotim!
    Debaixo da torre
    Mora um homem17
    Que vende garrafas
    E garrafões,
    Chamado Tia-patia,
    Tia Joanita,
    Manda puxar
    A orelhita.

    Cantinhos

    42Quatro crianças colocam-se nos cantos de uma casa (ou num jardim junto cada uma de uma árvore); uma fica de fora e, aproximando-se de outra, diz:

    – Dá-me lume?

    43Aquela responde:

    – Vá ali ao vizinho.

    44Enquanto a primeira se dirige a outro canto, as outras tratam de mudar de lugar sem dar tempo à que está de fora de o tomar; se assim sucede, a que perdeu o lugar vai pedir o lume.

    Ginástica de língua

    45As crianças devem repetir muito depressa qualquer das fórmulas seguintes:

    38. – Pardal pardo, porque palras?
    – Eu palro e palrarei,
    Porque sou o pardal pardo,
    Palrador d’el-rei.
    39. Quem com ferros mata
    Com ferro morre.
    Quem com ferros merros
    Com mata morre.
    40. Quem pouco pano pardo tem
    Escassa capa parda faz.
    41. Debaixo d’aquela pipa
    Está uma pita.
    Pinga a pipa,
    Chia a pita,
    Chia a pita,
    Pinga a pipa.

    46E assim indefinidamente.

    42. Estes nabos amarujam,
    Eles amarujarão.
    43. – Ó menina deste casal,
    Diga-me se mora aqui
    O padre Pedro Pires Pisco Pascoal?
    – Não sei qual é esse Pedro Pires Pisco Pascoal,
    Porque aqui nestes casais
    Há três padres Pedros Pires Piscos Pascoais.

    O caçador e a velha

    4744. Era uma vez um caçador furunfunfor, triunfunfor, misericuntor; e foi à caça furunfunfaça, triunfunfaça, misericuntaça; e caçou um coelho furunfunfelho, triunfunfelho, misericuntelho; e levou-o a uma velha furunfunfelha, triunfunfelha, misericuntelha; e disse-lhe:

    48– Arranja-me este coelho furunfunfelho, triunfunfelho, misericuntelho.

    49A velha furunfunfelha, triunfunfelha, misericuntelha, comeu o coelho furunfunfelho, triunfunfelho, misericuntelho; e veio o caçador furunfunfor, triunfunfor, misericuntor; e disse:

    50– Ó velha furunfunfelha, triunfunfelha, misericuntelha! Que é do meu coelho furunfunfelho, triunfunfelho, misericuntelho?

    51– O teu coelho furunfunfelho, triunfunfelho, misericuntelho, comeu-o o gato, furunfunfato, triunfunfato, misericuntato.

    Um, dois, três

    52Uma criança, designada pela sorte, geralmente por uma fórmula de eliminação, põe-se junto de uma parede com o rosto voltado para ela; as outras escondem-se; depois de escondidas gritam:

    53– É já!

    54A que ficou junto da parede corre então à busca das outras, que se esforçam por vir tomar o lugar que ela tinha; a primeira que chega bate as palmas e diz:

    45. Um, dois, três,
    Vale de inglês.

    55A que chega em último lugar fica junto da parede e o jogo continua da mesma maneira.

    Jogos numerativos

    46. Una,
    Duna,
    Tena,
    Catena,
    S. Paulo,
    S. Maulo,
    Do bico do pé,
    São nove, são dez.
    47. Una,
    Duna,
    Tena,
    Catena,
    Cigarra,
    Migalha,
    Cupida,
    Dos pés,
    Conto bem,
    Que são dez.
    48. Una, una, una,
    Una, duna, tena,
    Eram dois irmãos,
    Mataram duas rezes,
    Depois delas mortas
    Contaram vinte e três.

    56Diz-se rapidamente qualquer das fórmulas com certo ritmo e vão-se traçando ao mesmo tempo riscos num papel, que devem ser dez para as duas primeiras fórmulas e vinte e três para a última.

    A beata

    57Cobrem-se os dedos com um lenço; quatro figuram a beata com umas contas ao pescoço; o polegar figura um passante.

    49. – D’onde vindes, senhora beata?
    – Venho de S. Francisco, de me confessar.
    – Que lhe deu o padre por penitência?
    – Tudo isto hei-de rezar.
    – Faz-me um favor?
    – Nada, nada, que me ralha o meu confessor.
    – Ora dance um bocadinho.
    – Nada, nada.
    – Ora há-de dançar um bocadinho.
    – Já que tanto aperta
    Lá vai em louvor de S. Pedro e S. Paulo
    E S. João Baptista
    Que nos valha e nos assista
    Nesta conquista.
    Venham aqui todos os serafins
    Com seus chapins,
    Chi-chri-chri-chi.
    Ai, que me há-de dizer o meu confessor?
    Pesa-me, Senhor, pesa-me, Senhor.

    58Os dedos acompanham o diálogo com movimentos adequados; um por fim figura bater contra o peito.

    Rimas várias

    50. Ana Bagana
    Rebeca Susana,
    Domingo de Páscoa
    De ramo na mão.
    51. Ana Badana
    Chocalho de cana,
    Fita vermelha,
    Rabo de ovelha.
    52. – Perinico,
    Serinico,
    Quem te deu
    Tamanho bico?
    – Foi a gata borralheira,
    Come torrada
    Com manteiga.
    53. – Olha o bicho que está lá dentro.
    – Se está lá deixa-lo estar;
    Está a dormir, está a descansar.
    – Olha o bicho!...
    54. Domingo de Lázaro apanhei um pássaro,
    Domingo de Ramos o depenei,
    Domingo de Páscoa o almocei.

    59Serve para mnemonizar estas festas.

    55. Toque, toque,
    Vamos a S. Roque
    Ver as meninas
    Que trazem capote.
    56. Sermão de São Coelho,
    Com o seu barrete vermelho,
    Com uma espada de cortiça
    Para matar a carriça;
    A carriça deu um berro,
    Toda a gente se espantou,
    Só uma velha ficou
    Dentro d’um sapato.
    Sape, gato! Sape, gato!
    57. Uma velha tinha um gato,
    Debaixo da cama o tinha;
    Quanto mais o gato miava,
    O pinto piava,
    O porco grunhia
    E a velha dizia:
    Mil raivas vos persigam,
    Que não vos posso aturar!
    58. Quando chove e faz sol,
    Andam as bruxas em Antanhol
    Embrulhadas num lençol,
    A dançar ao caracol.

    Anfiguris

    59. Andando
    Fernando
    Lavrando,
    Vieram-lhe dizer
    Seu pai era morto,
    Sua mãe por nascer.
    Que havia do moço fazer?
    Deitou o boi às costas,
    Pôs o carro a correr,
    Quis saltar um valado,
    Saltou um arado.
    Se não era um cão
    Mordia-lhe um cajado.
    Entrou numa horta,
    Viu um pessegueiro
    Carregado de maçãs;
    Saltou-lhe acima,
    Tirou-lhe avelãs.
    Veio o dono lá de dentro:
    – Ó ladrão dos meus marmelos!
    Deitou-lhe as calças abaixo,
    Encheu-lhas todas de farelos.
    60. Amanhã é domingo,
    Pé de pingo;
    Galo francês,
    Pica na rês.
    A rês é miúda,
    Pica na tumba.
    A tumba é de barro,
    Pica no ar.
    O ar é fino,
    Pica no sino.
    O sino é d’oiro,
    Pica no toiro.
    O toiro é bravo,
    Pica no fidalgo.
    O fidalgo é ladrão,
    Rouba o cordão
    À Senhora
    da Conceição.

    Interpretação de sons inarticulados

    a) Dos sons dos sinos:

    60Em Coimbra os sons dos sinos do convento de Santa Cruz, ordem rica e fidalga, eram interpretados da seguinte maneira:

    I

    61. Somos fidalgos,
    Temos dinheiro,
    Pão e queijo
    Para dar ao sineiro.

    II

    Santa Cruz tem pão,
    Bacalhau, feijão.

    III

    Minha mãe tem pão,
    Bacalhau, feijão;
    O frade está à porta
    C’o chapéu na mão.

    6162. O sino de Torres, lugar perto de Coimbra, dizia:

    – Tem lêndeas, tem lêndeas.

    62O de um lugar próximo respondia:

    – Mata-as co’um pau, mata-as co’um pau.

    b) Do toque do tambor:

    63. Rana, cataprana,
    Mata aquela ratazana;
    Zás, catrapás,
    Deixar quem fica atrás.18

    c) São numerosas as interpretações das vozes dos animais, do canto das aves, etc. Eis alguns exemplos:

    63As rolas dizem:

    64. Põe-te na rua, põe-te na rua.

    64Os melros dizem:

    65. Nós somos muito ricos; temos cerejas; lá vêm as pretas moles (as azeitonas), que dizem: forrico, forrico!

    Jogos com animais

    65As crianças tomam na ponta de um dedo a joaninha ou bicho de Santa Maria (Coccinella septempunctata) e convidam-na a voar, dizendo uma das seguintes rimas ou semelhantes:

    66. Voa, joaninha, voa,
    Qu’eu te darei pão e broa.
    67. Voa, voa, joaninha,
    Qu’eu te darei pão e sardinha.
    68. Voa, joaninha, voa,
    Leva a carta p’ra Lisboa.

    66Pergunta-se à joaninha:

    69. Bicho de sete flores,
    Onde estão os meus amores?

    67Os rapazes dizem ao caracol:

    70. Caracol, caracol,
    Deita os corninhos ao sol.
    71. Meu caracol,
    Meu caracolinho,
    Meu anel d’oiro
    No dedo mendinho.

    68Ao pirilampo que voa:

    72. S. Lourenço, S. Lourenço,
    Vem abaixo e enche o lenço.

    69Ao peru dizem:

    73. Peru velho
    Quer casar,
    Menina bonita
    Não há-de lograr.
    Gru, gru, gru.

    70Ensina-se a dizer ao papagaio:

    74. – Papagaio real,
    Para Portugal
    Quem passa?
    – É el-rei que vai p’ra caça.

    71Os rapazes vão na Primavera apanhar os grilos. Achada uma toca, tratam de fazer sair o grilo, dizendo:

    75. Sai, grilinho,
    Sai, grilão,
    Que lá vem
    O S. João.

    72Ou:

    76. Sai grilinho,
    Sai, grilão,
    Que andam os porcos
    No lameirão.

    73Ou:

    77. Grilo, grilinho,
    Sai do buraquinho.

    74Ao milhafre ou minhoto, que rouba as galinhas, dizem os rapazes do Minho:

    78. – Minhoto, minhoto,
    Que levas no goto?
    – Sardinha assada.
    – Quem t’a assou?
    – Maria gou-gou;
    Passou pelo rio
    E não se molhou,
    Comeu uma broa
    E não se fartou,
    Comeu um bolo
    E arrebentou.

    Ou:

    79. Minhoto, minhoto,
    Faz uma rodinha19
    Que eu te darei uma pitinha.

    75Às arvéloas dizem os rapazes, convidando-as a irem para os ninhos:

    80. Arvelinha acima,
    Rebolão ao chão,
    Que estão os filhos
    À espera de pão.

    76Para enxotar os gatos:

    81. Sape, gato,
    Lambião,
    Que já lá tens
    O teu quinhão.

    77Ou:

    82. Sape, gato,
    Lambareiro,
    Tira a mão
    Do açucareiro.

    78[Estes jogos têm valor, apesar da sua simplicidade, porque chamam a atenção das crianças para os animais, e lhes fazem criar simpatia por eles. É pena que ou por pobreza da nossa tradição ou por insuficiência das nossas investigações pouco mais achássemos. Condenamos um jogo que consiste na caça ao morcego com uma cana, em que os rapazes dizem: Ó morcego, ó morcego, vem à cana que tem sebo!]

    Contos

    79Os contos entram na categoria dos jogos: são os jogos da fantasia; como consagramos um volume da nossa colecção a esse género, daremos aqui algumas fórmulas ou facécias com que se põe à prova a paciência das crianças que pedem com demasiado interesse que lhes digam contos. Os três contos que se seguem àquelas são facécias, duas das quais podem ser dialogadas pelas crianças.

    a.

    83. Era uma vez
    Uma caixinha
    Vermelhinha,
    Cor de pez:
    Queres que t’a conte
    Outra vez?

    b.

    84. Era uma vez
    Um conde e um bispo,
    Passaram pela ponte,
    Não sei mais do que isto.

    c.

    85. Era uma vez uma menina
    Chamada Vitória,
    Morreu a menina,
    Acabou-se a história.

    d.

    86. Era uma vez um homem,
    Morava numa aldeia;
    Nunca tinha fome
    Depois da barriga cheia.

    e.

    8087. Era uma vez um rei... Ai! não era o rei, era o barbeiro.

    f.

    8188. Um pastor chegou à borda de um rio com o seu rebanho; não havia para o passar ponte nenhuma; que havia de fazer o pastor? Pega numa ovelha às costas e pô-la do outro lado; depois veio buscar outra... Meus meninos, em ele tendo passado para o lado de lá todas as ovelhas, digam-mo, para eu acabar a história.

    82– Já passaram...

    83– Ainda não passaram.

    g.

    89. Era uma vez uma velha;
    Passou pela ponte;
    Queres que t’a conte?
    Não t’a contarei
    Não queres que t’a conte?
    Não t’a contarei.

    8490. A avó e a neta:

    A que toca aquele sino, ó minha neta?

    À missa, senhora avó.

    Ai, que não tenho chinelas, minha neta! Não posso lá ir...

    A que toca aquele sino, minha neta?

    Ao casar das velhas, senhora avó.

    – Ó tretas!
    Ó margalhetas!
    Ó cadeiras encoiradas,
    Que por mim são arrastadas!
    Ó neta, dá cá as muletas!

    85A criança que faz de avó imita a voz trémula de uma velha.

    86Surdos (Diálogos com). – Há várias facécias em que as crianças fingem um diálogo com uma pessoa surda, dando lugar a disparates com que se divertem. Eis uma das mais vulgares:

    91. – D’onde vindes, meu neto?
    – De Salvaterra, senhora avó.
    – De debaixo da terra?
    Ai, louvado seja Deus!
    Que trazeis vós nessas cargas?
    – Presuntos, senhora avó.
    – Defuntos?
    Ai, louvado seja Deus!
    Que comiéis vós por lá?
    – Pão e queijo.
    – Raízes de freixo?
    Ai, louvado seja Deus!

    8792. Abundância, Senhor! – Havia um amo que se tinha na conta de muito sábio e não queria que o criado falasse na linguagem vulgar; assim o criado devia dizer ganância em lugar de ganho ou bens, abundância em lugar de água e outras coisas assim. Um dia ataram ao rabo do gato do tal sábio uma porção de palha; o animal passou pelo lume, a palha incendiou-se e ele com o espanto trepou pela chaminé; o criado gritou pelo amo que estava a dormir:

    88– Levantai-vos, populus dei, que lá vai o papa-in-rate por a fumácia acima, com o escaramulo ao rabo. Se não acudis com abundância, está a ganância perdida. Calçai as vossas tiras e viras e as vossas salperquitates. Abundância, senhor!

    89Mas o criado falava já tão bem que o amo não o entendeu e a casa ardeu.

    SEGUNDA SÉRIE

    Às escondidas

    90Um dos jogadores fica num ponto marcado; os outros vão-se esconder em diversos lugares e gritam de lá:

    – Pronto!

    91Ou:

    – É já!

    92O que ficou vai procurar os outros; o primeiro que descobre toma o seu lugar.

    93Emprega-se uma fórmula de eliminação para escolher os que primeiro se podem esconder. Para isso as crianças sentam-se em roda, põem as mãos em círculo com as costas para cima; uma beliscando as mãos das outras ou passando-lhe simplesmente a sua por cima diz os versos da fórmula; aquela sob cuja mão diz o último verso vai esconder-se e assim até não restar senão um jogador que é o que há-de procurar os outros.

    94Eis algumas fórmulas eliminativas, que também se empregam como jogos independentes:

    93. Burra, burraquinha,
    Varre-me esta casinha;
    Se m’a varreres bem,
    Dou-te um vintém;
    Se m’a varreres mal,
    Nem um real.
    Salta a pulga
    Na balança,
    Deu um salto,
    Foi a França.
    94. Pimpim, sarramacotim,
    La pega, la meda,
    La torta llega;
    Um bom rei por aqui passou,
    Todas as aves convidou,
    Menos uma aqui deixou;
    Sape d’aqui, vai-te acostar.
    95. Burraca, burraquinha,
    Leitinho20 de vaca;
    Solorico, mendico,
    Por Nosso Senhor Jesus Cristo
    Que te vás e que te venhas
    Lá por trás dessas montanhas.
    Maria fura-gatos
    Apanhou um grilo
    Para a boca de seu filho.
    Fava redonda,
    A ti que te esconda.
    96. Sola, sapato,
    Rei, rainha,
    Vai-te à praça
    Buscar camarinhas.
    Blico mar,
    Blico mar,
    Quantas ondas
    Há no mar?
    Há fateixa,
    Há redonda,
    Há belisca,
    Há esconda.
    Qual de nós
    Todas três
    Será vinho,
    Borracha e pez?
    Vai-te esconder
    Atrás do muro
    De Dona Inês;
    Vai tu lá
    Que é tua vez.
    97. Rei, rainha,
    Vai ao mar
    Pescar sardinha,
    Para dar
    Ao pai Luís,
    Preso à ordem
    Do juiz.
    Salta pulga
    Da balança
    E vai ter
    Até França.
    Cavaleiros
    A correr,
    As meninas
    A prender:
    – «Qual será
    Mais bonita
    Que se vá
    Arrecolher?»
    98. Pintolo minto,
    Que vend’a vaca
    A tent’e cinco.
    Forolo mouro,
    Que tu és touro.
    Viva a faca
    Da comaca
    E o rio.
    Dá-m’a vez
    Que t’acama
    A tua vez.

    Santo Tomé21

    95Uma criança coloca-se ao centro da roda que as outras formam; estas vão executando compassadamente os movimentos que a do centro indica.

    99. S. Tomé, S. Tomé,
    Vossa terra está em pé!
    Manda el-rei de Portugal
    Que vos mande ajoelhar.
    S. Tomé, S. Tomé,
    Vossa terra está em pé!
    Manda el-rei de Portugal
    Que vos mande sentar.
    S. Tomé, S. Tomé,
    Vossa terra está em pé!
    Manda el-rei de Portugal
    Que vos mande deitar.
    S. Tomé, S. Tomé,
    Vossa terra está em pé!
    Manda el-rei de Portugal
    Que vos mande alevantar.

    Pilha três

    96As crianças dispõem-se em grupos de três, estando em cada grupo umas com as costas voltadas para as outras e os grupos dispostos circularmente. Uma fica no centro, outra de fora. Supondo que há só quatro grupos, a disposição é como na figura seguinte:

    Image 1000000000000138000000ED124F4356E4F9671F.jpg

    97A que está ao centro coloca-se junto de um grupo, com as costas para ele, o grupo ou coluna ficando então com quatro; o de fora imediatamente se coloca detrás desse grupo, mas o de dentro busca não lhe dar tempo, indo colocar-se da mesma maneira junto de outro grupo. Quando o de fora chega a tempo do outro estar junto de um grupo, dá uma palmada no último (da parte de fora) do grupo e diz:

    – Pilha três.

    98O do centro toma o lugar do de fora.

    Sape-gato

    99É um jogo de crianças já crescidas: uma põe as mãos sobre as de outra; a que as tem por baixo busca bater nas da outra, que trata de se livrar; se o não consegue, continua a ter as mãos por cima.

    Péla

    100Joga-se de diversas maneiras. Numa delas atira-se a péla ao ar e apara-se na mão, contando o número de vezes até ela cair no chão, cantando-se:

    100. Rei, rei, rei,
    Quantos anos viverei?
    Uma velha qu’eu matei,
    Um gato qu’eu esfolei,
    Um, dois, três...

    Anel

    101As crianças sentam-se em roda, ficando uma de pé ao centro; as da roda juntam as mãos em forma de caixa aberta pelo lado de cima; a que fica de pé tem entre as mãos um anel; dá uma volta, fazendo gesto de o deitar nas mãos de cada uma, deixando-o cair a ocultas nas de uma qualquer. Então pergunta, a partir de uma:

    – Onde está o anel?

    102A que adivinha passa para o meio; as que não adivinham pagam prenda.

    Outro jogo do anel

    103As crianças de pé formam roda, tomando nas mãos um cordel em que se enfiou um anel e cujas extremidades se ataram. Uma que fica ao centro trata então de agarrar o anel onde o vê parado, mas as outras imprimem-lhe um movimento com as mãos, segurando sempre o cordel, de modo que se torne difícil agarrar o anel. A roda deve ser larga. A que por falta de habilidade deu causa a que o anel fosse agarrado passa para o centro.

    Lenço queimado

    104As crianças tomam um lenço, fingindo que o queimam; depois vão escondê-lo, ficando uma com os olhos vendados; escondido o lenço, descobrem os olhos à que ficou; esta vai procurá-lo. Quando se aproxima do lugar onde o lenço está, dizem as outras:

    – Quente, quente.

    105Quando se desvia, dizem as outras:

    – Frio, frio.

    106Quando descobrir o lenço, vai outra para o seu lugar.

    Cabra-cega

    107Uma criança, designada pela sorte ou escolhida, tapa os olhos com um lenço. As outras dizem, rodeando-a, e ela responde:

    101. – Cabra cega,
    D’onde vem?
    – De Castela.
    – O que traz?
    – Farinha e canela.
    – Fugimos d’ela que tem piolhos.

    108Ou:

    102. Cabra cega,
    D’onde vens?
    – Do moinho.
    – Que trazes?
    – Farinha.
    – Fugimos d’ela que tem piolhos.

    109Então a cabra cega busca as outras às apalpadelas; estas evitam-na; a primeira em que ela toca toma o seu lugar; e repete-se o jogo até as crianças estarem aborrecidas.

    A vendedeira de fruta

    110Uma criança, designada pela sorte ou escolhida pelas outras, senta-se, fazendo de vendedeira de fruta. Outras vão apreçar a fruta e fazer-lhe perguntas diversas a respeito dela; mas a vendedeira não deve empregar verbos nas respostas, porque se os emprega perde. Exemplos:

    Que vende?

    Laranjas.

    São boas?

    Muito boas.

    D’onde são?

    De Setúbal.

    Vieram há pouco?

    Hoje mesmo.

    Por quanto m’as vende?

    A tostão a dúzia.

    São muito caras.

    Muito baratas, senhor (ou senhora).

    111Se a que faz de vendedeira emprega um verbo na resposta, a que a fez errar no jogo toma o seu lugar.

    112Na forma mais popular do jogo proibem-se só as formas são ou é.

    O padre cura

    113Neste jogo uma criança é o padre cura, que deve ser tratado por v. s.a; outra a governante do padre cura, que deve ser tratada por vossemecê; outra o criado, que deve ser tratado por você; as outras são diferentes pessoas da freguesia, que se tratam por tu. Travam-se diálogos em que a resposta mais frequente é, segundo os personagens a que se dirige: Mentes tu; ou: Mente você; ou: Mente v. s.a, etc. Os jogadores esforçam-se todos por se fazer enganar uns aos outros no tratamento; o que se engana paga uma prenda.

    O santeiro

    114Uma das crianças faz de vendedor de imagens de santos; outras representam imagens, tendo previamente determinado o nome. Entra uma, que é o comprador, e pergunta ao vendedor se tem tal ou tal imagem; aproxima-se da que representa a imagem e põe-lhe defeitos, tais como: Ora o nariz de batata! Ora a boca de colher!

    103. Esta barba babadeira,
    Esta boca comedeira,
    Este nariz narigão,
    Estes olhos de maganão22,
    Esta testa de caldeirão.23

    115É mister que cada santo não se mova, nem se ria durante esta cena; o que se ri vai para o inferno, pena que consiste simplesmente em ir para o fundo da casa e estar com a cara voltada para a parede até os outros santos terem sido ajustados.

    Pão queimado

    116Os jogadores estão de mãos dadas formando uma cadeia. O que fica na extremidade da esquerda trava com o que fica na outra extremidade o seguinte diálogo:

    104. – Senhor de cima!
    – Senhor meu!
    – Quantos pães tem na arca?
    – Vinte e um queimados.
    – Quem n’os queimou?
    – Um ladrão que por aqui passou.
    – Enloirado, enloirado,
    – Esse ladrão seja enforcado.

    117Passam por baixo dos braços do primeiro e segundo; repetem a fórmula; passam por baixo dos braços do segundo e terceiro, sem largar as mãos; e assim até ficarem todos com os braços cruzados sobre o peito, sempre de mãos dadas.

    118Trava-se novo diálogo entre os das extremidades:

    – Senhor de cima!
    – Senhor meu!
    – Empresta-me as suas cordas?
    – Elas estão podres.
    – Vamos a consertá-las.

    119Fazem então todos força, estendendo o cordão formado pelos braços, e aqueles por onde ele quebra ficam fora do jogo, que se repete tantas vezes quantas for necessário para que pela eliminação dos jogadores não haja mais número suficiente para continuar.

    120Este jogo é principalmente de rapazes, conquanto também tenhamos visto meninas a jogá-lo.

    Punho, punhete

    121As crianças fecham as mãos, e vão pondo punho sobre punho em forma de coluna; uma delas vai perguntando, ao passo que toca num dos punhos de cada uma das outras:

    105. – Que é isto?

    122Aquela em cujo punho a primeira toca, deve responder logo:

    – Punho, punhete.

    123E assim se repete até chegar ao penúltimo punho em que a resposta varia, assim como no último:

    – Que é isto?
    – Cabeça d’alfinete (no penúltimo punho).
    – Que é isto?
    – Uma arca fechada (no último punho).
    – Que tem por dentro?
    – Pão bolorento.
    – Que tem por fora?
    – Cordas de viola.

    124As que têm as mãos por cima fazem força a ver se as de baixo retiram as suas.

    Silêncio

    125No jogo do silêncio todos os jogadores devem estar calados, excepto um, que busca por todos os meios fazer falar os outros; o que primeiro fala paga uma prenda. Na sua forma mais infantil o que fala diz a fórmula seguinte; o que quebra o silêncio é surriado:

    106. Era não era
    No tempo da era
    Três piolhos24 dentro d’uma panela.
    Três para ti, três para ela,
    Três para o primeiro que falar,
    Fora eu, que sou rei de Portugal.

    Sisudo

    126O jogo do sisudo joga-se entre duas ou mais crianças (ou adultos). No primeiro caso fitam-se os dois e o que primeiro sorri ou desvia os olhos, perde. No segundo caso um jogador busca meio de fazer rir os outros; o que primeiro ri paga uma prenda. Comp. o jogo dos Santos.

    Rato

    127As crianças (meninos ou meninas) formam uma roda estando de pé; uma fica ao centro; essa é o rato na ratoeira; as da roda estão de mãos dadas, mas de quando em quando soltam as mãos; o rato então tenta sair da roda, mas elas fecham-nas logo, até que o rato consegue sair; aquela que o deixa sair toma o lugar dele.

    Pedrinhas de taixoso

    128Uma criança busca três pedrinhas convenientes para o jogo e vai-as pondo sobre as costas da mão ao passo que diz as seguintes 2, 3 e 4 linhas:

    107. Pedrinhas de taixoso,
    Comer pão com queijo,
    Soro d’ovelha,
    Leite de cabra,
    Tem-te, homem, que não caias!

    129Ao dizer a última linha atira as pedras ao ar, esforçando-se por as apanhar na palma da mão. (Coimbra.)

    Maria Guindim

    130As crianças colocam-se em roda, ficando uma ao centro, que pergunta a uma da roda:

    108. – Viste lá a Maria Guindim?
    – Qual Maria Guindim?
    – Aquela que fazia assim.

    131E faz um movimento com a cabeça ou com os braços que as outras repetem indefinidamente. Renova-se a pergunta e faz-se um outro movimento (com os braços, por exemplo) sem terminar o primeiro, de modo que por fim movem os jogadores os membros todos, e o que o não faz paga uma prenda.

    Castelo de Chuchurumel

    132Os jogadores sentam-se em círculo; um tem uma chave e transmite-a ao seguinte, este ao imediato e assim de seguida, até terminar a lenga-lenga do jogo, de que cada um diz uma parte, sucessivamente maior. O que se engana paga uma prenda.

    109. – Aqui está a chave
    Que abre a porta
    Do castelo
    De Chuchurumel.
    – Aqui está o cordel
    Que prende na chave
    Que abre a porta
    Do castelo
    De Chuchurumel.
    – Aqui está o sebo
    Que unta o cordel
    Que prende na chave
    Que abre a porta
    Do castelo
    De Chuchurumel.
    – Aqui está o rato
    Que roeu o sebo,
    Etc.
    – Aqui está o gato
    Que comeu o rato,
    Etc.
    – Aqui está o cão
    Que mordeu o gato,
    Etc.
    – Aqui está o pau
    Que bateu no cão,
    Etc.
    – Aqui está o lume
    Que queimou o pau,
    Etc.
    – Aqui está a água
    Que apagou o lume,
    Etc.
    – Aqui está o boi
    Que bebeu a água,
    Etc.
    – Aqui está o carniceiro
    Que matou o boi,
    Etc.
    – Aqui está a morte
    Que levou o carniceiro
    E que entrega a chave
    Que abre a porta
    Do castelo
    De Chuchurumel.

    A noiva

    133Os jogadores sentam-se, ficando apenas um de pé que vai perguntando em roda:

    – Estando a noiva para se casar, que é que lhe dá?

    134Os outros jogadores respondem: o vestido, o véu, os brincos, o bracelete, etc.

    135Corrida a roda diz a do meio:

    – Falta o chapéu à noiva.

    136O jogador que disse dar o chapéu deve dizer logo:

    – O chapéu tinha ela, mas falta-lhe (por exemplo) o bracelete.

    137O que disse dar o bracelete:

    – O bracelete tinha ela, mas falta-lhe...

    138E assim de seguida até todos terem pago prenda por não haverem respondido a tempo ou por se aborrecerem do jogo.

    139De quando em quando o do meio diz:

    – Falta-lhe tudo.

    140Então levantam-se todos os jogadores, dão uma volta à casa e voltam aos seus lugares, continuando o jogo como anteriormente.

    Carrasquinha

    141Este jogo é uma dança de roda que nos foi descrita por pessoa que a viu dançar a raparigas aldeãs, mas que poderão dançar muito bem as meninas da cidade.

    142Como nos outros jogos de roda dão-se as mãos formando círculo e gira-se cantando; podem-se empregar diversos cantos em que de espaço a espaço se intercalam os seguintes, característicos do jogo, e que acompanham os movimentos que lhes são particulares:

    110. Este jogo da carrasquinha
    É um jogo assim de lado.
    Pondo o joelho em terra
    Todo o mundo fica pasmado.
    Matilde, sacode a saia;
    Matilde, levanta o braço;
    Matilde, dá-me um beijinho;
    Matilde, dá-me um abraço.

    143Dizendo o primeiro verso soltam os jogadores as mãos; dizendo o segundo voltam-se com o braço esquerdo dobrado, tendo a mão sobre o peito, e o cotovelo apontando para o peito da que fica à esquerda; dizendo o terceiro verso põem um joelho em terra e dobram-no simplesmente; dizendo o quarto levantam-se; dizendo o quinto dão uma volta completa, cada um por si, fazendo gesto de sacudir a saia; dizendo o sexto levantam o braço direito; dizendo os dois últimos, duas a duas aproximam as frontes, tomam-se pela cintura e cada par dá uma volta, terminada a qual dão as mãos de novo, continuando a dança de roda.

    Gualdir e gualdar

    144É um jogo de meninas. Estando uma no meio formam as outras uma roda; a do meio dirige-se a uma das da roda e diz:

    111. Mariquitas, mui bela mocita,
    Mui gosta d’usted.
    Meia volta darás.

    145Dá meia volta com a que tirou da roda e continua:

    – Se a quiseres dar,
    Gualdir e gualdar,
    Passarás ao meu lugar.

    146Dançam as duas e a que estava no meio canta:

    – Nâo há melhor prazer
    Que meu doce lugar.

    147Dando voltas:

    Uma pelos portugueses,
    Que são mui corteses,25
    Que sabem bailar,
    Gualdir e gualdar,
    Passarás ao meu lugar.
    Outra pelos espanhóis
    Que são uns heróis
    E sabem bailar.
    Gualdir e gualdar,
    Passarás ao meu lugar

    148A que estava primeiramente no meio toma o lugar da outra, entre as da roda, que giram lentamente durante a dança; a que ficou no meio toma outra da roda e o jogo continua, até terem todas ocupado o centro. (Coimbra.)

    Jogo do pezinho

    149Rapazes e raparigas, em número ímpar, fazem roda, dando as mãos; adiantam o pé direito, e, tocando com o bico deste no chão repetidas vezes a compasso, dizem, cantando:

    112. Ponh’aqui,
    Ponh’aqui
    O seu pezinho;
    Ponh’aqui,
    Ponh’aqui
    Ao pé do meu;
    Ao tirar,
    Ao tirar
    O seu pezinho

    (nisto, vão retirando o pé)

    Ai Jesus,
    Ai Jesus
    Que lá vou eu.

    150E, soltando todos de repente as mãos, abraçam-se aos pares, cantando:

    Estou contente do meu par;
    Foi condão Deus me lo dar.

    151A rapariga que fica só, perdeu, e é a viúva para o jogo seguinte.

    Jogo da viúva

    152Rapazes e raparigas, em números pares, fazem roda, girando de mãos dadas. A viúva volteia no centro da roda, cantando:

    113. – Eu sou viuvinha
    Da banda d’além;
    Quero-me casar,
    Não vejo com quem.

    153E, apontando sucessivamente para cada um dos rapazes do jogo, repete:

    – Contigo, não não.

    154Chegando, porém, àquele que ela prefere, bate palmas, e, abraçando-se com esse, exclama:

    – Contigo, sim sim.

    155Ao mesmo tempo, as demais jogadoras se abraçam aos pares, ficando uma das raparigas só. Esta, que é a viúva para o jogo seguinte, permanece calada. Todas as outras pessoas do jogo, no instante em que se abraçam, dizem, cantando:

    – Minha viuvinha
    Do meu coração,
    Casada, sim sim;
    Viúva, não não.

    Jogo da condessa

    156Sete raparigas, de mãos dadas, são filhas da condessa, já entradas no mosteiro para professar. Junto delas está uma rapariga a quem por sorte soube ser a condessa. Sete rapazes, também de mãos dadas, dirigem-se para a condessa; são cavaleiros que lhe vêm pedir as filhas em casamento.

    157Dizem eles:

    114. – Aqui lh’as vimos pedir
    Para com elas casar.

    158Responde ela:

    – Nem por ouro, nem por prata,
    Nem por sangue de dragão,
    Eu não dou as minhas filhas
    Do mosteiro onde estão.

    159Despedem-se eles:

    – Tão alegres que viemos (venhemos)!
    Tão tristes que voltaremos!
    Que as filhas da condessa
    Por mulheres não levaremos.
    Pois sabei que todos temos
    Senhorio sem igual;
    Que todos somos fidalgos
    Que nem de sangue real.

    160E vão-se retirando, mas a condessa os detém:

    – Volvei a mim, cavaleiros;
    Por serdes homens de paz,
    Ide cada um à grade
    Escolher a que vos praz.

    161Eles voltam, aceitam, e cada qual, por sua ordem, observando cada uma das filhas da condessa de per si, vai tomando para noiva a que lhe agrada.

    162Diz o primeiro cavaleiro:

    – Esta não, nem esta quero;
    Esta, coma pão de cento;
    Esta, vinho de cabaça;
    Esta, carne do assento;
    Esta, carne de acém;
    Esta é de meu contento;
    Andai comigo, meu bem.

    Diz o segundo:

    – Esta não, nem esta quero;
    Esta, coma pão de cento;
    Esta, vinho de cabaça;
    Esta, carne do assento;
    Esta é de meu contento;
    Andai comigo, meu bem.

    163Diz o terceiro:

    – Esta não, nem esta quero;
    Esta, coma pão de cento;
    Esta, vinho de cabaça;
    Esta é de meu contento;
    Andai comigo, meu bem.

    164Diz o quarto:

    – Esta não, nem esta quero;
    Esta, coma pão de cento;
    Esta é de meu contento;
    Andai comigo, meu bem.

    165Diz o quinto:

    – Esta não, nem esta quero;
    Esta é de meu contento;
    Andai comigo, meu bem.

    166Diz o sexto:

    – Esta não, mas esta quero;
    Esta é de meu contento;
    Andai comigo, meu bem.

    167Diz o sétimo:

    – Esta é de meu contento;
    Andai comigo, meu bem.

    168À proporção que as noivas são escolhidas, vai cada par, de mãos dadas, enfileirando com o antecedente; por fim, dançando e cantando, fazem todos roda à condessa, e acaba o jogo. Para o recomeçar é tirada nova sorte, a ver qual das outras raparigas será condessa, ou, na ocasião da roda e dança final, é vendada a condessa do jogo findo, e a rapariga a quem ela lançar a mão fica sendo a condessa do jogo seguinte; e ainda este processo pode ser modificado: vendada a condessa, escondem-se as filhas; o primeiro cavaleiro dá um apupo e desvenda a condessa; esta procura as foragidas, e a primeira que acha fica sendo condessa.

    Condessinha de Aragão

    169É uma variante mais simples do jogo precedente em que entram só meninas. Estas formam uma roda, sentadas em torno de uma que fica de pé e a quem seguram a saia. Vem uma de fora e trava-se o diálogo com a que está de pé.

    115. – Mora aqui a condessinha d’Aragão?
    – Mora, sim senhor, que lhe quer?
    – Que lhe dê a melhor filha que tiver.
    – Eu não dou as minhas filhas
    Nem por ouro nem por prata,
    Nem por fio d’algodão,
    Que elas são as minhas filhas,
    Filhas do meu coração.

    Vai-se a que veio de fora, e a do centro diz:

    – Venha cá, homem das calças pardas,
    Eu lhe dou as minhas filhas
    Se elas forem bem tratadas.
    – Bem tratadas hão-de ser
    Logo postas d’almofada,
    Tecendo fiinhos d’ouro.
    Venha a minha desposada.

    Repete-se o diálogo até a do centro ficar só.

    TERCEIRA SÉRIE

    Adivinhar dedos

    170O jogo de adivinhar o número de dedos joga-se, entre outras, da seguinte maneira: um rapaz ajoelha e dobrando o corpo apoia-se com as mãos numa pedra; outro põe-se a cavalo nas costas dele e diz, estendendo um certo número de dedos:

    116. Adivinha, adivinhão,
    Quantos dedos tem na mão.
    – Tantos (o outro responde um número).
    – Se tantos (o verdadeiro número) disseras,
    Não perderas nem ganharas.
    Adivinha, adivinhão,
    Quantos dedos tem na mão.

    171Se o de baixo adivinhou trocam os lugares. Dois rapazes sós jogam muitas vezes este jogo sem que o que pergunta engane jamais o outro.

    172Eis uma variante:

    173Os rapazes sentam-se em roda com os olhos tapados; um fica ao centro em pé e diz:

    117. Chicotinho, chicotão,
    Bela corda cordavão,
    Adivinha machacás
    Quantos dedos ’stão p’ra o ar.
    Se dissesses que eram três (ou outro número),
    Não perdias nem ganhavas.

    174O que adivinha passa para o meio; o que não adivinha dá uma prenda.

    Padeiro

    175Dois rapazes dão as mãos, direita e esquerda, sem cruzar os braços, e balouçam-se para a direita e para a esquerda, levantando alternadamente os braços de um e outro lado; depois balouçam-se na direcção dos braços estendidos; por fim dão uma volta, sem largar as mãos, ficando de costas contra costas. Dizem:

    118. Assim se amassa,
    Assim se peneira,
    Assim se dá volta
    Ao pão da masseira.

    O grilo

    176Os jogadores colocam-se em coluna, uns por detrás dos outros; entre o primeiro e o segundo (ou o último) trocam-se as seguintes palavras:

    119. – Dá-me um grilo?
    – Vá atrás que o pilho.26
    – Se o pilhar ou não
    Meta a mão no caldeirão.

    177O primeiro passa então rapidamente para o fim da coluna. O que fica à testa da coluna e o segundo (ou o último) repetem as mesmas palavras; há igual passagem e assim de seguida até o que no começo era o último da coluna estar à frente dela. Este jogo deve executar-se com rapidez e igualdade nos movimentos.

    Jogo do punho27

    178Este jogo deve ser de rapazes somente, e poucos. Todos, excepto um, fazem roda; fecham as mãos, deixando os polegares levantados, e, pondo umas sobre outras, ligadas pelos polegares, formam delas como que uma torre ou castelo. O jogador exceptuado é o assaltante da fortaleza: vai com a sua mão direita apalpando, de baixo para cima, as mãos encasteladas; interroga cada um dos outros jogadores, e cada qual destes vai respondendo:

    120. – Que tem por dentro?
    – Pão bolorento.
    – Que tem por fora?
    – Cordas de viola.

    179E examinada assim a torre, diz o inimigo:

    – Quem me dera
    Camartelo,
    P’ra arrasar
    Este castelo.

    180E logo, dando de punho fechado por um e outro lado da torre de mãos se esforça por desfazê-la, ao passo que os outros jogadores se empenham em mantê-la. Aquele que primeiro perder a posição, perde o jogo, e para o seguinte fica, como assaltante, fora da roda.

    Ofícios

    181Cada uma das crianças escolhe um ofício e depois colocam-se todas em volta; uma fica ao centro (a mais desenvolvida) e vai nomeando ou pedindo instrumentos e objectos relativos a cada ofício, mas sem ordem determinada: a que representa o ofício é obrigada a dizer: A qui está, ou qualquer outra coisa, ou a imitar os movimentos com o instrumento. Exemplo:

    – Aqui tenho – diz a do meio –, este pedaço de ferro; preciso de o meter na forja.

    182O ferreiro responde:

    – Aqui está a forja.

    – Está arranjado o ferro da charrua; vamos pô-lo na charrua.

    183Responde o lavrador:

    – Aqui está a charrua.

    – Rasguei a jaqueta no forro; preciso de uma agulha.

    184Responde o alfaiate:

    – Aqui está a agulha.

    Arranca-te, nabo

    185Os rapazes agarram-se pela cintura, sentados sobre os joelhos uns dos outros. Um que fica de fora trata de fazer soltar o da frente, dizendo:

    121. Arranca-te, nabo,
    Que já estás vingado.

    186Solto o primeiro passa-se ao segundo e assim até ao último, se consegue arrancá-los todos, caso em que os outros o celebram vencedor.

    Pimpolhinha

    187Os rapazes põem-se em roda e um deles vai tocando sucessivamente em cada uma das pernas dos outros e das suas próprias, e dizendo a seguinte fórmula de eliminação:

    122. Um, dois, três e argolinha,
    Finca o pé na pimpolhinha.
    – Ó rapaz, que jogo fazes?
    – Faço o jogo licotão28.
    Conta tu, Mané João;
    Se contares e não errares,
    Vinte e quatro hás-d’achar.
    Diz a velha do bordão
    Que recolha o seu pezinho,
    Que recolha o seu pezão.

    188O que tem que recolher os pés afasta-se então dos companheiros que se ajoelham, formando duas fileiras, entre as quais aquele passa correndo, se pode, por entre as palmadas que os outros tentam dar-lhe nas pernas.

    Fito

    189Põe-se de pé uma pedra ou um pau de cerca de dois ou três decímetros de altura; os jogadores escolhem pedras chatas que se possam arremessar facilmente a distância contra a que fica de pé. Traça-se no chão uma linha que indica a distância a que devem ficar os jogadores. O primeiro atira a pedra; se deitou abaixo o fito (a pedra ou pau que fica de pé) marcam-se-lhe três pontos e joga de novo, tantas vezes quantas deita abaixo o fito (que é logo posto de pé); se não o deita abaixo, segue-se outro jogador, com que procede como com o primeiro. Tendo jogado o turno, sem deitar abaixo o fito, vê-se de qual é a pedra que ficou mais perto dele; ao jogador a que pertence marca-se um ponto. O número dos pontos para ganhar é fixado antes de começar o jogo. O que consegue ganhar maior número de jogos é levado aos ombros em triunfo pelos outros parceiros.

    190É um excelente jogo ginástico.

    Rixas

    191As rixas dos rapazes, que se transformam às vezes em duras batalhas à pedrada, não são motivadas em regra por simples questões do momento; não são muitas vezes mais do que o resultado de ódios tradicionais entre habitantes de dois lugares ou de dois bairros, eco das lutas entre representantes de duas raças, ou de duas classes, entre os do arrabalde e os da vila, entre os colonos e os homens do feudo.

    192A rixa simulada que termine a tempo, sob a inspecção severa de quem possa intervir com a sua autoridade, tem valor ginástico.

    193Pode figurar-se, por exemplo, um castelo e um assalto com diversos incidentes; a rendição do castelo, etc., pode transformar até esse jogo numa pequena lição de história.

    Linhas

    194Toma-se uma linha ou um cordel fino, cujas pontas se ligam com um nó e que se segura, estendendo-a, com as mãos espalmadas, passando a linha ou cordel por entre o polegar e o index; executam-se vários movimentos difíceis de descrever, pelos quais se dão à linha diversas disposições, a que se chama barco, esteira, ferreiros, tumba, rede, etc.

    Balancé

    195Os rapazes tomam uma tábua ou uma vara assaz forte; colocam-na sobre um ponto de apoio, de modo que fique uma alavanca interfixa; põe-se um de um lado, outro do outro nas extremidades e executam alternativamente movimentos de subida e descida, equilibrando-se.

    Arco e frecha

    196Os rapazes fazem arcos de qualquer haste flexível e elástica; arranjam frechas de cana, etc., tendo por ponta geralmente um alfinete e esforçam-se por atirar a pontos marcados. Nunca vimos, porém, usarem nem rapazes nem adultos de arcos regularmente construídos, que seriam material para excelentes exercícios.

    197Depois da invenção das armas de fogo o uso do arco caiu no domínio dos divertimentos; como tal o achamos ainda na Alemanha e noutros países.

    Ricochete ou chapeleta

    198O jogo do ricochete consiste em atirar pequenas pedras chatas, que se encontram geralmente misturadas com a areia dos rios e que são sobretudo fragmentos de lousa, à superfície da água, de modo que elas vão saltitando. O que fez dar à pedra maior número de saltos é o mais aplaudido.

    199Este divertimento encontra-se em grande número de países.

    Jogos diversos

    200Entre jogos e brinquedos das crianças portuguesas mencionaremos: 1) patinhar na água; 2) passar o vau do rio; 3) fazer pontes, castelos de areia, de pedrinhas, de cartas-, 4) construir canais para a água; 5) fazer pequenas azenhas de cana ou madeira nos regatos; 6) fazer pequenos moinhos de vento ou corripios de papel; 7) fazer estalos de papel; 8) fazer saltões de cana, pica-paus, caixinhas, barcos de papel; 9) fazer bolas de sabão; 10) deitar ao ar o papagaio de papel, a que no Porto chamam estrela, e que nalgumas partes se faz de largas dimensões; 11) correr a argolinha que, por ocasião de certas festas, nalguns lugares, se põe numa corda atravessada numa rua ou largo a certa altura e que os rapazes buscam enfiar com uma cana, correndo; 12) fazer repuxos; 13) armar capelinhas, fazer charolas; 14) pescar à cana, à coca (envenenando o peixe); 15) fazer armadilhas para apanhar aves; 16) fazer cigarras ou cegarregas com um pequeno tubo de cana, aberto de um lado, fechado do outro com um bocado de pele ou pergaminho, atravessado por uma crina de cavalo, instrumento que, fazendo-se girar no ar, produz um som comparável ao da cigarra; 17) tocar berimbau, cochicho, rouxinol de barro, teclas (pela semana santa); 18) gaitinhas de um bocado de ramo de loiro, com um corte longitudinal, em que se mete uma folha da planta aparada, ou de uma palha de trigo verde com um corte, ou de tubo de cana verde, fechado de um lado, no qual se faz um pequeno corte, deixando nele a película interior; 19) trautear com um pente coberto de papel que se tem contra a boca; 19) jogar a chapa, o botão, o rapa, o pião; 21) andar sobre andas; 22) andar a cavalo num pau ou cana-, 23) atar linhas a moscas que se deixam voar, fitas a aves; 24) jogar o par ou pernão (par não), que se chama também pares ou nunes; 25) simular toiradas; 26) andar às cavaleiras; 27) atirar com funda; 28) atirar bolinhas de barro, feijões ou grãos, por um tubo de cana ou de vidro (geralmente pelo carnaval); 29) levar uma criança de cadeirinha, isto é, sentada sobre os braços cruzados de duas que apertam as mãos; 30) fazer figuras de barro, etc.

    201A maior parte desses jogos são aproveitáveis e acham-se num grande número de povos.

    APÊNDICE

    Sentenciar as prendas

    202No fim dos jogos de prendas, isto é, em que se pagam prendas, que são quaisquer pequenos objectos, reúnem-se estes; um dos jogadores lança-os numa caixa, chapéu, lenço, aba da saia, etc., e tomando um sem que os outros vejam, pergunta:

    – Que se há-de fazer ao dono desta prenda?

    203Um dos jogadores sentencia a prenda, e assim para todos. Os sentenciados têm então de cumprir a sentença. Em geral a sentença de cada prenda è dada depois de cumprida a antecendente.

    204Eis algumas das sentenças mais usadas: Estar às ordens. Medir fita às varas. Servir de relógio. Estar na berlinda. Fazer sentinela. Servir de esquina. Estar no poço. Ser pedra de rio. Perguntar: Se a minha boca fora condeça, o que metia nela? Ou: se o meu coração fosse papel, o que escrevia nele?

    205Eis como se cumpre a sentença de estar no poço: o sentenciado senta-se no chão rodeado de bancos ou cadeiras e geme; os outros interrogam-no:

    Ai, ai, ai!

    Que tem?

    Estou no poço.

    Por onde lhe dá a água?

    Pelo pescoço.

    206Um dos jogadores vai tirar o que está no poço e fica em seu lugar; repete-se o mesmo até todos terem estado no poço.

    207Ser sentinela: o sentenciado, com um pau servindo de arma, faz sentinela.

    208Outro aproxima-se:

    Quem vem lá?

    Camarada.

    Que ordens traz?

    Render a guarda.

    209A sentinela tem de dar um abraço ao que vem render, se lhe agrada o camarada, e entregar a arma; se não, diz:

    – Passe de largo.

    OBSERVAÇÕES SOBRE O USO PEDAGÓGICO DESTA COLECÇÃO

    210No iii volume da Biblioteca de Educação Nacional trataremos desenvolvidamente do valor pedagógico do jogo; por enquanto limitar-nos-emos a algumas indicações.

    211Neste volume restringimo-nos aos jogos tradicionais do nosso país; mais tarde daremos um volume de jogos estrangeiros escolhidos; não demos, todavia, tudo o que conhecíamos da tradição nacional, não só para não exceder os limites impostos a cada volume, mas porque alguns jogos por grosseiros, ou perigosos, devem ser excluídos de uma colecção pedagógica, conquanto tenham interesse sob o ponto de vista tradicional. Nesse caso está, por exemplo, o vulgaríssimo jogo do Eixo, que, além de perigoso, é acompanhado geralmente de grosseiras rimas.

    212Condenamos todos os jogos infantis em que haja por mira um ganho de dinheiro ou objectos, tais como penas de escrever, bolos, botões; tal ganho tira ao jogo o seu carácter próprio, que é de não ter outro fim senão o próprio jogo. Ser levado de cadeirinha, em triunfo aos ombros, ocupar um lugar determinado pelas próprias regras do jogo, eis o único género de ganho possível, sob o ponto de vista pedagógico. Excluímos pois o jogo da chapa, do botão, do rapa e quaisquer jogos de cartas do domínio infantil. Não simpatizamos sequer com o burro e o diabrete, que provocam por vezes a batota. Habilidade, presteza, perspicácia, mas ao mesmo tempo uma perfeita lisura – eis o que se deve exigir no jogo infantil. Todos os jogos que podem fazer surgir a trapaça, devem pois ser condenados, e a trapaça está prestes a surgir quando o jogo tem por fim uma vantagem real.

    213O jogo é a forma adequada da actividade da criança – actividade sem finalidade consciente. Quando à criança se faz sentir a finalidade dos seus actos, esses actos perdem a espontaneidade: a criança é sujeita a uma forma de actividade atrofiadora. Nos movimentos, nas obras da sua indústria, nas perguntas sobre os objectos que atraem a sua atenção, ela só busca satisfazer necessidades imperiosas do momento, fisiológicas e psicológicas; é por isso que, por exemplo, a destruição se segue à sua construção: levantado o castelo de cartas, o maior prazer está em lançá-lo por terra.

    214O jogo é portanto o instrumento de que a pedagogia tem que se servir nas primeiras fases da educação, dirigindo-o de modo que pouco e pouco, insensivelmente, mas com segurança de êxito, o espírito se encaminhe para a ideia da finalidade dos actos.

    215A humanidade na sua educação espontânea inventou esse instrumento, como todos os outros instrumentos de progresso, sem lhe conhecer a teoria. Só num século de adiantada especulação, de profunda análise psicológica e fisiológica, como o nosso, é que se começou a penetrar no segredo das criações inconscientes da humanidade; só nele pois é que se podia apreciar todo o alto valor do jogo na educação, e voltar pela ciência ao que a humanidade produzira na sua espontaneidade, eliminado os processos pedantes que as fases prévias de reflexão incompleta, de racionalismo estreito tinham substituído ao processo natural.

    216Hoje compreendemos, explicamos teoreticamente, modificamos, vivificamos pelo novo espírito as formas achadas pela humanidade nos períodos anteriores: não criamos. Não é só a química impotente para criar um átomo de matéria ou mesmo para, pela síntese da matéria morta, chegar à criação do protoplasma vivo: a pedagogia sente-se impotente para criar um só elemento legítimo novo da educação; todo o seu papel consiste pois em aproveitar os elementos que a tradição dos povos oferece, extremando o bom do mau, e fundindo o bom num sistema alumiado pela teoria em todas as suas partes.

    217Eis porque a pedagogia, depois de tentativas infrutíferas, voltou aos jogos tradicionais; é por isso mesmo que a ginástica pedantesca dos aparelhos começa a ser combatida em nome desses jogos.

    218Leibniz falou já da aguda e inimitável força de invenção que se acha nos jogos tradicionais. Nisto, como em muitas outras coisas, aquele grande espírito previu o nosso tempo.

    219A parte dos movimentos nos jogos tradicionais que reunimos, não se presta em geral a discussões: esses movimentos não oferecem perigo; podem regular-se ginasticamente e executar-se com graça. Mas alguns críticos podem achar uma parte, pelo menos das rimas, sem valor; se esses críticos leram o Sr. Bernard Perez, no seu livro sobre a Educação desde o Berço, as nossas rimas estão em grave risco de serem condenadas. «Receio, diz aquele escritor, que os versos compreendidos da criança não sejam demasiado chatos para serem conservados de memória; e que os que ela compreende não lhe façam perder ridiculamente um tempo que poderia ser mais bem empregado.» E traça sentença de morte para os versos na educação infantil.

    220Nós e connosco todos os que não estudam a psicologia de crianças isoladas, mas a psicologia da infância, seguindo o preceito de Goethe, que queria que o pedagogo não atendesse à criança, mas sim à infantilidade, defendemos as rimas infantis tradicionais.

    221A criança brinca com objectos materiais, brinca com o seu corpo, brinca com sons, brinca com imagens. Todas essas formas do jogo começam por actos puramente reflexos; pouco e pouco esses actos vão convertendo-se em actos voluntários, e pouco e pouco nos actos voluntários vai surgindo a consciência.

    222Os movimentos dos lábios levam à primeira produção de sons: a criança começa a escutar-se; toma prazer nesse jogo, palra. Desse jogo poderia sair mais tarde a linguagem: o acto reflexo poderia ir adquirindo o valor do acto teorético da linguagem; mas a educação externa intervém: aproveita aqueles impulsos espontâneos, imprime-lhe uma direcção e a criança aprende palavras da língua materna. Então começa a brincar com palavras. Depois formula proposições e começa a brincar com proposições, ao mesmo tempo que faz delas emprego prático. Quando as primeiras rimas se fixam na sua memória, tem matéria nova para o jogo: brinca com as rimas. O ritmo, a consonância são aqui muito, senão o principal. Ao mesmo tempo opera-se no espírito da criança a distinção da linguagem do jogo, a rima, da linguagem da praxe da vida, a prosa. É uma iniciação no mundo da arte.

    223As rimas infantis podem parecer a muitos ridículas, absurdas, e fazer supor que, admitindo que acodem a uma necessidade real da criança, se poderiam substituir por coisa melhor. A verdade é que o que de propósito se tem escrito com esse fim não as vale; não receamos até dizer: tem um grande sentido o facto das rimas infantis terem, consideradas em si, muito pouco sentido. Que significa, por exemplo:

    Tão balalão,
    Morreu o Simão,
    Em terra de mouros
    Senhor capitão?

    224Mas o corpo acha nessas palavras, ditas como as crianças as dizem, o ritmo do movimento; mas o órgão da voz tem um exercício e o espírito infantil não tem que se cansar a procurar o que isso quer dizer: a criança acha-se aqui pois no puro domínio do jogo. Terá mais sentido ou mais utilidade o jogo das damas ou do gamão? Diremos que tem muito menos. E todavia personagens graves passam longas horas a mover as tábulas no tabuleiro.

    225Não arranquem à infância o que lhe pertence. Nas rimas que reunimos ela revela-se com muito mais verdade do que nos livros dos psicólogos casuístas. O seu carácter caprichoso, a sua tendência para o cómico, as combinações caleidoscópicas da sua imaginação, a sua observação rápida, mas extensiva, as múltiplices relações que ela estabelece com tudo o que a rodeia, animado e inanimado, exprimem-se ali numa linguagem inteligível.

    226A primeira série dos Jogos e Rimas Infantis compreende, a partir dos contos que primeiro ferem o ouvido infantil, os jogos e rimas que podem empregar-se principalmente até aos seis anos de idade; a segunda série, jogos para rapazes e meninas dessa idade para cima; a última série, jogos que convém mais particularmente aos rapazes.

    227É difícil descrever os jogos e quisemos limitar-nos às indicações essenciais; mas como esses jogos se acham todos, com variantes mais ou menos próximas das nossas, quase por toda a parte, é este volume antes um memento que um tratado desenvolvido sobre o assunto, o que exigiria gravuras ou reproduções fotográficas, como as que em Espanha se estão fazendo.

    OBSERVAÇÕES AOS PEDIÓGRAFOS

    228Neste volume seguimos ainda o preceito de reproduzir com a máxima fidelidade o que encontrámos na tradição portuguesa. Fácil era corrigir, modificar algumas das rimas e fórmulas dos jogos, desenvolver os movimentos destes, quando tínhamos à mão diversas colecções de jogos estrangeiros, que por vezes nos apresentam versões superiores às nossas.

    229Preferimos, todavia, por diversas considerações não fazer modificações, excepto de alguma palavra, indicando em nota a substituição; conciliamos assim o interesse pediográfico29 com o pedagógico. No todo, demais, os nossos textos populares aqui reunidos não são inferiores aos que nos oferecem as colecções estrangeiras.

    230Aproveitámos para esta colecção: 1.° Romanceiro do Arquipélago da Madeira, coligido e publicado por Álvaro Rodrigues de Azevedo, de que extraímos: Não subir à janela, Bichinha gata, Vassoirinha (duas versões), Jogo das galinhas, Jogo das vizinhas, Jogo do pezinho, Jogo da viúva, Jogo da condessa, Jogo do punho. 2.° Tradições populares de Portugal, de J. Leite de Vasconcelos, de que extraímos os n.os 74-81.

    231O resto foi coligido por nós. De Lisboa são: Estiar, Serrar, Tão balalão (menos a rima 30, que é de Coimbra), Outro jogo do anel, Pão queimado, Rato, e as rimas n.os 52, 60, 72, 97 e 116; do Fundão: Maria Guindim, Pimpolhinha; da Foz do Douro: Puxar a orelhita e rima n.° 98; os outros jogos e rimas que coligimos e que não levam indicação de proveniência são de Coimbra.

    232De alguns dos jogos e rimas que coligimos há já publicadas versões que num ou noutro caso (n.os 20, 55, 116) coincidem inteiramente com as nossas.

    233Preparamos um trabalho complementar sobre os jogos infantis do nosso país, comparados com os das outras nações.

    Notes de bas de page

    1 Original: lama.

    2 Var.: o monge.

    3 Ou: Menino bonito.

    4 Original: Que bicho papão.

    5 O auricular.

    6 O anular.

    7 O mediano.

    8 O index.

    9 O polegar.

    10 O auricular.

    11 O anular.

    12 O mediano.

    13 O index.

    14 O polegar.

    15 Ou bassoirinha; do mesmo modo barrer.

    16 Original: a mijar em pé.

    17 Original: home.

    18 Var.: A remela fica atrás.

    19 Volta no ar; isto é, foge.

    20 Original: Mijinho.

    21 As crianças dizem geralmente não Santo Tomé, mas sim São Tomé.

    22 Var.: de ladrão.

    23 Isto diz-se também às crianças para lhes ensinar o nome das partes do rosto.

    24 No original há outro termo.

    25 Var.: Que são bons às vezes.

    26 Var.: Vá lá atrás pedi-lo.

    27 É uma variante mais rija do jogo do Punho punhete.

    28 Na Espanha diz-se recotan.

    29 Propomos o termo pediografia para designar o estudo dos jogos tradicionais (do grego paidiá, jogo infantil, jogo em geral).

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    3 Ou: Menino bonito.

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    5 O auricular.

    6 O anular.

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    9 O polegar.

    10 O auricular.

    11 O anular.

    12 O mediano.

    13 O index.

    14 O polegar.

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    Coelho, Adolfo. « Primeira série ». In Obra etnográfica (II). Lisboa: Etnográfica Press, 1993. doi:10.4000/books.etnograficapress.3765.
    Coelho, Adolfo. « Primeira série ». Obra etnográfica (II), Etnográfica Press, 1993, https://doi.org/10.4000/books.etnograficapress.3765.

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    Coelho, A. (1993). Obra etnográfica (II). Lisboa: Etnográfica Press. https://doi.org/10.4000/books.etnograficapress.3726
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    Coelho, Adolfo. Obra etnográfica (II). Etnográfica Press, 1993, https://doi.org/10.4000/books.etnograficapress.3726.
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