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    Detailed outline Full text Aprender a ver o avesso do real Povo, ruralidade e revolução “Retratos do povo”. Antropologia e visualidade Bibliography Footnotes Author

    Festa, Nação e Migrações: Antropologia com João Leal

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    Capítulo 30. Aprender a ver o avesso do real: revolução, povo e visualidade

    Sónia Vespeira de Almeida

    p. 281-288

    Full text Aprender a ver o avesso do real Povo, ruralidade e revolução “Retratos do povo”. Antropologia e visualidade Bibliography Footnotes Author

    Full text

    Aprender a ver o avesso do real

    1Em 1998 tem início no ISCTE – na altura designado Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa – a segunda edição do mestrado em Antropologia: Patrimónios e Identidades. Naquele ano letivo de 1998-1999, João Leal leciona duas unidades curriculares: Antropologia Portuguesa, Cultura Popular e Identidades e Objetos e Contextos de Pesquisa Antropológica, num momento em que se encontrava profundamente envolvido na pesquisa sobre a história da antropologia em Portugal, que viria a resultar na publicação de Etnografias Portuguesas (1870-1970): Cultura Popular e Identidade Nacional em 2000.

    2Nas suas aulas, em particular na disciplina Antropologia Portuguesa, Cultura Popular e Identidades, partilhava com os estudantes ideias e argumentos, o que permitiu acompanhar o livro a acontecer. A relação entre o que ensinava e a sua investigação era notável e permitiu-nos perceber melhor a disciplina, a sua trajetória e os seus atritos. As aulas, meticulosamente preparadas, eram matéria em movimento no sentido que lhe atribuiu Gilles Deleuze, disponíveis para acolher os vários centros de interesse dos/as estudantes. Tal como as sombras e os avessos trabalhados pela artista Lourdes Castro que não ocultam, mas antes ativam novas formas de olhar, as aulas permitiam-nos ver de uma outra maneira, aceder às texturas e aos avessos do real, talvez porque nelas se discutia, a partir de um sofisticado coletivo de autores, não só objetos e tendências da antropologia contemporânea como também arquitetura, agronomia, arqueologia, arte, literatura, história e música.

    3No meu caso, ingresso neste mestrado obstinada em transformar o 25 de Abril de 1974 num objeto antropológico. Na época, a antropologia realizada em Portugal tinha-se debruçado pouco sobre a revolução de 1974 (Almeida, Leal e Marques 2024), mas nas suas aulas foi possível identificar linhas de interlocução que permitiram configurar a investigação que viria a realizar (Almeida 2009 e 2024a).

    Povo, ruralidade e revolução

    4Em abril de 2006, João Leal coordena o painel “Imagens da cultura popular e da ruralidade” no âmbito do III Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia, realizado em Lisboa. “Afinidade e diferença” foi a temática proposta pela comissão organizadora que, a partir da identificação de “uma tensão básica que percorre o nosso campo disciplinar, provocada simultaneamente pela identificação do que se julga ser comum e do que se julga ser específico em cada cultura”,1 suscitou um espaço de reflexão alargado sobre a antropologia naquele início de década.

    5No painel que propõe ao congresso, João Leal reúne um conjunto de investigadores – Sónia Vespeira de Almeida, Vera Marques Alves, José Neves, Luís Silva e Sandra Xavier – que com ele trabalhavam em pesquisas que, de alguma forma, abordavam a relação estrutural entre imagens da cultura popular e da ruralidade e a identidade nacional portuguesa (Almeida 2009, Neves 2008, Alves 2013, Silva 2009, Xavier 2007). Um ano mais tarde, os contributos apresentados viriam a ser publicados no dossier temático intitulado “Usos da ruralidade” que dá expressão não só à capacidade agregadora de João Leal, como também a um fazer escola, entendido como um modo de fazer conjunto no qual “quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender” (Freire 2012: 39).

    6No texto introdutório, João Leal (2007: 57-58) situou-nos numa antropologia portuguesa pós-rural que se caracteriza por:

    novos modos de gestão da herança ruralista da antropologia portuguesa, estruturados em torno da investigação da ruralidade e da cultura popular, não já como objectos de estudo em si, mas como práticas discursivas construídas a partir desses objectos. Isso traduziu-se, em primeiro lugar, na afirmação de uma direcção de trabalho orientada para o exame dos discursos historicamente produzidos, quer no âmbito da antropologia portuguesa ruralista quer no âmbito de outras áreas – geografia humana, artes, literatura – que ao longo de um período de mais de um século tematizaram o popular e o rural. E traduziu-se, em segundo lugar, no desenvolvimento de uma linha de trabalho atenta ao modo como a ruralidade e a cultura popular continuam a configurar, no novo contexto de pós-ruralização do país, recursos importantes para a construção de discursos vários sobre tradição e raízes que têm vindo a povoar a paisagem cultural e ideológica portuguesa contemporânea.

    7A investigação que desenvolvi sobre as Campanhas de Dinamização Cultural e Ação Cívica do Movimento das Forças Armadas (1974-1975), localizada por João Leal na primeira orientação da antropologia portuguesa pós-rural, fez-me dialogar com uma miríade de conceitos e contributos teóricos, dos quais destaco os conceitos de pastoral e contrapastoral (Marx 2000, Williams 1990) mobilizados por João Leal (2001) na sua análise sobre a ideia de Mediterrâneo em Orlando Ribeiro, Jorge Dias e José Cutileiro, sobre a casa portuguesa (Leal 2000) ou, ainda, sobre o Inquérito à Habitação Rural realizada pelo grupo de agrónomos do Instituto Superior de Agronomia durante o Estado Novo (Leal 2000).

    8A plasticidade conceptual aliada à “força da etnografia” – expressão sua – e do arquivo, entendido como terreno antropológico, constituíram a matriz da investigação realizada, gesto constantemente reforçado por João Leal e que hoje reconheço no trabalho de orientação conjunto que realizamos. Procurei encontrar novas localizações para a pastoral e contrapastoral,2 trabalhando a maleabilidade de um conceito que, oriundo de outro campo disciplinar, já tinha sido testado na antropologia portuguesa por Leal e que mostrava eficácia na análise das Campanhas de Dinamização Cultural e Ação Cívica do MFA.

    9Através de um etnografia retrospetiva (Almeida 2024b; Almeida e Ferreira 2015; Ferreira e Almeida 2017), a investigação analisou a cultura popular de matriz rural na conjuntura revolucionária do 25 de Abril de 1974 (Almeida 2009, 2024a), identificando o modo como imagens rivais do povo e da ruralidade dominaram o discurso e a prática daqueles que participaram em milhares de sessões de esclarecimento, no melhoramento de infraestruturas (construção de estradas, eletrificação de localidades), no apoio médico, no apoio veterinário e em iniciativas culturais na área do cinema, do teatro, das artes visuais, da música, entre outras. Analisei as imagens do povo e da ruralidade dominantes no âmbito das Campanhas de Dinamização e Ação Cívica do MFA, identificando uma imagem contrapastoral do povo que aludia à persistente miséria herdada da ditadura. Deste modo, a ruralidade (a norte) encontrava-se associada a um universo de sentidos fortemente negativo, destacando-se o “atraso”, o “subdesenvolvimento cultural, político e económico”, o “depauperamento” de um “país que vivia completamente vazio pela emigração”. Paralelamente, emergia uma visão romântica, retratando o povo como guardião de uma cultura “singular”, capaz de impulsionar a sua própria transformação e aprendizagem da prática democrática.

    “Retratos do povo”. Antropologia e visualidade

    10A relação com a imagem, em particular o uso da fotografia no contexto do trabalho de terreno, merece destaque na trajetória de João Leal, como demostram alguns dos contributos reunidos neste livro. Esta orientação teve, também, expressão ao nível do ensino manifesta no entusiasmo que colocou na criação do mestrado em Antropologia – Culturas Visuais na NOVA FCSH, cuja primeira edição teve lugar no ano letivo de 2009-2010.

    11Mas a imagem viria a constituir objeto de investigação de Leal, reflexão que podemos encontrar num texto de 2008 intitulado “Retratos do povo. Etnografia portuguesa e imagem”. Aqui é abordada a visualidade na antropologia portuguesa entre 1870 e 1970, argumentando Leal (2008: 127) que a história das imagens na etnografia portuguesa começa por ser a história de uma ausência e será com Jorge Dias (1907-1973) e a sua equipa que, entre 1930 e 1970, se assistirá a um mais consolidado “movimento de pluralização dos usos antropológicos da imagem”.

    12Deste modo, serão os usos da imagem pela escola de Jorge Dias – e a sua antropologia ilustrada – a assumir relevância na sua análise, afirmando Leal (2008: 129) que documentavam “um mundo em declínio e que há que registar antes que desapareça”. A investigação da equipa do Centro de Estudos de Etnologia (CEE) foi apoiada por um trabalho regular e sistemático, em particular com a fotografia, fundamentalmente realizada por Benjamim Pereira (1928-2020), e com desenho etnográfico, realizado por Fernando Galhano (1904-1995).

    13Este texto viria a ativar novas pistas de reflexão consolidando o meu interesse sobre os usos antropológicos do desenho (Cabau, Almeida e Mapril 2018), desde Fernando Galhano até à atualidade. No quadro da relação mais alargada entre as práticas da arte e da antropologia, procuro colocar em evidência os usos do desenho e as modalidades de produção do conhecimento antropológico a este associado abrindo, deste modo, pistas de reflexão para a prática do desenho na antropologia na atualidade. Hoje, uma nova geração de antropólogas que trabalharam a partir de Portugal ou dos seus contextos académicos (por exemplo, Rodrigues 2023, Rodrigues e Gandum 2018, Cavallo 2024, Pires e Salgueiro 2021, Panfili 2020) têm trazido o desenho para o centro da sua investigação. Este assume uma plasticidade de manifestações no quadro do trabalho de campo antropológico – ilustração, banda desenhada, desenho de observação, de contacto e colaborativo –, ganhando relevância a devolução dos resultados das suas pesquisas noutros formatos e expressões.

    *

    14Refletir sobre a antropologia em Portugal hoje é fazê-lo com o João Leal e não podemos deixar de referir, também, o seu papel determinante na fundação do CEAS – Centro de Estudos de Antropologia Social (ISCTE), em 1986; da revista Etnográfica, em 1997; do CRIA – Centro em Rede de Investigação em Antropologia, em 2007; e do Laboratório Associado IN2PAST, em 2021. João Leal esteve na formação destes coletivos, imprimindo-lhes criatividade e liberdade, mantendo ainda uma preocupação constante com as gerações mais novas e com a renovação da antropologia em Portugal.

    15Por tudo isto, é evidente a sua dedicação à coisa pública, à construção do comum, manifesta também na sua disponibilidade para integrar o Conselho de Faculdade da FCSH da Universidade Nova de Lisboa, entre 2018 e 2023, contribuindo para uma instituição mais democrática, para uma universidade sem condição (Derrida 2003).

    16Nesta sua construção do comum encontramos sempre o empenhamento na mudança de um mundo, no qual por vezes não nos reconhecemos, mas que é preciso conhecer mais e a antropologia do João Leal dá-nos isso.

    Bibliography

    ALMEIDA, Sónia Vespeira, 2009, Camponeses, Cultura e Revolução: Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do MFA (1974-1975). Lisboa: IELT e Colibri.

    ALMEIDA, Sónia Vespeira, 2024a, Construir a Revolução. A Dinamização Cultural do MFA. Lisboa: Tinta-da-China.

    ALMEIDA, Sónia Vespeira, 2024b, “Etnografia retrospectiva 2.0: o gesto artístico na revolução”, Etnográfica, número especial: 165-179. Disponível em: https://journals.openedition.org/etnografica/16112 (última consulta em agosto de 2025).

    ALMEIDA, Sónia Vespeira de, e Sónia FERREIRA, 2015, “Dictatorships and revolutions in Portugal and Chile: ethnography, memory and invisibilities”, History and Anthropology, 26 (5): 597-618. DOI: 10.1080/02757206.2015.1066371.

    ALMEIDA, Sónia Vespeira, João LEAL, e Emília Margarida MARQUES, 2024, “A antropologia e o 25 de Abril: introdução”, Etnográfica, número especial: 11-15. Disponível em: https://journals.openedition.org/etnografica/15838 (última consulta em agosto de 2025).

    ALVES, Vera Marques, 2013, Arte Popular e Nação no Estado Novo: A Política Folclorista do Secretariado de Propaganda Nacional. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais.

    CABAU, Philip, Sónia Vespeira de ALMEIDA, e José MAPRIL, 2018, Desenho Etnográfico: Um Curso Breve Duas Vezes. Lisboa: Palavrão.

    CAVALLO, Giulia, 2024, “Uma etnografia gráfica como forma de afeto e de memória: aflições, espíritos e processos de cura nas igrejas Zione em Maputo”, Etnográfica, 28 (3): 803-823. Disponível em: http://journals.openedition.org/etnografica/17365 (última consulta em agosto de 2025). DOI: https://doi.org/10.4000/12lan.

    DERRIDA, Jacques, 2003, A Universidade sem Condição. Coimbra: Angelus Novus.

    FERREIRA, Sónia, e Sónia Vespeira de ALMEIDA, 2017, “Retrospective ethnography on twentieth century Portugal: fieldwork encounters and its complicities”, Social Anthropology, 25 (2): 206-220.

    FREIRE, Paulo, 2012, Pedagogia da Autonomia: Saberes Necessários à Prática Educativa. Lisboa, Edições Pedagogo.

    LEAL, João, 2001, “Orlando Ribeiro, Jorge Dias e José Cutileiro: imagens do Portugal mediterrânico”, Ler História, 40: 141-163.

    LEAL, João, 2000, Etnografias Portuguesas (1870-1970): Cultura Popular e Identidade Nacional. Lisboa: Publicações Dom Quixote.

    LEAL, João, 2007, “Usos da ruralidade: apresentação”, Etnográfica, 11 (1), 57-62.

    LEAL, João, 2008, “Retratos do povo. Etnografia portuguesa e imagem”, in Clara Carvalho, José Machado Pais e Neusa Gusmão (orgs.), O Visual e o Quotidiano. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 117-143.

    MARX, Leo, 2000 [1964], The Machine and the Garden: Technology and the Pastoral Ideal in America. Oxford e Nova Iorque: Oxford University Press.

    NEVES, José, 2008, Comunismo e Nacionalismo em Portugal: Política, Cultura e História no Século XX. Lisboa: Tinta-da-China.

    PANFILI, Giulia, 2020, Wayang kulit in Between Making and Performing Culture. Lisboa: NOVA FCSH e Iscte, tese de doutoramento em Antropologia – Políticas e Imagens da Cultura e Museologia.

    PIRES, Ema, e Mafalda SALGUEIRO, 2021, “Coisas engalanadas, pessoas e processos turísticos: uma revisitação etnográfica de Flor da Rosa (Sul de Portugal)”, Etnográfica, 25 (1): 149-171. Disponível em: http://journals.openedition.org/etnografica/9893 (última consulta em agosto de 2025). DOI: https://doi.org/10.4000/etnografica.9893.

    RODRIGUES, Daniela, 2023, Coisas dos Quotidianos Transnacionais: Circulação de Objectos entre Portugal e o Brasil e Patrimonialização de Cultura em Contextos de Mobilidade. Lisboa: NOVA FCSH – ISCTE, tese de doutoramento.

    RODRIGUES, Daniela, e Ana GANDUM, 2018, Coisas de Lá / Aqui Já Está Sumindo Eu III. Belo Horizonte: Escola de Arquitetura, Universidade Federal de Minas Gerais.

    SILVA, Luís, 2009, Casas no Campo: Etnografia do Turismo Rural. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais.

    WILLIAMS, Raymond, 1990 [1973], O Campo e a Cidade na História e na Literatura. São Paulo: Companhia das Letras

    XAVIER, Sandra, 2007, Projectos, Processos, Paisagens: Imagens, Técnicas e Pessoas num Atelier de Arquitectura Paisagista. Lisboa: ISCTE, tese de doutoramento.

    Footnotes

    1Ver https://apantropologia.org/actas-do-terceiro-congresso-da-apa-2006-lisboa-67-e-8-de-abril-de-2006/.

    2Como o próprio nome, indica este género estabelece-se numa relação de oposição relativamente à pastoral, género cuja génese Williams situa na Antiguidade Clássica e que se caracteriza por uma sedução citadina pelo campo, visto como um espaço de virtudes onde a adversidade é depurada. Também Leo Marx (2000) ao examinar a ideologia pastoral americana identifica uma “contraforça” que reforça o carácter idílico pretendido pelos escritores analisados, recorrendo o autor ao termo “forças antipastorais” para caracterizar a literatura americana sua contemporânea (2000: 26).

    Author

    • Sónia Vespeira de Almeida

      CRIA (NOVA-FCSH) / IN2PAST

      sonia.almeida@fcsh.unl.pt

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    1Ver https://apantropologia.org/actas-do-terceiro-congresso-da-apa-2006-lisboa-67-e-8-de-abril-de-2006/.

    2Como o próprio nome, indica este género estabelece-se numa relação de oposição relativamente à pastoral, género cuja génese Williams situa na Antiguidade Clássica e que se caracteriza por uma sedução citadina pelo campo, visto como um espaço de virtudes onde a adversidade é depurada. Também Leo Marx (2000) ao examinar a ideologia pastoral americana identifica uma “contraforça” que reforça o carácter idílico pretendido pelos escritores analisados, recorrendo o autor ao termo “forças antipastorais” para caracterizar a literatura americana sua contemporânea (2000: 26).

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