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Capítulo 29. Elos
p. 273-280
Texte intégral
1As atividades de docência e de investigação desenvolvidas pelo antropólogo João Leal ao longo do tempo deixaram uma marca indelével no meu percurso profissional e académico. João Leal foi meu professor não só na licenciatura em antropologia social (concluída em 1995), em que lecionou História da Antropologia e outras disciplinas, mas também na fase curricular do mestrado em Antropologia: Patrimónios e Identidades (grau obtido em 2000), em que lecionou Nação e Região, cursos fornecidos pelo Departamento de Antropologia do ISCTE.
2Foi, além de mais, orientador da minha dissertação de mestrado em antropologia e da minha tese de doutoramento em antropologia, na especialidade de Antropologia das Sociedades Complexas (aprovada em 2007), ambas defendidas no ISCTE e financiadas pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) (PRAXIS XXI/BM/10614/97; SFRH/BD/6451/2001).
3A dissertação de mestrado incide sobre um tema profusamente estudado por João Leal: o da identidade nacional portuguesa (por exemplo, Leal 1995, 2000, 2010, 2022). Porém, enquanto João Leal analisa, sobretudo, a forma como a identidade nacional portuguesa foi imaginada nos discursos intelectuais/científicos produzidos nos séculos xix e xx (1870-1970), principalmente por etnólogos/antropólogos, a dissertação aborda os discursos de identidade nacional produzidos pelas pessoas comuns, nomeadamente, as que residem em duas povoações situadas em lados opostos da fronteira luso-espanhola ao longo do rio Guadiana, a saber, Montes Juntos (Alandroal) e Cheles (Badajoz) (por exemplo, Silva 2016a, 2018a).
4Há, no entanto, uma constante entre ambos os grupos de discursos sobre a identidade nacional: aquilo que João Leal (2000: 92) caracteriza como sendo um exercício de “etnografia espontânea”, isto é, “um conjunto de reflexões de forte orientação etnocultural em que conceitos e ideias sobre o povo, sobre raízes étnicas e sobre cultura ocupam um lugar relevante” (ver também Leal 1997: 192, onde o autor cunha pela primeira vez a expressão, a propósito dos Açores). Mais: existem paralelos entre os discursos eruditos e os discursos de senso comum acerca da identidade portuguesa, inclusive no que respeita ao “carácter nacional” (cf. Silva 2016b). Entretanto, as nossas pesquisas sobre o tema conjugaram-se em meados da década de 2010, altura em que publicámos um artigo em coautoria sobre a relação entre turismo rural e identidade nacional em duas “Aldeias Históricas de Portugal”: Castelo Rodrigo e Sortelha (Silva e Leal 2015).
5A tese de doutoramento, por sua vez, liga-se a outro tópico sobejamente investigado por João Leal, designadamente, a arquitetura popular de matriz rural e as suas conexões com imagens pastorais e contrapastorais dos campos do país, e da nacionalidade, no contexto da história da antropologia portuguesa (Leal 2000: 107-223, 2001, 2009a), sobretudo, mas também com a sua mais recente patrimonialização e emblematização, particularmente no âmbito da aquisição de residências secundárias no campo por parte da classe média e da classe-média alta de citadinos portugueses, do turismo de habitação e das “Aldeias Históricas de Portugal” (Leal 2000: 245-248).
6A pesquisa levada a cabo no âmbito do doutoramento dá sequência a um projeto de investigação sobre alojamento turístico nas zonas rurais de Portugal coordenado precisamente por João Leal, em que participei na qualidade de bolseiro de investigação.1 Em ambos os casos, além da oferta, dos proprietários e dos impactos locais da atividade, analisa-se a conversão de formas de arquitetura popular (e erudita) em unidades de turismo em espaço rural – onde se incluía o turismo de habitação – e o modo como a procura pelas mesmas reflete uma versão “sentimental” de pastoralismo (Marx 1967) e é motivada pela busca do “idílio pastoral” (Shackford 1904) por parte de citadinos de classe média e de classe média-alta (por exemplo, Silva 2009, 2013; Silva e Prista 2016).
7O tema da arquitetura popular de matriz rural foi ainda estudado no primeiro triénio da minha primeira bolsa de pós-doutoramento, entre 2007 e 2010, financiada pela FCT (SFRH/BPD/34229/2006). Centrada na patrimonialização e turistificação de formas de arquitetura popular e do histórico edificado (e respetivos impactos locais) no caso das “Aldeias Históricas de Portugal”, esta investigação foi desenvolvida no Departamento de Antropologia da NOVA FCSH – onde João Leal também lecionou durante vários anos e para onde fui por sua recomendação – e deu origem a múltiplos textos.2
8Dois desses textos (Silva 2011; Silva 2014a) foram posteriormente publicados em língua portuguesa num livro de autor focado na questão da ruralidade na sociedade portuguesa (Silva 2014b). Para além do já mencionado capítulo dedicado ao “ideal pastoral” em Portugal, tanto na literatura de ficção do século XIX quanto nos discursos dos turistas em espaço rural no século XXI (Silva 2013), este livro inclui ainda dois textos resultantes de pesquisas feitas nas ilhas açorianas de São Miguel e do Pico que foram inicialmente publicados em inglês (Silva 2015a, 2015b).3 Tal como nota justamente João Leal no prefácio (Leal 2014a: 9), o livro começa por distanciar-se “do termo pós-ruralidade como forma de caracterizar a situação dos campos portugueses na sequência das transformações que estes conheceram a partir dos anos 1980”, proposto pelo próprio (Leal 2007a), declarando que “a ruralidade não pertence a um estádio anterior de evolução da sociedade portuguesa”, sendo, pelo contrário, “uma constante” da mesma (Silva 2014b: 16). Isso verifica-se igualmente no caso das tecnologias de macrogeração de eletricidade dita “renovável”, como os parques eólicos e as centrais solares fotovoltaicas (por exemplo, Silva 2023; Silva e Delicado 2017), estudadas no âmbito de vários projetos de investigação, quer individuais quer coletivos.4
9Adicionalmente, o vasto conhecimento e a extensa obra de João Leal acerca da história da antropologia portuguesa revelaram-se úteis para compreender melhor a “etnografia de emergência” que, nas palavras do próprio (Leal 2009b), caracteriza as pesquisas desenvolvidas por Jorge Dias (1907-1973) e a sua equipa – Ernesto Veiga de Oliveira (1910-1990), Fernando Galhano (1904-1995) e Benjamim Pereira (1928-2020), entre outros – nos campos do país a partir de meados do século XX, com particular incidência no estudo da cultura material e das tecnologias tradicionais em vias de desaparecimento. Essa informação encontra-se vertida numa análise antropológica dos moinhos de água do rio Guadiana a sul do Caia e dos seus afluentes (por exemplo, Silva 2018b), análise essa que, além dos aspetos tecnológicos, aborda os aspetos socioeconómicos destes sistemas tradicionais de moagem de cereais, um assunto escassamente investigado por Jorge Dias e o seu grupo de trabalho na sua vasta produção sobre tal objeto de estudo (por exemplo, Dias, Oliveira e Galhano 1959a, 1959b; Galhano 1978; Oliveira, Galhano e Pereira 1983).5
10Os elos sobre os quais versa este texto não se ficam por aqui. Em 2000, João Leal convidou-me a participar num projeto de investigação sobre um outro tema também por si muito estudado: o da imigração/transnacionalismo de açorianos/as nos EUA e no Brasil (por exemplo, Leal 2007b, 2017a, 2017b).6 A ideia era que o meu projeto de doutoramento em antropologia fosse dedicado, sob a sua orientação, ao estudo do transnacionalismo de portugueses imigrados no Canadá (Toronto e Montreal).7 João Leal alojou-me um par de semanas na casa que tinha arrendada em Providence (Rhode Island);8 levou-me consigo em algumas pesquisas junto de açorianos imigrados na região da Nova Inglaterra; incentivou-me a fazer uma prospeção de terreno em Toronto durante cerca de uma semana; e ajudou-me a elaborar o projeto, que foi entregue no Departamento de Antropologia do ISCTE e aprovado. Contudo, vi-me forçado a mudar de projeto, com o apoio total de João Leal. Aliás, além de um dedicado e competente professor e orientador, João Leal tem sido um amigo (presente nos maus e nos bons momentos, habitualmente bem-humorado), pelo que é merecedor e credor da minha franca gratidão.
Bibliographie
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Notes de bas de page
1Intitulado Casas no Campo: Um Estudo do Turismo de Habitação em Portugal, este estudo foi desenvolvido no Centro de Estudos de Antropologia Social (CEAS-ISCTE), financiado pela FCT (POCTI/ANT/35997/2000) e apoiado pela Direção Geral do Turismo.
2João Leal teve um papel importante na elaboração do respetivo projeto. Todavia, na altura, a FCT penalizava os candidatos a bolsas de pós-doutoramento que mantinham a instituição, o(a) orientador(a) e o objeto de estudo do doutoramento.
3Tais pesquisas foram desenvolvidas no segundo triénio da minha primeira bolsa de pós-doutoramento, com acolhimento do CRIA NOVA-FCSH. Os Açores e as suas ilhas são um dos terrenos estudados por João Leal (por exemplo, Leal 1994).
4Inclui-se aqui a minha segunda bolsa de pós-doutoramento atribuída pela FCT (SFRH/BPD/93515/2013), dois projetos coletivos financiados pela FCT já concluídos (PTDC/CS-ECS/118877/2010; EXPL/COM-CSS/1510/2021) e um outro em curso (2022.07881.PTDC), bem como dois contratos de investigação celebrados com o CRIA, mas financiados pela FCT (DL 57/2016/CP1349/CT0009; CEECIND/01814/2017).
5O estudo sobre os moinhos (e os moleiros) do Guadiana teve início em 1993-1994 – no âmbito do projeto Práticas, Representações e Cultura de Fronteira. Interrogação Antropológica a Sul do Caia, acolhido pelo CEAS-ISCTE, e financiado pela JNICT (PCSH/C/ANT/322/92) –, mas só foi concluído em 2017.
6Intitulado EUA e Brasil. Processos de Transnacionalização da Identidade Açoriana, este projeto foi acolhido pelo CEAS-ISCTE, financiado pela FCT (POCTI/ANT/35999/1999), pela Fundação Calouste Gulbenkian e pela Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, e coordenado por João Leal.
7João Leal (2014b) também teve ocasião de estudar o transnacionalismo da diáspora portuguesa em Toronto, a propósito das comemorações do Dia de Portugal.
8João Leal teve então a gentileza de me ceder o seu quarto. Porém, não me permitiu fumar em casa, independentemente do frio que se registava no exterior, por mor da sua (infrutífera) tentativa de cessação tabágica. Como o compreendo: maldita adição!
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Festa, Nação e Migrações: Antropologia com João Leal
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