Capítulo 26. João Leal, um antropólogo entre arquitetos: a arquitetura do Inquérito à Arquitetura Regional e o seu sentido patrimonial
p. 245-254
Texte intégral
Figura 26.1. Investigação do habitat da comunidade cigana no Alentejo. Castro Verde, 1979.

1Arquitetura e antropologia são almas gémeas desiguais, contudo interdependentes, geradoras de espaço e forma, uma pela construção física a outra pela construção mental. Gerar espaço funcional através das ações dos seus utilizadores resulta da projeção mental de um ideal de espaço, confinado numa dimensão física. Se existe Alma nos edifícios, como alguns deixam transparecer e outros efetivamente afirmam, será porque é no espaço, enquanto valor patrimonial, que se geram ações que exprimem sentimentos. Estes resultarão de processos de organização mental de comunicação, próprios de hábitos e de costumes sedimentados ao longo do tempo.
2As transformações sociais que enformam e transformam o uso do espaço estão em linha com as inovações da arquitetura, e em nítida reciprocidade. E mesmo quando o espaço se esvazia de gente e adquire o estatuto de memória cultural, por vezes a memória de quem ali viveu em condições de felicidade e/ou de sofrimento, na nossa perceção de observadores, esta memória perdura na patine do tempo acumulado, nos objetos que permaneceram ou em registos fragmentários dispersos nos lugares. Esta perceção tanto ocorre nos edifícios eruditos como nas casas vernáculas, em contexto rural ou urbano.
3Por vezes aludimos a que as paredes falam, ressoam sons de vivências de um tempo que o tempo apagou. Procuramos ler nas cores esmaecidas das paredes, dos tetos, nos acidentes gravados no pavimento pelo desgaste provocado por ações constantes do simples caminhar e/ou mecânicas de instrumentos, o movimento dessas pessoas nas suas rotinas. Vivências repetidas ou ocasionais construíram um espaço específico, vivido num determinado tempo, ao longo do tempo. Colocamo-nos fisicamente nesses espaços vazios de gente, enquanto espaços-memória onde procuramos reconstruir através do espaço mental memórias prospetadas e arquivadas, de vivências passadas, em manifestação comemorativa desses ancestrais. O antropólogo Buchili recorda as palavras de Lévi-Strauss sobre como reconhecer uma casa: “In order to recognise the house, it would have been necessary for ethnologists to look towards history” (apud Buchili 2013: 72), que complementa com os autores Carsten and Hugh: “Memory and history are therefore important ways of dealing with the house, as the house reckons memory, which is essentially the memory of lineage – that is, the terms by which kinship is forget” (apud Buchili 2013: 72). Apesar de, enquanto metodologia de aproximação a uma casa, procurarmos ler os espaços contextualizados num determinado tempo passado, sem as ações dos seus utentes a prolongarem-se nos objetos de uso quotidiano, se revelar uma tarefa impossível. A ausência das movimentações do quotidiano integradas numa identidade constituída por hierarquias familiares, “desmonta” o sentido da casa. A memória cultural é um recurso que não reconstitui e não devolve o espaço e o tempo das ancestrais vivências ocorridas num determinado espaço, ainda que, não tendo existência, tal como o som. Na nossa perceção de existirmos, essas vivências movem-se num silêncio “audível” de sombras, ideia já expressa por Ledrut (1979: 122):
Não há nem espaço nem tempo por si só, quer dizer, existindo fora do comportamento dos homens [...]. O espaço e o tempo são produzidos. Os movimentos a partir dos quais são produzidos – ao mesmo tempo que a sociedade, ela própria, se produz – podem ser chamados espacializações e temporalizações.
4No nosso entender, são igualmente perceções sensoriais no sentido em que, a partir do espaço e do tempo, e da sua representatividade em termos de vivências ocorridas, conceptualizamos atmosferas, relacionadas com o nosso próprio sentir no espaço sensorial. Como compreender a arquitetura (vernácula, tradicional, erudita, em transformação, híbrida, de influência) sem compreender as vivências do(s) seu(s) destinatário(s), para além do seu construtor?
5O sentido com que analisamos o espaço habitacional, sobretudo no contexto das arquiteturas anónimas, ou construídas por não-arquitetos, difere da historiografia ou da crítica da arquitetura em geral e em particular da erudita, sobretudo porque advém da observação no terreno das vivências e, consequentemente, da organização do espaço por estas geradas. Na base de todas estas observações estão as populações nómadas e itinerantes, cuja conceção de espaço isenta a sua configuração de materialidade ou, quanto muito, redu-la a filtros informais. Edward T. Hall, em A Dimensão Oculta, inicia o capítulo IV, "A Percepção do Espaço. Os Receptores à Distância: os Olhos, os Ouvidos, o Nariz", citando Kilpatrick: “No mundo, o que percebemos não é nunca a sua realidade, mas apenas a repercussão das forças físicas sobre os nossos órgãos sensoriais” (Hall 1986: 55). Hall realça: “Para compreendermos o homem, precisamos de ter uma noção do espaço acerca dos seus sistemas de recepção e do modo como a cultura transforma a informação que estes fornecem.” (ibidem: 56). Este autor associa ainda a importância do espaço táctil e do espaço visual, aludindo a que “as experiências táctil e visual do espaço estão tão intimamente associadas que é impossível separá-las” (ibidem: 74). E sobre a importância dos sistemas sensoriais na orientação e no comportamento com que nos dispomos no espaço acrescenta:
O aparelho sensorial do homem comporta duas categorias de receptores, que definiremos esquematicamente como: 1. Os “receptores à distância”, que se referem aos objectos afastados e que são os olhos, os ouvidos e o nariz. 2. Os “receptores imediatos”, que exploram o mundo próximo, pelo tacto, graças às sensações que a pele, as mucosas e os músculos transmitem. [Ibidem: 56]
6Os sentidos, quando harmonizados entre si, serão a base primordial da perceção do espaço que, em determinados grupos sociais, como as comunidades itinerantes, serão determinantes na sua organização familiar, sendo igualmente determinantes enquanto sistema de proteção. A organização coletiva destas unidades é ela própria geradora de proteção e de cultura identitária, que todos une, sem implicar a construção física de barreiras, ainda que os sistemas de defesa informais e codificados sejam instalados no terreno, sendo por todos reconhecidos.
7A tenda confina o tipo de espaço que resulta da passagem do abrigo natural, da gruta, para uma especialização tecnológica, ainda que elementar. Contudo, a tenda na sua espacialidade multifuncional e de espaço não construído tectonicamente, configura uma conceção de espacialidade partilhada, onde se sobrepõem ações e atividades facilmente compreendidas no processo hierárquico da unidade familiar. Neste contexto se formam ou se definem unidades espácio-funcionais, filtradas pelos códigos gerados na, e pela, tradição cultural da unidade familiar, onde imperam os sentidos. O processo progressivo deste tipo decorrerá da sedentarização destes grupos sociais que, ao optarem por uma construção permanente, dispõem de materiais duradouros e consequentemente desenvolvem técnicas e tecnologias específicas consoante o grau de especialização dos seus executantes. Contudo, na sua singela forma, configuração de espaço elementar e exiguidade espácio-funcional, a tenda permite compreender a forma como os sentidos ou as valências sensoriais humanas são essenciais na disposição das ações e consequentemente na perceção do espaço mental na regulação do espaço aparentemente físico.
8Ainda seguindo o pensamento de Edward T. Hall (1986: 122), mas agora na dimensão do “Espaço de organização fixa”, que corresponderá a uma maturidade do desenvolvimento humano, recorremos às suas palavras que contrastam com a organização das comunidades itinerantes: “A organização das aldeias, das pequenas e grandes cidades e do campo que as rodeia não é efeito do acaso, mas resultante de um plano deliberado que varia com a história e a cultura. Mesmo o interior da casa ocidental comporta uma organização fixa do espaço.” Esta definição de espaço enquanto organização fixa reporta sobretudo a um tempo em que surge a “especialização funcional” com usos exclusivos ou tendencialmente exclusivos. As investigações que temos vindo a desenvolver ao longo de décadas, no âmbito da arquitetura vernácula, observam nuances relativamente a este quadro rígido. Salientamos enquanto exemplo o ciclo das estações, que, associadas aos costumes retiram rigidez de uso aos espaços em que se dorme sobre uma esteira em diversos locais da casa incluindo no exterior. As convenções de uso fixo dos espaços não se evidenciam per si, nem mesmo numa perspetiva ocidental, onde habitualmente partimos do princípio de que este é um quadro universal estanque de caracterização do espaço doméstico ideal. Esta conceção do espaço mais não será do que uma representação de um estereótipo do espaço doméstico ideal de desenvolvimento civilizacional, concebido no Ocidente e transposto gradualmente para a arquitetura dos aglomerados urbanos em desenvolvimento, iniciado provavelmente na revolução industrial, ou por esta influenciada, mas em permanente mutação.
9No âmbito da arquitetura vernácula e num vasto contexto geográfico deparamo-nos com a diversidade sociocultural dos povos ocidentais tal como dos povos orientais, onde também se faz notar a influência colonial, expressa nos tipos de casas, nos materiais, nas técnicas, nas tecnologias e nas expressões artísticas, da mais linear à mais complexa tipologia. As transferências de conhecimentos técnicos e de práticas construtivas, combinadas com “inovações” espaciais que introduziram novos usos, (re)configuraram tipos e tipologias que, nas suas ancestrais matrizes identitárias, foram absorvendo novidades, mantendo contudo a sua identidade ou hibridizando-se ao se desligarem da sua linhagem cultural. Mas em todos estes contextos o que procuramos sempre observar é o processo de transformação, em continuidade ou em rutura.
Do hibridismo à artificialização da arquitetura vernácula: um percurso irreversível
10A transformação pela qual passou a arquitetura vernácula em contexto rural em Portugal nas décadas coincidentes com o “Inquérito à Arquitetura Regional”, testemunho de um “momento central na constituição de um campo de reflexão sobre a arquitectura popular em Portugal” (Leal 2009: 14), resultou em parte das alterações societárias em curso, sobretudo a partir do êxodo migratório, face às políticas públicas desligadas da realidade social nos campos, onde se observava uma pobreza rural generalizada. Esta realidade já anteriormente tinha sido registada e parcialmente publicada nos anos quarenta, por um conjunto de agrónomos, entre os quais se destacam Lima Bastos e Henrique de Barros, que tiveram a ousadia de ir para o campo recolher informação direta dos casais rurais que entenderam ter representatividade por amostragem, tendo daí resultado o “Inquérito à Habitação Rural” (1942). Este período antecede a deslocação da população rural para as principiais cidades, com destaque para Lisboa e Porto.
11No tempo de uma década a imigração rural, e a suburbana entretanto estabelecida em bairros informais, tem novos impulsos migratórios sobretudo clandestino para o estrangeiro e, de modo muito controlado, através de contingentes de colonos para as então províncias ultramarinas. É também neste contexto que surge a Junta de Colonização Interna (JCI), com o objetivo de instituir colonatos no continente em zonas despovoadas, construindo modelos de “casas rurais” e impondo condições de contrato que não libertavam os colonos da condição de campesinato. Todas estas variáveis com que se deparam estas populações deslocadas, num curto espaço de duas décadas, confrontam-se com um complexo sistema de valores societais, de influências e de vivências no âmbito da casa e conceitos de habitar, sobretudo nos contextos exteriores a Portugal. Genericamente, estas pessoas saíram diretamente das casas que vemos no livro Arquitectura Popular em Portugal (SNA 1961) para os subúrbios de Lisboa ou de Paris, mas também para outros países como a Alemanha, o Canadá, os Estados Unidos, a Venezuela ou a África do Sul. Numa primeira geração fixaram-se em bairros informais, ou em periferias socialmente desfavorecidas, transferindo-se gradualmente para bairros com apoios sociais e para casa própria unifamiliar.
12Nos bairros informais de Lisboa é comum observarmos alguns apontamentos vernáculos em adaptação/hibridização como os alpendres e as pendentes dos telhados com beirais prolongados, casas com memória da organização básica, de espaço único de cozinha, área de comer e estar mínima, com aberturas para os quartos, dispostos segundo as casas e costumes de origem. Contudo, ter-se-á desenvolvido um processo de aproximação da arquitetura vernácula à arquitetura urbana/suburbana, em parte devido à influência do apartamento como modelo ideal de habitação, enquanto paradigma referencial, ainda que transportado para o contexto da casa unifamiliar. Esta referência, por um lado, não será exclusiva e, por outro, não terá sido direta em termos de transferência, mas antes enquanto perceção de espaço funcional de outros modos de habitar.
13A proximidade temporal desses fluxos migratórios com a expansão das cidades, onde parte substancial dessa população deslocada encontrou trabalho, permitiu-lhes estabelecer contacto direto com a arquitetura (sub)urbana, como ocorreu também em França e na Alemanha, onde o sector da construção civil acolhe cerca de 45% da emigração (Vilanova, Leite e Raposo 1995: 19). Esta realidade foi, de certo modo, transportada através de interpretações e de expedientes próprios para a configuração das suas casas, tanto nos novos locais onde se instalaram, como nos de origem, ou seja num retorno ao espaço rural. Será neste contexto que se introduzem novos materiais, novas tecnologias, algumas relacionadas com o conforto, como também novas variantes espácio-funcionais.
14Contudo, e num contexto de aldeias e lugares rurais, a maior influência no âmbito da transformação e substituição da arquitetura vernácula dever-se-á ao surgimento da denominada “casa de emigrante”. Esta refletir-se-á na paisagem, sobretudo pela escala e pela expressão dos revestimentos, dos diversos níveis de telhados, entre outras características. O edificado das aldeias observa um acelerado processo de hibridismo, alterando-o na sua ancestral linhagem de casas rurais. Este fenómeno generaliza-se para além dos emigrantes, fruto da nova padronização adquirida e reproduzida nos processos de construção, sobretudo de casas unifamiliares. Também se verifica uma transformação dos bairros espontâneos suburbanos; após a fase inicial de construções precárias de madeira e chapas reaproveitadas, surgem gradualmente as casas de betão e alvenaria com nítidas semelhanças às novas casas construídas em espaço rural.
15Nos arredores dos novos núcleos de expansão das cidades e vilas, localizadas no anel de influência sobretudo de Lisboa, surgem grandes expansões urbanas de moradias unifamiliares. Estas integram inovações, expressões e transformações tipológicas que realmente reconfiguraram tipologicamente as casas construídas em espaço periurbano e rural. A ruralidade não é geográfica mas a da memória cultural dos seus proprietários. Fixa-se uma dicotomia entre a assimilação de inovações e a repescagem de temas “pitorescos” da casa vernácula. Uma parte substancial será construída de novo enquanto se verificam severas alterações nas casas existentes, remetendo algumas das funções tradicionais para um lugar discreto de tardoz da casa, em anexos ou para garagem multiúsos sob a casa. Os antigos baixos das casas passaram a vendas, a adegas com equipamentos modernos, e a cozinha “rústica” com forno. As atividades decorrentes nestes espaços não se identificam nem identificam a arquitetura que configurava os espaços tradicionais, muito embora por vezes citem essas memórias com estereótipos, como telheiros ou beirais dentro de casa a adornarem cozinhas e bares.
16Esta realidade contaminante passou, inclusivamente, para as áreas de loteamentos clandestinos, de primeira habitação e de férias, sobretudo no início dos anos setenta com largo incremento no período imediato ao 25 de Abril. A hibridização da arquitetura vernácula generalizou-se praticamente de norte a sul do país, passando gradualmente para a destruição generalizada, com a substituição por novas construções sem ligação aos locais tanto em termos de memória cultural como de origem ou continuidade familiar. Parte substancial do que resta da arquitetura vernácula encontra-se num impasse entre o abandono e respetiva substituição e a “reversão” do abandono com reabilitações, na procura de um novo retorno ao rural, mas impondo espacialidades organizadas a partir de vivências urbanas.
17Parte substancial das casas de emigrantes dos finais dos anos cinquenta, sessenta e setenta encontram-se na atualidade num impasse, numa mudez do fim de geração dos seus inventores. Uma segunda geração não se renovou, por se terem fixado no país de acolhimento dos pais, e do seu nascimento, ficando estas casas desabitadas. Mais uma vez, e num curto espaço de tempo, assistimos ao fim de um ciclo da arquitetura rural, que entretanto deixou de ser rural, na justa medida em que os seus proprietários “saltaram” para a cultura urbana, numa transição acelerada. Definitivamente, os seus filhos não tiveram nenhuma fase de transição para algo geográfica e culturalmente diferente, e mesmo os que regressaram “modernizaram” as casas que os seus pais construíram numa afirmação da casa urbana, próxima do espírito do apartamento. Aparentemente, o ciclo da casa do emigrante “tradicional” do pós-guerra terá terminado, sendo estas progressivamente acompanhadas pelas casas de arquiteto, comummente denominadas “caixotes”, impondo-se igualmente pelo volume, pela expressão e pela escala desajustada. A ruralidade é, na atualidade, uma condição difusa, tal como a casa e o seu contexto.
Bibliographie
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VILANOVA, Roselyne, Carolina LEITE e Isabel RAPOSO, 1995, Casas de Sonhos. Lisboa: Edições Salamandra.
Auteur
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Victor Mestre
Victor Mestre | Sofia Aleixo arquitectos, lda.; Portugal
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