Capítulo 25. Vidas de um inquérito
p. 239-244
Texte intégral
1Nunca fui aluna de João Leal, disso tenho mesmo pena, mas fui sua orientanda, sempre. Em 2003/2004, quando João Leal regressou à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, por força das circunstâncias, calhou-nos coorientar a minha dissertação de mestrado em Antropologia do Espaço com Filomena Silvano. Recebeu-me sem me conhecer e eu fui como a um encontro com a bibliografia. Tinha lido Etnografias Portuguesas (1870-1970): Cultura Popular e Identidade Nacional. O modo como articulava as propostas de Benedict Anderson e Anthony Smith, de Orvar Lofgren e Richard Handler, para pensar cultura e identidade a partir de debates sobre arquitetura era horizonte e ânimo para quem, a propósito da reabilitação do património colonial por Portugal em Timor-Leste depois de 1999, pretendia falar de identidade nacional, de construção de nação e de outras comunidades imaginadas. Seguiram-se novos encontros, o doutoramento, o pós-doutoramento. Com rigor e generosidade – com humor e com paciência também –, João Leal acompanhou-me enquanto me tornava antropóloga.
2Etnografias Portuguesas não é aqui uma referência acidental. O “retrato de grupo” que João Leal desenhou dos antropólogos portugueses traçou periodizações históricas da disciplina que hoje são curricula da história da antropologia portuguesa. Sublinhou também a atenção persistente à cultura popular de matriz rural emoldurada pelas preocupações com a identidade nacional e a construção etnogenealógica da nação. Mas aqui, dizia João Leal, os antropólogos não estavam sós. E neste diálogo que uns e outros travaram com a literatura e as artes, a arqueologia e a história, a arquitetura e a engenharia agronómica liam-se as aproximações e os afastamentos de empreendimentos disciplinares que se encontravam sobre imaginários do povo, da cultura e do popular.
3Em Festa, Antropologia, Nação e Migrações tornaram-se claras as perspetivas abertas por Etnografias Portuguesas para os estudos do nacionalismo e da identidade nacional, para o diálogo entre campos de saber, para novas tematizações da cultura popular por uma antropologia “pós-rural” atenta aos discursos históricos e aos usos contemporâneos da ruralidade (Leal 2007). E a arquitetura popular que João Leal tivera por “promissora” para pensar sobre as “guerras culturais” de Lebovics sobre o vínculo entre cultura popular e identidade nacional no caso português seguia produtiva para olhar para as paisagens de hoje, com os velhos populares reanimados pelas novas funções dos campos examinadas por Luís Silva (2009, 2014) e os novos populares a apresentarem-se nas “casas (pós-)rurais” de Ana Saraiva (2017), mas também para além do popular.
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4Estas eram dimensões presentes quando comecei a pesquisa de doutoramento sobre os Discursos sobre o Passado em 2006 nas Pousadas de Portugal. Como um catálogo, as pousadas espacializavam diferentes modalidades de pensar e fazer o passado no tempo longo da contemporaneidade portuguesa e a escalas diferentes das imagens e identidades da nação. Só que eram discursos sobre o popular e também sobre o erudito. Falavam de ruralidade e ainda de história. Revelavam imaginários da nação, mas exibiam-nos em lugares materiais. Produziam-se por protagonistas historicamente situados, ao mesmo tempo que eram construídos por outros tantos que experienciavam as pousadas simbólica e fenomenologicamente. Tempos, espaços e representações de cultura entreteciam-se na experiência das pousadas como lugares da autenticidade rural, patrimónios da história nacional e espaços de práticas de consumo e de lazer de classe.
5A um tempo, Discursos sobre o Passado dialogou de perto com Etnografias Portuguesas. Inauguradas como “casas de campo”, “romances da paisagem portuguesa”, as pousadas eram projetos totais de objetificação da cultura popular, da paisagem à hospitalidade, da arquitetura às artes populares, dos trajes à gastronomia tradicional. Pareciam a check-list de Lofgren (1989) num só lugar, bom para pensar os processos de cooptação e replicação do discurso etnográfico pelo SPN/SNI de que João Leal falara (2010). Mas também o modo como mapas da nação fixaram geografias culturais que o presente da etnografia revelou ainda serem experienciadas como lugares de ruralidade e tradição. Cedo, porém, as pousadas desvincularam-se do léxico da casa portuguesa. Na esteira do Congresso (1948) e do Inquérito dos arquitetos (1955-1961), trocaram o popular pelo regional na produção de interpretações modernas dos lugares, mostrando quão “bem comportada” tinha sido a guerra cultural em Portugal (Leal 2000: 223). E logo adotaram a história como tempo referente do imaginário da nação, primeiro restaurando alegorias materiais do passado oficial, depois continuando-inovando na produção do património, por fim inscrevendo-se em lógicas pós-modernas e neoliberais de exibição e consumo de novos passados.
6História, tradição e modernidade tornaram-se assim experiências e discursos sincréticos que, a outro tempo, Discursos sobre o Passado projetou no presente de práticas turísticas e patrimoniais, de representações e expressões de identidade, nacional e cultural, mas também social e de classe. No terreno, orientava-me João Leal, havia que estar atenta a todos, e onde antes havia Estado e intelectuais, hóspedes e funcionários que eram também populações locais, agora contavam-se chefs famosos e empresas privadas, velhas e novas classes médias que consumiam coisas distintas nos mesmos repertórios a partir de estratégias de diferenciação. História e cultura e nação persistiam como experiência desejada e cumprida, mas a privatização da gestão da rede reinscreveu as pousadas no léxico nacional como algo mais.
7Ameaçadas no vínculo à nação, na sua propriedade, sentido lato e estrito, as pousadas tornaram-se expressão de um seu “certo carácter”, de uma “certa forma de ser e receber”. Foram listadas e até mesmo classificadas como património. Num sentido, tornaram-se exibição de si mesmas e, como João Leal (2009b) argumentara para o Museu de Arte Popular, eram discursadas como lugares de memória do popular enquanto categoria moderna. Noutro sentido, todavia, não pareceram tornar-se “lugares de futuro” quando a convocação de partes apostas da guerra cultural em torno do vínculo entre cultura popular e identidade nacional como partes integrantes de um só item da check-list nacional, despolitizou processos de objetificação como um modo de produção cultural nacional.
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8Esta ideia de património como segunda vida, recorrendo à expressão de Barbara Kirshenblatt-Gimblett, é boa para recordar aqui a provocação de Etnografias Portuguesas sobre a forma como os temas e discursos que tratou continuaram a circular entre esferas sociais distintas e a fazer outras coisas. Em 2011, João Leal apresentou-nos ao “forte ar de família” entre antropologia e arquitetura modernas, não só na mobilização do popular como matéria de preocupação, mas também no fim da sua imobilidade com a atenção que partilharam ao híbrido e ao ruidoso. Neste mesmo ano segui para pós-doutoramento com o Popular, Erudito, Moderno, regressando à arquitetura como objeto e como terreno.
9O inquérito dos arquitetos não tinha sido publicado e pronto, como não o foi o inquérito dos agrónomos ou as etnografias dos antropólogos. Outros seguiram-se, sobre o popular e sobre o moderno, nos Açores e na Madeira, sobre arquitetura sem arquitetos e sobre a arquitetura de arquitetos. O Inquérito à Arquitetura Popular tornara-se processo e método, produto e produção de modernidade para a arquitetura erudita. Foram estas as dimensões exploradas face ao desafio deixado por João Leal, pensando sobre o “espírito” do Inquérito e as suas “lições” em novos modos de inquirir e fazer o popular e o moderno, dentro e fora da disciplina, do condomínio privado ao bairro de autoconstrução, das casas de férias em montes alentejanos ao festival de arquitetura em Lisboa.
10Mais do que rever estes caminhos, retenho-me aqui no Inquérito. Reeditado, reexaminado, rememorado e reinterpretado em novos inquéritos ao longo de décadas, o seu “espírito” revelou-se num duplo valor patrimonial. Não é novidade, nem é o único a ser tomado como testemunho de um mundo que não existia mais. Mas enquanto objeto de uma nostalgia patrimonializante, transcendia o popular na arquitetura como lugar de memória dos arquitetos portugueses que nele situavam a sua resistência ética à estética do regime e a formação de uma consciência de classe, construindo-lhe um campo simbólico. As suas reedições, quando constituída a Associação dos Arquitetos, e depois reconfigurada em direito público e em Ordem, mostravam a mobilização do Inquérito na demanda coletiva pela autoridade disciplinar e pela autonomia profissional. Mais: assumiam-no como “ato fundador” da arquitetura moderna portuguesa e “lição” sobre um património – o produzido por arquitetos e o construído por não-arquitetos – que cabia renovar como expressão de diferença num mundo global (SNA 2003).
11Nestas “lições” observaram-se movimentos simultâneos de ampliação e de constrição de conceções do popular a partir da arquitetura. Novos inquéritos tomaram o seu modo de olhar como forma e método de conhecimento, desdobrando-se em outras adjetivações e substantivos. Surgiu uma segunda geração de inquéritos – termo de João Leal – que repensaram o popular no diálogo com o erudito, na continuidade com o urbano, na autoria de outros protagonistas da construção do espaço material. Assim se deu conta das tantas configurações discursivas e materiais e dos modos de apropriação que compõem paisagens que são sempre plurais. Mas não só. O Inquérito foi também revisitado por uma historiografia de si mesmo que, não sem contraditório, encontrou nas suas “lições” um diálogo entre modernidade e tradição enquanto sensibilidade particular de um modo de fazer arquitetura portuguesa, da Casa Portuguesa à Casa Souto Moura. Sobre esta “terceira via” reuniram-se de novo os arquitetos, novamente não sem dissensos, inquirindo a arquitetura erudita do século xx numa reperiodização do moderno que abriu horizontes para novos processos de patrimonialização. Afinal, como as pousadas, também os inquéritos ao popular tiveram outras vidas, e assim como eles, acrescentaria, as Etnografias Portuguesas de João Leal.
Bibliographie
LEAL, João, 2000, Etnografias Portuguesas (1870-1970): Cultura Popular e Identidade Nacional. Lisboa: Publicações Dom Quixote.
LEAL, João, 2007, “Usos da ruralidade: apresentação”, Etnográfica, 11 (1): 57-62.
LEAL, João, 2009b, “Da arte popular às culturas populares híbridas”, Etnográfica, 13 (2): 472-476.
LEAL, João, 2010, “Usos da cultura popular”, in José Neves (org.), Como Se Faz Um Povo: Ensaios em História Contemporânea de Portugal. Lisboa: Tinta-da-China e Fundação EDP, 125-137.
LEAL, João, 2011, “Entre o vernáculo e o híbrido: concepções da arquitectura popular portuguesa entre 1960 e 2000”, Joelho, 2: 39-57.
LOFGREN, Orvar, 1989, “The nationalization of culture”, Ethnologia Europaea, 19: 5-24.
SARAIVA, Ana, 2017, Casas (Pós-)Rurais entre 1900 e 2015: Expressões Arquitetónicas e Trajetórias Identitárias. Lisboa: Edições Colibri.
SILVA, Luís, 2009, Casas no Campo: Etnografia do Turismo Rural em Portugal. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais.
SILVA, Luís, 2014, Património, Ruralidade e Turismo: Etnografias de Portugal Continental e dos Açores. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais.
SINDICATO NACIONAL DOS ARQUITECTOS, 2003 [1961], Arquitectura Popular em Portugal. Lisboa: Ordem dos Arquitectos.
Auteur
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Marta Prista
CRIA (NOVA-FCSH) / IN2PAST, Portugal
marta.prista@fcsh.unl.pt
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