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  • Parte IV - Inquéritos ao popular
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    Plan détaillé Texte intégral Introdução Doces, relações sociais e identidade Alimentação, migrações e circulação da cultura Notas finais Bibliographie Notes de bas de page Auteur

    Festa, Nação e Migrações: Antropologia com João Leal

    Ce livre est recensé par

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    Capítulo 23. Doces, bons para pensar

    Inês Mestre

    p. 217-226

    Texte intégral Introdução Doces, relações sociais e identidade Alimentação, migrações e circulação da cultura Notas finais Bibliographie Notes de bas de page Auteur

    Texte intégral

    Introdução

    1Conheci João Leal em 2011, quando, seis anos após ter concluído a licenciatura em antropologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, regressei a este departamento para realizar um projeto final de mestrado em Culturas Visuais. Deste primeiro contacto, recordo as perspetivas atualizadas e críticas que João Leal trazia para as aulas e o modo como “arregaçava as mangas” e punha uma turma muito diversa a pensar e a discutir.

    2O segundo encontro deu-se pouco tempo depois, no quadro do doutoramento em Antropologia: Políticas e Imagens da Cultura e Museologia (NOVA-FCSH e ISCTE -Instituto Universitário de Lisboa). João Leal integrava a equipa docente e foi também o meu orientador de tese. A minha investigação focou-se no atual processo de reinvenção da doçaria portuguesa e, em particular, no modo como alguns doces e práticas associadas estão hoje a ser usados para criar reivindicações de património nas escalas local e nacional em Portugal (Mestre 2024).

    3Vou aqui deter-me em dois aspetos particulares dessa investigação, nos quais identifico alguma relação com o trabalho de João Leal sobre as Festas do Espírito Santo, em diferentes momentos históricos e contextos geográficos. O primeiro diz respeito ao papel dos doces na criação e afirmação de laços sociais e na produção de sentidos de identidade. O segundo remete para a circulação da cultura ligada às migrações.

    Doces, relações sociais e identidade

    4Na antropologia e nas ciências sociais, tornou-se um lugar-comum dizer que a comida não serve apenas para nos nutrir em termos físicos, ela é também um modo de comunicação-chave que carrega muitos tipos de significados (Wilk 1999: 244). Muitos estudos mostraram que a comida e as práticas alimentares desempenham um papel importante na produção das identidades de grupo (étnicas, religiosas, de classe ou nacionais, por exemplo), marcando as fronteiras entre “nós” e os “outros” num processo de diferenciação dialética. Como notou Sidney Mintz (2002: 26), a comida é um marcador simbólico de filiação (e não filiação) em praticamente todos os tipos de agrupamento social. Algumas comidas tornam-se particularmente significativas a este respeito devido à sua carga simbólica.

    5Na década de 1980, João Leal realizou pesquisa nos Açores, focada nas Festas do Espírito Santo. Leal (1994) conferiu muita atenção ao peso que tinha no ritual um conjunto de refeições, distribuições e dádivas de natureza alimentar. Assim, através de um detalhado trabalho de pesquisa, Leal (1994: 77-127) mostrou que, além de estar ligada a objetivos de carácter religioso, esta componente das festas reiterava, num primeiro momento, as relações sociais próximas entre os habitantes de um mesmo lugar (parentes e vizinhos) e sublinhava, num segundo momento, a sua identidade no quadro do lugar e da freguesia. Entre os alimentos usados, encontravam-se doces como rosquilhas ou massas sovadas.

    6No âmbito da minha investigação de doutoramento, comecei por explorar o papel dos doces na produção de sentidos de identidade (nomeadamente a identidade nacional portuguesa) através da análise de alguns textos culinários, etnográficos e gastronómicos sobre doçaria portuguesa, publicados em Portugal em diferentes momentos históricos (de princípios do século xx até aos dias de hoje). Ao colocar lado a lado trabalhos muito diversos (Ribeiro 1997; Pessanha 1997; Saramago 1997; João, Ferreira e Duarte 2008), pude ver, entre outros aspetos, o modo como os vários autores evocam com nostalgia momentos de convivialidade proporcionados pelos doces, em ocasiões como romarias, feiras, festividades como o Natal ou a Páscoa ou idas à pastelaria. Para esses autores, os doces parecem inspirar sentidos de pertença e ser importantes na construção de identidades, designadamente a identidade nacional portuguesa, provocando a perceção do seu desaparecimento ou de uma alteração substancial dos seus modos de preparação, distribuição e consumo, sentimentos de ameaça.

    7O facto de, em Portugal, os doces serem comidas festivas por excelência e um ponto fundamental da comensalidade poderá ajudar a entender o seu poder simbólico como metáfora do nacional, pois, como observou Alison Smith (2012: 449):

    […] they serve a unifying function within given national groups. Their very out-of-the-ordinariness already gives them a special place in individual diets, something rare and therefore anticipated and expected. They become markers of these particular holidays, and the larger emotional world those holidays bring. Because they are associated with regular but rare events, too, they serve as a temporal unifier – they bring together the past and the present in a very real way. Additionally, festive foods may be (in principle, at least) among the only foods shared widely across stratified societies. […] Furthermore, festive foods can create bonds within diasporic nations and immigrant communities, as well.1

    8Com efeito, em Portugal, os doces estão desde há muito tempo ligados a importantes momentos das vidas dos indivíduos e das comunidades, como festividades que se repetem, onde são consumidos de forma coletiva. Há muito que os antropólogos chamaram a atenção para a importância da comensalidade na expressão da identidade dos grupos. O mesmo tem sido observado para a circulação e a oferta de alimentos, que permitem reforçar os laços sociais e criar sentidos de pertença em diferentes níveis de sociedade, como mostrou, por exemplo, João Leal (1994), a partir do caso das Festas do Espírito Santo nos Açores.2 Ao mesmo tempo, embora a comensalidade seja por definição o ato de comer compartilhado, cozinhar pode ser uma experiência comunitária igualmente relevante, que reforça os laços sociais e as hierarquias (Tierney e Ohnuki-Tierney 2012: 123). Todos estes aspetos são importantes para entendermos o simbolismo dos doces como metáfora do eu coletivo em Portugal.

    9A minha investigação de doutoramento compreendeu um estudo de caso sobre os ovos moles de Aveiro, um doce que se tornou um emblema da cidade e da região de Aveiro (Rosmaninho e Santos 2018), e que conheceu um recente processo de patrimonialização. O meu objetivo foi estudar, através de pesquisa etnográfica, os impactos socioculturais causados pela transformação deste doce em património formal e o modo como é encarado e ativamente usado para redefinir a identidade local.

    10Paralelamente às narrativas patrimoniais públicas hegemónicas em torno dos ovos moles e da cultura local, identifiquei também versões de património privadas e discretas – “pequenos patrimónios” (Harvey 2008) –, ou seja, um conjunto de práticas localizadas e personalizadas que parecem ser importantes nas vidas das pessoas e na formação das suas identidades, mas relativamente ignoradas dentro dos processos oficiais e que não se opõem necessariamente a eles. Assim, junto de alguns dos meus interlocutores observei uma preocupação em “criar oportunidades para atos de recordação e comemoração, e acima de tudo redes sociais” (Smith 2006: 238, tradução minha), em diversos casos através de doces e de outras comidas, nomeadamente em momentos festivos. O Natal ou a Festa de São Gonçalo (padroeiro do bairro aveirense da Beira-Mar) constituíram ocasiões onde pude observar estas dinâmicas.3

    Alimentação, migrações e circulação da cultura

    11O tema das migrações e da circulação da cultura manifestou-se na minha pesquisa sobretudo a dois níveis. Por um lado, no recente processo de patrimonialização dos ovos moles de Aveiro alguns produtores naturais do distrito de Aveiro e com experiências prévias de emigração, sobretudo na Venezuela, foram (e continuam a ser) agentes importantes. A partir da década de 1980, em particular, muitos emigrantes retornados daquele país abriram negócios na região, nas áreas da padaria e pastelaria, em que se especializaram no país de destino. Nos seus estabelecimentos, eles introduziram novas máquinas, técnicas de produção e produtos com os quais se familiarizaram na Venezuela (pan de jamón e cachitos constituem exemplos de produtos venezuelanos hoje muito difundidos na região de Aveiro). Ao mesmo tempo, alguns deles foram também responsáveis pela maior divulgação dos ovos moles de Aveiro e outros produtos de doçaria local, numa altura em que a cidade e o concelho de Aveiro conheceram um crescimento importante. Numa fase inicial, a sua introdução nesta área foi sentida por alguns produtores estabelecidos e habitantes locais como uma ameaça, por, segundo eles, significar uma rutura com um modo de produção dos ovos moles considerado tradicional. No entanto, posteriormente, alguns emigrantes retornados (ou seus descendentes) acabaram por ter um papel importante nos novos caminhos escolhidos para o emblemático doce local.4 Estes passam cada vez mais pela sua adequação, em termos materiais e simbólicos, a uma economia global muito competitiva onde a singularidade e a diferença dominam.

    12João Leal explorou os impactos da emigração nas Festas do Espírito Santo nos Açores sob diversos pontos de vista e em diferentes momentos. Vou aqui deter-me num aspeto que me atrai particularmente. De acordo com Leal (2017: 163), a emigração, apesar do impacto que teve nos significados sociais das Festas nos Açores, teve um efeito mais limitado no seu script ritual. O autor identificou, no entanto, situações em que os impactos da emigração sobre o enredo ritual das Festas foi mais significativo. É o caso das Ribeiras, uma freguesia do concelho das Lages do Pico, onde as rainhas (inspiradas nas queens norte-americanas) são um elemento central das Festas, tendo depois migrado para outras freguesias, recurso que é raro, defende, fora do Pico (ibid.: 167). Segundo Leal (ibid.: 179), no Pico as rainhas tornam-se mesmo um importante emblema identitário colocado sob o signo do património. Através de um cuidado trabalho de pesquisa, o autor identificou as pessoas concretas e o ambiente que tornaram possível o triunfo desta inovação e sublinhou a relevância de ambos nos processos de inovação cultural.

    13O segundo ponto remete para a visita de trabalho que fiz – encorajada por João Leal – a Pelotas, uma cidade situada no Estado de Rio Grande do Sul, no sul do Brasil, em maio de 2016. A doçaria de Pelotas conheceu um recente processo de patrimonialização institucional. Este incluiu a proteção de um conjunto de doces como “Indicação de Procedência” (IP),5 sob a designação “doces de Pelotas”, atribuída em 2011, e a inscrição, em 2018, das “Tradições Doceiras da Região de Pelotas e Antiga Pelotas” no Livro dos Saberes – Bens Culturais Imateriais do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Em muitos discursos públicos, incluindo no quadro da IP, tem sido conferida muita importância à origem portuguesa dos chamados “doces finos” de Pelotas e estes são associados aos hábitos aristocráticos da elite pelotense luso-brasileira do século xix. A pesquisa desenvolvida por um grupo de investigadores ligados à Universidade Federal de Pelotas, com vista à já referida inscrição desta tradição doceira no IPHAN, veio, no entanto, complexificar estas narrativas. Assim, estes chamaram a atenção para a importância de outros segmentos sociais na constituição desta tradição produtiva, nomeadamente mulheres negras, e ainda para a ampliação dos significados atribuídos aos doces, sendo, por exemplo, incorporados em rituais afro-brasileiros (IPHAN s.d.: 64-66). Durante o meu trabalho em Pelotas, em conversas com os referidos investigadores, doceiras (algumas delas de origem portuguesa) e outras pessoas ligadas ao mundo dos doces de Pelotas, percebi também que a circulação de formas culturais e ideias entre o Brasil e Portugal ocorreu ao longo do tempo e vem até ao presente. Também a este nível, a pesquisa de Leal, nos Açores, nos Estados Unidos da América ou em São Luís do Maranhão (Brasil), ressoou diversas vezes na minha cabeça.

    Notas finais

    14Como foi já amplamente observado, a comida serve para solidificar a pertença a um grupo, bem como para manter os grupos separados. Diversos estudos recentes realizados na Europa mostraram a forma como, em muitos processos contemporâneos de reinvenção da comida como património, esta é usada para marcar fronteiras entre comunidades, grupos étnicos ou Estados (entre outros, Di Giovine e Brulotte 2014; Di Giovine 2014; Grasseni 2017). Nesse âmbito, são muitas vezes criadas narrativas patrimoniais que excluem ou minimizam as trocas e partilhas passadas ou atuais entre comunidades e Estados, a favor de tradições inventadas ou simplificadas vinculadas ao lugar.

    15Como pode a antropologia contribuir para inverter estas situações? Se as análises cuidadosas das histórias e das culturas alimentares se revelam essenciais, explorar o potencial da comida (incluindo dos doces), conectando as pessoas e promovendo sentidos de comunidade, nomeadamente em contextos cada vez mais multiculturais e marcados pelo isolamento e pela solidão (West 2021), poderá ser igualmente importante. Abordagens participativas e interventivas poderão constituir formas apropriadas para trabalhar estas questões. Trata-se não apenas de procurar desafiar as noções essencialistas de cultura e de património que prevalecem (e que poderão mesmo estar a acentuar-se), mas também de explorar até que ponto “é possível recorrer à memória e ao património para formar novas histórias de identidade que incluam, em vez de excluir, a diversidade cultural e a ‘cultura mista’” (MacDonald 2013: 162; tradução minha).

    Figura 23.1. Um doce para o João Leal

    Fonte: Fotografia de Inês Mestre.

    Bibliographie

    DI GIOVINE, Michael A., 2014, “The everyday as extraordinary: revitalization, religion, and the elevation of cucina casareccia to heritage cuisine in Pietrelcina, Italy”, in Ronda L. Brulotte e Michael A. Di Giovine (eds.), Edible Identities: Food as Cultural Heritage. Surrey, Burlington: Ahsgate, 77-92.

    DI GIOVINE, Michael A., e Ronda L. BRULOTTE, 2014, “Introduction: food and foodways as cultural heritage”, in Ronda L. Brulotte e Michael A. Di Giovine (eds.), Edible Identities: Food as Cultural Heritage. Surrey, Burlington: Ahsgate, 1-27.

    GRASSENI, Cristina, 2017, “Introduction”, The Heritage Arena. Reinventing Cheese in the Italian Alps. Nova Iorque e Oxford: Berghahn, 1-23.

    HARVEY, David C., 2008, “The History of Heritage”, in Brian Graham e Peter Howard (eds.), The Ashgate Research Companion to Heritage and Identity. Hampshire: Ashgate Publishing Limited, 19-36.

    INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL, s.d., Dossiê de Registro da Região Doceira de Pelotas e Antiga Pelotas, IPHAN. Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/arquivos/Dossie_%20tradicoes_doceiras_de_pelotas_antiga_pelotas.pdf (última consulta em dezembro de 2024).

    JOÃO, Rita, Pedro FERREIRA, e Frederico DUARTE (eds.), 2012 [2008], Fabrico Próprio. O Design da Pastelaria Semi-Industrial Portuguesa. S.l.: Pedrita (Rita João, Pedro Ferreira) e Frederico Duarte.

    LEAL, João, 1994, As Festas do Espírito Santo nos Açores: Um Estudo de Antropologia Social. Lisboa: Publicações D. Quixote.

    LEAL, João, 2017, O Culto do Divino. Migrações e Transformações. Lisboa: Edições 70.

    MACDONALD, Sharon, 2013, Memorylands. Heritage and Identity in Europe Today. Oxon: Routledge.

    MESTRE, Inês, 2024, A Reinvenção da Doçaria Portuguesa na Era do Património Global: Produzindo Doces, Identidades e Patrimónios. Lisboa: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, tese de doutoramento.

    MINTZ, Sidney W., 2002, “Food and eating: some persisting questions”, in Warren Belasco e Philip Scranton (eds.), Food Nations. Selling Taste in Consumer Societies. Londres e Nova Iorque: Routledge, 24-32.

    PESSANHA, D. Sebastião, 1997 [1957], Doçaria Popular Portuguesa (Estudo Etnográfico), prefácio de Vítor Wladimiro Ferreira. Sintra: Colares Editora.

    RIBEIRO, Emanuel, 1997 [1928], O Doce Nunca Amargou… Doçaria Portuguesa. História. Decoração, Receituário, prefácio de Maria Proença. Sintra: Colares Editora.

    ROSMANINHO, Nuno, e Jorge Pacheco dos SANTOS, 2018, História dos Ovos Moles de Aveiro. S.l.: Confraria dos Ovos Moles de Aveiro, APOMA e Universidade de Aveiro.

    SARAMAGO, Alfredo, e Manuel FIALHO, 1997, Doçaria dos Conventos de Portugal. Lisboa: Assírio & Alvim.

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    TIERNEY, R. Kenji, e Emiko OHNUKI-TIERNEY, 2012, “Anthropology of food”, in Jeffrey M. Pilcher (ed.), The Oxford Handbook of Food History. Oxford: Oxford University Press, 117-134.

    WEST, Harry G., 2021, “ 'We Are Who We Eat With': Food, Distinction, and Commensality”, The MIT Press Reader. Disponível em: https://thereader.mitpress.mit.edu/we-are-who-we-eat-with (última consulta em dezembro de 2024).

    WILK, Richard, 1999, “‘Real Belizean food’: building local identity in the transnational Caribbean”, American Anthropologist, 101 (2): 244-255.

    WILK, Richard, 2006, Home Cooking in the Global Village. Caribbean Food from Buccaneers to Ecotourists. Oxford e Nova Iorque: Berg.

    Notes de bas de page

    1Ver, na mesma linha, Sobral e Rodrigues (2013: 643).

    2Ver também, por exemplo, Sutton (2001).

    3No primeiro caso, essa situação observa-se sobretudo ao nível da preparação doméstica, compra, oferta e consumo coletivo de doces (como bolo-rei, ovos moles ou bilharacos). Por ocasião do São Gonçalo, além da preparação e aquisição de vários doces, que são consumidos entre familiares, vizinhos e amigos, muitos habitantes do bairro da Beira-Mar (e não só) compram vários quilos de cavacas (um pequeno bolo seco coberto com uma capa de açúcar) que atiram (como pagamento de promessas) da platibanda da Capela de São Gonçalo (localizada na Beira-Mar). Alguns dos bolos lançados são guardados até ao ano seguinte, outros são consumidos e outros ainda são enviados por correio para familiares que vivem no estrangeiro. Em todos os casos, os doces parecem ser importantes na reafirmação e criação de laços sociais ao nível da família e da vizinhança ou da pertença à comunidade. Esta é, no entanto, uma dimensão que merece ser investigada em maior profundidade.

    4Sobre o papel dos emigrantes nos processos de emergência e afirmação de cozinhas nacionais e regionais, ver, por exemplo, o trabalho de Richard Wilk (2006) sobre a cozinha nacional do Belize.

    5A IP insere-se na categoria de propriedade intelectual conhecida como “indicação geográfica”.

    Auteur

    • Inês Mestre

      CRIA (NOVA-FCSH), Portugal

      mestre.ines@gmail.com

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    1Ver, na mesma linha, Sobral e Rodrigues (2013: 643).

    2Ver também, por exemplo, Sutton (2001).

    3No primeiro caso, essa situação observa-se sobretudo ao nível da preparação doméstica, compra, oferta e consumo coletivo de doces (como bolo-rei, ovos moles ou bilharacos). Por ocasião do São Gonçalo, além da preparação e aquisição de vários doces, que são consumidos entre familiares, vizinhos e amigos, muitos habitantes do bairro da Beira-Mar (e não só) compram vários quilos de cavacas (um pequeno bolo seco coberto com uma capa de açúcar) que atiram (como pagamento de promessas) da platibanda da Capela de São Gonçalo (localizada na Beira-Mar). Alguns dos bolos lançados são guardados até ao ano seguinte, outros são consumidos e outros ainda são enviados por correio para familiares que vivem no estrangeiro. Em todos os casos, os doces parecem ser importantes na reafirmação e criação de laços sociais ao nível da família e da vizinhança ou da pertença à comunidade. Esta é, no entanto, uma dimensão que merece ser investigada em maior profundidade.

    4Sobre o papel dos emigrantes nos processos de emergência e afirmação de cozinhas nacionais e regionais, ver, por exemplo, o trabalho de Richard Wilk (2006) sobre a cozinha nacional do Belize.

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    Mestre, I. (2025). Capítulo 23. Doces, bons para pensar. In S. Vespeira de Almeida, J. Mapril, J. Neves, & M. Prista (éds.), Festa, Nação e Migrações: Antropologia com João Leal. Lisboa: Etnográfica Press. https://doi.org/10.4000/15du8
    Mestre, Inês. « Capítulo 23. Doces, bons para pensar ». In Festa, Nação e Migrações: Antropologia com João Leal, édité par Sónia Vespeira de Almeida, José Mapril, José Neves, et Marta Prista. Lisboa: Etnográfica Press, 2025. doi:10.4000/15du8.
    Mestre, Inês. « Capítulo 23. Doces, bons para pensar ». Festa, Nação e Migrações: Antropologia com João Leal, édité par Sónia Vespeira de Almeida et al., Etnográfica Press, 2025, https://doi.org/10.4000/15du8.

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    Vespeira de Almeida, S., Mapril, J., Neves, J., & Prista, M. (éds.). (2025). Festa, Nação e Migrações: Antropologia com João Leal. Lisboa: Etnográfica Press. https://doi.org/10.4000/15dut
    Vespeira de Almeida, Sónia, José Mapril, José Neves, et Marta Prista, éd. Festa, Nação e Migrações: Antropologia com João Leal. Lisboa: Etnográfica Press, 2025. doi:10.4000/15dut.
    Vespeira de Almeida, Sónia, et al., éditeurs. Festa, Nação e Migrações: Antropologia com João Leal. Etnográfica Press, 2025, https://doi.org/10.4000/15dut.
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