Anos sombrios e revoltados (1935-1938): apresentação
p. 21-41
Texte intégral
1António Jorge Dias (1907-1973) e Ernesto Veiga de Oliveira (1910-1990) conheceram-se em 1932. Eram ambos do Porto, onde tinham nascido e onde viviam. Jorge Dias tinha então 25 anos e Ernesto Veiga de Oliveira 22. Entre os dois estabeleceu-se uma estreita e sólida amizade. Essa amizade estendia-se a Fernando Galhano (1904-1995), que Jorge Dias tinha conhecido, em 1930, na Gralheira (serra de Montemuro), e a Eduardo de Oliveira (1907-1982), irmão de Ernesto Veiga de Oliveira. Juntos passaram a palmilhar as aldeias e serras do norte de Portugal. Foi no decurso dessas “vagabundagens” – como lhes chamavam – que se reforçaram os laços afetivos que os ligavam e que perduraram até à morte de Jorge Dias em 1973.
2A correspondência agora publicada mostra a força particular que essa amizade ganhou no caso de Jorge Dias e de Ernesto Veiga de Oliveira. Como Ernesto Veiga de Oliveira escreveu para Jorge Dias (ou como Jorge Dias poderia ter escrito para Ernesto Veiga de Oliveira)
A minha amizade por si é qualquer coisa de absoluto e de perfeito, numa necessidade profunda e límpida até ao mais obscuro inconsciente. Eu vejo-me sempre consigo, duas criaturas que não se fundem nem se ajustam, mas que caminham lado a lado por todos os areais, por todos os caminhos da vida. […] Caminhar, caminhar… Para mim, caminhar é a vida; e caminhar, quase sem eu o saber, é caminhar com o António…1
3Esse aspeto é evidente em todas as cartas e postais que escreveram um ao outro entre 1935 e 1964, mas onde ele pode ser surpreendido com mais fulgor e nitidez é na correspondência que ambos trocaram entre 1935 e 1938, que se publica no presente capítulo.
4Essa correspondência resulta do afastamento físico entre Jorge Dias e Ernesto Veiga de Oliveira nesse período. Jorge Dias escrevia a partir de Coimbra – onde frequentava a licenciatura em Filologia Germânica – e também do Porto, ao passo que Ernesto Veiga de Oliveira se encontrava em Lisboa – onde desenvolveu várias atividades profissionais, entre as quais a de sócio-gerente de uma garagem – ou no Algarve – onde viveu durante uma temporada. Fisicamente afastados, sentem muito a falta um do outro, das suas “vagabundagens” pelas serras do norte do país e é por escrito que vão partilhando o que lhes vai na alma: descontentamentos, desilusões e revoltas, mas também projetos.
5Para um leitor familiarizado com a obra de Jorge Dias e de Ernesto Veiga de Oliveira, o tom sombrio dominante nestas cartas e postais, onde se misturam abatimento, amargura e revolta, pode surpreender.
Figura 1 – Jorge Dias nos anos 1930

Fonte: cortesia de Júlia Dias
6Para o entender é importante ter em conta alguns aspetos da biografia de ambos anterior a 1935. Jorge Dias e Ernesto Veiga de Oliveira – como, de resto, Fernando Galhano2 – provinham de famílias abastadas da burguesia portuense. O pai de Jorge Dias – António José Dias (?-1965) – era empresário e negociante. Foi, nomeadamente, um dos fundadores (com uma quota de 400 000$00) da Corporação Industrial do Norte (Tintas CIN) e sócio do São João Cine e do Cinema Batalha. Por seu lado, o pai de Ernesto Veiga de Oliveira – Vasco Nogueira de Oliveira (1881-1954) – pertencia à elite política e económica do Porto. Médico, com ligações fortes à maçonaria, foi também industrial e detinha extensas propriedades rurais no concelho de Celorico de Basto. Foi ainda presidente da Câmara Municipal do Porto (durante a I República) e da Santa Casa da Misericórdia dessa cidade.3
7Tanto o pai de Jorge Dias como o de Ernesto Veiga de Oliveira tinham expectativas elevadas para os seus filhos, condicentes com a sua condição social. Já os filhos tinham, a esse respeito, ideias diferentes.
Figura 2 – Casa dos pais de Jorge Dias no Porto (Guindais) na atualidade

Fonte: fotografia de João Leal
8No caso de Jorge Dias, essas ideias manifestaram-se desde muito cedo. Uma vez concluída a instrução primária, aos 11 anos, Jorge Dias, descontente com o ensino que era na altura ministrado aos jovens, anunciou ao pai que não queria continuar a estudar. Descontente, o pai disse-lhe então que teria de trabalhar. O seu primeiro emprego foi como marçano de uma mercearia. Mais tarde, foi caixeiro viajante. Deslocava-se com frequência para fora do Porto vendendo sabonetes4 e também cabos de chapéu de chuva: “Sabia vender muito bem porque antes de vender convivia com as pessoas e ganhava a sua confiança”.5 Pelo meio, fazia desporto, sobretudo atletismo, com muito bons resultados. Como escreveu João Lupi (1984: 27) na sua biografia de Jorge Dias, este “foi grande desportista, atleta e campeão de saltos e corridas”. Trabalhou também num circo “para ajudar um grupo de acrobatas em dificuldades financeiras” (Lupi 1984: 27) e, sobretudo, foi então que iniciou as suas caminhadas pelas serras do norte de Portugal, que tanto o empolgavam e que tão decisivas serão na sua posterior conversão à antropologia. Foi, de resto, no decurso de uma dessas caminhadas, em 1930, na Gralheira, que conheceu Fernando Galhano (Rodrigues 2004: 31).
9No mesmo ano em que conheceu Galhano, a vida de Jorge Dias já tinha tomado um rumo mais respeitável. Apesar das suas reservas, voltou à escola e em dois anos e meio concluiu o liceu. Fez depois a tropa e em 1928 – com 21 anos – casou-se com a sua prima direita Maria Madalena Dias de Almeida (1907-?). Deste seu primeiro casamento – que viria a terminar em 1941 – teve duas filhas (Isabel e Luísa). O casamento – de acordo com Karin Dias (filha de Jorge e Margot Dias) – parece ter resultado de alguma pressão familiar:
Num encontro de famílias, o meu pai iniciou a relação com a sua prima Madalena. Mas aquilo para ele não tinha muitas consequências, ao passo que Madalena se apaixonou por ele. Foi então convencido pelo avô a casar-se, com argumentos como “a tua prima está apaixonada por ti, ainda vai ficar tuberculosa”. O meu pai aceitou, mas terá posto como condição a Madalena que as férias eram para ele e para as suas deambulações no Norte com os amigos.6
10No seguimento do seu casamento, Jorge Dias não teve outro remédio senão dar à sua vida uma orientação mais condicente com as expectativas da família. “Para satisfação da família e da sociedade” – como escreveu a Ernesto Veiga de Oliveira7 – inscreveu-se na licenciatura em Filologia Germânica, na Universidade de Coimbra, que viria a concluir em 1937, com a média final de 16 valores.
11Mas a sua antiga rebeldia só aparentemente estava dominada. Jorge Dias parecia empenhado em dar um rumo mais aceitável à sua vida, mas não estava de maneira nenhuma contente com ela (como mostram as cartas que escreveu a Ernesto Veiga de Oliveira entre 1935 e 1938).
Figura 3 – Da esquerda para a direita: Ernesto Veiga de Oliveira, o seu irmão Eduardo Veiga de Oliveira, os pais (Laura Teixeira Alves da Veiga e Vasco Nogueira de Oliveira) e o seu irmão Fernando Vasco Alves da Veiga de Oliveira

Fonte: cortesia de Fernando Sacramento
12A rebeldia não parece ter sido – como em Dias – um traço de carácter de Ernesto Veiga de Oliveira. Mas foi contrariado que, empurrado pelo pai, fez a licenciatura em Direito, na Universidade de Coimbra, que terminou em 1932 (no mesmo ano em que conheceu Jorge Dias).8 O seu ingresso na vida profissional também não lhe trouxe satisfação. Exerceu advocacia durante dois anos (Pereira 1989) e em 1935 encontramo-lo – mais uma vez, contrariado – em Lisboa, onde começou por dar lições e trabalhar no ramo dos seguros, para, a partir de 1936, se tornar sócio-gerente de uma garagem. Mas, podendo não ser tão rebelde como Jorge Dias, Ernesto Veiga de Oliveira, tal como o amigo, também não estava contente com o rumo que a sua vida tinha tomado.
13É neste quadro marcado pelo descontentamento e pela frustração com as vidas que levavam que podemos entender o tom sombrio e revoltado que atravessa grande parte da correspondência trocada por Jorge Dias e Ernesto Veiga de Oliveira entre 1935 e 1938.
14Nela é particularmente evidente uma aguda – e frequentemente dolorosa – consciência do desajustamento de ambos em relação ao “mundo”, a que não só não sentem pertencer, mas ao qual também não querem pertencer.
15Isso significa que a vida faz, para eles, pouco sentido. Assim, logo numa das primeiras cartas que, em 1935, Jorge Dias escreve para Ernesto Veiga de Oliveira pode ler-se:
O que é a vida que faz dos seres míseros farrapos; peças de máquina que só girando continuamente numa labuta sem interesse podem viver? A vida será só contabilidade? E mesmo que não fosse que interesse tinha ela? Eu confesso que sinto um ódio medonho, ávido, transbordante pelo divino acaso que nos criou, deixando-nos antever num sonho nevoento possibilidades que nunca alcançará nossa alma cheia de cansaço e desilusão.9
16Ernesto Veiga de Oliveira responde-lhe num tom igualmente desesperado:
Porquê tudo isto? Pois se nós existimos, se nós nos movemos numa terra que existe, se tudo em nós e à nossa volta existe, porque é que só nós não existimos, não vivemos, e só vive, sobre toda a existência, a treva que ela ou nós em nós criamos?10
17Um ano depois, o estado de espirito é o mesmo:
Física e moralmente, vivo numa cegueira, numa insensibilidade, numa nulidade absolutas. Não faço nada, em nenhum capítulo (!), não sinto o menor desejo de nada, não vejo ninguém, não penso em nada.11
18Em 1937, algumas cartas, sobretudo de Jorge Dias, parecem denunciar um estado de espírito mais otimista, como mostra a passagem desta sua carta para Ernesto Veiga de Oliveira.
A sua carta não me veio despertar da morrinha em que o fogão e a poltrona me têm lançado. Não, ela veio precisamente encontrar-me num dos momentos de maior vivacidade, fé e esperança, que poucas vezes tenho vivido. Eu estou agora no polo oposto ao do seu estado. Vejo-o mergulhado nesse abismo desolador, nessa noite profunda da desesperança e eu queria que a luz intensa que agora irradio pudesse servir de farol ao barquinho perdido em que você corta a noite tempestuosa dos pensamentos escuros.12
19Mas o pessimismo regressará depressa, como revelam estas duas passagens da correspondência entre Jorge Dias e Ernesto Veiga de Oliveira. Numa delas, Ernesto Veiga de Oliveira escreve:
É que, sabe, estou farto desta inutilidade da minha vida. Tenho às vezes uma vontade irreprimível de fazer alguma coisa, de ter uma “profissão”, uma profissão decente, que me interesse… é um desespero, António… Os dias nascem e morrem, e eu arrasto esta indolência medonha, esta inutilidade absoluta, como um peso tremendo.13
20Noutra, é Jorge Dias que se revela particularmente desesperado:
Assim vivo para aqui, com a ideia fixa de tomar uma decisão qualquer, violenta: ou fugir para a América do Sul, ou dar um tiro nos miolos. Com certeza não faço uma coisa nem outra e vou parar ao Conde Ferreira. De qualquer maneira devo estar melhor do que funcionário público nesta terra monstruosa, ou viver a dar lições a meninos.14
21Este estado de espírito envolve não apenas o repúdio da vida que Jorge Dias e Ernesto Veiga de Oliveira levam, mas aparece frequentemente associado a uma baixa autoestima. Assim, em 1936, Jorge Dias descreve-se a si próprio do seguinte modo:
Eu cheguei à conclusão da minha inutilidade completa. Analisei o meu espírito e vi que nele entra a preguiça numa dose muito superior a todos os outros elementos reunidos. Mas como é agradável não contrariar a Natureza, procurarei todos os meios de fazer o menos possível.15
22No mesmo ano, Jorge Dias é ainda mais severo consigo mesmo: “Hoje creio mais que nunca, que somos verdadeiras aberrações; seres patológicos que os livros de medicina descrevem com todos os pormenores.”16
23Para além de desabafos e confissões mais genéricas como aquelas que acabámos de evocar, o desajustamento de Jorge Dias e Ernesto Veiga de Oliveira em relação ao “mundo” e à vida que levavam desdobra-se em focos mais precisos de descontentamento.
24Um deles tem que ver com a sua situação e expectativas profissionais. Isso é talvez mais evidente em Ernesto Veiga de Oliveira que é, dos dois, o único com uma atividade profissional regular, primeiro dando lições, depois trabalhando no ramo dos seguros e, a partir de 1936, como sócio-gerente de uma garagem em Lisboa. Na carta em que anuncia a Jorge Dias esta sua nova atividade, Ernesto Veiga de Oliveira não poderia mostrar-se mais queixoso e frustrado:
Na manhã seguinte, soube que era sócio da garage, sócio-gerente… Sócio-gerente da garage!… De então para cá já emagreci, neste cansaço embrutecedor da engrenagem citadina, e fiz mil coisas indescritíveis, inadmissíveis, que eu não quero, não sei e não quero saber fazer… Porque me obrigam a ouvir combinações comerciais, tricas, coisas, António, que matam, matam, coisas que me esmagam e me repugnam, à minha natureza, à minha inteligência e à minha sensibilidade?17
25Algum tempo depois, é também desanimado e revoltado contra si mesmo que Ernesto Veiga de Oliveira descreve com mais detalhe a sua atividade como sócio-gerente da “garage”:
Estou agora a escrever-lhe da “minha garage”. Tenho uma garage enorme, oito camionetes “nossas”, oficinas, operários, faturas, chapeladas… Preciso de ver o que faz o pessoal, dar ordens, impor-me, falar com gente imponente que cá vem, para entrar em negociações importantes. Cada dia é uma aflição; não percebo a primeira palavra de motores, e tenho de dar sempre razão àqueles a quem tentei timidamente repreender… Sou o patrão, o que manda, o que tem de se impor… E não sei mandar nem o que hei de mandar, nem o que hei de dizer… E tenho um medo fantástico, de dar suores frios, de ter de dar contas ao Avelar, que não mas pede mas que confia na minha atividade.18
26Mas a sua frustração é mais genérica: não é só a “garage” que ele não suporta: o que ele detesta é “a vida ativa e estúpida do trabalho”.19
27O caso de Jorge Dias é algo diferente, uma vez que, nesse período, estava a frequentar Filologia Germânica em Coimbra. Essa atividade não o parece entusiasmar por aí além. Assim, numa carta de 1936 para Ernesto Veiga de Oliveira, Jorge Dias descreve desta forma o seu estado de espírito em relação à universidade: “Engulo ciência em série, para satisfação da família e da sociedade, que acha que o homem se deve cultivar.”20 Em 1937, refere-se aos anos que passou em Coimbra como “anos de intoxicação universitária”.21 Mais tarde, porém, parece animado com a ideia de realizar alguns estudos:
O Eduardo continua cheio de entusiasmo com os nossos estudos dos bárbaros e da literatura germânica. O que é certo, é que me pega o entusiasmo e eu vou-me interessando cada vez mais. Já chego a achar possível virmos a saber alguma coisa sobre o assunto.22
28Na mesma carta, é também notória a sua vontade de prosseguir os estudos universitários, abalançando-se a uma nova licenciatura, desta vez em Filosofia (o que não acontecerá).
29Sabemos também que, durante a sua estadia em Coimbra, Jorge Dias deu aulas num colégio feminino: uma atividade de que não gostou. De resto, será esse seu descontentamento em relação a “passar a vida a dar aulas a meninas”23 que será um dos fatores determinantes, em 1938, para a sua candidatura ao leitorado de português em Rostock (Alemanha). Mas até à sua ida para a Alemanha, o que Dias teme é uma vida profissional que para ele nada teria de empolgante. São por isso várias e desanimadas as referências que faz “a uma existência inteira enterrado num escritório”.24
30Outro dos focos de frustração de Jorge Dias e de Ernesto Veiga de Oliveira tem que ver com a vida citadina. Nas cartas de Ernesto Veiga de Oliveira abundam as referências negativas a Lisboa. Assim, em 1936, Ernesto Veiga de Oliveira escreve:
Este ambiente de cidade, falso e pervertido, torna-me demais, porque vem muito ao encontro duma faceta interior mas importantíssima de mim próprio. E eu sinto-me afundar-me neste pântano, em que eu respiro apenas o ar envenenado e decadente dos paraísos artificiais. Estou doente de asfalto, mulheres pintadas e janotas, ruas, luz elétrica e o estúpido martelar da vozearia humana. A noite é uma rua com cinemas e automóveis, a manhã é em geral um sono cansado, quando muito as tristes árvores exiladas dum jardim público.25
31Um ano depois, é o mesmo o seu descontentamento em relação a Lisboa, quando refere a “vida horrível de Lisboa, cheia de morbidez sedentária, de fraquezas e de narcóticos”.26 Por isso, quando passa uma temporada no Algarve, Ernesto Veiga de Oliveira sente-se revigorado e não esconde o seu fascínio por essa paisagem nova para si:
É uma paisagem estranha e original, em falésias caprichosas e altíssimas, recortadíssimas, sempre no mesmo tom amarelo a barro, com grutas, túneis, poços imensos, pirâmides, ilhas, etc… A pedra, que parece fiável como saibro, é um cimento pré-histórico, formado de uma massa de crustáceos, com fósseis intactos, que parecem conchas de hoje, duríssima, mas não tem grandeza, nem tragédia, nem desolação, apesar do nevoeiro, da solidão do mar e das gaivotas. Só Sagres, ao longe, num céu de tempestade, promete uma visão dramática e violenta.27
32Jorge Dias é talvez mais comedido, mas não é por isso que não se queixa de Coimbra: “Não calcula como me sinto desolado e triste, só nesta Coimbra para mim tão fria e hostil e onde cada vez mais me sinto estranho.”28 O próprio Porto não escapa ao seu descontentamento:
Se não fosse o Eduardo, não sei como ainda suportaria o Porto. É tudo tão vazio e triste que não sei se aguento. Mas o que há de facto, é uma vida extraordinária para além de todas as barreiras citadinas. Ainda hoje passei horas fantásticas a ouvir as cigarras a cantar pelos pinhais.29
33Onde o desamor de ambos pela vida citadina fica mais evidente – como sugere a última frase desta carta queixosa de Jorge Dias em relação ao Porto – é no reiterado fascínio dos dois pela vida no campo. São algumas as evocações saudosas que, na sua correspondência, fazem das suas vagabundagens juvenis pelas serras do Norte do país (na companhia de Fernando Galhano e de Eduardo de Oliveira). Assim, em 1938, antes de se queixar da sua condição de sócio-gerente da “garage”, Ernesto Veiga de Oliveira escreve:
Eu cheguei aqui, com as suas palavras libertárias a ressoarem ainda aos meus ouvidos, e a querer ser outra vez um vagabundo das serranias, sem mais nada para a minha verdade descarnada.30
34“Vagabundagem” e “vagabundo” são as expressões mais recorrentes para designar este fascínio de Jorge Dias e Ernesto Veiga de Oliveira pelas paisagens rurais. Escrevendo sobre os seus passeios pelas serras do Norte na companhia de Jorge Dias e de Eduardo de Oliveira, Ernesto Veiga de Oliveira refere-se aos três nos seguintes termos:
Sem quase o saber, quando hoje penso na natureza, associo-o a essa solidão, e somos nós três quem vai a olhar e a ouvir os montes, o vento e os segredos da Terra. Três vagabundos, sem eira nem beira nem cidade, a gritar quiméricos desesperos…31
35No mesmo ano, referindo-se a um projeto que ambos então acalentavam, Jorge Dias escreve:
A sua carta encheu-me de alegria, pois vejo que posso contar consigo e assim vir a realizar um dos meus mais gratos sonhos de vagabundagem, na companhia do maior vagabundo que conheço: Você.32
36Ainda em 1937, a “vagabundagem” é mesmo definida por Jorge Dias como uma “necessidade vital” de ambos.33
37Não é por isso de admirar que a correspondência entre Jorge Dias e Ernesto Veiga de Oliveira esteja repleta de passagens reveladoras deste fascínio campestre. Assim, em 1936, Ernesto Veiga de Oliveira escreve querer “andar pelos montes […] consigo e com o Eduardo”.34 Depois de uma viagem a Setúbal, afirma:
Esqueci esta esterilidade viciosa de Lisboa, este engordar molengão do conforto, a sufocação de dinheiro, de nervos, de indolências. Abriram-se-me os olhos ao horizonte puro da terra, batido do sol e do vento seco, à liberdade sã e rude da vida errante da natureza, e estou ávido do silêncio infinito das campinas, do sono divino dos que trabalham, numa vida viril e larga. Seis meses de vida sã, forte, dura, à solta na natureza.35
38Jorge Dias afina pelo mesmo diapasão. Em 1937 afirma que “há duas condições sem as quais a vida é para nós impossível: contacto com a natureza e liberdade de corrermos para onde quisermos, quando sentirmos necessidade disso”.36
39Animados por estas utopias campestres, Jorge Dias e Ernesto Veiga de Oliveira trocam repetidamente ideias sobre alternativas à vida descontente que levam. Essas alternativas têm em comum a vontade do trabalho em conjunto, assente na amizade inquebrantável que os une. E são também marcadas pela preocupação de encontrar atividades que lhes permitam ganhar dinheiro sem estarem presos a um escritório e sem o peso do trabalho excessivo, de modo a poderem continuar as suas vagabundagens pelas serras e pelos campos. São, por isso, vários os projetos de que falam entre eles.
40O primeiro, proposto por Jorge Dias em 1936, é “um negócio de compra e venda de cortiça e que se der alguma coisa nos proporcionará viagens por todo o país e no estrangeiro, e nos dará uns cinco meses por ano de liberdade”.37
41Embora o negócio acabe por não dar em nada, Jorge Dias e Ernesto Veiga de Oliveira ainda chegaram a discutir vários detalhes sobre ele. No mesmo ano, Jorge Dias alvitra outra hipótese:
Conheço uma alemã que vai viver para Berlim e que quer fazer um contrato comigo, da seguinte natureza: ela compra nas liquidações dos armazéns artigos […] e mandamos para o Porto, eu procuro vendê-los lá e em Lisboa. Isto deve dar dinheiro e se der, arranjamos um rapaz que faça as vendas e a quem daremos um ordenado. De tempos a tempos, quando ela tiver comprado uma série de objetos caros, nós vamos à Alemanha e com marcos registados pagamos a mercadoria, o que nos dará para a viagem. Parece-me bem que ganharemos a nossa vida sem prisão de espécie alguma e que ficaremos com um tempo para o que nos apetecer.38
42Mas tal como o negócio da cortiça, também este não dará em nada. Acontecerá o mesmo, ainda em 1936, com um negócio de compra e venda de peixe sugerido por Ernesto Veiga de Oliveira:
Estou por tudo – desde que você venha também. É uma coisa que nos põe a comprar peixe em Peniche, em Olhão, etc., misturados aos pescadores. É a cortiça no movimento do mar – a Serra e o Oceano, a paz e a inquietação, o silêncio e a tormenta, que são irmãos.39
43Destino diferente parecia ser um negócio de compra e venda de madeira proposto por Ernesto Veiga de Oliveira.
Ontem fui com um amigo nosso a Setúbal, tratar de negócio de madeiras… Compra para revenda, como a nossa cortiça. Vi tudo o que será a nossa vida, e não lhe sei dizer a impressão extraordinária de força, confiança, quase alegria, que trouxe.40
44Mas o entusiasmo não parece ter durado muito. Pouco tempo depois, Ernesto Veiga de Oliveira dá conta a Jorge Dias de alguma frustração:
Cá estou a carregar madeiras, árvores que deviam ter sido estupendas, e que estão agora ali, mutiladas em troncos ressequidos, descascados; aprendi que se cortam e vendem árvores assim, para fazer tacões de sapatos de senhora, e manequins de modista. […] Mas na realidade; isto é uma monotonia. Leva imenso tempo a carregar, a chegar, a descarregar, a voltar. E eu espero, espero, horas, sozinho. Custa – mas tem que ser, e será a nossa vida! […] Talvez seja melhor […] seguirmos com este amigo nosso, que não tem interesse nenhum certamente, mas que é muito, muito simpático, tem imenso jeito para a parte comercial, e interessa-se imenso por mim. Disse-me assim, muito simples e muito sério: “Quero arranjar alguma coisa por si, e esta questão das madeiras parece-me boa, porque você só tem que vigiar, anda a correr as terras como você gosta, e tem imenso vagar para escrever, que é o que você gosta.”41
45Mas apesar deste final mais otimista, pouco tempo depois Ernesto Veiga de Oliveira parece ter abandonado o negócio da madeira.
46De todos os projetos de que vão falando, aquele que parece ter entusiasmado mais Jorge Dias e Ernesto Veiga de Oliveira foi a criação de uma exploração agropecuária na Gralheira. Este amor pela Gralheira vem de 1930. Como vimos, foi lá que Jorge Dias conheceu Fernando Galhano. E foi a partir de lá que começaram a calcorrear várias aldeias serranas do norte do país, em excursões a que mais tarde se associaram Ernesto Veiga de Oliveira e Eduardo de Oliveira. Era para lá que queriam ir. Viveriam em conjunto num lugar de que gostavam. Teriam o suficiente para viver e, em vez de uma vida inteira fechados num escritório, cultivariam a terra e criariam gado.
47Foi de Jorge Dias e de Fernando Galhano que partiu a ideia, que Jorge Dias expôs detalhadamente a Ernesto Veiga de Oliveira em 1937:
Trata-se do seguinte: na Gralheira há umas chãs, incultas por estarem afastadas da povoação uns quilómetros, mas que eu e o Galhano consideramos de boa terra de aluvião e suscetível de ser agricultada. Tem muita água, pelo que será preciso drená-la por valetas […], conseguindo nós assim excelentes lameiras em que podemos vir a alimentar umas vinte e cinco vacas. As vacas dão além dos bezerros que se vendem por 500$00 ao fim de cinco meses, excelente leite de que se faz manteiga e queijo, que é sempre vendível no Porto. Ora estes terrenos, que no Minho custariam contos e contos, podem ser comprados ali, por uns dez mil escudos, pois nem os próprios serranos arrostam as grandes solidões dessa chã cercada por imensos pedregulhos e com ravinas ao fundo, onde Cristo nunca andou. Fazemos ali uma pequena casa e uns currais, levamos para lá dois homens da serra para trabalharem connosco e temos de pelo nosso esforço em dois anos conseguir uma fonte de receita que sem esforço nos alimentará as pequenas aspirações.42
48Ernesto Veiga de Oliveira, dois dias depois, embora coloque algumas objeções, responde entusiasmado a Jorge Dias que pode contar com ele:
Para desde já você saber o que eu penso, começo por lhe dizer que estou entusiasmado com a ideia e que quero absolutamente que a realizemos. […] Vamos à questão da Serra: Como lhe disse, estou absolutamente e perfeitamente de acordo. Você, nem falo; o Galhano, não o conheço eu verdadeiramente, mas conheço-o através de si e é o bastante. As duas questões que ponho são as seguintes: 1) que os terrenos sejam realmente bons; você diz-mo e eu sei o que isso em si significa. Mas eu tenho um medo de nós que é um horror. Temos de ver isso bem, para não fazermos um deserto. 2) Eu já sei um bocado o que essas coisas podem ser; não tenho o menor medo, por mim e por vocês, da questão do exilio serrano; mas tenho um pouco de receio da nossa falta de coragem e de jeito, do nosso desânimo ou desleixo… Portanto, temos de ir para aí com o espírito feito para lutar, contra tudo o que aparecer e principalmente contra nós próprios […] Enfim, conte comigo. Nem lhe falo dos dias e das noites dessa nova vida, nem das nossas alegrias ou desesperos. Com a vida assim organizada já sei que nós podemos com tudo.43
49Mas, mais uma vez e apesar de todo o entusiasmo de Jorge Dias, Fernando Galhano e Ernesto Veiga de Oliveira, o projeto da Gralheira não se chegou a concretizar, por dificuldades relacionadas com a aquisição dos baldios em que se basearia a sonhada exploração agropecuária. Como escreveu Jorge Dias:
Se é certo eles não utilizarem os terrenos senão para pasto, também é certo que vendo o nosso interesse, imediatamente começam a pedir muito mais do que valem. Se os terrenos fossem só de um, não era difícil chegar a um acordo, mas pertencem, para aí, a uns vinte donos. Assim, vendo que uns vendem a preços razoáveis, não faltarão espertos, que pedem somas impossíveis, e nós temos de desistir. Isto já se sabe são hipóteses, mas que temo se realizem. Eu conheço demasiado a mentalidade do nosso aldeão para ter ilusões. No meio dos bons há sempre os finórios e Maria vai com as outras. Se se realizar é a melhor solução para a nossa vida. Mesmo, vindo o comunismo, temos ali um ótimo refúgio.
50Mas conclui, desanimado:
Era uma coisa tão boa que com certeza fica em projeto. Parece que, neste mundo, só os homens de ação triunfam. Nós somos seres postos à margem; uma espécie de escória social.44
51Apesar do seu insucesso, é significativo que o projeto da Gralheira ocupe um lugar tão importante na correspondência entre Jorge Dias e Ernesto Veiga de Oliveira. De todos os projetos que tentaram para conseguir fugir da vida atormentada que era a sua, foi este o que mais os entusiasmou. Como escreveu Jorge Dias em 1937: “A Gralheira deve ser a nossa salvação. No castelo roqueiro que havemos de construir, encontraremos refúgio contra o mundo hostil e força para a vida e para o trabalho.”45
52É certo que não houve Gralheira, mas, poucos anos depois, haverá Vilarinho da Furna e Rio de Onor. Mas aí, em vez da montagem de uma exploração agropecuária que se revelou utópica, será a pesquisa etnográfica que ocupará o posto de comando. É essa história – a história de como as vagabundagens juvenis de Jorge Dias e dos seus companheiros se transformaram em projeto científico adulto – que iremos encontrar no próximo capítulo, que reúne a correspondência alemã de Jorge Dias para Ernesto Veiga de Oliveira entre 1938 e 1944.
Notes de bas de page
1Carta de Ernesto Veiga de Oliveira para Jorge Dias de 6/2/1937.
2O pai de Fernando Galhano era “industrial de curtumes e administrador da fábrica NEIC (Nova Empresa Industrial de Curtumes)”, no Porto, e a mãe era oriunda de uma família de comerciantes da mesma cidade, com “propriedades na aldeia de Pias, situada nas margens do rio Bestança” (Rodrigues 2004: 19).
3Estas informações biográficas sobre o pai de Ernesto Veiga de Oliveira – que muito agradecemos – foram-nos gentilmente fornecidas por Fernando Castel Branco Sacramento (mais conhecido por Sacra), casado com uma sobrinha – já falecida – de Ernesto Veiga de Oliveira. Conforme notou Benjamim Pereira, Vasco Nogueira de Oliveira tinha também uma paixão pela etnografia, tendo estado na origem de uma coleção de rocas, socos e candeias que fazia parte do espólio do Museu de Etnografia e História do Douro Litoral (Pereira 1989: 556-557). Correspondeu-se também com José Leite de Vasconcelos (1858-1941).
4Entrevista a Margot Dias, 1996, com Catarina Alves Costa e Joaquim Pais de Brito.
5Entrevista a Karin Dias, 2024, com João Leal.
6Entrevista a Karin Dias, 2022, com João Leal e Catarina Alves Costa. Numa carta de Jorge Dias para Ernesto Veiga de Oliveira de 23/1/1941, escrita depois da sua decisão de se divorciar de Madalena Dias de Almeida, Jorge Dias alude assim à pressão familiar que teve para se casar com ela: “Eu não quero deixar-me levar por quaisquer razões de ordem sentimental. Se não tive há anos a força de resistir à pressão familiar, faço-o hoje embora isso traga muito mais vítimas do que então!” (os itálicos são nossos).
7Carta de Jorge Dias para Ernesto Veiga de Oliveira de 1936.
8Mais tarde, Ernesto Veiga de Oliveira licenciou-se em Histórico-Filosóficas.
9Carta de Jorge Dias para Ernesto Veiga de Oliveira de 11/2/1935.
10Carta de Ernesto Veiga de Oliveira para Jorge Dias; sem data, possivelmente de 1935.
11Carta de Ernesto Veiga de Oliveira para Jorge Dias de 14/12/1936.
12Carta de Jorge Dias para Ernesto Veiga de Oliveira de 10/2/1937.
13Carta de Ernesto Veiga de Oliveira para Jorge Dias de 1937.
14Carta de Jorge Dias para Ernesto Veiga de Oliveira de 1937.
15Carta de Jorge Dias para Ernesto Veiga de Oliveira de 1936.
16Carta de Jorge Dias para Ernesto Veiga de Oliveira de 1936.
17Carta de Ernesto Veiga de Oliveira para Jorge Dias de 29/8/1936.
18Carta de Ernesto Veiga de Oliveira para Jorge Dias; sem data, possivelmente de 1936.
19Carta de Ernesto Veiga de Oliveira para Jorge Dias de 6/6/1935.
20Carta de Jorge Dias para Ernesto Veiga de Oliveira de 1936.
21Carta de Jorge Dias para Ernesto Veiga de Oliveira de 1937.
22Carta de Jorge Dias para Ernesto Veiga de Oliveira de 1937.
23Entrevista a Karin Dias, 2024, com João Leal.
24Carta de Jorge Dias para Ernesto Veiga de Oliveira de 1936.
25Carta de Ernesto Veiga de Oliveira para Jorge Dias de 14/5/1936.
26Carta de Ernesto Veiga de Oliveira para Jorge Dias de 12/2/1937.
27Carta de Ernesto Veiga de Oliveira para Jorge Dias de 6/2/1937.
28Carta de Jorge Dias para Ernesto Veiga de Oliveira de 11/2/1935.
29Carta de Jorge Dias para Ernesto Veiga de Oliveira de 1936.
30Carta de Ernesto Veiga de Oliveira para Jorge Dias de 29/8/1936.
31Carta de Ernesto Veiga de Oliveira para Jorge Dias de 18/3/1936.
32Carta de Jorge Dias para Ernesto Veiga de Oliveira de 1937.
33Carta de Jorge Dias para Ernesto Veiga de Oliveira de 10/2/1937.
34Carta de Ernesto Veiga de Oliveira para Jorge Dias de 18/3/1936.
35Carta de Ernesto Veiga de Oliveira para Jorge Dias de 8/6/1936.
36Carta de Jorge Dias para Ernesto Veiga de Oliveira de 10/2/1937
37Carta de Jorge Dias para Ernesto Veiga de Oliveira de 22/3/1936.
38Carta de Jorge Dias para Ernesto Veiga de Oliveira de 1936.
39Carta de Ernesto Veiga de Oliveira para Jorge Dias de 20/5/1936.
40Carta de Ernesto Veiga de Oliveira para Jorge Dias de 8/6/1936.
41Carta de Ernesto Veiga de Oliveira para Jorge Dias de 1936.
42Carta de Jorge Dias para Ernesto Veiga de Oliveira de 10/2/1937.
43Carta de Ernesto Veiga de Oliveira para Jorge Dias de 12/2/1937.
44Carta de Jorge Dias para Ernesto Veiga de Oliveira de 3/1937.
45Carta de Jorge Dias para Ernesto Veiga de Oliveira de 1937.
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