Prefácio
p. 19-20
Texte intégral
1O texto que ora se apresenta corresponde a uma versão retocada da dissertação de Mestrado em Literaturas e Poéticas Comparadas defendida por nós, em Março de 2004, na Universidade de Évora e visa contribuir, ainda que de forma modesta, para um melhor entendimento da actividade de teorização e de crítica literárias que se desenvolveu em Portugal, nas primeiras décadas do século XVII, com especial destaque para o desempenho dos letrados ligados ao círculo académico da região de Évora.
2Foi um campo de investigação que nos seduziu, porquanto se tratava de indagar acerca dos fundamentos iniciais daquela actividade e de, em simultâneo, prestar homenagem a dois ilustres intelectuais eborenses, o chantre Manuel Severim de Faria e o licenciado Manuel Pires de Almeida, pelo papel por ambos assumido no desenvolvimento da cultura seiscentista e na configuração de um espaço literário que, lenta mas visivelmente, ensaiava os primeiros passos rumo à emancipação.
3Não obstante ter sido um trabalho que exigiu uma atenção meticulosa e longas horas de pesquisa em busca de informação dispersa e porventura inédita, à medida que fomos adentrando este campo de estudo, confrontámo-nos com sentimentos contraditórios: de um lado, a sensação jubilosa por podermos aprofundar conhecimentos sobre a obra de alguns dos vultos mais revelantes da cultura portuguesa de Seiscentos, com a particularidade de os seus nomes aparecerem ligados ao movimento académico centrado em torno da cidade de Évora; do outro, a percepção dolorosa de que os nossos projectos ficam sempre aquém da ambição original e que, das múltiplas e complexas facetas da realidade de uma época, apenas uma parcela muito diminuta conseguimos reter. Ainda assim, nos momentos mais difíceis, animou-nos o propósito de, a exemplo desses notáveis letrados eborenses, servir a causa pública, fazendo o possível por compreender e resgatar do olvido alguns dos trabalhos com que contribuíram para a teorização e a crítica literárias, nas primeiras décadas do século XVII.
4Por razões de natureza metodológica, foi-nos importante proceder ao desenvolvimento do tema segundo duas vertentes. A primeira, dada a necessidade de enquadramento epocal, foi orientada para o estudo dos factores histórico-sociais que, no contexto de então, funcionaram não só como condicionantes, mas também como estímulo para a gradual autonomização da actividade literária seiscentista.
5A segunda organiza-se em torno da problemática da codificação estético-literária e centra-se, tendo em conta o contexto de recepção, na influência da Poética de Aristóteles sobre o pensamento teórico-crítico dos escritores de cuja obra nos ocupamos. Este, apesar de não ser inteiramente original, constitui um marco importante para a compreensão das ideias literárias que, no século de Seiscentos, se difundiam em Portugal e no restante espaço cultural europeu.
6Évora, 2004.
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