Conclusão
p. 461-463
Texte intégral
1Implantada numa zona desde sempre permeável a influências vindas do Norte e do Mediterrâneo, Elvas vai nascer num território que lhe proporciona múltiplos recursos. Os solos variados e por vezes ricos, aliados à existência de recursos hídricos suficientes, estimularam os homens que aí se estabeleceram a, com técnicas apuradas, deles tirarem partido.
2Afirma-se durante o período islâmico, sempre de olhos postos na também nascente cidade de Badajoz. Passa por vicissitudes várias, assistindo a projectos de autonomia com liderança muladí, a acções de centralização levadas a cabo pelo primeiro califa omíada; do seu alto convive diariamente, a distância, com a capital aftácida e é objecto de fortes investimentos defensivos e propagandísticos por parte do poder almóada, no momento em que a fronteira entre os mundos cristão e islâmico já dava mostras de avançar para sul do Tejo.
3Durante esses mesmos séculos afirma-se a sua matriz urbana e a sua vocação estratégica, tirando partido da sua localização na margem esquerda do Guadiana. Mas também se afirmou como pólo económico, em estreita ligação com as velhas estradas de época romana que sempre passaram perto e que lhe foram trazendo as diferentes gentes da complexa constelação da sociedade andalusí.
4No século XIII, deixando de pertencer ao Dar al-Islam, passa por um processo de adaptação, ao integrar-se num dos reinos cristãos que se vai afirmando para Sul.
5Mas o seu destino de terra de fronteira não se apaga. Se, primeiro, foi fronteira entre andalusís e ibero-cristãos, sê-lo-á também, depois, entre os reinos de Portugal e de Leão e Castela.
6A sua posição raiana condicionar-lhe-á, secularmente, o seu viver. Mantêm-se as velhas muralhas de matriz islâmica e erguem-se novas que abarcam os arrabaldes da urbe que cresce.
7Conserva estruturas urbanas antigas mas assiste à afirmação de novos eixos viários, de novas formas de urbanismo e à especialização de novos espaços, quer no interior quer nas novas periferias que então nascem.
8Tirando partido da variedade de recursos que a rodeiam, afirma-se também como vila laboriosa onde, para além das construções comuns e dos espaços de trabalho, se afirmam edifícios de prestígio, de diversos tipos e modos arquitectónicos.
9Diversas são também as gentes que nela residem ou que aí têm interesses, assistindo-se à gradual afirmação de algumas famílias locais e de influentes linhagens. É exemplo, também, da dificuldade em estabelecer fronteiras claras entre alguns grupos sociais e das complexas teias que entre eles se tecem.
10Espaço de cruzamento de gentes diversas, no estatuto social, mas também no ritual de afirmar a sua crença monoteísta, acaba por ser terreno fértil para encontros e desencontros entre Estados e religiões que, até aos finais da Idade Média, aí se fazem sentir. Por ela e junto a ela cruzam-se povos e influências artísticas fermentadas, quer a sul do Estreito de Gibraltar, quer a norte dos Pirenéus.
11Nunca deixa de conviver diariamente com a cidade que, desde o século IX, se afirmou em frente do seu horizonte visual e para lá da qual vão, por vezes, os interesses dos seus residentes. Convívio que envolve lutas, mas também contrabando, migrações, casamentos e cumplicidades várias que se irão manter.
12A sua posição, a riqueza dos seus campos e uma sábia gestão da sua liderança numa raia de fáceis contactos, são vectores que, passados os períodos mais conturbados dos séculos XIV e inícios do XV, irão reforçar o seu crescimento e a sua riqueza, não escondendo as suas ambições de afirmação regional e anunciando, em finais do século XV, a sua subida à categoria de cidade e de sede episcopal na centúria seguinte. Mas isso será depois, e já numa época de triste consolidação da intolerância que, em finais do século XV, porá fim ao convívio de homens e mulheres de três religiões que, ao longo de muitos séculos, nela viveram.
13As conclusões até aqui enunciadas decorrem do questionário, muito específico, que se utilizou nesta investigação. Deve dizer-se, no entanto, que nada está fechado e que são muitos os tópicos que não foram estudados. Faltam, por exemplo, estudos sobre a área rural do termo de Elvas, sobre o tabelionado, sobre a justiça, sobre a administração municipal e sobre os institutos religiosos na Elvas medieval; só o século XV mereceria uma visão de conjunto; as relações – por vezes até familiares – e cumplicidades com as gentes do outro lado da raia estão por estudar detalhadamente.
14Por outro lado, são muitas as dúvidas que persistem. Convém estar atento a possíveis novas aportações provenientes das fontes escritas de origem arábica, que podem esclarecer o início da vida de Elvas como centro urbano. Trata-se de uma fase complexa, ligada à desarticulação da Lusitânia – designação ainda presente nos textos arábicos –, ao caminhar de algumas elites de Mérida para ocidente e à existência de comunidades berberes e moçárabes na região, ainda mal conhecidas. Os trabalhos arqueológicos poderão ser fundamentais para responder a estas e outras dúvidas, tendo já dado a conhecer aspectos do quotidiano medieval de Elvas a partir dos trabalhos levados a cabo aquando da abertura do parque subterrâneo na Praça da República. A cautela com que ele olha para as construções mais simples existentes dentro do casco histórico pode revelar surpresas muito agradáveis: trabalhos muito recentes levados a cabo dentro de instalações militares de Elvas, junto a S. Domingos, orientados por militares com sensibilidade para o Património, revelaram não só vestígios datáveis da Alta Idade Média – uma pilastra do período de transição entre o Império romano e o domínio islâmico – como também confirmaram a hipótese, aqui levantada, da existência de um troço da muralha “fernandina”.
15Esta não é, pois, uma obra definitiva. O autor desta páginas é devedor do muito que aprendeu nas obras de grandes investigadores e eruditos da Elvas de outros tempos. Seria uma grande recompensa conseguir que este livro pudesse ajudar a afirmar uma nova geração que, com dedicação e engenho, fosse mais longe no conhecimento da história e da singularidade das terras e das gentes de Elvas.
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