3.1. Os eventos da “Reconquista”
p. 131-140
Texte intégral
1“As trevas dos séculos esconderam-nos as particularidades da conquista de Elvas; sabemos, porém, que ela cedeu à fúria dos invasores.” Assim se refere A. Herculano à conquista de Elvas1, uma conquista que ainda envolve algumas incertezas2.
2Duarte Galvão, no século XV, refere uma possível tomada de Elvas, por D. Afonso Henriques, em meados do século XII. Porém, esta tomada de Elvas é discutível3. Huici Miranda dá crédito a conquistas efectuadas entre 1148 e 1153 pelos portugueses mas só a norte da linha do Tejo4.
3Pouco depois, na década de sessenta dessa centúria, Elvas parece manter-se arredada do cerne dos acontecimentos que envolveram a região em redor de Juromenha e Badajoz5.
4A acção militar almóada do Sayyid Abû Hafs, em finais de 1170 e inícios de 1171, de que resultou, entre outras coisas, o controlo, por parte dos almóadas, de Juromenha, deve ter tido um efeito de descompressão militar não só em Badajoz como também em Elvas, localizada pouco mais de duas léguas a Norte. Fala-se mesmo num período de calma de dois anos no ocidente peninsular, a seguir à expulsão, de Juromenha, dos homens de Geraldo6.
5A paz fora negociada com os almóadas em Sevilla por dois embaixadores de Afonso Henriques, feitas em Setembro/Outubro de 1173 (569H.). Daí resultou a assinatura de um período de cinco anos de tréguas entre portugueses e almóadas7.
6Mas a paz não veio para ficar. É referida uma acção militar contra Elvas na primeira década de duzentos8. Segundo Rui de Pina, “... no anno seguinte de mil duzentos e oyto, ha vinte, e sinquo dias de Julho, se acha brevemente que ho dito Rey com gente de guerra ordenada tomou ahos Mouros por força ho Castello Delvas, e esta foy a derradeyra couza, que por serviço, e acrecentamento de sua honra, e bom nome fez contra hos infieis no qual feyto jaá com elle foy ho Iffante D. Affonso seu filho erdeyro, que apos elle Reynou.”9.
7É provável que esta acção, a ter existido, não tivesse passado de uma algara que tivesse atingido algum ponto específico da muralha da Yalbash islâmica, acompanhada por devastações realizadas nos arrabaldes, hortas e campos próximos. Há quem tenha posto em dúvida uma tomada de Elvas na primeira década do século XIII10.
8A derrota almóada na batalha das Navas de Tolosa, em 1212, significa uma profunda viragem geo-política na Península Ibérica11. O começo do fim do domínio almóada, que se irá agudizar gradualmente durante todo o governo do último dirigente deste império no al-Andalus, Yûsuf II, entre 1213 e 1223, trouxe instabilidade e enfraquecimento para os muçulmanos.
9Em 1224, os problemas de sucessão do defunto califa almóada Yûsuf II, multiplicam a insegurança e o desnorteio geral nos territórios islâmicos12. Portugueses e leoneses parece terem tentado coordenar esforços, visando ambos aproveitar as debilidades do regime almóada numa conjuntura que lhes era favorável13, tirando partido do fracasso da tentativa de Muhammad ibn Hûd para dirigir os destinos do que restava dos territórios do al-Andalus14.
10Irá passar por Elvas o processo de alteração da fronteira entre o Islam e a Cristandade, de que a sociedade andalusí e os vários reinos cristãos são, no Ocidente, as periferias. Se no século X a fronteira entre estas duas “sociedades” estava na linha do Douro e, no século XII, na do Tejo, agora, no XIII, irá chegar às margens do Guadiana15.
3.1.1. A tentativa de conquista de 1226
11Parece hoje não haver dúvidas de que a acção militar de D. Sancho II contra a Elvas islâmica, em 1226, foi um fracasso, apesar da preparação e apoios que, antecipadamente, se procuravam obter16.
12Ao contrário do que afirmou Alexandre Herculano, que acreditou numa primeira tomada de Elvas nesse ano de 1226, seguida de abandono, para uma nova e definitiva recuperação e incorporação nos territórios da coroa em 1230, a campanha de D. Sancho II de 1226, realizada num momento em que o novo monarca precisava de se afirmar, foi, como o demonstram Luís Gonzaga de Azevedo e José Mattoso, um claro fracasso, tal como o foi a campanha paralela (geográfica e temporalmente) de D. Afonso IX de Leão dirigida contra Badajoz17.
13A. Herculano considerou que as expedições simultâneas de leoneses e portugueses em 1226 contra, respectivamente, Badajoz e Elvas, tiveram sortes diferentes. Afonso IX teria tido de regressar para os seus Estados sem nada mais ter conseguido que devastar as imediações de Badajoz, enquanto que D. Sancho II, não sem perigo para a sua própria pessoa18, teria tomado Elvas em Junho de 1226. Por motivos que Herculano confessou estarem pouco esclarecidos, o monarca português teria considerado ser melhor abandonar Elvas nesse mesmo ano de 122619.
14Ainda na perspectiva de Herculano, em 1229, já com o intuito de povoar definitivamente Elvas, o rei roubado20 outorgara, antecipadamente, um foral aos seus futuros moradores, acabando por tomar Elvas, definitivamente, só em 123021. A coordenação com os leoneses teria sido fundamental, tendo-se registado a tomada de Elvas (bem como a de Juromenha) no mesmo dia da de Mérida, levada a cabo por homens ao serviço de Afonso IX de Leão22.
15Ora, Luís Gonzaga de Azevedo, essencialmente com base nas informações ministradas por uma outra crónica, a que A. Herculano não teve acesso23, contesta o facto de se considerar a campanha sanchina de 1226 contra Elvas como tendo tido resultados favoráveis ao rei de Portugal. Para este autor e com base na referida crónica, D. Sancho II, que subira ao trono em 1223 e que via em D. Afonso IX de Leão “não o rival astuto, de quem cumpria defender-se, mas apenas o valente camarada das campanhas, em que esperava colher os louros, com que andava sonhando”24, dada a crescente influência leonesa que se fazia sentir no reino (por via das tias do rei português) e devido à conjuntura que se vivia e na qual se destacavam as vitórias castelhanas contra territórios do al-Andalus (e que poderiam vir a ensombrar os projectos tanto de leoneses como de portugueses), leva a que os monarcas leonês e português decidam, em 1225, levar por diante um anterior acordo ou «pacto» que previa ataques, de ambos os reinos, contra terras sob controlo islâmico25.
16Assim, na primavera de 1226, saem as expedições de Afonso IX contra Badajoz e de Sancho II contra Elvas, na qual seguiam não poucos membros da nobreza. Aliás, a expedição contra a Elvas “moura” poderia servir para aliviar tensões existentes dentro do reino26.
17O exército de D. Sancho II mais não deve ter conseguido que destruir e saquear os arredores de Elvas27, no que concorda com a descrição que é dada por Lucas de Tuy, apesar de se terem aproximado das suas muralhas e penetrado nos fossos que as rodeavam (onde o rei foi auxiliado, como já foi referido).
18Segundo Gonzaga de Azevedo, o falhanço da campanha de Elvas de 122628, não só originou mau-estar entre clérigos e nobres que acompanharam o rei (e a quem culpavam pelo insucesso), como deu origem a uma situação de desunião em relação à posse do trono29 e a um curto período de guerra civil30. Essa conjuntura de guerra civil deve ter dificultado novas acções contra territórios islâmicos que pudessem restaurar a confiança no monarca31.
19Gonzaga de Azevedo, por outro lado, desvaloriza a doação feita por D. Sancho II a A. M. Sarracines como argumento justificativo de que Elvas fora tomada em 1226. Esclarece aquele autor que “a preposição «apud» tanto pode designar a própria cidade, como os seus arredores, ainda os que ficavam fora dos muros da povoação, que os tinha; e, portanto, num cêrco, como o de Elvas, em 1226, sitiadores e cercados usavam da mesma expressão – «apud Elvas» – para significar a povoação do castelo, expugnado por uns e defendido por outros.”32. Esta interpretação é compartilhada por José Mattoso que acrescenta poder tal expressão “significar «junto de» e não «em»”33.
20Por outro lado ainda, a chamada Crónica Latina dos Reis de Castela é clara na negação da conquista de Elvas em 122634. Assim, Elvas e Badajoz, em 1226 conseguiram resistir a duas tentativas conjuntamente pensadas, de leoneses e portugueses, embora devam ter ficado com os campos, engenhos agrícolas e obras defensivas algo atingidos.
21A frustrada tomada de Elvas de 1226 deve ter sido acompanhada de ocupações e pilhagens de explorações agrícolas, hortas e várzeas bem irrigadas dos arredores, precipitadamente abandonadas pelos seus locatários. É provável que para além do assédio à urbe, alguns dos sitiantes tivessem procedido ao reconhecimento e identificação de terras cuja posse almejavam35.
22Por outro lado, a vantagem dos ocupantes de Elvas no assédio cristão de 1226 pode residir nas obras militares almóadas36.
3.1.2. A conquista de 1229-1230
23A conquista de Elvas e definitiva integração no reino de Portugal deve ter-se dado em 1229 ou em 1230.
24A última das datas é referida no Cronicão Conimbricense, que situa a conquista de Elvas e de Juromenha no mesmo dia em que se deu a conquista de Mérida por Afonso IX de Leão37.
25Na verdade, a tomada de Cáceres por Afonso IX de Leão, em 1227, levou a que os habitantes de Mérida se virassem para Ibn Hûd, como seu protector face ao avanço cristão38. Porém, esse sucesso deve ter levado a que os andalusies dos outros castelos e povoados fortificados da região, mais a sul, tais como Badajoz e Elvas, se tenham reunido em torno desse personagem que prometia ser uma alternativa aos almóadas em declínio e a única forma de suster o avanço cristão.
26Em 1229-1230 Ibn Hûd não consegue suster o avanço cristão perdendo Mérida39, Juromenha e Elvas. Com a perda destas três fortificações, todas elas na margem direita do Guadiana, pouco faltava para a queda da antiga capital aftácida, sobre a qual se exercia uma enorme pressão, a norte e a oeste, como que existindo um cordão à volta de Batalyaws, esta já na margem esquerda, cordão esse pronto a sufocá-la40. E Badajoz será ainda tomada aos andalusies, nesse mesmo ano, possivelmente no dia do Espírito Santo41.
27Huici Miranda dá crédito às fontes segundo as quais Elvas e Juromenha, tal como Mérida (por parte dos Leoneses), foram tomadas a 1 de Março de 123042. Tal opinião concorda aproximadamente com a crónica islâmica chamada de Rawd al-Qirtas43.
28Elvas e Juromenha teriam sido tomadas, em nome do rei de Portugal, por freires portugueses que, primeiramente, tomaram parte na conquista da antiga sede episcopal visigoda que fora Mérida44. Quando as tropas do rei D. Sancho II chegaram a estes dois locais ter-se-iam limitado, segundo o testemunho da Crónica Latina dos Reis de Castela, a guarnecê-las45.
29Segundo José Mattoso, por a Crónica Latina dos Reis de Castela distinguir dois momentos na passagem de Elvas do domínio islâmico para o cristão, “o do abandono de Elvas e o da entrada de Sancho II na cidade uns tempos depois”, torna possível “o abandono da cidade e o foral serem de 1229, e a entrada do rei de 1230, no mesmo dia da conquista de Mérida”46.
30A participação de freires portugueses, ligados a ordens militares, na tomada de Elvas acabará por marcar indelevelmente o futuro de Elvas. Embora D. Sancho II reserve Elvas para a coroa e a não entregue, como se fez a outras localidades, a Ordens militares47, as várias ordens intervenientes deixaram marcas da sua acção na tomada de Elvas aos andalusíes.
31Na verdade, como se verá, as várias ordens militares participantes foram contempladas com doações régias feitas com certo equilíbrio, por forma a não dar a nenhuma delas especial destaque no seio da Elvas cristã que a partir de então se irá afirmar. Esse equilíbrio marca fortemente a própria tradição da tomada de Elvas veiculada pelo cónego Aires Varela, que decide valorizar a participação de homens do Bispo de Évora, relacionando essa participação com marcas existentes na toponímia elvense.
32A obra de Aires Varela, de meados do século XVII, dá, no seu capítulo XIV48, uma visão diferente da tomada de Elvas. O autor monta um teatro de operações incrível, encenando um cerco de três anos de duração, ao fim dos quais Elvas seria tomada. Esse cerco ter-se-ia iniciado em 1226, com a tomada de uma porta pelos homens do Bispo de Évora (de que resultaria a fundação da primeira paróquia cristã) e é dado por finalizado em 1228, com a tomada da quarta porta e consequente fundação da quarta e última paróquia urbana.
Notes de bas de page
1 Alexandre Herculano, História de Portugal – desde o começo da monarquia até o fim do reinado de D. Afonso III, Tomo II, Amadora, Liv. Bertrand, 1980, p. 373.
2 Segundo J. Mattoso, “são raros os documentos régios desde 1226 até 1229” – José Mattoso, “D. Sancho II, o Capelo” in História de Portugal, direcção de J. Hermano Saraiva, vol. II, Edições Alfa, 1a ed., Lisboa, 1983, p. 142.
3 Huici Miranda parece não dar crédito à Crónica de D. Afonso Henriques, de Duarte Galvão, que refere que esse monarca teria destruído várias terras de mouros, na Era de 1186 [1148 de J.C.] de entre as quais Elvas - Ambrósio Huici Miranda, “Las campañas de Ya’qûb al-Mansûr en 1190 y 1191” in Anais (Academia Portuguesa de História), II série, vol. V, Lisboa, 1954, p. 71. Segundo Duarte Galvão D. Afonso Henriques teria tomado Elvas no seu caminho para Beja. (Sobre esta expedição vejam-se Crónica dos sete primeiros reis de Portugal, edição crítica de Carlos da Silva Tarouca, Academia Portuguesa de História, I, p. 86, nota 10 e Duarte Galvão, Crónica de D. Afonso Henriques, (apresentação de José Mattoso), Lisboa, Imprensa Nacional, cap. XLI, p. 139.) Eurico Gama, Crónicas de Odiana, p. 14, refere uma conquista de Elvas em 1154, que deve corresponder a esta.
4 Ambrósio Huici Miranda, op. cit., p. 71.
5 Sobre as empresas de Giraldo Sem Pavor entre 1165 e 1166 na região que corresponde grosso modo a uma parte do actual Alto Alentejo e Extremadura espanhola, vejam-se José Mattoso, Identificação de um País. Ensaio sobre as origens de Portugal, I., 1a ed., Lisboa, ed. Estampa, 1985, pp. 422-423 e Ambrósio Huici Miranda, “Los Almohades en Portugal” in Anais (Academia Portuguesa de História), II série, vol. V, Lisboa, 1954, pp. 12-13.
6 Veja-se Ambrósio Huici Miranda, Ibidem, p. 16, nota 12 e p. 17.
7 Ibidem, p. 22. Sobre estas tréguas veja-se Crónica dos sete primeiros reis de Portugal, edição crítica de Carlos da Silva Tarouca, p. 102 que refere que as tréguas se iniciaram a 4 de Maio de 1174.
8 Segundo Eurico Gama, D. Sancho I tê-la-ia conquistado em 1200. Esta data deve corresponder a equívoco ou gralha tipográfica. O citado autor deve querer referir-se à acção militar que, segundo outros autores, pode ter tido lugar em 1208 ou em 1210. - Cf. Eurico Gama, Crónicas de Odiana, p. 14.
9 Rui de Pina, “Chronica delRey D. Sancho I” in Crónicas de Rui de Pina (D. Sancho I, D. Afonso II, D. Sancho II, D. Afonso III, D. Dinis, D. Afonso IV, D. Duarte, D. Afonso V, D. João II), introdução e revisão de M. Lopes de Almeida, Lello & Irmão, Porto, 1977, cap. XVI, p. 63 e Crónica dos sete primeiros reis de Portugal, I, capítulo IX, p. 177. Aí se diz que “E no ano seguynte de MCCRVIIJ anos [1210 de J. C.], aos XXV di/ de Junho, tomou elRey D. Sancho aos Mourros o castelo dElvas.”
10 Huici Miranda considera falsa a referência, existente na Crónica de D. Sancho I, a uma tomada de Elvas pelos portugueses em 1210 - Ambrósio Huici Miranda, “Las campañas de Ya’qûb al-Mansûr en 1190 y 1191”, p. 74.
11 Veja-se Bernard F. Reilly, Las Españas Medievales, Bercelona, Ed. Península, 1996, pp. 183-184.
12 Ibidem, p. 185; Anwar G. Chejne, op. cit., pp. 85 e 88-89.
13 “Los leoneses y portugueses habían intentado sin éxito coordinar sus campañas al sur del Tajo. En 1225, Alfonso IX había sitiado Badajoz y Sancho II de Portugal Elvas, pero en vano” – Derek W. Lomax, op. cit., p. 186. José Mattoso admite a existência de um pacto entre D. Sancho II e o rei de Leão e teria sido no quadro desse pacto que o monarca leonês interveio sobre Badajoz e Cáceres e D. Sancho, numa acção coordenada, em 1226, sobre Elvas (“D. Sancho II, o Capelo”, p. 141).
14 Bernard F. Reilly, Ibidem, pp. 186-187.
Quem era esse Ibn Hûd? Segundo Derek Lomax, “después de 1228, los musulmanes españoles no recibieron ninguna ayuda de África y tuvieron que enfrentarse solos a los cristianos. Su primera reacción fue derrocar el poder almohade y nombrar un soberano indígena, Ibn Hûd, que fue proclamado rey en todas las ciudades, salvo en Valencia. Afirmándose descendiente de la antigua dinastía hispanoárabe de Zaragoza, hizo difundir leyendas sobre profecías relativas a que él dominaría toda la España musulmana. Proclamó al califa abasí de Bagdad verdadero califa (...) pero la fuerza real de Ibn Hûd residía en su calidad de portavoz del odio contenido que tenían los andaluces a los almohades.” (La Reconquista, Barcelona, Ed. Crítica, 1984, p. 184.)
15 Sobre as várias fases do avanço cristão e a integração deste avanço numa perspectiva de um enfrentamentamento entre o Islão e a Cristandade, de contornos muito mais vastos (embora só chegue – em termos geográficos – à linha do Tejo), veja-se José Ángel García de Cortázar, “De una sociedad de frontera (El Valle del Duero en el siglo X) a una frontera entre sociedades (El Valle del Tajo en el siglo XII)” in Las Sociedades de Frontera en la España Medieval, (II Seminario de Historia Medieval), Saragoça, Universidad de Zaragoza, 1993, pp. 63-67, passim.
16 Uma carta do Papa Honório III ao arcebispo de Braga, de 13 de Junho de 1226, concedendo-lhe a “faculdade de absolvição da pena de excomunhão canónica... aos clérigos e leigos da sua província eclesiástica que se incorporarem no exército cristão contra os mouros...”, tem sido vista como um sinal de apoio aos preparativos da expedição de D. Sancho II contra Elvas. - Cf. Monumenta Henricina, vol. I, p. 58.
17 José Mattoso dá credibilidade aos argumentos aduzidos por Luís Gonzaga de Azevedo que, com base essencialmente na Crónica Latina dos Reis de Castela, editada por G. Cirot em 1913, e que Alexandre Herculano não conheceu, não tem dúvidas em considerar que as campanhas de 1226 dos reis de Leão e de Portugal contra, respectivamente, Badajoz e Elvas, fracassaram nos seus objectivos. (Vejam-se as notas críticas de José Mattoso a Alexandre Herculano, História de Portugal..., II, pp. 545--546 e passim).
J. Mattoso crê que a argumentação do douto jesuíta que foi Luís Gonzaga de Azevedo tem sido desprezada, mas é muito válida. – Cf. “D. Sancho II, o Capelo”, pp. 144-145.
18 Conserva-se um pergaminho pelo qual se fica a saber que o monarca nessa campanha de 1226 fora salvo pelo cavaleiro Afonso Mendes Sarracines nos fossos ou “cavas” de Elvas – Alex. Herculano, op. cit., II, p. 374, nota 26 e p. 609, no 19; aliás este documento é utilizado por este autor como um dos principais argumentos em favor da conquista de Elvas por D. Sancho II em 1226, na medida em que a doação feita pelo rei ao referido Afonso Mendes Sarracines é feita “apud Elvas”.
Veja-se também Luís Gonzaga de Azevedo, História de Portugal, vol. VI, Lisboa, Edições Bíblion, 1944, VI, pp. 17-18.
19 Ibidem, p. 374.
20 Para utilizar a expressão com que Borges Coelho define D. Sancho II - A. Borges Coelho, “O tempo e os homens – séculos XII-XIV” in Portugal Medieval, vol. III da História de Portugal, dir. de João Medina, Amadora, Ediclube, 1993, p. 122.
21 Ibidem, p. 397. Segundo Alexandre Herculano, a data de 1230 é a referida no “Cronicão Conimbricense”.
22 Ibidem, p. 398, que cita a Crónica Conimbricense.
23 Trata-se da Crónica Latina dos Reis de Castela, publicada por G. Cirot – “Chronique Latine des Rois de Castille, jusqu’en 1236” in Bulletin Hispanique, Tom. XV, nos 2 e 3, Bordeaux, 1913, citado por G. de Azevedo, VI, pp. 37-38, nota 1 e pp. 139-140, nota 3. Sobre a importância desta crónica veja-se também J. Mattoso, “Notas críticas ao Livro V” in A. Herculano, op. cit., II, nota [36], p. 548.
24 Luís Gonzaga de Azevedo, op. cit., vol. VI, p. 9.
25 Ibidem, VI, p. 17; veja-se também José Mattoso, “1096-1325” in História de Portugal, direcção de José Mattoso, vol. II, 1a ed., s/l, Círculo de Leitores, 1993, p. 121.
26 Veja-se Leontina Ventura, “A Crise de Meados do Século XIII” in Portugal em definição de fronteiras – do Condado Portucalense à Crise do século XIV, (coord. de Ma Helena da Cruz Coelho e Armando Luís de Carvalho Homem), vol. III da Nova História de Portugal (dir. de Joel Serrão e A. H. de Oliveira Marques), Lisboa, Ed. Presença, 1996, p. 108 e nota 67.
27 Possivelmente limitou-se a pilhar as hortas e campos da ribeira de Chinches e de outros aprazíveis e férteis campos – como os descreveu Idrîsî – em seu redor. Diz Lucas de Tuy que “rex Portugaliæ omnia quæ erant circumcirca Elves vastavit” (Lucas de Tuy segundo A. Herculano, op. cit., II, nota XIX de fim de volume, p. 618 e Gonzaga de Azevedo, op. cit., VI, p. 138, nota 1).
28 Ou, segundo o autor, “a frustrada aventura, passada no cerco de Elvas” (Gonzaga de Azevedo, VI, p. 87). Idêntico desfecho teve a campanha, simultânea, de Afonso IX, contra Badajoz (Ibidem, p. 140).
29 Sobre a tentativa de deposição de D. Sancho II, na sequência do desastre do cerco de Elvas, veja-se G. de Azevedo, op. cit., VI, p. 134.
30 Ibidem, pp. 19, 25, 141-150, 153. Vejam-se também as notas críticas de José Mattoso a A. Herculano, op. cit., II, pp. 545-546.
31 Ao contrário de Afonso IX de Leão que, no ano seguinte, em 1227, averbou uma vitória, conquistando Cáceres aos muçulmanos - Cf. José Mattoso, “Notas Críticas ao Livro V” in A. Herculano, op. cit., II, pp. 545 e 547.
J. Mattoso considera que J. González (na sua obra Alfonso IX, I, Madrid, 1944, pp. 201-204) demonstra cabalmente que a data da tomada de Cáceres foi 1227 e não 1229, contrariamente ao que consideraram, entre outros autores, A. Herculano (op. cit., II, p. 395) e J. Gonzaga de Azevedo (op. cit., VI, p. 37).
Veja-se também José Mattoso, “1096-1325”, p. 123.
32 L. Gonzaga de Azevedo, op. cit., VI, pp. 138-139.
33 J. Mattoso, “Notas críticas...”, p. 545.
34 G. Cirot, “Chronique Latine des Rois de Castille, jusqu’en 1236”, citado por Gonzaga de Azevedo, op. cit., VI, pp. 37-38, nota 1 e pp. 139-140, nota 3; cf. ed. de L. Charlo Brea, Crónica Latina de los Reyes de Castilla, Madrid, 1999, § 50, p. 82.
35 O fracasso da tomada da urbe mas a convicção de que, mais cedo ou mais tarde, tal se viesse a dar de forma definitiva, deve ter estado na origem duma composição pela qual os cistercienses já acautelavam a posse sobre a parte da herdade que até à referida data cabia a Pedro Fernandes. Poderá ter havido uma espécie de “repartimiento” em 1226 quando ainda se acreditava na tomada de Elvas pelos portugueses, “repartimiento” esse que seria propiciatório a um maior empenhamento, por parte dos comtemplados, no assédio a Elvas. Sobre este aspecto veja-se A.N.T.T., C.R., Alcobaça, m. 4, no 39, citado por Pedro Gomes Barbosa, “Santa Maria de Alcobaça no Termo de Elvas (a formação do seu património fundiário) ”, pp. 10-11 e o foi atrás referido em 2.2.2.
36 A dificuldade da sua tomada deve ter a ver, em grande medida, com a boa conservação que as muralhas apresentavam, na terceira década do século XIII. É de lembrar que esses muros parece terem sido reforçados durante o período almóada, pelo que estariam muito possivelmente bem corrigidas, aumentadas e bem consolidadas, quando os homens de D. Sancho II a quiseram tomar. Cf. L Torres Balbás, Ciudades..., p. 478.
37 P.M.H., Scriptores, p. 3, citado por Gonzaga de Azevedo, op. cit., VI, p. 139, nota 2; veja-se também A. Herculano, op. cit., II, p. 398, nota 63.
38 Cf. a este propósito G. de Azevedo, VI, p. 37.
Segundo José Mattoso “Afonso IX conquistou Cáceres em 1227. Badajoz perdia, assim, um dos seus principais pontos de apoio. Na Quaresma, ou seja, em Março ou Abril, o infante português Pedro Sanches, ao serviço do rei de Leão, conquista Mérida, a antiga capital da Lusitânia. Ibn Hud, xeque de Sevilha, tentou recuperá-la, mas foi derrotado. Por essa ocasião, os habitantes de Elvas abandonaram a cidade, que foi pouco depois ocupada pelo rei de Portugal. De facto, Sancho II apressou-se a dar-lhe foral, no mês de Maio de 1229. Os Portugueses ocuparam também Juromenha, não se sabe se abandonada igualmente pelos seus habitantes, se em combate. Finalmente, no dia de Pentecostes de 1229 (3 de Junho), ou de 1230 (26 de Maio), as forças leonesas apoderaram-se da tão cobiçada cidade de Badajoz.” – José Mattoso, “D. Sancho II, o Capelo”, p. 144.
39 Nesta acção distinguiu-se a figura do Infante D. Pedro Sanches, irmão de D. Afonso II de Portugal e tio do rei português, do lado de Afonso IX de Leão (Gonzaga de Azevedo, VI, pp. 37-42, passim; A. Herculano, op. cit., II, p. 396. Sobre a figura do Infante D. Pedro Sanches nesta conjuntura vejam-se José Mattoso, “1096-1325”, op. cit., p. 123 e Maria Teresa Nobre Veloso, “As Primeiras Medidas na Senda do Centralismo” in Portugal em definição de fronteiras – do Condado Portucalense à Crise do século XIV, vol. III da Nova História de Portugal (dir. de Joel Serrão e A. H. de Oliveira Marques), Lisboa, Ed. Presença, 1996, p. 95.
40 A queda de Mérida, em 1230, em mãos de Alfonso IX significou, nas palavras de Derek Lomax, “un duro golpe al prestigio de Ibn Hûd, puesto que abría todo el suroeste a los cristianos.” (Derek W. Lomax, op. cit., p. 186).
Lévi-Provençal refere a conquista de Mérida, mas situa-a no ano de 1228: “en 625 / 1228, elle fut reprise par le roi Alphonse IX de Léon, mais ne recouvra pas son importance passée” – (E. Lévi-Provençal, “Mârida” in Enciclopédie de l’Islam, tomo VI, 1986, p. 553).
41 Essa é a data referida pela Crónica Conimbricense, citada por G. de Azevedo, op. cit., VI, pp. 37-38, nota 1. Veja-se também A. Herculano, op. cit., II, p. 398-399.
42 A. Huici Miranda, “Las campañas de Ya’qûb al-Mansûr en 1190 y 1191”, op. cit., p. 74. Talvez melhor fosse pensar que estas tomadas se teriam dado a partir desse dia e não todas na mesma data.
43 “El año 628 (9 de noviembre de 1230 a 28 de octubre del 1231) fueron derrotados los musulmanes en Mérida, y el enemigo la tomó por asalto en el mes de sha’bân (4 de junio a 2 de julio del 1231), y se apoderó de Badajoz y su comarca.” – Ibn Abi Zar’, Rawd al-Qirtas, traducido y anotado por Ambrosio Huici Miranda, 2a ed., 2 vols., Valencia, 1964, p. 526. Rawd al-Qirtas é a obra parcialmente traduzida por David Lopes, com o nome Cartaz.
44 Não é de estranhar que nela participassem membros do clero português, até por que não se tinha perdido a memória da função metropolita que Mérida já desempenhara em época visigótica, embora tal função tivesse passado em 1120 para o arcebispado compostelano. Cf. a este propósito José Mattoso, “1096-1325”, p. 38 e mapa da p. 39.
45 G. Cirot, citado por Gonzaga de Azevedo, VI, p. 38, nota 1 da p. 37. Derek Lomax perfilha fielmente esta informação, ao afirmar que, na sequência da conquista de Mérida “algunos freiles portugueses que volvían a su tierra tras haber participado en la batalla, se encontraron con que la población de Elvas había abandonado la ciudad, y la tomaron en nombre de Sancho II, que inmediatamente instaló allí una guarnición; mientra que Alonso IX tomaba Badajoz, antaño capital de toda la región, poco antes de morir, el 24 de septiembre de 1230.” (Derek W. Lomax, op. cit., p. 186).
46 José Mattoso, “Notas críticas...”, p. 655. Veja-se também Idem, “1096-1325”, p. 123. Sobre a conquista de Elvas e Juromenha no ano de 1229, veja-se também José Mattoso, “O enquadramento social e económico das primeiras fundações franciscanas”, Portugal Medieval – novas interpretações, 2a ed., 1992, p. 340. Mahmoud Makki refere 1230 como data da conquista – “The political history of Al-Andalus” in The Legacy of Muslim Spain, ed. por Salma Khadra Jayyusi, Leiden – New York – Köln, E. J. Brill, 1994, vol. I, p. 75.
47 Cf. Gonzaga de Azevedo, VI, p. 58.
48 Theatro..., cap. XIV, que se intitula precisamente, “em que se relata a forma em que ElRey D. Sancho cercou Elvas, assaltos que lhe deu, e como foi ganhada aos mouros”, pp. 53-55. Segundo Aires Varela a Elvas islâmica apresentava características próprias do tecido urbano de cidades do al-Andalus. Segundo ele, no momento da tomada de Elvas, “os mouros... cortarão as ruas, q. elles de industria fabricarão estreytas, e mal ordenadas, e dellas se defenderão, com tanta segurança como dos muros”. Já depois da entrada de portugueses em alguns pontos de Elvas, “...os mouros se defendião, entrincheyrados nas ruas e fortificados nas Torres, q. correm pa o nacente.” (Theatro..., p. 54).
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