2.3. O sistema defensivo
p. 101-127
Texte intégral
2.3.1. Alcáçova
1A Alcáçova, que em termos topográficos se destaca do resto da povoação, forma aproximadamente um rectângulo irregular. Para além de constituir uma acrópole de onde se usufrui de uma extraordinária visibilidade e controle sobre o território circundante (visão excelente, excepto em dias de extraordinário calor, da urbe de Badajoz e dos campos que se encontram para as bandas de sudeste e sul), apresenta obras defensivas que ajudam a sublinhar o seu carácter defensivo, estratégico e militar (cf. Mapa 4).
2Não é de afastar completamente a hipótese de que, antes do período medieval, tenha havido nesta zona alta uma qualquer forma de habitat. Na verdade, pela sua posição, morfologia, horizonte visual e riqueza dos campos circundantes, é possível que tenha alojado um recinto castral1.
3Não seria descabido que durante o período romano, pelas mesmas razões já apontadas, aqui tivesse existido um oppidum ou outra qualquer forma de ocupação que tivesse tirado partido da sua posição estratégica e da aptidão agrícola da zona. Já Aires Varela, com lucidez, relaciona com a presença romana algumas cantarias encontadas em muralhas2. Na verdade, pelo cuidadoso talhe, do tipo opus quadratum, alguns silhares utilizados no exterior da Porta da Alcáçova podem ter pertencido a edifícios ou a qualquer anterior sistema de fortificação de época romana.
4Contudo, o actual bairro da Alcáçova, ainda hoje fortemente individualizado e separado do restante núcleo habitado de Elvas, está fortemente vincado no tecido urbano pelas muralhas em que predomina a matriz do período islâmico que se afirma, até no próprio nome3.
5O perímetro do recinto amuralhado da alcáçova é de cerca de 540 metros4, incluindo as paredes do castelo que se integram neste circuito.
6Em termos construtivos, a muralha que envolve a acrópole elvense encontra-se actualmente bastante transformada e a sua percepção, se nuns pontos é difícil, noutros é completamente impossível devido ao seu desaparecimento. Tal circunstância deve-se, sobretudo, às grandes obras abaluartadas que se iniciaram no século XVII e que atingiram também esta zona alta. Por outro lado, parte do percurso dos muros da alcáçova encontra-se, actualmente, a delimitar propriedades. Esta apropriação por particulares de grande parte do seu perímetro leva a que, com o cuidado da conservação, esses muros se encontrem frequentemente rebocados e, em muitos casos, caiados, o que dificulta uma correcta identificação dos aparelhos utilizados na sua constituição. Porém, apesar das dificuldades expostas, é possível encontrar não poucos vestígios do passado islâmico deste recinto.
7Situado na extremidade Nordeste da alcáçova, o castelo5 parece aproveitar, nas suas faces noroeste e nordeste, o perímetro da antiga alcáçova. Na verdade, há uma ligação perfeita entre o lanço da alcáçova que está virado, grosso modo, para leste e a face nordeste do castelo. A atestar a antiguidade da face nordeste, virada sensivelmente a nascente, estão alguns grossos silhares, provavelmente de factura romana, reutilizados nesta zona6. Contudo, o aparelho de pedra da referida face do castelo revela-se mais cuidado, certamente fruto de maiores atenções ao longo da Baixa Idade Média.
2.3.1.1. Cortinas e torres da Alcáçova
8Apesar da posterioridade na construção do castelo, não é de afastar a hipótese de ter havido em Elvas, durante o período islâmico, num dos cantos da alcáçova, uma construção especificamente militar, do tipo das saluqiyyas, que viesse a ter, como seu sucessor, o castelo medieval. A localização de uma hipotética saluqiyya no canto da alcáçova que tem contacto visual com Badajoz, a antiga capital aftácida, não choca com a habitual localização destas estruturas de carácter militar7. A face nordeste do castelo, bem como toda a cortina que daí arranca para sul, até encontrar a Porta da Alcáçova, apresenta aparelho de alvenaria apoiado em torres maciças, de secção quadrangular, pouco salientes da muralha, o que corresponde a características próprias de fortificações islâmicas das fases emiral e califal8 (Figuras 8 e 10).
Figura 8 – A porta da Alcáçova, ou Arco do Miradeiro, do exterior.

Figura 10 – Pormenor da Porta da Alcáçova na actualidade, a partir do exterior.

9A face que, arrancando do local de implantação da actual torre de menagem, está virada a noroeste, seguindo sensivelmente para sudoeste, aparentemente desapareceu. Contudo, alguns muros que se encontram no interior das actuais cortinas do topo noroeste do sistema defensivo abaluartado, podem ter pertencido à anterior estrutura defensiva medieval de época islâmica9. Duarte D’armas faz arrancar da parede da futura torre de menagem o que ele chama “muro da Vila” e que corresponde ao perímetro do amuralhamento da alcáçova10. Durante o período islâmico esta face deveria apresentar também algumas torres. Na verdade, várias plantas de Elvas dos séculos XVIII e XIX mostram, precisamente na face noroeste, entre o baluarte de Santa Bárbara e o meio-baluarte do Príncipe, uma linha contínua de muro, torreada de forma regularmente espaçada, a qual parece corresponder a resquícios de muros medievais que, na altura, ainda seriam visíveis. Variadas visitas efectuadas ao local permitiram detectar a existência de um muro de grande espessura e que, nos locais em que o reboco caiu, em ambas as faces, revela taipa, aparentemente igual à chamada “taipa militar” que é comum em fortificações de época islâmica11. Estes vestígios prolongam-se, para poente, quase até à chamada Calçadinha do Castelo12 (Figura 16).
Figura 16 – Espaço do "Meio-Baluarte do Príncipe", onde é colocada a possível torre albarrã. À direita é visível o muro em taipa que pode corresponder ao traçado definido em época islâmica.

10A taipa não está presente só neste ponto da alcáçova. Tanto junto à Porta do Templo, como no troço de muralha que se encontra entre a Porta da Alcáçova e a esquina leste do castelo, encontram-se troços deste tipo de aparelho que, pela sua morfologia, poderão datar de época islâmica (Figuras 17 e 18).
Figura 17 – Perspectiva geral da implantação da entrada em cotovelo, de época islâmica, que será conhecida como "Porta do Templo"; ao fundo vê-se o telhado actual da igreja de Santa maria da Alcáçova. O arco por onde actualmente se entra na Alcáçova é pós-medieval.

Figura 18 – Perspectiva da mesma entrada em cotovelo a partir do arco tardio que se rasgou no muro da Alcáçova. O acesso ao interior deste recinto iniciava-se na reentrância tapada pelo muro baixo – com porta e pintado de branco na metade superior, ligando a muralha com a torre – tal como se vê à esquerda na imagem.

11Verificou-se recentemente que uma das antigas torres deste circuito ainda hoje se conserva adossada a uma casa particular13. Localiza-se na cortina que está virada sensivelmente a sul. Apresenta-se como um maciço paralelepipédico, de planta quadrada, completamente rebocado e caiado; este maciço, pela descrição que oralmente foi feita do seu “miolo”, parece corresponder a uma torre em taipa. A parede exterior da referida casa (que apresenta uma largura superior aos 2 metros) parece aproveitar parte do perímetro da muralha. Por outro lado, o muro do suporte do quintal da dita casa, ao acompanhar a saliência da torre, a alguma distância, poderá corresponder a uma antiga barbacã14 (Figura 12).
Figura 12 – Torre maciça do recinto da Alcáçova, integrada em construção particular, na Rua da Alcáçova.

12Por outro lado, a planta topográfica em que figura a zona de protecção do castelo definida em 194815, assinala, dentro da área do chamado “Meio baluarte do príncipe”, uma estrutura, não visível actualmente (e, deve dizer-se, tampouco visível nas referidas plantas de setecentos e oitocentos) e que, sob o ponto de vista formal, apresenta semelhanças com uma torre albarrã16, tipo de torre que se tem defendido que só apareceu em solo peninsular durante o período almóada17 (Figuras 13, 14 e cf. Figura 16).
Figura 13 – Planta da D.G.E.M.N. em que é visível uma construção que parece corresponder a uma torre albarrã (A).

Figura 14 – Planta das muralhas almóadas de Cáceres, onde são visíveis várias torres albarrãs, semelhantes à construção que figura na planta da D.G.E.M.N.

2.3.1.2. As portas
13Como já foi referido, a face virada a Norte foi profundamente alterada a partir do século XVII. No entanto, a circunstância de não se poder observar uma grande fatia de muralha, não deve ser impeditiva de se crer no que Aires Varela afirmava.
14Fala este autor da existência de três portas na cintura de muralhas deste bairro: “a do norte chamão da Traição, a do sul chamão do Miradeiro, por ter hua baranda, que sobre o arco corre, donde se descobre parte de Castella; a do poente chamão dos Santos. Estes são os nomes modernos, que dos antigos não há notícia”18. Contudo, não se podem aceitar as suas propostas de datação19, tendo as suas informações sido utilizadas, de forma mais criteriosa, por autores mais recentes20. Por outro lado, é dever reconhecer que se desconhece, em absoluto, o nome das portas deste recinto em época islâmica, razão pela qual passarão a ser designadas pelos nomes com que posteriormente se identificaram.
2.3.1.2.1. Porta da Traição
15Esta porta pode ter sido rasgada em época islâmica na muralha da alcáçova. Integra-se na face nordeste do castelo, face essa que, como antes se disse, é a continuação lógica da muralha da qasaba. Antes d o castelo da Baixa Idade Média estar implantado neste canto da alcáçova, esta porta já existiria e seria, então, o acesso mais setentrional do recinto murado da alcáçova. Esta porta, como está agora, não corresponde exactamente à que Duarte D’armas desenha21.
2.3.1.2.2. Porta da Alcáçova ou do Miradeiro
16Esta porta, virada sensivelmente a sul, é definida por duas torres maciças e quadrangulares que formam uma entrada em linha recta. Na construção de ambas as torres foram utilizados grandes módulos em granito que, pelo tipo de talhe e pelas suas dimensões, é possível que sejam provenientes (tal como outros silhares semelhantes que se encontram na face nascente) de construções anteriores. Não seria impossível que tivessem pertencido a uma edificação de carácter defensivo de época romana ou tardo-romana.
17Sabe-se que as entradas em linha recta, que já aparecem em sistemas defensivos antigos, têm continuação durante os períodos emiral e califal, para os quais há paralelos. Mas algo mais ajuda a reforçar a hipótese de esta porta corresponder às fases iniciais do domínio islâmico. Em finais do século passado, afortunadamente, foi feita por um polaco uma fotografia desta mesma entrada da alcáçova; esse cliché mostra, integrado entre as duas torres, definindo a porta de entrada, um arco ultrapassado ou em ferradura, não apontado; tal arco, alguns anos depois, em 1887, foi destruído para alargar a passagem pela referida Porta da Alcáçova. (cf. Figuras 8, 10 e Figuras 9, 11)
Figura 9 – Planta da Porta da Alcáçova.

Figura 11 - A Porta da Alcáçova num cliché de um fotógrafo polaco no século XIX.

18A conjugação dos vários elementos disponíveis, ou seja, da entrada em linha recta, e do arco ultrapassado (ou em ferradura) não apontado e sem alfiz, sugere uma cronologia antiga dentro da generalidade do período islâmico22.
2.3.1.2.3. Porta do Templo
19Uma outra entrada, virada sensivelmente a sudoeste, chegou também à actualidade, relativamente bem conservada. Ladeiam-na troços de muralha em que predomina a taipa. Aliás, um dos principais acessos actuais ao bairro da Alcáçova faz-se por uma entrada rasgada em linha recta, em época pós-medieval, nesses muros de origem islâmica. Esta porta, que na fase inicial do domínio cristão parece ser só conhecida como “porta do templo”, passa a ser conhecida também por porta “dos Santos”, “do Trem” ou “do Trempem”, consoante os autores23.
20Esta porta, por se encontrar integrada, desde há muito tempo, numa casa particular, dá, do pouco que se consegue observar a partir da via pública (cf. Figuras 17 e 18), apenas uma perspectiva reduzida do conjunto arquitectónico que é bem mais complexo do que aparenta24. Apesar de a parte superior deste conjunto arquitectónico ter sido refeita, o que se conserva de original é de molde a poder fornecer uma série de elementos fidedignos. Por outro lado, estão disponíveis elementos iconográficos, dos séculos XVIII e XIX, que corroboram o que, actualmente, é dado a observar25 (Figura 73).
Figura 73 – Pormenor da planta militar da praça militar de Elvas, em 1819 – G.E.A.E.M., n.º 1664.

21A partir dos vários elementos que a compõem, pode afirmar-se que esta porta se define como um sistema de entrada em cotovelo simples, formado por dois acessos formando entre si um ângulo de 90°, entre os quais se encontra uma câmara intermédia. Desses dois acessos, o exterior ainda exibe os dois arcos originais, enquanto que um deles unicamente mostra o arco que dá para a dita câmara (Figuras 19 e 20).
Figura 19 – Interior da entrada em cotovelo conhecida como "Porta do Templo". Em época islâmica, quem viesse da Alcáçova (da direita) tinha de passar por este compartimento para seguir depois (em frente) para a medina.

Figura 20 – Arco que dava acesso ao interior do bairro da Alcáçova (em frente, actualmente entaipado).

22Desta forma, para ter acesso, desde o exterior, ao interior do bairro da Alcáçova era necessário fazer um percurso anguloso, o que levava a que quem necessitasse de entrar tivesse de se aproximar dos muros e não pudesse fazer uma entrada fulminante, pois o percurso com um ângulo de 90° não permitia tal arrojo (Figura 21). Por outro lado, desde o exterior a visibilidade que se tinha do bairro em causa era nula.
Figura 21 – Planta do interior da antiga Porta do Tempo

23Este tipo de entradas tem paralelos em várias outras fortificações do al-Andalus. Há exemplos de entradas em cotovelo em fortificações desde o período dos reinos de Taifas (século XI), passando pelo período almorávida (finais do século XI – até cerca de meados do XII) até (e, sobretudo) ao período almóada26. Para além de outros casos que se poderiam citar, refira-se que, na alcáçova de Badajoz se encontram dois casos de portas deste tipo27. Aliás, Torres Balbás, embora sem referir a proveniência da sua informação, indica que tanto Cáceres como Badajoz e Elvas têm cinturas muralhadas almóadas28. Assim, não seria de afastar a hipótese de esta porta em cotovelo da alcáçova de Elvas ser contemporânea das almóadas de Cáceres e de Badajoz29.
24Pelo exposto, parece haver, nos muros da alcáçova de Elvas, vestígios de várias fases de construção, mesmo dentro do período islâmico. A “Porta da Alcáçova”, com um sistema de entrada em linha recta, definido por um arco ultrapassado sem alfiz, parece corresponder a uma fase inicial. Será certamente mais tardia a entrada islâmica que passará a ser conhecida como “Porta do Templo”, com o seu sistema de porta em cotovelo com câmara, exibindo, pelo menos no exterior, arco ultrapassado ou em ferradura, já com alfiz.
25A título de hipótese é de considerar que a primeira das entradas pode ser contemporânea de obras levadas a cabo pela dinastia muladí que domina a região e a reforça militarmente na sequência da investida de Ordonho II, em 913.
26Por outro lado, é bem provável que o programa de obras de época almóada tenha, a nível da al-qasaba então já bem definida, comportado acções de reforço ou ampliação. Nesse quadro, é possível que a referida entrada em cotovelo (que então deve ter sido dotada de uma grade em ferro ou rastrilho, como refere Aires Varela30) e alguns panos de muro datem desta época31, tendo-se então considerado desnecessário alterar o traçado da já existente “Porta da Alcáçova”32.
27Contudo, não se pode afastar a priori a hipótese de algumas destas obras patentes nos muros da Alcáçova (muros em taipa, ou até mesmo parte da estrutura da porta em cotovelo) poderem datar do período em que os soberanos aftácidas governavam a região.
28De qualquer das formas, pela tipologia de duas de três entradas existentes neste recinto muralhado, pela morfologia de algumas torres, pela possibilidade de ter tido torres albarrãs em alguns dos seus flancos e pela quase omnipresença de taipa, é possível afirmar que o recinto da alcáçova foi concebido em época islâmica, tendo sofrido alterações e melhoramentos na sua fase final.
2.3.2. Medina
29Pouco interesse têm despertado os vestígios da muralha da medina da Yalbash islâmica, o que é normal. A força da tradição de uma “cerca fernandina” e o forte impacto causado pelas magníficas construções abaluartadas, obliteraram da memória elvense a existência de uma linha de muralha que calou a sua existência. Mas vale a pena descobri-la (Mapa 4).
30Sendo difícil hoje identificar cabalmente o que corresponde a aparelhos de época islâmica e o que são já vestígios de obras de restauro, consolidação e acrescentos posteriores33, não deixa de ser possível reconhecer, em alguns pontos do seu perímetro, e mesmo em algumas fontes, escritas e iconográficas, de época cristã, traços claros do seu passado islâmico. De facto, a sua permanente utilidade34 permitiu a sua conservação, mas as construções não deixaram de se lhe adossar e as constantes obras a que foi sujeita tornam difícil um estudo aprofundado – que merece – dos aparelhos de construção (Figuras 41 e 42).
Figura 41 – Troço da muralha da medina em que se insere a torre da "Porta Nova". Badajoz.

Em último plano é visível o Forte da Graça ou do Conde de Lippe, implantado onde, na Baixa Idade Média, existia uma ermida dedicada a S. Domingos, por aí se terem estabelecido, inicialmente, os pregadores. À direita e ao fundo são visíveis os campos de Badajoz.
Figura 42 – Troço da muralha da medina, interrompida junto à fachada da igreja de S. Pedro que utiliza, como base da sua torre sineira, uma das torres desta cortina.

31O perímetro do recinto amuralhado da madîna é de cerca de 1300 metros35, perímetro cerca de 2,5 a 3 vezes menor que o da vizinha capital aftácida. Esta, segundo Torres Balbás, apresentava no século XII uma extensão de 75ha, uma muralha cujo perímetro se situaria entre os 3.000 e os 4.000 metros e albergaria uma população de cerca de 26.000 habitantes36.
32A dar crédito à memória deixada por Aires Varela, as muralhas de Elvas encontravam-se em bom estado de conservação na hora da conquista por D. Sancho II. Segundo ele, “o inimigo se dava por seguro, por estar [Elvas] bem guarnecida de gente, com bons muros, altas torres, e de munições e mantimentos bem provida”37.
33Porém, apesar dessa dificuldade, detectou-se a existência de vestígios de muros em taipa. De um lado e outro do actual Arco (antiga Porta) do Bispo38, a oeste do Arco da Encarnação39, bem como sobre o Arco da Praça encontram-se alguns troços de muralha em taipa40.
34No lanço de muralha conservado no local que, no século XVI, passa a ser o novo edifício dos Paços do Concelho, e onde actualmente funciona o Centro Cultural, conserva-se um pequeno núcleo de muralha em taipa, com seteiras, e coroado por merlões. A morfologia destes elementos defensivos é um testemunho arquitectónico muito importante Entre cada dois merlões existem ameias almofadadas, ladeadas por dois sulcos ou depressões laterais. As medidas obtidas in loco, colocam estes merlões em estreita relação com os das muralhas de Sevilha, consideradas como datando de época almóada41 (Figuras 22, 23 e 24). Por outro lado, os desenhos de Duarte D’armas poderão dar outras pistas, na medida em que mostram merlões de dois tipos. São visíveis merlões quadrados (como o antes descrito), na maioria das torres e, por outro lado, numa torre octogonal (possivelmente de época islâmica) e na que se encontra imediatamente à sua direita, capeamento piramidal, o que também é comum em fortificações de época islâmica42 (Figuras 27 e 28).
Figura 22 – Ameias dos restos da muralha, em taipa, que se conservam no interior do edifício da actual casa da Cultura (antigos Paços do Concelho, construídos no século XVI).

Figura 23 – Ameias almóadas de Sevilha, segundo desenho de L. Torres Balbás.

Figura 24 – Desenho das ameias de Elvas, representadas na Fig. 37.

Figura 27 – Torre plurifacetada, da muralha islâmica (face sudeste-noroeste).

Figura 28 – Duarte D'Armas: vista da "banda do sull" em que, para além da muralha "fernandina" que envolve espaços ainda sem construção, é visível a muralha da medina com torres quadrangulares (uma delas com duas molduras horizontais – fiadas de tijolo?) e uma torre plurifacetada que corresponde, sensivelmente, ao local da que acima se representa.

2.3.2.1. Portas
35Apesar de o perímetro desta muralha se conservar ainda em grande medida, o mesmo se já não pode dizer das suas entradas. Na verdade, as portas deste recinto amuralhado sofreram transformações ao longo dos tempos.
36Pegando na tradição que chegou a Aires Varela relativa à conquista de Elvas, é possível encontrar elementos interessantes. Segundo ele, as tropas do Bispo de Évora acometeram a entrada, virada sensivelmente a Este, que viria a ser conhecida como a Porta do Bispo. Da estrutura arquitectónica desta porta em época islâmica nada se sabe.
37O mesmo se não pode dizer da “Porta Ferrada”, entrada virada para o caminho de Badajoz. Segundo Aires Varela, “em 29 de Junho de 1228, dia do martirio do apostolo S. Pedro, lhe ganharão [os cristãos aos muçulmanos] a porta de ferro, q. até a prez.te chamarão ferrada; aqui morreo m.ta gente p.lo arteficio q. tinha, e porq. não puderão os nossos passar adiante, celebrarão naquelle lugar, arrimado ao muro missa,...”43.
38A sua denominação tem a ver com a existência de chapeamento metálico. Porém, o tal “arteficio q. tinha” pode residir na conjugação desse reforço metálico com um percurso sinuoso ou com um flanqueamento produzido por uma torre saliente, ou seja, criando um sistema defensivo complexo, eventualmente em cotovelo. Por outro lado, não é impossível que a própria designação desta porta corresponda a uma simples tradução de bâb al-Hadîd. Na verdade, conhecem-se, em outras fortificações do al-Andalus (e, em alguns casos, no Gharb al-Andalus) casos de portas identificadas, em época islâmica, como “de Ferro”44.
39Aires Varela, é bom dizer, não se preocupa em fazer um levantamento sistemático das entradas de época islâmica mas, tão-só, em referir as que têm a ver com acontecimentos militares. Porém, era provável que, além destas duas portas, houvesse alguma outra entrada virada a Sul, como soe acontecer em muitas fortificações de época islâmica. Não seria impossível que na origem da porta posteriormente conhecida como de Santiago, dando acesso a uma plataforma suavemente inclinada a Sul, estivesse uma entrada já existente em época islâmica.
40Mesmo no caso da Porta Nova (actualmente Arco da Encarnação), não era impossível que tivesse sido rasgada em época islâmica. Por um lado, a sua designação cristã não significa, obrigatoriamente, que corresponda a uma entrada aberta já sob domínio português45. Nos panos de muralha próximos desta entrada havia, ainda no século XVII, inscrições de época islâmica, reportando-se a obras de carácter militar46 (Figuras 25 e 26).
Figura 25 – Duas perspectivas da "Porta Nova", actualmente conhecida como arco de Nossa Senhora da Encarnação.

Figura 26 – A "Torre de Espanta perros", torre albarrã, octogonal, da Alcáçova de Badajoz.

2.3.2.2. Torres
41Embora pela negativa, convém referir que, tal como é habitual nas fortificações islâmicas do al-Andalus, também no caso de Elvas, a avaliar pelos vestígios visíveis e pela iconografia produzida por Duarte D’armas, não se registam casos de torres semi-circulares. Aliás, a própria utilização da taipa, por ser feita em cofragem paralelepipédica, implica a construção de paredes esquinadas, dando origem a torres que poderão ser quadrangulares, hexagonais, octogonais ou, como o caso da Torre del Oro (em Sevilha), dodecagonais47.
42Predominam as torres quadrangulares e maciças. Se têm algum compartimento, tal só acontece para cima da cota do adarve48. Assim, é de pensar que mesmo as torres que, em muitos casos, se apresentam hoje, exteriormente, como sendo de alvenaria, ainda escondam no seu interior maciço restos da original torre em taipa de época islâmica49.
43Aliás, o aproveitamento das torres de época islâmica, não se fica por aqui. A própria torre sineira da igreja de S. Pedro corresponde ao aproveitamento de uma antiga torre da cerca de época islâmica50. O acesso aos sinos faz-se por uma escadaria que é parcialmente externa, já que a referida torre é, em grande parte, maciça51.
44O actual Arco da Encarnação parece ter sido, na origem, uma construção característica de época islâmica e que até ao momento tem passado despercebida. Este arco está implantado sob uma torre que, para o exterior, se apresenta de forma plurifacetada52. Tipologicamente apresenta grandes semelhanças com a vizinha “torre de Espantaperros”, da Alcáçova de Badajoz, em taipa e octogonal, e datando do período almóada53 (cf. Figuras 25 e 26).
45Duarte D’armas representa, na cerca amuralhada que se encontra no interior da então cerca exterior (dita “fernandina”), uma torre claramente plurifacetada54. Pela perspectiva que é dada, não deve corresponder à torre actualmente localizada sobre o Arco da Encarnação. Ora, o troço de muralha que se encontra ao longo da rua João Pereira de Abreu, e que mais facilmente poderá coincidir com a perspectiva do desenho “manuelino”, apresenta várias torres e troços de muralha em taipa, de entre as quais se destaca uma, algo degradada na base, construída parcialmente em taipa e plurifacetada. Sem querer identificar, automaticamente, esta torre com a do dito desenho, é possível pensar que o programa de obras de época almóada tenha passado pela inclusão, também em Elvas, de mais que uma torre plurifacetada55.
46Uma outra característica, possivelmente também de época islâmica, pode deduzir-se do referido desenho quinhentista. Duarte D’armas, em algumas das torres, desenha pequenas fiadas a toda a largura da torre, fiadas essas que intervalam com desenhos de pedras nos cunhais; ora, essas fiadas pequenas e estreitas poderão corresponder a fiadas de tijolo que aparecem frequentemente em torres de época islâmica e, concretamente, em algumas datadas do período almóada56 (cf. Figura 28 e Figuras 29 e 30). Por outro lado ainda, é possível que algumas torres que aparecem desenhadas de forma mais habitual, com os desenhos de pedras nos cunhais, possam ser também de época islâmica57 (cf. Figuras 27 e 28).
Figura 29 – Torre da muralha da medina islâmica que se localiza a sudeste da anteriormente referida e a noroeste do Arco do Bispo (à direita). As fiadas de tijolo constam do desenho tirado da "banda do sull" de Duarte D'Armas.

Figura 30 – Torre das muralhas de época almóada de Sevilha (junto à Porta da Macarena) que ostenta fiadas em tijolo, segundo desenho de L. Torres Balbás.

47Num dos quintais da actual rua João Pereira de Abreu58 encontra-se uma construção maciça, actualmente rebocada e caiada, destacada da muralha mas a ela ligada por um arco que se encontra parcialmente tapado59. Em termos de distâncias, encontra-se regularmente distanciada de uma torre que lhe fica a Sul e praticamente equidistante de uma outra que se situa a Norte.
48Ou seja, esta construção maciça faz sentido como uma torre integrada num muro de torres regularmente espaçadas. Ocupa, pois, o lugar de uma torre. Assim, pelo seu espaçamento e pelas dimensões, trata-se de uma antiga torre desta cerca. Só que, não é uma torre qualquer; pelo facto de se destacar da muralha e de a ela estar unida por um arco ou passadiço superior, pode trata-se de uma torre albarrã (Figuras 31 e 32).
Figura 31 – Torre albarrã da muralha da medina. É visível o arco que, virado a sudeste, atravessava toda a parte inferior da torre.

Figura 32 – A mesma torre, de noroeste, sendo visível a parede que tapava o arco que (já transformado) une esta torre à muralha. À direita é visível a taipa da muralha da medina.

49Actualmente parece não haver dúvida de que este tipo de torres, de que se conhecem alguns exemplos em território nacional60, aparece no al-Andalus durante o período almóada. Se muitas são plurifacetadas61, não faltam exemplos de albarrãs quadrangulares e maciças, tal como, originalmente, pode ter sido esta62 (cf. o seu aparelho em taipa - Figura 33).
Figura 33 – Por debaixo do reboco á ainda visível a taipa que apresenta uma altura comum a outros recintos fortificados da época islâmica.

50Tudo aponta para a existência de um grande programa de obras na cintura amuralhada da medina em vésperas do assédio cristão. Aquando da acção militar de D. Sancho II, em 1226, a cerca da medina encontrava-se rodeada, pelo exterior, de cavas, alcárcovas ou valas63 que se irão manter durante o domínio cristão por mais de uma centúria64.
51Embora Aires Varela não o refira, é provável que, associadas às alcárcovas, estivessem já, na fase final do domínio islâmico, as barreiras ou barbacãs. De facto, sob o ponto de vista da técnica militar, era comum as muralhas islâmicas estarem protegidas por fossos associados a barbacãs ou antemuros e tal circunstância está bem documentada para a época almóada65.
52A existência a um poço chamado de Alcalá, nos séculos XIV e XV, pode ser significativo. Sabendo que o termo qal‘a designa uma fortificação de grandes dimensões e, em autores como Ibn Hayyân, se pode confundir com madîna66, pode ser uma reminiscência de obras de carácter hidráulico e defensivo de grande vulto feitas sob domínio islâmico (possivelmente na sua fase final), no troço que se encontra entre a actual Porta do Bispo e o actual edifício da Casa da Cultura. Não seria impossível que se tratasse de uma construção com função similar ao conhecido Poço-cisterna almóada de Silves, também ele localizado muito perto das muralhas67.
53A epigrafia também pode contribuir para um melhor conhecimento deste recinto defensivo. Embora até há pouco tempo nada se soubesse acerca de inscrições em árabe provenientes de Elvas, nos últimos anos surgiram testemunhos interessantes68 (Figuras 34 e 36).
Figura 34 – Inscrição funerária em cúfico simples, do século VI H./meados do XII d.C., encontrada na rua de João de Olivença.

Figura 36 – Desenhos das inscrições que se encontravam nas paredes da cerca islâmica da madîna.

54Aires Varela, já se referiu, dá informações preciosas inscrições em árabe – hoje desaparecidas –, que se encontraram em alguns pontos da urbe elvense69. Pelos singelos desenhos que foram publicados e pelas descrições, é possível que houvesse inscrições em escrita cúfica mas poderia haver também em naskhi, estilo comum no período almóada70. O nosso erudito refere uma inscrição que se encontrava “no arco da porta, q. chamavão Nova, na 2a cerca de muros”71. A tradução que Aires Varela então conseguiu obter para esta inscrição informa que “Muley Abdallah Alcayde de Merida em Hespanha por ElRey Almançor, Felix, mandei fazer esta castello...”72. Refere ainda uma outra inscrição arábica, encontrada em casas que “estão junto ao Salvador”, inscrição essa também em pedra mas “com letras muy diferentes das q. atras ficão declaradas”73. Pela tradução, algo equívoca, é possível que se trate de uma outra lápide fundacional respeitante, possivelmente, a muralhas construídas ou rectificadas durante o período almóada e, concretamente, do califa desta dinastia que usou o epíteto de Almançor.
55A hipótese de se tratar do referido califa almóada radica nos pressupostos que de imediato se expõem. O epíteto Almançor foi utilizado no mundo islâmico, oriental e ocidental, por vários dirigentes74. Pondo de parte a improvável hipótese de que se trate do famoso Almançor do século X – o conhecido hâjib do califa Hisham II –, deve referir-se que ‘Abd Allâh – último rei das primeiras taifas de Granada, de quem chegaram à actualidade as suas memórias – refere que al-Mansûr era o epíteto de um dos filhos de Ibn al-Aftas al-Mutawakkil, último rei aftácida de Badajoz75. Não é provável que seja a este al-Mansûr que se referem as inscrições de Elvas, até porque o seu domínio na região foi muito fugaz. Na verdade, dos aftácidas, três deles utilizaram o epíteto ou laqab de al-Mansûr76.
56É possível que se trate do terceiro califa almóada Abû Yûsuf Ya‘qûb al-Mansûr que governou entre 118477 e 1199. Na verdade, este califa almóada dirigiu o al-Andalus num período muito sensível, de avanços de cristãos em várias frentes78. Durante a sua governação tomou algumas iniciativas de carácter ofensivo contra territórios cristãos79 e, além de medidas de carácter social e religioso80, destacou-se como grande construtor81. É provável que tenha sido nesta conjuntura, quando a fronteira na zona do Gharb al-Andalus – sobretudo a seguir à grande ofensiva islâmica de 1191 – assenta grosso modo na linha do Tejo, que se tenham feito grandes obras, de carácter pluridimensional e não só em fortificações, em Elvas e em outras localidades.
57Torres Balbás, como já se referiu, propôs que a construção das Alcáçova de Badajoz e de Cáceres datem do período do governo do 2º califa almóada82. O mesmo autor refere a existência de obras nas muralhas de Elvas, durante a ocupação almóada83. Com as inscrições e as formas e técnicas construtivas patentes nas muralhas da Elvas islâmica é possível pensar num programa de obras que, tendo sido iniciado durante o período do governo do segundo califa, tenha tido a sua finalização com este terceiro califa da mesma dinastia.
2.3.3. Fortificações rurais
2.3.3.1. Povoamento e defesa (qariya e hisn)
58À semelhança do que se passava no Levante ibérico – no Sharq al-Andalus84 – e em outras zonas do Gharb al-Andalus85, também em redor de Elvas não faltariam pequenos núcleos populacionais rurais, ou seja, alcarias86. A utilização do topónimo alcaria está atestada em redor de Elvas, em meados do século XIV. Um documento do reinado de D. Afonso V, confirmado pelo seu filho, couta uma herdade “que se chama alcaria de maljaz (...) a qual foy defesa per ElRey dom pedro meu bisavo...”87.
59Em documentação posterior, o topónimo parece continuar, mas conservando unicamente o primeiro vocábulo da expressão: alcaria. Victorino de Almada localiza no termo de Elvas uma alcaria, fazendo-a coincidir com a referida “alcaria de maljas”88.
60No entanto, para melhor definir a sua localização é preciso ter em conta que Tomás Pires aponta para existência de duas alcarias no termo de Elvas89, localizando-se uma delas na freguesia da Ventosa90. Seja como for, a existência deste topónimo no termo de Elvas vem preencher um vazio a sul do Tejo que, na verdade, não fazia muito sentido91.
61Sabe-se hoje, pelas experiências desenvolvidas no Levante ibérico e na Andaluzia que as qariya/s se encontravam normalmente ligadas a fortificações locais, erguidas para a defesa das comunidades rurais92. Essas obras defensivas são conhecidas no levante por uma das palavras árabes que se aplica a espaços fortificados: hisn. Este vocábulo deixou algumas marcas na toponímia portuguesa93, mas na zona de Elvas até ao momento não se conhecem traços dela. Porém, não deixa de haver fortes indícios da existência de fortificações.
62É possível que algumas das “torres” que surgem referidas, pouco tempo depois da “reconquista”, na documentação cristã, digam respeito a estruturas defensivas. E, em alguns casos, poderão tratar-se de fortificações de carácter rural do tipo dos husûn (plural de hisn) encontrados no Levante ibérico94.
63Haverá também que valorizar, no caso vertente, topónimos como “Torre do Mouro” que, tal como os casos anteriores, poderá ter tido a ver com a existência de uma fortificação. É possível que tivesse havido, já em época islâmica, uma atalaia neste local estratégico que controla, a partir da margem sul, parte do curso da Ribeira do Caia95, o que não exclui uma reocupação no reinado de D. Fernando96.
64Faria sentido que se tivesse aproveitado o cabeço de Segóvia – em contacto visual com a “Torre do Mouro”, sobranceiro também ele ao Caia –, o que não está arqueologicamente comprovado (cf. Mapa 2).
65Os topónimos do tipo “castelo velho” podem, eventualmente, referir-se a fortificações existentes em época islâmica. Se, em alguns casos, esse topónimo se refere a ocupações da Idade do Ferro, casos há em que, sobrepostas a estas, também se encontram ocupações de época islâmica97. Tendo em conta estes pressupostos, não seria impossível que o chamado “castelo velho” da Terrugem venha a revelar ocupação de época islâmica98. A “torre” de Alfarófia, segundo Boissellier, poderá ter tido, associado ao habitat, uma fortificação99.
66Por outro lado, sabe-se que o vocábulo árabe al-qal‘a (“fortificação”), que frequentemente dá, em português, alcalá ou alcalar, também se pode transformar em alcara100. O sítio de Alcaraviça (topónimo actualmente atribuído a uma ribeira) já é citado em 1211, ou seja, ainda antes da integração de Elvas na coroa portuguesa101. A partir de meados do século XIII, não faltam as referências documentais102 a esta ribeira que delimitava os termos de Borba e Elvas103 e onde, numa análise superficial, se encontram elementos favorecedores de assentamento de populações e de fortificações104.
67O cabeço de Alcarapinha, acompanhado no seu sopé por terras de boa qualidade, onde não faltam vestígios de ocupações de época romana, aparece citado como caput, cabeço, em meados do século XIII; é referido no “Livro de bens de D. João de Portel”105 e já a partir de 1384106 refere-se, aí, a existência de uma herdade com carta de coutada, sucessivamente confirmada em 1448 e 1455107.
68Esta herdade ainda hoje conserva a mesma designação108 e no cabeço sobranceiro encontram-se ainda restos de uma atalaia de estrutura quadrangular. Esta, porém, está implantada no centro de um conjunto de estruturas sensivelmente ovais, que podem corresponder a um antigo recinto defensivo. Em conjugação com um outro cabeço (onde se veio a implantar a chamada Atalaia dos Sapateiros109), o horizonte visual que se disfruta destes cabeços é imenso. A zona apresenta um tal valor estratégico, que não deixou de ser aproveitada durante a Guerra da Restauração110. Este era, pela qualidade das terras agricultáveis111 e pelo valor estratégico do cabeço dominante, um local com todas as características ideais para, em seu redor, terem assentamento várias qariya/s que, em momentos de necessidade, teriam ao seu dispor um local com boas qualidades defensivas e, quiçá, arborizado112.
2.3.3.2. Atalaias e rede viária
69A existência de husun (castelos) rurais não deve excluir a implantação de outros tipos de locais fortificados ligados, eventualmente em rede, a Elvas e a Badajoz. Tendo em conta a existência da grande via transversal que ligava a antiga capital aftácida, através de Évora, com a importante urbe portuária que era Alcácer do Sal, sobretudo a partir do século X113, é possível que ao longo dessa via houvesse atalaias bordejando, em pontos sensíveis, alguns troços importantes dessa via. Por outro lado, dada a conjugação estratégica entre Elvas e Badajoz, pelo menos durante alguns períodos, algumas das atalaias, com a função de servir como avançados para a defesa daquela cidade, deveriam estar implantados no alfoz de Elvas, controlando a travessia das linhas definidas pelo Caia e pelo Guadiana114.
70Pelo facto de a Atalaia de Alcarapinha se localizar junto à “estrada velha” para Estremoz e para o ocidente em geral115, não é de excluir a hipótese de que tenha assumido também funções de controlo sobre um importante troço da rede viária que atravessava o termo de Elvas.
Notes de bas de page
1 Embora, até ao momento, dentro da área urbana de Elvas não se tenham realizado escavações arqueológicas sistemáticas, como já foi referido, na região não faltam exemplos de ocupações importantes deste período. A topografia do local é propícia a um castro desta época.
2 “fizerão nella praça de armas p.la forteficação do lugar, e conveniência do sitio, o que se verifica com as m.tas pedras, que nella se achão” – Theatro das Antiguidades D’Elvas com a historia da mesma cidade e descripção das terras da sua Comarca, p. 15.
3 Alcáçova é um vocábulo indiscutivelmente de origem arábica e um dos que era utilizado no léxico do al-Andalus referente a espaços fortificados.
4 Medida obtida a partir de curvímetro de precisão sobre mapa à escala de 1:2000.
5 Em geral, o que hoje é visível do castelo aponta para uma cronologia relativamente tardia, devendo datar, essencialmente, dos séculos XIV a XVI.
6 Situação semelhante a que se pode apreciar em fortificações com um passado islâmico de fase inicial, precedida de uma ocupação romana, como são os casos de Évora e Mértola. Veja-se de F. Branco Correia, “Fortificações islâmicas do Gharb”, in Portugal Islâmico. Os últimos sinais do Mediterrâneo, Lisboa, Museu Nacional de Arqueologia, 1998, pp. 194-196. Veja-se Boletim da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, no 54, O Castelo de Elvas, s/l, 1948, figs. 18 e 19.
7 Sobre as salúquias (vocábulo derivado do árabe “salûqiyya” – palavra utilizada no vocabulário militar do mundo islâmico medieval do ocidente, com o significado de “zona alta de controle”, ou “reduto central”), veja-se Santiago A. F. Macías, “As muralhas medievais de Moura” in Arquivo de Beja, vol. III, 2a série, Beja, 1988, pp. 254 e 261-265 e F. Branco Correia, “Fortificações muçulmanas em Portugal – alguns apontamentos” in Arqueología Medieval Española – II Congreso, Tomo II, Madrid, 1987, p. 509. Sobre a utilização deste tipo de estrutura defensiva no período almóada veja-se Manuel Acién Almansa, “La fortificación en al-Andalus” in La Arquitectura del Islam Occidental, Lunwerg ed., Barcelona, 1995, p. 40.
8 Sobre torres pouco salientes, maciças e em alvenaria, das fases iniciais do período islâmico, veja-se Henri Terrasse, Les forteresses de l’Espagne Musulmane, Madrid, 1954. Tendo em conta o caso concreto da alcáçova de Mérida, do século IX, veja-se L. Torres Balbás, “Arte Hispanomusulmán hasta la caída del Califato de Córdoba”, pp. 379-383.
9 Em plantas militares de Elvas dos séculos XVIII e XIX aparecem ainda, localizadas no interior das referidas cortinas abaluartadas, outras estruturas, com torres regularmente espaçadas, e que correspondem a troços da muralha medieval. O perímetro abaluartado seiscentista envolveu, pelo exterior, a muralha da alcáçova islâmica, que se manteve pelo menos até à centúria de oitocentos, possivelmente como reforço estrutural do sistema pirobalístico.
10 Duarte D’armas, Livro das fortalezas, (ed. anotada de João de Almeida), Lisboa, ed. Império, 1943 p. 117.
11 Sobre a taipa em fortificações de época islâmica (ou seja, a taipa militar, uma variedade de taipa muito rica em cal) pode ver-se L. Torres Balbás, Ciudades hispanomusulmanas, p. 561; A. Bazzana, “Éléments d’archéologie musulmane dans al-Andalus: caractères spécifiques de l’architecture militaire arabe de la région valencienne”, Al-Qantara, I, 1980, pp. 339-363, pp. 355-361; B. Pavón Maldonado, Ciudades hispanomusulmanas, pp. 308-310 e a síntese profusamente ilustrada de Manuel Acién Almansa, “La fortificación en al-Andalus” in La Arquitectura del Islam Occidental, Lunwerg ed., Barcelona, 1995, pp. 29-41, figuras 1, 7, 9, 12, 13, 14 e 19.
12 O antigo nome da actual Calçadinha do Castelo foi ”Beco do Varella” - Cf. António Tomás Pires, Excerptos de um estudo sobre a toponymia elvense. As ruas d’Elvas, p. 29 (citado, a partir de agora como “As ruas de Elvas...”).
13 Trata-se do no 10-A da Travessa da Alcáçova. A parte superior da torre está transformada num pequeno compartimento. O corpo inferior é completamente maciço.
14 Agradece-se ao senhor Arquitecto Rui Rodrigues a possibilidade de acesso à dita casa.
15 Boletim da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, no 54, O Castelo de Elvas, s/l, 1948, fig. 1.
16 Veja-se, a este propósito, o caso de Silves. A fortificação desta cidade apresenta torres albarrãs, na zona da alcáçova e no lanço de muralha, virada a norte, na zona de cotas mais elevadas, tal como pode ter sido o caso de Elvas - Cf. Rosa Varela Gomes, “Cerâmicas muçulmanas do Castelo de Silves”, Xelb, I, Silves, C.M.S., 1988, fig. 1.3, p. 24.
O desenho desta estrutura somente nesta planta pode ter a ver com os trabalhos de remeximento de terras levados a cabo nos finais da década de quarenta, durante o programa de obras de reconstrução do castelo. Após o registo, as estruturas podem ter sido recobertas. O assunto merece estudo mais detalhado e qualquer conclusão é prematura.
17 Cf. Henri Terrasse, Les forteresses de l’Espagne Musulmane, Madrid, Imprenta y Editorial Maestre, 1954, p. 24; L. Torres Balbás, “Las torres albarranas”, Obra Dispersa I, vol. II, pp. 116-120 (Al-Andalus, VII, 1942, pp. 216-220; idem, Ciudades..., 2a ed., 1985, pp. 573, 576-578 e 586-595.
18 Theatro..., p. 2.
19 Aires Varela, para quem Elvas teria sido fundada no ano “2963 da creação do mundo”, 999 anos antes do nascimento de Jesus Cristo, era da opinião de que tais portas já existiriam em época céltica (Ibidem, p. 2).
20 Maria do Céu Ponce Dentinho, Elvas – monografia, Elvas, Ed. da Câmara Municipal de Elvas, 1989, p. 40.
21 Duarte D’armas conheceu um sistema defensivo mais elaborado, em que a porta falsa é parte de um sistema acotovelado complexo, de que fazia parte uma barbacã, possivelmente eliminada no século XVII. Quem visitar o local dá-se conta de que a porta falsa está a uma cota mais baixa que o nível geral do castelo da Baixa Idade Média, o que pode ter a ver com diferentes épocas de construção.
22 Pela sua tipologia, poderá tratar-se de uma porta já existente no período emiral ou inícios do califal. Não deixa de ser possível que se trate de uma obra contemporânea das acções de ‘Abd al-Rahmân ibn Marwân al-Jillîqî, o primeiro dos que se revolta contra a autoridade emiral e inicia um processo de grande autonomia no Gharb (já antes referido) e, até, poderá ser uma das consequências do ataque de Ordonho II e do programa de reforço de muralhas posterior a 913. Vejam-se paralelos desta porta com entradas de época islâmica datáveis dos séculos IX e X em B. Pavón Maldonado, “Las puertas de ingreso directo en la Arquitectura Hispanomusulmana. La superposición Arco-Dintel de la Puerta de Bisagra de Toledo”, Al-Qantara, vol. VIII, Madrid, 1987, pp. 365 e 371.
23 A Ordem do Templo / Cristo tera imensos bens junto desta porta. Perto dela e da Ermida da Madalena (comenda desta ordem) estavam as casas que serviam de aposento ao comendador. Cf. A.N.T.T., Tombo das Comendas (Comenda do Torraõ), no 500, fl. 37v.
24 Agradece-se ao Dr. Santa-Clara Barbas as facilidades concedidas e a possibilidade de aceder ao conjunto arquitectónico desta porta pelo interior de sua casa.
25 Várias plantas militares de inícios do século XIX, identificam-se claramente esta porta e o seu percurso “em cotovelo”. Vejam-se G. E. A. E. M. (Gabinete de Estudos Arqueológicos de Engenharia Militar, da Direcção dos Serviços de Engenharia, do Estado-Maior do Exército), nos 1664 (planta de 1819), 1665 (cópia de 1867 da planta de 1819), 1497 (século XVIII? É, seguramente, anterior a 1825) e 7647 (planta de 1819 (?), da autoria dos majores Henrique dos Santos Rosa e Júlio Gualberto Bettencourt Rodrigues.
26 Cf. L. Torres Balbás, Ciudades hispanomusulmanas, pp. 561-562, e Manuel Acién Almansa, “La fortificación en al-Andalus”, op. cit., pp. 37-40.
27 L. Torres Balbás, “La Alcazaba de Badajoz”, Obra Dispersa I, vol. I, pp. 246-247.
28 L. Torres Balbás, Ciudades hispanomusulmanas, p. 478, onde diz que “de la época almohade son los recintos de Badajoz, Cáceres, Reina y Montemolín, Elvas y Silves.” Mais adiante o mesmo autor, quanto a Badajoz, informa que “a Abû Yahyâ b. Abî Sinân, nombrado gobernador de Badajoz el año 600 / 1203-1204, se le encargó ocuparse de sus murallas y de corregir sus males” (Ibidem, p. 481, segundo Ibn ‘Idârî, Bayân, IV, Los Almohades, trad. de Huici Miranda, p. 228).
29 Trabalho recente de Samuel Márquez Bueno e Pedro Gurriarán Daza reforça a relação desta porta com as da Extremadura espanhola.
30 Segundo a tradição transmitida por Aires Varela esta porta era “assaz difficultoza” e estava equipada com “hum forte rastilho de ferro, naquelle tempo invencivel” – Theatro..., p. 54.
31 Também nos inícios do século XIII, período em que os almóadas reforçam as muralhas de Badajoz.
32 Várias razões se poderão apontar: para além de outras, tal opção pode-se ter prendido com questões de ordem topográfica, já que o forte declive aí existente dificultaria, certamente, a colocação de uma obra avançada, para formar o cotovelo.
33 Esta linha de muralhas, pela sua pouca visibilidade, tem passado despercebida a muitos investigadores (que não a maioria dos investigadores elvenses, que a ela se referem frequentemente). Essa circunstância alia-se ao facto de, em grande medida, ela estar escondida em traseiras e quintais de casas de vários arruamentos, frequentemente rebocada e caiada, o que dificulta em grande medida o seu estudo exaustivo.
34 Os estrategas do século XIX ainda realçavam a utilidade da linha defensiva, apesar de ser, obviamente, tecnicamente obsoleta.
35 Medida obtida a partir de curvímetro de precisão sobre mapa à escala de 1:2.000.
36 L. Torres Balbás, Ciudades hispanomusulmanas, p. 106; Idem, “Extensión y demografía de las ciudades hispano-musulmanas”, Studia Islamica, 3, pp. 35-39, este último citado por Fernando Valdés Fernández, “Ciudadela y fortificación urbana: el caso de Badajoz” in Castrum 3, Guerre, Fortification et Habitat dans le Monde Méditerranéen au Moyen Âge, Casa de Velázquez e École Française de Rome, 1988, p. 148.
37 Theatro..., p. 53.
38 O arco, tal como se apresenta actualmente, tem uma feição pós-islâmica; porém, deve ter tido origem em entrada já delineada em época islâmica.
39 Dentro de uns quintais da fábrica de frutas secas da firma Pimar; porém, algumas fiadas de taipa, visíveis no topo de alguns lanços da muralha, poderão corresponder a remendos efectuados em momento posterior.
40 Até ao momento não foi possível fazer medições da altura dos taipais (lûh). Contudo, pela coloração da taipa, é possível verificar que tanto junto ao Arco da Encarnação, como no edifício do Centro Cultural de Elvas, a taipa é muito semelhante à que foi utilizada em duas fortificações da região, mais concretamente na Alcazaba de Badajoz e na fortificação de Juromenha, ou seja, parece tratar-se de “taipa militar” de época islâmica.
41 Cf. L. Torres Balbás, “La Alcazaba de Badajoz”, Obra Dispersa I, I, pp. 272 (Al-Andalus, VI, 1941, pp. 200). Este conjunto arquitectónico apresenta frestas que cronologicamente se inserem em época posterior.
42 Ambos os casos são visíveis na “vista tirada da banda do sul”. Merlões sobrepujados por remates piramidais podem observar-se, por exemplo, no caso das muralhas islâmicas de Sevilha - L. Torres Balbás, “Barbacanas”, op. cit., XVI, 1951, pp. 464, 465 e fig. 11.
43 Theatro..., p. 54.
44 L. Torres Balbás, Ciudades hispanomusulmanas, pp. 605 e 652. Este autor refere que, pelo menos, em Córdova, Sagunto, Huesca, Palma de Maiorca existiram portas conhecidas nas fontes de época islâmica como Bâb al-Hadîd, ou seja, Porta de Ferro, em árabe. As portas de Santa Maria do Algarve (a actual cidade de Faro) eram chapeadas a ferro forjado cinzelado - Ibidem, p. 605. Havia também em Lisboa.
45 Torres Balbás refere o caso de uma “puerta nueva” em Múrcia, nome que parece ter sobrevivido, e que corresponde à castelhanização da designação de época islâmica Bâb al-Jadîd (Porta Nova, em árabe). - Ibidem, p. 651.
46 Aires Varela, op. cit., p. 26.
47 Sobre fortificações islâmicas em taipa vejam-se, por exemplo, L. Torres Balbás, Ciudades hispanomusulmanas, pp. 557-562, passim; B. Pavón Maldonado, Ciudades hispanomusulmanas, pp. 308-310; Manuel Acién Almansa, “La fortificación en al-Andalus”, op. cit., pp. 29-41, passim.
48 É o que se verifica nas torres que se encontram na actual rua de Sá da Bandeira (antiga rua do Cano), entre o Arco da Encarnação e a Igreja de São Pedro.
49 Na região não faltam os exemplos de torres em taipa, no seu interior e que, mais tarde, foram capeadas ou revestidas com aparelho de alvenaria; é o caso de Juromenha - Cf. F. Branco Correia e Ch. Picard, “Intervenção arqueológica no Castelo de Juromenha – primeiros resultados” in Arqueologia Medieval, vol. I, Campo Arqueológico de Mértola, 1992, p. 75. Em Serpa existe, no castelo, uma torre, revestida externamente com cantaria, mostrando no seu interior taipa de época islâmica. O mesmo se observa nas muralhas de Tavira.
50 Tal como se vê em plantas militares de inícios do século XIX. Vejam-se G. E. A. E. M., nos 1664 (planta de 1819) e 1665 (cópia de 1867 da planta de 1819).
51 Futuros trabalhos poderão esclarecer se se trata ou não de uma torre também ela em taipa, recoberta por sucessivos rebocos e caiações.
52 Esta torre apresenta, no lado interior da fortificação, uma face não plurifacetada. Essa circunstância pode levar a que se considere que tenha sido feita em outra época. No entanto, é de pensar que aqui, tal como em muitos outros locais, obras posteriores tenham levado a que um dos lados, por qualquer tipo de conveniência desconhecida, tivesse sido alterado e afeiçoado, tendo-se perdido, dessa forma, algumas das outras faces que originariamente poderão ter existido. Na verdade, até ao momento, não se conhecem torres plurifacetadas de época almóada que o sejam só em metade do seu perímetro.
53 L. Torres Balbás, “La Alcazaba de Badajoz”, Obra Dispersa I, I, 1981, pp. 252-254 (Al-Andalus, VI, 1941, pp. 182-184); Idem, Ciudades..., pp. 588-589.
54 Duarte D’armas, op. cit., “vista tirada da bafcaido nda do Sull”. Trata-se da terceira torre da cerca interior, a contar da esquerda. Esta vista mostra, para além de uma grande parte do perímetro da muralha exterior dita “fernandina”, uma grande extensão de uma outra muralha, situada topograficamente numa cota mais elevada; não se trata da alcáçova não só pela sua extensão mas também devido ao facto de a torre mais alta desta cintura de muros ser identificada por Duarte D’armas como a torre que tinha o Relógio.
Nesta cerca amuralhada, Duarte D’armas individualiza claramente uma das torres, desenhando-lhe 5 faces, abstendo-se de desenhar os contornos da pedra mesmo nos cunhais. Há uma clara intenção de sugerir a existência de uma torre diferente, sem cantaria ou alvenaria. A visibilidade de cinco faces torna credível que se tratasse de uma torre octogonal que, pela ausência de pedra, deveria ser em taipa.
55 É o que se passa, igualmente, na cerca almóada de Cáceres, onde se podem observar duas torres, a torre redonda e a torre desmochada, ambas octogonais e em taipa - Cf. L. Torres Balbás, “Cáceres y su cerca almóada”, Obra Dispersa I, vol. IV, Madrid, Instituto de España, 1982, pp. 140-141 e 146-147, Al-Andalus, XIII, fasc. 2, Madrid-Granada, 1948, pp. 463-464 e figs. 8 e 9.
56 Vejam-se os casos de torres semelhantes na cerca islâmica de Sevilla, datada do século XII, em figuras e imagens publicadas por L. Torres Balbás, no seu artigo “Barbacanas”, Obra Dispersa I, vol. 5, pp. 56 e 59, (Al-Andalus, XVI, fasc. 2, p. 464 e fig. 21); para outros exemplos, como as torres octogonais, almóadas, de Écija e Alcalá de Guadaira, bem como considerações sobre este aspecto da decoração das torres de época islâmica veja-se o mesmo autor, Ciudades..., pp. 573, 578 e 583-586.
57 No caso de Juromenha, 16 km a sul de Elvas, a experiência mostrou que alguns dos desenhos de Duarte D’armas com pedras desenhadas nos cunhais poderiam corresponder a torres islâmicas feitas em taipa, reforçadas com grossas cantarias de época romana nos cunhais. Ou seja, algumas das torres que mostram desenhos de pedra somente nas esquinas (ou cunhais) poderão corresponder a torres maioritariamente em taipa, de época islâmica, reforçadas, como era comum, nas esquinas, por grossa silharia, proveniente muitas vezes de construções antigas.
58 No quintal da casa com o actual no de polícia 17.
59 Observação feita no local, bem como informação prestada pelo actual proprietário, permitiu constatar que, embora num dos lados o arco não esteja aberto, tal deve-se ao facto de ter sido entaipado há poucos anos, por razões de segurança. Observação atenta permite claramente distinguir um pano de muro recente, em cimento. Trata-se, pois, de uma torre destacada da muralha e com circulação originalmente aberta em ambos os lados do espaço entre ela e a muralha que, tanto para Norte como para Sul, apresenta ainda, em zonas em que os rebocos se fragilizaram, muitos vestígios de taipa morfologicamente semelhante à chamada taipa militar comum em época almóada.
60 A este propósito vejam-se F. Branco Correia, “Fortificações muçulmanas em Portugal...”, op. cit., pp. 501 - 509, R. Varela Gomes, “A arquitectura militar muçulmana” in História das fortificações portuguesas no mundo, Lisboa, Ed. Alfa, 1989, pp. 31-34; B. Pavón Maldonado; B. Pavón Maldonado, Ciudades y Fortalezas Lusomusulmanas – Crónicas de viajes por el sur de Portugal, Madrid, 1993, pp. 54-59, 84, 90, 124, passim.
61 Como é o caso das torres de Espantaperros (Badajoz) e da Torre del Oro (Sevilha).
62 Cf. L. Torres Balbás, “Cáceres y su cerca almóada”, op. cit., pp. 140-141.
63 Cf. Eurico Gama, Crónicas de Odiana, p. 14, que transcreve parcialmente a doação de D. Sancho II a Afonso Mendes Sarracines, datada de 1226 (publicado na Monarquia Lusitana, tomo IV, liv. XIV, cap. VII), na qual se refere a existência de cavas em Elvas; ver também Alexandre Herculano, História de Portugal – desde o começo da monarquia até o fim do reinado de D. Afonso III, Tomo II, Amadora, Liv. Bertrand, 1980, p. 609, no 19.
64 Veja-se adiante, 3.3.1.
65 Sobre a existência de fossos em fortificações de época islâmica e a sua relação com antemuros ou barbacãs veja-se L. Torres Balbás, “Barbacanas”, Obra Dispersa I, vol. 5, sobretudo as pp. 54, 55, 61, 62 (Al-Andalus, XVI, 1951, pp. 462, 463, 467 e 468).
66 Valérie Dallière-Benelhadj, “Le «château» en al-Andalus: un problème de terminologie” in Habitats fortifiés et organisation de l’espace en Méditerranée médiévale (actas recolhidas e publicadas por A. Bazzana, P. Guichard e J. M. Poisson), Travaux de la Maison de l’Orient no 4, Lyon, GIS – Maison de l’Orient, 1983, p. 64.
67 Veja-se a este propósito Rosa Varela Gomes, “A arquitectura militar muçulmana” in História das fortificações portuguesas no mundo (dir. de Rafael Moreira), pp. 34-35.
68 Recentemente, foi encontrada em Elvas, na rua de João de Olivença (dentro da antiga mâdina), uma inscrição que se encontra depositada no Museu Municipal. Trata-se de uma inscrição funerária em cúfico simples sobre um arenito, diferente das que Aires Varela dá a conhecer. Cronologicamente esta inscrição é enquadrável no século VI H./meados do XII d.C. e foi recentemente publicada por Artur Goulart de Mello Borges, “Epigrafia Árabe no Gharb” in Portugal Islâmico. Os últimos sinais do Mediterrâneo, Lisboa, Museu Nacional de Arqueologia, 1998, p. 247, no 303.
69 Alguns letr.os se vêm ainda hoje em diverssas p.tes de Elvas escritos em pedra, e as letras de meyo releve..., dizia Aires Varela, no século XVII. - op. cit., p. 26.
70 Cf. M. Ocaña Jiménez, El cúfico hispano y su evolución, Madrid, 1970, p. 19 e ss.
71 Op. cit., p. 26.
72 A transcrição completa dada por Aires Varela (op. cit., p. 26) é a seguinte: “Muley Abdallah Alcayde de Merida em Hespanha por ElRey Almançor, Felix, mandei fazer esta castello como Alcayde que sou des [sic] aduares, e destricto junto ao rio Guadiana, em louvor do nosso Rey Almançor, Felix, a quam tanto ajudou o nosso profecta.”
73 A tradução que obteve para esta segunda inscrição é a seguinte:
“Eu Flamet dos Leões mandey fazer este castello sendo Rey dos christãos [sic] em Hespanha Almançor, Félix, para se saber seu nome, e grandeza”. (op. cit., p. 27).
A tradução é aparentemente muito deficiente e com contradições de conteúdo. Apesar de a caligrafia, segundo o seu testemunho, ser diferente da da inscrição anterior, não implica que, só por isso, deva ter uma datação diferente. É possível que, por uma deficiência de transcrição “Flamet” possa ser “Hamet” ou “Hamed”; dos Leões pode corresponder à tradução de um nome comum na onomástica árabe (Saad?); um mau tradutor poderia ser levado a traduzir “Amir al-muminin” (chefe, dirigente dos crentes) por “rey dos christãos”; “Hespanha” deve corresponder à tradução de “Al-Andalus”.
A interpretação aqui dada deve ser encarada com muitas reticências.
74 Ibn Hazm esclarece acerca de quem, até ao século XI, usou tal epíteto; para além de governantes orientais, da Ifriqiya e de reis de Taifas de Valencia, Saragoça e de Granada, refere Muhammad b. Abí ‘Amir, geralmente conhecido por Almançor e, no Gharb, no século XI, Sabûr e ‘Abd Alláh b. Maslama al-Aftas, rei da Taifa de Badajoz. - Cf. Ibn Hazm, Naqt al-‘Arûs, Valencia, Anubar ed., 1974, p. 64.
75 Filho esse que conseguiu escapar ao destino a que os almorávidas votaram a dinastia reinante em Badajoz e que se refugiou em território cristão – Cf. El siglo XI en 1a persona. Las “memorias” de cAbd Allah, último rey Zirí de Granada, destronado por los Almorávides (1090), trad. por E. Lévi-Provençal e E. García Gómez, Madrid, Alianza ed., 1980, p. 294.
76 O primeiro dirigente da dita dinastia, ‘Abd Allâh b. Maslama b. al-Aftas, al-Mansûr (1022-1045); o seu neto Yahyà b. Muhammad, al-Mansûr (1067-68 – 1072 ap.) e o sobrinho deste último que conseguiu escapar ao destino dado pelos almorávidas aos seus restantes familiares, Al-Mansûr III, que durante algum tempo governou em Montánchez.
77 Após o fracasso da ofensiva almóada contra Santarém, de que resultaria a morte do califa Abu Ya’qub Yusuf – Cf. Anwar G. Chejne, Historia de la España musulmana, p. 83, onde se referem particularidades que rodearam a morte do 2º califa almóada.
78 Por exemplo, é contemporâneo das conquistas cristãs de Silves de 1189.
79 Cf. Anwar Chejne, op. cit., p. 84.
80 Idem, p. 84.
81 Segundo Al-Marrakushi, citado por Chejne, op. cit., p. 84.
82 Veja-se L Torres Balbás, Ciudades..., p. 478, nota 17; para Badajoz o autor transcreve as palavras do cronista bejense Ibn Sâhib al-Sala que indica ter o califa Abû Ya’qûb Yûsuf construído “la defensa de Badajoz contra los cristianos, la construción de su fuerte y elevada alcazaba”; para o caso de Cáceres o autor refere que uma das torres desta cidade tinha, até há pouco, o nome deste califa almóada. (Ibidem, pp. 483-484).
83 Cf. L Torres Balbás, Ciudades..., p. 478.
84 Designação que em época islâmica era dada a todo o “Oriente” (Sharq) do território islâmico peninsular (al-Andalus) e que corresponde grosso modo ao que actualmente se chama o Levante espanhol. Vejam-se as várias obras de P. Guichard, atrás citadas.
85 Veja-se Stéphane Boissellier, op. cit., passim.
86 Do árabe al-qariya. Para uma perspectiva etimológica veja-se José Pedro Machado, Vocabulário português de origem árabe, p. 47, onde se traduz alcaria por “pequena povoação, aldeia” do árabe al-qaria.; também em Dozy, op. cit., p. 86.
87 A.N.T.T. – Odiana, liv. 2, fl. 219v-220v; D. João II, em 1482, confirma carta de D. Afonso V, de 24 março de 1474.
88 Op. cit., vol. I, p. 223.
Para este último termo (“maljas”) pode arriscar-se uma hipótese de interpretação. Caso tenha havido, durante o decorrer do domínio cristão, alguma adaptação fonética de uma palavra árabe de difícil interpretação, em favor de outra de mais fácil compreensão (mal + jaz), É possível relacionar este topónimo com o vocábulo árabe majlis, palavra que pode ter vários significados relacionados com a existência de uma certa individualidade e autonomia decisória, o que era costume acontecer nas qariya/s do al-Andalus. Como é sabido, este mesmo vocábulo era aplicado em instâncias superiores. Em Medina al-Zahra, cidade palatina dos califas de Córdova, no século X, havia um majlis al-Ajra, um salão para audiências do califa (Veja-se, por exemplo, referências a este salão em Ibn Hayyan, Anales palatinos del califa de Córdoba al-Hakam II por ‘Isa ibn Ahmad al-Razi (360-364 H. = 971-975 J. C.), trad. de Emilio García Gómez, Madrid, Sociedad de Estudios y Publicaciones, 1967, pp. 70, 153, 171, 223, 239 e 241). Porém, no caso vertente, deve tratar-se de uma designação aplicada a uma instância local. Corriente afirma que “maŷlis” [majlis] é um substantivo derivado da raiz j-l-s –, e que pode ter vários significados. O autor traduz como “asiento, consejo, tribunal; asamblea, concejo; concilio, colegio, audiencia (...)” (Dic., p. 120).
89 Segundo António Tomás Pires, Excerptos de um estudo sobre a toponymia elvense, p. 9, existe uma Herdade da Alcaria na freguesia da Ventosa. Adiante, o mesmo autor, refere uma “alcaria (sitio da)” na freguesia de S. Pedro (Ibidem, p. 9).
90 Cf. C. M. P. no 426 (Borba – Vila Viçosa).
91 A distribuição deste topónimo, pelo país, é bastante grande (Cf. Américo Costa, op. cit., vol. I, pp. 352-362, onde regista grande quantidade de “alcarias” e alcariais.), mas, até ao momento, não se tinha registado o seu aparecimento na área do actual distrito de Portalegre (Cf. A. H. de Oliveira Marques, op. cit., pp. 151, 154 e 188-189, onde não regista o aparecimento de alcarias no distrito de Portalegre.).
92 A teorização sobre a associação do espaço povoado e da fortificação aparece de forma clara em obras de Pierre Guichard, não se devendo esquecer Thomas F. Glick, From Muslim fortress to Christian castle, Social and cultural change in medieval Spain, Manchester – N. York, Manchester Univ. Press, 1995, pp. 84-87.
93 Vejam-se, como casos de topónimos possivelmente derivados de hisn, as várias Isnas e Asnas em A. H. de Oliveira Marques, “O «Portugal» islâmico”, op. cit., p. 194.
94 S. Boissellier aventa a hipótese de a “turrem de Alfarofe” ter sido, até ao momento da sua tomada pelos cristãos, uma alcaria fortificada. (op. cit., I, p. 157). O mesmo autor coloca a hipótese de as outras “torres” que surgem mencionadas em documentos das chancelarias de D. Afonso III e D. Dinis poderem também dizer respeito a antigas fortificações de época islâmica (Ibidem, p. 158, nota 227). Há, porém, todo um trabalho de “arqueologia extensiva” ou “arqueologia da paisagem” que ainda está por fazer de forma sistemática.
95 Veja-se a C. M. P. no 400 (Campo Maior). Embora a actual “Torre do Mouro” esteja implantada numa cota ± de 229m, tanto algumas centenas de metros a norte como a sudeste se encontram dois locais topograficamente proeminentes, com cotas superiores aos 250 metros. O General João de Almeida refere a existência de uma torre, já em ruínas nas imediações do “monte”. - Cf. João de Almeida, Roteiro dos Monumentos militares portugueses, vol. III, Lisboa, 1948, p. 123.
96 Tomás Pires, Excerptos... Toponímia de Elvas, p. 75.
97 Escavações levadas a cabo pelo, Dr. Manuel Calado, no Castelo velho das Hortinhas (Alandroal), revelaram materiais e estruturas da Idade do Ferro (como já antes revelara J. Leite de Vasconcelos) mas também revelou uma inquestionável ocupação de época islâmica.
Sobre os “castelos velhos” ocupados em época islâmica e, sob domínio cristão, abandonados, veja-se S. Boissellier, op. cit., pp. 138 e 139.
98 Este topónimo está localizado a cerca de 2.500 metros a sudeste da actual povoação. Não faltam, em redor, pequenas linhas de água. Cerca de 500 metros a nordeste do “castelo velho” localiza-se um “castelo novo”, cujo significado, por ora, não é possível obter - Cf. Carta Militar de Portugal no 427 (S. Romão – Ciladas).
99 S. Boissellier, op. cit., pp. 157 e 138-139. A atalaia que actualmente é observável em Alfarófia é uma construção do século XVII, contemporânea da guerra da Restauração - Cf. João de Almeida, op. cit., vol. III, pp. 127-128.
100 Veja-se o exemplo, dado por Boissellier, da evolução de Alcalavitia que irá evoluir para Alcaraviça - op. cit., p. 139, nota 174.
101 Segundo o Bulario de la Orden Militar de Calatrava (Bullarium Ordinis Militiae de Calatrava), Barcelona, reedição de 1981, (citado por S. Boissellier, op. cit., I, p. 139, nota 174), Alcalavitia é assinalado no território de Avis nessa data.
102 O concelho de Elvas dera em Maio de 1259 ao convento de Alcobaça uma herdade que limitava com a “mata d’alcaraviça” - Cf. Victorino de Almada – op. cit., vol. I, p. 222. Em 1309 refere-se a “alcaraviça [não “Alcaramça”, como o topónimo em Hist. Florestal, II, no 534, p. 179] logo que chamam Poço do mestre”, in A.N.T.T., Chancelaria de D. Af. V, liv. 16, fl. 92-92v; D. João I couta uma herdade “parte della n’Alcaraviça”, por documento de 2/Março/1402 (A.N.T.T., Chancelaria de D. João I, liv. 3, fl. 24); volta a falar-se de uma herdade na “alcarauça”, no reinado de D. Duarte (A.N.T.T. – Odiana, liv. 3, fl. 279); veja-se também A.N.T.T., Odiana, liv. 4, fl. 290-292). [também aqui “Alcaramça” por “alcaraviça”, in Hist. florestal (...), IV, no 62] em 1471.
103 Victorino de Almada, op. cit., vol. I, p. 222. Dozy não explica esta palavra; apresenta, como mais parecido, “alcaravan” ou “alcaravão” “espèce d’oiseau, butor)”; apresenta também “alcaraviz, pg. («cano de ferro, por onde se comunica o vento do fole ao fogão da forja»,...)” - Veja-se Dozy, op. cit., p. 85.
104 Ao longo do percurso para norte desta linha de água não faltam pontos de interesse: a norte de Borba há um Arrife e, a sul da Orada, identificam-se várias azenhas, um pisão e o topónimo albôrra (deturparção de al-burj = a torre?); cerca de 2.000 metros a norte de S. Bento de Ana Loura, num dos meandos da ribeira de Alcaraviça, localiza-se um “castelo velho” que, topograficamente, ocupa uma posição de destaque aproveitando defesas naturais. Veja-se a sua localização em Carta Militar no 412 (S: Lourenço de Mamporcão) e Carta Militar no 426 (Borba-Vila Viçosa).
105 “O Livro de bens de D. João de Portel” in Archivo Historico Portuguez, vol. IV, pp. 374 e 375 onde se indicam bens aquele nobre “iuxta capitis de alcarapina”.
106 No século XV aparece referida em vários documentos sobre coutadas dessa zona do alfoz de Elvas:” herdade que tem em nalcarapinha” também em 1384 - A.N.T.T. Odiana, liv. 5, fl. 162-163; herdade coutada na “alcarapinha” em 1448 - A.N.T.T. Odiana, liv. 3, fl. 218v-219.
107 A.N.T.T. Odiana, liv. 5, fl. 162v-163.
108 Cf. C. M. P. no 413 (Vila Fernando – Vila Boim).
109 Ver João de Almeida, Roteiro dos Monumentos militares portugueses, vol. III, Lisboa, 1948, p. 127.
110 Ao longo do século XIV, a aldeia de Vila Fernando, cerca de 2 km para sueste (Vila Boim e Vila Fernando são dadas por termo a Elvas por carta de 23 de Janeiro de 1370 - A.N.T.T., Chancelaria de D. Fernando, liv. 1, fl. 53. O padre Henrique Louro indica que em 1320 já aparece referida uma igreja (Stª M ª) em Vila Fernando - Henrique da Silva Louro, em Monografia histórica de Vila Fernando, Évora, 1966, p. 1. Em documentos do século XV Alcarapinha e Vila Fernando aparecem claramente individualizadas “a erdade e terra de villa Fernando (...) E a erdade e terra d’alcarapynha”, em documento de 1468 - A.N.T.T., Odiana, liv. 1, fl. 52-53; “herdade n’alcarapinha a qual partia (...) com outra de vila fernando”, em 1455 - A.N.T.T., Odiana, liv. 6, fl. 107-107v.
Uma narrativa que relata acontecimentos da Guerra da Restauração ocorridos em 1665 refere que “aos 6 começou a aballar o exercito Enimigo cõ tão grande preça, que dormindo aos 7 a terra de Seg.ra aos 8 ao meio dia, O vimos ja vir decendo os outeiros de Atalaya dos Sapatr.os em demanda da fonte e tanque, que alli está para beberem os Cavallos. D. João da Silva que Sempre lhes andou auista tendolhes entulhado a fonte e desfeito o Tanque, os obrigou a continuar a marcha, vindo o mesmo dia a dormir a Alcarauiça...” – Cristóvão Aires de Magalhães Sepúlveda, História orgânica e política do exército português – Provas, Lisboa Imprensa Nacional, vol. II, 1904, p. 99.
111 Para norte do cabeço de Alcarapinha encontram-se, para além de várias manchas de solos de classe B, alguns de classe A, o que não abunda para oeste de Elvas - Cf. Serviço de Reconhecimento e de Ordenamento Agrário (M. E./ S. E A.), Carta de Capacidade de uso de solo, no 37-A (adiante, C.C.U.S.)
112 Neste, e em outros casos, não deveria ter sido designado como hisn mas como qal’a (alcala + pinea? Teria esta designação algo a ver com a existência, na zona, de um coberto vegetal em que não faltassem os pinheiros?)
113 Sobre a importância dessa via, bem como do porto de Alcácer para o hinterland, comprendendo Elvas e Badajoz, veja-se Ch. Picard, L’océan Atlantique musulman. De la conquête arabe à l’époque almohade. Navigation et mise en valeur des côtes d’al-Andalus et du Maghreb occidental (Portugal – Espagne – Maroc), Paris, 1997, p. 384, e S. Boissellier, op. cit., p. 47.
114 Embora Elvas não esteja integrada no sistema defensivo, imediato, de Badajoz, não deveria deixar de pertencer a um sistema mais alargado e vasto, dada a directa visibilidade entre as duas localidades e o facto de Elvas, na margem direita do Guadiana, desempenhar um papel chave de controlo sobre o acesso a Badajoz a partir do Ocidente. Este papel chave de Elvas não é exclusivo; veja-se o caso de Geraldo Sem Pavor que, a partir de Juromenha, cerca de 16 km a sul, conseguiu contornar a importância estratégica de Elvas.
115 Cf. G. E. A. E. M., no 4066.
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