2.1. Elvas e a evolução do poder no Gharb al-Andalus
p. 45-66
Texte intégral
1Os acontecimentos que agitam todo o Médio Oriente a partir dos inícios do século VII – a vida e mensagem do Profeta Muhammad, a criação de uma comunidade islâmica (‘Umma) que vai interagir com outras formas de monoteísmo existentes na região desde havia muito tempo e a criação de um califado em Damasco com uma dinâmica expansionista – irão reflectir-se na Península Ibérica e nas margens do Guadiana de uma forma insuspeitada nesses mesmos momentos.
2A partir de 711, e devido à conjugação de múltiplos factores – internos e externos –, a Península Ibérica passa a ter o seu destino ligado fortemente à dinastia que governava a partir da capital da Síria. Começa uma fase complexa, que se pode dividir em vários períodos e que, por facilidade de identificação, se designará como “período islâmico”. É uma fase crucial para Elvas, o que até ao momento não tem sido reconhecido. É a fase da fundação da cidade; é, de facto, durante o período islâmico que, pela primeira vez, há referências claras a Elvas como núcleo urbano.
3David Lopes foi o primeiro a referenciar, de forma breve e muito sintética, as várias informações dadas sobre Elvas por historiadores e geógrafos deste período1. Há, porém, outras informações que permitem abordar uma perpectiva evolutiva da Elvas sob administração de formações políticas de base islâmica. É necessário, pois, compreender o processo de génese e de afirmação desta cidade tendo por base o contexto histórico específico do Gharb al-Andalus2.
2.1.1. A conquista: formação da Kûra de Mérida
4Após a entrada dos muçulmanos na Península Ibérica, em 711/93H.3, os territórios do Ocidente peninsular foram sendo integrados nos domínios islâmicos, mas não de forma fulminante. Sabemos hoje também que as tropas vencedoras de Târiq ibn Ziyyad estiveram aliadas a contigentes de familares do defundo rei godo Vitiza e que o objectivo incial foi Toledo e não as zonas ocidentais peninsulares.
5Já a campanha de Mûsà ibn Nusayr, iniciada no ano seguinte, passou por Mérida4, capital da Lusitânia5, a qual capitulou em Junho de 713/shawwâl de 94 H..
6Não se sabe ao certo se a conquista do Gharb teve lugar ainda em 713/94H.6 ou só depois, a partir de 7147 e da partida para Damasco de Mûsà ibn Nusayr e de Târiq ibn Ziyyad. O que parece assente é que, com a tomada de Mérida por Mûsà e do controlo de grande parte do Ocidente, pelo menos até à zona de Coimbra8, por parte de ‘Abd al-‘Azîz9, a região de Elvas passa a ficar integrada dentro do espaço do que será o al-Andalus. Nessa conjuntura ‘Abd al-‘Azîz teria celebrado um pacto (semelhante ao realizado para a região de Tudmîr10) com as populações e com os poderes sediados em Santarém e Coimbra.
7Inicia-se, então, um processo não só de arabização de alguns territórios, com o assentamento de elites e tropas de origem árabe, entradas durante a primeira vaga que se inicia em 711, (árabes baladiyyûn11), mas também com uma segunda vaga de árabes – das tropas sírias de Balj12 – que, chegando à Península em 741/123H., se instalam, por exemplo, em Sevilha, Niebla e Beja13. Todo o processo de orientalização das sociedades meridionais da peninsula Ibérica se acentua com a chegada à peninsula do único importante sobrevivente da dinastia omíada, deposta em Damasco em 750. Esse príncipe, ‘Abd al-Rahmân I, fará de Córdova sua capital (em 756) e consolida a presença islâmica que era ainda superficial. Após afastar do poder o governador obediente ao Califa abássida, proclama-se emir e afirma a sua independência face ao nóvel califado abbássida. Córdova não será simplesmente uma nova Damasco; ela e os territórios de si dependentes irão rivalizar com os califas da nascente Bagdade a nível das artes, das ciências, da arquitectura, mas também a nível da utilização do Árabe como lingua de cultura, de religião e de ciência14.
8Sabe-se que em Mérida e na região envolvente, durante o período que se segue a 711 e até cerca de meados do século VIII, grande parte da população teria continuado cristã (moçárabes), passando à categoria de tributários ou dhimmî, e só uma parte dos autóctones se converteu ao islamismo, tornando-se muwwaladûn (malado15 ou “muladís”). Embora se tivessem estabelecido, na antiga capital da Lusitânia, alguns árabes da primeira geração que entrou no al-Andalus (os referidos baladiyyûn), é de crer que na região envolvente de Mérida, incluindo o actual Alto Alentejo e Beira Baixa, se tivessem estabelecido essencialmente grupos tribais berberes16. Conhecem-se alguns dos grupos berberes que se estabeleceram no vale do Guadiana17.
9Em termos administrativos, no século VIII o al-Andalus está dividido em várias circunscrições que, em geral, parecem respeitar a antiga divisão em conventus18; geralmente aplica-se o termo árabe de origem grega19 Kûra (pl. Kuwâr) a essas circunscrições20. Elvas pertencia à Kûra de Mérida21. Contudo, com a fundação de Badajoz, e com o aumento de prestígio desta cidade na região, a capital da “cora” passou para a nova cidade22.
2.1.2. O período emiral: Ibn Marwân e Albasharnal
10A afirmação, em 756, do emir omíada vindo de Damasco não se fez sem sobressaltos. Na verdade, na zona ocidental, no Gharb al-Andalus, entre o Tejo e o Guadiana, fizeram-se sentir, nas décadas de 60 e 70 do século VIII, alguns focos de revolta que não se podem ignorar. Durante o seu reinado registam-se agitações entre berberes do Gharb al-Andalus23 e nos inícios do século IX esta região continua a apresentar focos de rebeldia, com contornos por vezes pouco definidos24.
11Maior atenção merece a revolta que se desencadeia em Mérida em 828, encabeçada pelo muladí, Sulaymân ibn Martîn e pelo berbere Mahmûd ibn ‘Abd al-Jabbar25. Este acontecimento pode revestir-se de alguma importância para a região de Elvas na medida em que revela a existência de importantes manifestações de descontentamento em terras do curso médio do Guadiana, liderado por muladís e berberes. É de referir que o governador residente em Mérida foi morto na sequência dos distúrbios que rodearam a revolta; o dito governador, representante do emir de Córdova, era Marwân al-Jillîqî 26. O revoltoso Mahmûd ibn ‘Abd al-Jabbar e os seus seguidores, ao terem de evacuar Mérida, dirigiram-se, num primeiro momento, para o sul, através do vale do Guadiana; a região de Elvas não deve ter ficado indiferente aos problemas que passavam pela antiga capital da Lusitânia.
12Na verdade, o fim da revolta de 828 parece não ter acabado com as tensões na região. Cerca de quatro décadas depois, em 868, ‘Abd al-Rahmân ibn Marwân ibn Yunus, conhecido como ibn al-Jillîqî, filho do antigo governador morto aquando dos acontecimentos de 828, revolta-se pela primeira vez contra a autoridade emiral cordovesa. Os acontecimentos protagonizados por ‘Abd al-Rahmân ibn Marwân ibn Yunus ibn al-Jillîqî são relativamente bem conhecidos e, ultimamente, têm sido alvo de redobrado interesse e reflexão27.
13Não sendo este o lugar para tratar esta questão com pormenor, convém, contudo, reflectir sobre a possibilidade de Elvas entrar no quadro dos acontecimentos subsequentes à revolta inicial de ibn Marwân. Na verdade, até ao despoletar destes acontecimentos, parece não haver referências directas à região de Elvas, nem sequer a este topónimo. No entanto, embora a primeira referência clara a Elvas date do século X, é possível que o relato que Ibn al-Qutiyya faz dos acontecimentos desta conjuntura contenha uma referência muito provável a Elvas.
14Segundo este autor de época islâmica28, o emir Muhammad I, tentando pôr termo à dissensão de ‘Abd al-Rahmân ibn Marwân al-Jillîqî e à instabilidade que atingia todo o Gharb a ocidente do Guadiana, bem como as zonas de Niebla e Sevilha, envia-lhe um emissário para perguntar o que pretendia o rebelde muladí em troca da paz. Diz Ibn al-Qutiyya que a resposta de al-Jilliqî foi a seguinte: “permitam-me fazer o que eu quiser de Albaxardal. Construirei ali uma cidade, povoá-la-ei e manterei a oração (em teu nome)”; acrescenta o mesmo cronista que “Albaxardal, a que se referia, estava em frente de Badajoz na outra parte do rio. O resultado foi que o autorizou a fortificar Badajoz na parte de cá do rio para que desta maneira estivesse em defesa dos muçulmanos, consoante se estabelecera como condição”29.
15Pela descrição de Ibn al-Qutiyya depreende-se que a relação de Albaxarnal com Batalyaws30, pequena localidade já existente no século IX31, é uma relação de proximidade. Albaxarnal, pelo menos aos olhos de Ibn Marwân al-Jillîqî, tinha condições para se tornar numa cidade; deveria apresentar, por isso, não só condições atraentes sob o ponto de vista estratégico, como até populacional (onde não deveriam faltar elementos populacionais moçárabes e muladís e quiçá alguns grupos berberes aliados), para além de vantagens do ponto de vista económico.
16Por outro lado, por Albaxarnal se situar na margem oposta a Badajoz, tal não significa que estivesse edificada imediatamente sobre a margem direita do Guadiana ou mesmo do arroio Rivillas que corre aos pés da sua alcáçova. Poderia, isso sim, tratar-se de uma localidade situada na margem direita do Guadiana, não obrigatoriamente sobre o rio, mas numa tal posição que, desse local, se pudesse controlar esse mesmo curso de água e, dessa forma, tendo o rio como obstáculo a quem viesse de sul, estar mais distante, em termos estratégicos, dos poderes sediados em Córdova. Estar em frente de Badajoz e do outro lado do rio pode querer dizer que se tratava de um ponto com o qual se tinha contacto visual, o que de facto acontece entre Elvas e Badajoz32.
17O desejo de Ibn Marwân de fortificar Albaxarnal, significa que, ou o local não era muralhado, ou possuía um sistema defensivo insuficiente para abrigar um projecto político e urbanístico subjacente à fundação de uma “cidade”. A escolha desse local pressupõe que Ibn Marwân o controlava, bem como a área envolvente. Esta reunia um conjunto de condições (materiais33, económicas34, viárias35 e estratégicas) que o faziam sentir-se aí em segurança para continuar a afirmar a sua força face ao poder sediado em Córdova.
18Os vários itinerários que, posteriormente, referem Badajoz e Elvas36 colocam esta última a uma jornada de viagem daquela cidade, para ocidente, atravessando o rio. As próprias características do relevo na zona de Elvas e a sua relação de proximidade com as vias existentes, de origem romana, que permitiam não só um acesso fácil a importantes núcleos urbanos do Ocidente (Ulishbûna / Lisboa, Shantarîn / Santarém, Yâbura / Évora e outros) mas também para Mârida (a antiga capital da Lusitânia romana e capital de Kûra), tornavam este local vantajoso para quem, como Ibn Marwân, pretendia controlar os territórios ocidentais (Mapa 3). Por isso, não deve ter ficado fora do processo da revolution castrale que atingiu grande parte dos territórios sob domínio islâmico, no século IX37 (cf. Mapa 2).
Mapa 3 – Áreas por onde se distribuiu o domínio de ‘Abd al-Rahmân ibn Marwân al-Jillîqî. Principales correrias y zonas de domínio territorial de Ibn Marwân

A – ELVAS
(segundo M. Terrón Albarrán. Extremadura musulmana…, p. 76).
19Para além das circunstâncias relacionadas com a proximidade deve considerar-se o próprio topónimo referido por Ibn al-Qutiyya. Na verdade, embora as investigações não se possam dar por concluídas, não é impossível que Albaxardal / albasharnal38 seja uma má grafia de um topónimo possivelmente pouco conhecido então, e que poderia ser albash. Se assim for, tratar-se-á da primeira referência textual a Elvas.
20Porém não é em Albaxarnal que Ibn Marwân se vai estabelecer. Parece ter-se chegado a uma solução de compromisso, aceitando o muladí ficar na margem esquerda do Guadiana (mais próximo e mais controlável pelo Emir) mas perto da passagem para a outra margem, ou seja, perto de grande parte dos territórios do Gharb onde teria apoios. C. Picard interroga-se acerca da razão que leva Ibn Marwân a apostar em Badajoz e não em continuar com Mérida como sede do seu poder. Pensa este autor que, entre outras coisas, o rebelde muwallad “devait disposer, à proximité, d’une alcazaba ou résidence fortifiée qui existait peut-être auparavant et où se serait réfugiés les rebelles de Merida en 834” mas que deveria ser sítio vulnerável, o que não servia os interesses de Ibn Marwân que “samblait préférer fuir vers des lieux mieux protégés”39. Elvas, dar-lhe-ía protecção suficiente e deveria reunir condições que só não agradaram ao emir Muhammad I.
21Nos inícios do século X praticamente todo o Gharb al-Andalus continuou numa situação de grande autonomia face ao poder central, situado em Córdova. Descendentes de ‘Abd al-Rahmân ibn Marwân al-Jillîqî continuaram, a partir de Badajoz, a governar grande parte deste território40.
22Esta dinastia regional, esteve ligada, antes do seu fim e da tomada de Badajoz por ‘Abd al-Rahmân al-Nâsir, em 930/318H41, à iniciativa da reconstrução de Évora após a acção militar levada a cabo por Ordonho II em Agosto de 913/Muharram de 301H., acção essa que teve grande repercussão em todo o Gharb42.
23Sabendo-se que as muralhas de Badajoz e de outras localidades foram reforçadas depois desta acção de 91343, Elvas – a possível “Albaxarnal” – não deixaria de ser reforçada. Elvas deveria constituir um natural ponto de fuga e de apoio, estreitamente ligada à dinastia muladí que governou o Gharb durante grande parte do século IX (desde 868) e as três primeiras décadas do século X.
2.1.3. O califado: Yalbash nos itinerários de época islâmica
24O ano de 929 é de viragem para o Gharb al-Andalus. Nesse ano tem lugar a expedição do primeiro califa omíada andalusí ao ocidente do Andalus, com o intuito de passar a controlar a cidade de Badajoz. As tropas do califa, para além de atacarem a cidade propriamente dita, fustigaram também zonas próximas da capital muladí; é possível que Elvas tenha, de alguma forma, sofrido com esses ataques44. Domina um clima de instabilidade, resultante dos confrontos entre as tropas fiéis à dinastia muladí (que, havia várias décadas, governava grande parte do Gharb al-Andalus conseguindo, certamente um certo equilíbrio entre muladís, mas também moçárabes45, berberes e provavelmente judeus) e as tropas califais de ‘Abd al-Rahmân que, só no ano seguinte, em 93046, conseguirá o controlo total e efectivo de Badajoz, concedendo o amân47 aos revoltosos que se entregaram.
25A partir de 930, ano em que é nomeado um governador da confiança do califa, a Kûra de Badajoz passa a ser directamente controlada por Córdova. As fontes oficiais e os tratados geográficos passam a falar mais abertamente destes territórios ocidentais. Ibn Hawqal, um oriental que visita o al-Andalus em 948, identifica Elvas num dos seus itinerários, dizendo que se encontra a um dia de marcha, respectivamente, de Juromenha e de Badajoz48.
26Contudo, uma outra obra do século X faz referência a Elvas. Trata-se do texto de Ahmad al-Râzî, conhecido como “Mouro Rasis”49, texto cujo original se perdeu, havendo várias versões e traduções50. A reconstituição feita por Lévi-Provençal, em 1953, e que é tida como referência obrigatória pelos arabistas que se dedicam ao estudo do al-Andalus, refere Elvas, apontando-a como localidade ligada a Mérida51, descrevendo Badajoz e as suas dependências como zonas ricas em termos agrícolas, piscícolas e venatórios52.
27A atestar a importância de Elvas durante o período califal está o capitel encontrado em Elvas e que, até há alguns anos, se encontrava no Museu Municipal53. Poderia ter pertencido a uma mesquita edificada nesta centúria na Elvas islâmica (Figura 35). Essa importância deve ter-se também manifestado a nível económico, a avaliar por um tesouro monetário que foi encontrado junto a troço das muralhas de época islâmica54.
Figura 35 – Capitel encontrado em Elvas, em estilo coríntio, datado de meados do século X (período califal) e que, até há pouco, se encontrava no Museu Municipal de Elvas.

2.1.4. A Taifa de Badajoz: Yalbash sob o domínio aftácida.
28O desmoronamento do califado de Córdova, nos inícios do século XI, e a fitna55 que se seguiu resultaram na fragmentação do Califato omíada em vários reinos autónomos, os mulûk al-Tawâ’if, os “reinos de Taifas”56. Em Badajoz afirmou-se Sâbûr al-‛Âmirí, um eslavo57 ex-liberto de Almançor, que passou a governar territórios desde as margens do Douro até à serra do Mendro; Beja, a sul, fica na órbita de um outro reino, com sede em Sevilha. Com a morte de Sâbûr, um berbere que estava ao seu serviço – da família do Banû al-Aftas –, toma o poder e inicia a que será conhecida como dinastia Aftácida58, dinastia que, com sede em Badajoz, irá governar um extenso território no ocidente ibérico durante a maior parte do século XI59. Badajoz, como capital de um reino de Taifas, atraía para si uma série de intelectuais e artistas de outros pontos do al-Andalus e até de outras partes do mundo islâmico. Alguns desses homens visitaram, a partir da capital do reino, outros pontos do Gharb e, da passagem por Albash /Yalbash, ficaram descrições importantes.
29Há informações sobre questões climatéricas60, mas não faltam dados sobre a própria Elvas. Al-Maqqarî, ao fazer uma viagem, acompanhando o soberano al-Mutawakkil, de Badajoz a Santarém, passa por Elvas61, que considera “precioso sitio famoso por sus aguas y palmeras altas, donde se ven jardines y bellos lugares”62. Segundo al-Khaqan, acompanhante de Al-Maqqarî e de al-Mutawakkil nesta viagem a Santarém, os campos de Elvas apresentavam-se verdejantes e as hortas bem cuidadas63. É possível que esta agradabilidade dos campos de Elvas motivasse a construção de algumas munyas64 ou quintas de recreio e de disfrute das dádivas da natureza, semelhantes à famosa munya que al-Mutawakkil tinha nos arredores de Badajoz, junto ao Guadiana, em local ainda não identificado65.
30O principal porto de mar do reino aftácida de Badajoz era al-Qasr, a actual Alcácer “do Sal”. Sendo a via Alcácer – Badajoz um eixo vital, Elvas não deixaria de ser um ponto de paragem obrigatório.
31Que a Elvas islâmica do século XI não era desprovida de vida intelectual e religiosa e completava as necessidades da capital aftácida prova-o o facto de o responsável máximo da legação enviada, por ‘Umar al-Mutawakkil, ao dirigente almorávida Yûsuf ibn Tâshfîn, ter sido o jurista Ibn Mucana, estabelecido durante algum tempo em Elvas66.
2.1.5. O domínio dos impérios norte-africanos: a madîna Yalbash dos séculos XII e XIII
32Nos finais conturbados do século XI, o destronamento dos monarcas dos reinos de taifas67 e o início do domínio norte-africano produziram alterações consideráveis no quotidiano da região. Badajoz tornou-se numa cidade muito militarizada, base fundamental para a recuperação de Santarém e de Lisboa, entregues por al-Mutawwakil de Badajoz a Afonso VI de Leão e Castela. O desaparecimento de uma corte instalada em Badajoz e o radicalismo malikita que acompanhou a afirmação do poder almorávida atingiram tanto esta como outras zonas do al-Andalus. Em termos sociais, é possível que se tivessem quebrado equilíbrios existentes entre moçárabes, muladís e outros grupos existentes na região68
33Mais tarde, as campanhas de ibn Qasî, que se inserem no quadro do desgaste por que passa o poder almorávida no al-Andalus e no Magreb na última década da primeira metade do século XII, podem ter produzido alguma instabilidade também na zona de Elvas69
34É curioso que com as campanhas de Geraldo Sem Pavor, na década de sessenta do século XII, Elvas pareça arredada de protagonismo nos acontecimentos que então se verificaram, embora o cenário das operações levadas a cabo por este aventureiro seja precisamente em seu redor70. Com tal proximidade, Elvas e os seus campos não podiam deixar de se ressentir da instabilidade e das campanhas militares da década de 60 e 70 do século XII e que tiveram como protagonista principal uma figura controversa que tanto foi comparada com o “Cid”, como com um animal desprezível71.
35Por outro lado, a não alusão a Elvas pode significar que, pela sua posição estratégica e devido a um possível reforço das suas muralhas durante o período almorávida72, Geraldo nunca tentasse sequer tomar esta cidade que se deve ter mantido estreitamente ligada a Badajoz, formando com esta um eixo estratégico vital, que Geraldo e os seus homens nunca teriam conseguido quebrar.
36Uma das mais importantes referências a Elvas surge, precisamente, no século XII, o seu autor é o geógrafo al-Idrîsî73. Este autor situa Elvas na estrada que liga Santarém com Badajoz e dá algumas informações importantes. Ao referir que Elvas se localiza à direita da referida estrada confirma a existência de uma via a norte de Elvas que devia coincidir, em grande parte, com a via que de Emerita se dirigia para Ocidente. Por outro lado, este autor não deixa de dar uma descrição minuciosa do local, ao referir o relevo do sítio e o facto de Elvas ser um local fortificado. Revela ainda que o local era aprazível (talvez se referisse às suas características agrícolas74) e que, ao que parece, fora da zona muralhada, no espaço envolvente, havia muitas casas não faltando aí a actividade comercial75.
37Ou seja, em al-Idrîsî, Elvas é qualificada como uma madîna76. Os bazares ou mercados, por outro lado, poderão corresponder a mercados realizados extramuros, como estudou Chalmeta77, mercados esses com carácter cíclico, muitas vezes semanais78.
38Segundo esta obra de al-Idrîsî, sabe-se que no século XII Elvas tinha muralhas e deveria ter campos bem aproveitados e produtivos. Em redor do núcleo urbano havia numerosas casas79, algumas das quais seriam, certamente, villas de recreio – munyas –, como era habitual haver nos arredores das principais cidades do al-Andalus e de outros núcleos urbanos islâmicos, mesmo do Oriente80.
39Por outro lado, os mercados existentes em Elvas no exterior das suas muralhas, e referidos por al-Idrîsî, deviam integrar-se no que Christine Mazzoli-Guintard designa como “comércio a média ou mesmo a muito curta distância”81. Elvas talvez funcionasse como pólo de atracção de várias produções rurais da margem direita do Guadiana tendo, certamente, Badajoz como um dos mercados privilegiados dos seus produtos agro-pecuários. Tal situação condiz com a sua condição de “cidade secundária”82, não só pelas dimensões que apresenta, como pela própria situação de, em determinadas circunstâncias, apoiar, a curta distância, a capital aftácida83.
40Essa posição secundária não deixa de atribuir a Elvas um papel de destaque a nível da região em que se insere, como cidade de pequena dimensão e pólo regional.
41Uma recente edição de um outro manuscrito de al-Idrîsî84 lança novas achegas para o conhecimento de Elvas e da sua região, durante o século XII. Ao descrever o caminho de Badajoz para Lisboa/Ushbûna85, localiza Elvas/Ilbash a doze milhas de Badajoz e a uma etapa de uma localidade /alcaria situada entre Elvas e Évora86. Contudo, al-Idrîsî refere um outro caminho ligando Badajoz com Lisboa87, caminho esse que parece coincidir com o percurso inserido na sua “Geografia”. Se aí se situa Elvas, à direita da estrada que de Santarém se dirige para Badajoz, nesta obra mais recente o percurso indica um topónimo ainda não identificado (Marj al-Abâlis) e de significado curioso88.
42O local chamado de “prado dos diabos” é a primeira e a única vez que aparece referenciado por um autor de época islâmica. Contudo, não é impossível que possa tratar-se de um equívoco ou de uma má localização89. Por outro lado, também não é de excluir qualquer equívoco disléxico na transcrição do topónimo90. Na verdade, não era impossível que um copista que não conhecesse a região escrevesse Marj al-Abâlis em vez, por exemplo, de Marj al-Albis, ou seja, “prado ou almargem de Elvas”91.
43Um outro autor que traz uma referência muito provável a Elvas para este período é Yâqût (Iacute)92. O dicionário geográfico deste autor refere uma localidade que grafada como Alîs, dizendo sobre ela que “é uma cidade (madîna) de al-Andalus. Dista de Badajoz um dia de caminho.”93. Embora este editor da obra de Yâqût se incline para uma outra localização geográfica94, é muito provável que se trate, uma vez mais, de um equívoco de copista; em termos gráficos basta ter havido a falta de um simples ponto diacrítico para que um “yâ” se transformasse num “bâ”, daí resultando Albas ou Albis, como já há muito observou David Lopes95. Mais recentemente, apesar de continuar a haver quem atribua a Alîs outras localizações96, surgiram mais argumentos a favor da identificação deste topónimo com Elvas97.
44Por um lado, em termos de distância, a referência a “um dia de caminho”, concorda com a informação dada por Ibn Hawqal (uma jornada de distância entre Elvas e Badajoz) e corresponde ao que deveria ser o habitual numa jornada curta98. A referência de Yâqût, por outro lado, é bastante relevante pelo facto de chamar a Alîs uma madîna, no que coincide com al-Idrîsî. Ou seja, trata-se de um aglomerado urbano bem definido e de certa importância e não de um simples castelo ou aglomerado com funções estritamente militares. Tomando por base as informações dadas por estes autores, é possível concluir que, nos finais do século XII, Elvas tinha adquirido, em termos económicos, uma posição de alguma proeminência.
Notes de bas de page
1 Cf. David Lopes, Os Árabes nas obras de Alexandre Herculano, (Separata do Boletim de Segunda Classe), vol. III e IV, Lisboa, Academia das Ciências de Lisboa, 1911, pp. 65-66; o autor refere que Edrici escreve “IaLBaX” mas que, por sua vez, Ibn Hawqal e Ibn Alabar já escrevem “aLBaX”, para além de que, o erro da tradução de Jaubert leva Alexandre Herculano a também considerar que Elvas, durante o período islâmico, se chamava “Ielch”. Acrescenta David Lopes que Elvas “era povoação forte e muito afamada pela belleza das mulheres” (Ib., p. 66), informação que o autor retira de Edrici; veja-se também em A. Borges Coelho, Portugal na Espanha Árabe, vol. I, Lisboa, Seara Nova, 1972, p. 76.
2 Ou “ocidente” do al-Andalus, ou seja, do território islâmico da Península Ibérica.
3 H. significa Hégira, o momento crucial da vida do Profeta Muhammad (ou Maomé), que teve lugar em 622 d.C., a partir do qual se organiza o calendário islâmico, um calendário lunal.
4 A tomada de Mérida por Mûsà está rodeada de episódios curiosos, cuja memória se manteve durante o período islâmico e que aparece reproduzida em vários autores islâmicos. Veja-se, a este propósito, por exemplo, Ajbar Machmu’a, Madrid, Ed. Atlas, 1984 (ed. Facsimilar da de 1867), pp. 16-18 do texto árabe e pp. 29-30 da tradução; veja-se também M. Ángeles Pérez Álvarez, Fuentes árabes de Extremadura, Cáceres, Universidad de Extremadura, 1992, pp. 127-129; uma nova visão sobre o trajecto tomado por Mûsà para assediar e tomar Mérida, passando eventualmente pelo actual Alentejo pode encontrar-se em Pedro Chalmeta, op. cit., pp. 175-180.
5 Ibidem, p. 130.
6 O mesmo autor pensa que a informação proveniente de Ibn ‘Idhârî sobre o facto de esta expedição ter tido lugar ainda em 713 é algo duvidosa – Ibidem, p. 36.
7 Cf. Rachel Arié, España Musulmana (siglos VIII-XV), Barcelona, Ed. Labor (vol. III da Historia de España, dir. por Manuel Tuñon de Lara), 1984, pp. 14-15.
8 Cf. A. H. de Oliveira Marques, “O «Portugal» Islâmico” in Portugal das Invasões Germânicas à «Reconquista», vol. II da Nova História de Portugal, p. 122.
9 Christophe Picard, op. cit., p. 36-37.
10 Corresponde, grosso modo, a uma extensa área centrada em volta de Múrcia no Levante Ibérico. O texto deste pacto encontra-se publicado em várias obras, entre as quais se pode destacar Joaquín Vallvé, La división territorial de la España musulmana, Madrid, C.S.I.C., 1986, pp. 189-190 e A. Borges Coelho, op. cit., I, pp. 155-156.
11 Estes árabes entrados na primeira fase são conhecidos como baladiyyûn, alguns dos quais eram Iemenitas ou Kalbís, parecendo, contudo, que a maioria era constituída por Árabes do Norte, ou Qaysís. Cf. C. Picard, op. cit., p. 40 e Felipe Maíllo Salgado, Vocabulario básico de Historia del Islam, 1a ed., Madrid, Ed. Akal, 1987, p. 37.
12 Sobre a entrada de Balj e das suas tropas no al-Andalus, em 741, e das consequências que daí advieram, veja-se Joaquín Vallvé, op. cit., pp. 195-199.
13 Christophe Picard, op. cit., p. 39.
14 Assiste-se, a partir da segunda metade do século VIII, a um processo de islamização – de entrada de modelos recentes de criação de uma sociedade islâmica, acabando por adoptar-se o modelo ou madhhab malikita –, de criação de uma sociedade nova em que têm lugar as várias “gentes do livro” (ahl al-kitâb), e na qual se arrumam grupos sociais, étnicos e religiosos cujos contornos não estavam definidos à partida.
15 Expressão do português medieval utilizada por Oliveira Marques.
16 “Nous savons, par les nombreuses révoltes que s’y déroulèrent, que Mérida resta en majorité peuplée de chrétiens – les mozarabes – alors qu’un certain nombre d’entre eux se convertirent à l’Islam, devenant de ce fait des muwalladûn. Un certain nombre d’Arabes baladiyûn (...) s’installèrent dans la cité (...) nous avons connaissance de la résidence de nombreux Berbères dans cette région, mais ces derniers, comme les Arabes, restaient en nombre réduit comparativement à la population autochtone.” - Christophe Picard, op. cit., p. 40. Helena de Felipe possui o estudo mais actualizado sobre berberes no al-Andalus.
17 “La geografía de la España bereber nos ofrece, además de Nafza otras tribus asentadas en el valle del Guadiana o en sus proximidades. Entre ellas y junto a las de los Kutâma y Masmûda, encontramos a la de Hawwâra. (...) Casi todas las ciudades de estas Marcas parecen haber sido dominadas por los bereberes: Coria, Trujillo, Mérida, Medellín, Magacela, y Talavera. Todavía más hacia el oeste y en el sur, o sea, en todo el territorio portugués y en la actual provincia de Huelva, los bereberes parecen haber sido numerosos, pero se trata de comarcas sobre las cuales hay muy poca documentación.” - Juan Antonio Pacheco Paniagua, Extremadura en los Geógrafos Árabes, Badajoz, Diputación Provincial de Badajoz, 1991, p. 41.
18 A. H. de Oliveira Marques, op. cit., p. 183.
19 Joaquín Vallvé, op. cit., p. 194.
20 Sobre este e outros aspectos da administração islâmica no al-Andalus veja-se A. H. de Oliveira Marques, op. cit., pp. 183-188.
21 Cf. Joaquín Vallvé, op. cit., p. 315. O autor, delimitando a Kûra ou cora de Mérida e propondo novos limites para o seu território, refuta parcialmente os limites antes propostos por Félix Hernández Jiménez (em “La Kûra de Mérida en el siglo X”, Al-Andalus, vol. XXV, pp. 313-371.); Joaquín Vallvé refere que “por el oeste se adentraba por tierras actualmente portuguesas, pues la ciudad de Elvas (Ilbas) pertenecía a la cora de Mérida” - Ibidem, p. 315.
22 Esta substituição parece vir já atestada por al-Bakrí - Cf. Joaquín Vallvé, op. cit., p. 315, onde o autor afirma que “en el siglo X la capital de la cora ya era Badajoz (Batalyaws)...”.
23 Em 763/146H. rebentou em Beja uma revolta pró-abbásida com estreitas ligações à tribo Yahsubî; de 768 a 777, na zona da actual Extremadura espanhola e com possíveis ramificações pela actual Beira Baixa estalou uma rebelião liderada por um berbere - A. H. de Oliveira Marques, “O «Portugal» Islâmico”, p. 124. Vejam-se também Ch. Picard, op. cit., pp. 46-54; Santiago Macías, “Resenha de factos políticos” in História de Portugal (dir. por José Mattoso), vol. I, Lisboa, Círculo de Leitores, 1992, p. 420.
O Ajbar Machmuâ refere uma revolta e posterior fuga de “berberiscos del Algarbe” (p. 100) durante o reinado do emir Abd al-Rahman I; a dita rebelião teve lugar em 770, 4 anos depois da rebelião de Abu l-Sabâh Yahyà al-Yahsubî que teve lugar em 149/766: “los bereberes del Algarve, que se habían unido a los rebeldes...”. Veja-se, a este propósito, María Isabel Fierro, “Bazî’, Mawlà de ‘Abd al-Rahman I” in Al-Qantara, vol. VIII, 1987, p. 102.
24 Para além da mal conhecida revolta de Tumlus, em Lisboa, em 808-809 e de uma outra insurreição anti-omíada, em Beja, em 818. Veja-se A. H. de Oliveira Marques, op. cit., p. 124.
25 A. H. de Oliveira Marques, op. cit., p. 125.
26 Al-Jilliqî significa “o galego” ou, melhor, “o galaico”.
27 Vejam-se, a título de exemplo, A. H. de Oliveira Marques, op. cit., p. 126; Adel Sidarus, “O Alentejo durante a grande dissidência Luso-Muçulmana do século IX-X” in Nós e a História. Actas do Encontro Regional de História, Évora, 1990, pp. 33-43; idem, “Um texto árabe do século X relativo à nova fundação de Évora e aos movimentos muladi e berbere no Ocidente Andaluz” in A Cidade de Évora, nos 71-76, (anos XLV-L), Évora, 1994, pp. 7-37; Christophe Picard, “La fondation de Badajoz par Abd al-Rahman Ibn Yunus al-Jilliki (fin IXe siècle)” in Revue des Études Islamiques, XLIX, fasc. 2, Paris, Librairie Orientaliste Paul Geuthner, 1981, pp. 215-229.
Este último autor reconhece que a região de Mérida e Badajoz (que já existia em 834) revelava, na segunda metade do século IX, lutas clânicas entre uma população dominada por elementos berberes (a área entre o Guadiana e o Norte cristão estavam fortemente povoadas por berberes pertencentes às tribos Masmûda, Qutâma, Hawwâra e maioritariamente aos Nafza e Miqnasâ), muwallads e moçárabes, sendo estes últimos “encore nombreux à cette époque” (Ibidem, pp. 217 e 220)
28 Ibn al-Qutiyya viveu no século X da era cristã.
29 Ibn al-Qutiyya (ou Abenalcotía), editado por A. Borges Coelho, Portugal na Espanha Árabe, II, p. 165. A. Borges Coelho escreve “Albaxardal”; “Bacharbal” ou “al-Bacharbal” em C. Picard (Histoire du Portugal et de l’Espagne occidentale..., pp. 63-64; “Le Renouveau urbain en Occident Ibérique aux IX-X siècles, sous l’impulsion de Seigneurs Muwalladun” (23e Congrès de la Société des Historiens de l’Enseignement Supérieur Public, Brest, 1992) in Les Primes et les Pouvoirs au Moyen Âge, Paris, Publ. de la Sorbonne, 1993, p. 54; “El Bašarnal” em M. Ángeles Pérez Álvarez, op. cit., pp. 94-95, e em M. Terrón Albarrán, Extremadura Musulmana, Badajoz, 1991, p. 65; “Albasranal”, segundo Codera - Cf. Los Benimeruán en Mérida y Badajoz, p. 37; M. Terrón, idem, p. 65, nota 494.
A edição do texto árabe feita por Julián Ribera, Historia de la conquista de España de Abenalcotia el cordobés, Tomo II da Colección de Obras Arábigas de Historia y Geografía, Madrid, Real Academia de la Historia, 1926, pp. 74-76, fixa “
”, a partir de onde se têm feito várias propostas de transliteração (geralmente respeitando o grupo consonântico “B-SH-R-N-L”). Pelo sistema de transliteração adoptado obtém-se “albasharnal”. Por se aproximar do original ir-se-á utilizar também a grafia Albaxarnal. Referência a albasharnal na edição de Julián Ribera:
Tradução de J. Ribera (do texto referente à resposta dada por Ibn Marwân al-Jillîqî ao emir Muhammad, quando este lhe propõe um acordo e da localização que ibn al-Qutiyya faz de albasharnal): “... Él contestó: «¿Mi plán? Pues el siguiente: que si se me permitiese hacer lo que yo quisiera de El Baxarnal, construiría allí una ciudad, la poblaría y mantendría la oración (a nombre tuyo); pero no me habías de obligar a pagar contribución alguna, ni a obedecer a tus mandatos, ni acatar tus prohibiciones.” El Baxarnal a que se refería estaba frente a Badajoz, a la otra parte del río.”
30 Badajoz por vezes aparece grafada pelos geógrafos e cronistas de época islâmica como Batalyûs.
31 Christophe Picard, “La fondation de Badajoz par Abd al-Rahman Ibn Yunus al-Jilliki (fin IXe siècle)” in Revue des Études Islamiques, XLIX, fasc. 2, Paris, Librairie Orientaliste Paul Geuthner, 1981, (pp. 215-229), p. 217.
32 A maioria dos autores é mais parca em informações. É o caso de al-Bakri que refere, sem muitos outros pormenores, al-Jillîqî como fundador de Badajoz, após autorização do emir Muhammad (Abu ‘Ubayd al-Bakri, Geografía de España (Kitab al-Masalik wa-l-Mamalik), Saragoça, Anubar ed., 1982, p. 35); pela referência é de pensar que os muladíes não deveriam ser poucos na região (ib., p. 35).
33 A existência de água e terras de boa qualidade, bem como de formações geológicas capazes de fornecer materiais de construção, não seriam características de pouco valor.
34 Não seria improvável que, caso algumas das estruturas tecnológicas de épocas anteriores ainda se mantivessem e revelassem utilidade económica (por exemplo, algumas das barragens romanas que se detectaram perto de Elvas), tal também tivesse contribuído para a escolha inicial de ibn Marwân.
35 A localização, junto a Elvas, de vias romanas que provinham de Mérida e se dirigiam para Ocidente, não seria factor de pouca importância.
36 Como exemplo, vejam-se Ibn Hawqal e al-Idrîsî.
37 Veja-se a este propósito Valérie Dallière-Benelhadj, “Le «château» en al-Andalus: un problème de terminologie” in Habitats fortifiés et organisation de l’espace en Méditerranée médiévale (actas recolhidas e publicadas por A. Bazzana, P. Guichard e J. M. Poisson), Travaux de la maison de l’Orient no 4, Lyon, GIS –Maison de l’Orient, 1983, p. 67.
38 Transcrição adoptada por M. Ángeles Pérez Álvarez, op. cit., p. 95; veja-se também, Ibidem, p. 287. A autora segue a edição do texto de Ibn al-Qutiyya feita por Julián Ribera (pp. 88 a 91 do texto árabe e pp. 74 a 76 da tradução).
39 C. Picard, op. cit., p. 226.
40 Pode-se apreciar o que se conhece acerca da genealogia desta família em M. Ángeles Pérez Álvarez, op. cit., p. 297.
41 O primeiro omíada do al-Andalus a tomar o título de califa (khalifa) no ano de 316 H. (25 de Fevereiro de 928 a 13 de Fevereiro de 929) Cf. Ibn Hayyân, Crónica del califa ‘Abdarrahmân III an-Nasir entre los años 912 y 942 (al-Muqtabis V), (tradução, notas e índices por Ma Jesús Viguera e Federico Corriente), Zaragoza, Anubar ed. /Instit. Hispano-Arabe de Cultura, 1981, pp. 184-185.
42 “El resto de los habitantes del Algarve [leia-se Ocidente] y de otras regiones se afligieron sobremanera por esta calamidad de Évora, y concibieron tan gran temor del enemigo, que se consagraron a reparar sus murallas y a fortificar sus castillos. Los que lo tomaron más a pecho fueron los habitantes de la ciudad de Badajoz, cuya muralla, de adobe y tapial, era la misma de tiempos de ‘Abd al-Rahmân ibn Marwân al-Yîllîqî.” – Una crónica anónima de ‘Abd al-Rahmân III al-Nâsir, edit. e trad. por E. Lévi-Provençal e E. García Gómez, Madrid – Granada, C.S.I.C., 1950, p. 112; veja-se também Ibn Hayyân, Crónica del califa ‘Abdarrahmân III an-Nasir entre los años 912 y 942 (al-Muqtabis V), pp. 81-83, onde Ibn Hayyân retoma palavras de al-Râzî.
43 O reforço das obras amuralhadas de Badajoz é levado a cabo por ‘Abd Allâh b. Muhammad b. ‘Abd al-Rahmân b. Marwân b. Yûnus, senhor de Badajoz nesse mesmo ano, ou seja, é feito por um neto de ‘Abd al-Rahmân b. Marwân b. Yûnus al-JillÎqî. Contudo, pela leitura do texto de Ibn Hayyân fica-se a saber que outros locais se reforçaram: “...el tirano Ordoño hijo de Alfonso, a quien Dios maldiga, partió precipitadamente con su ejército el jueves, al día siguiente [14 de muharram de 301 / 20 de Agosto de 913] de conquistar la ciudad [de Évora], y marchó victorioso a Ŷillîqiyya[Jillîqiyya]. Conmoviéronse todas las gentes de occidente, y los demás, fuertemente con lo ocurrido a los de Evora y, temiendo grandemente al enemigo, comenzaron a reparar sus murallas, proteger sus puntos débiles y fortalecer sus baluartes diligentemente. Fueron los de Badajoz, la mayor de las ciudades, quienes mejor lo hicieron, gracias a su poderío.” – Ibn Hayyân, op. cit., p. 83.
44 Ibn Hayyân, op. cit., p. 187; este autor refere que o governador de Badajoz nessa altura era bisneto do primeiro revoltoso muladí; informa ainda Ibn Hayyân que o Califa “volvió desde allí a Badajoz, acampando esta vez en otro lugar, para mayor daño...”.
45 Ibn Hawqal, oriental natural de Bagdad que visitou o al-Andalus no século X (em 948, durante o califado de ‘Abd al-Rahmân III), informa que grande parte dos camponeses eram cristãos e que as revoltas não deveriam ser raras – Ibn Hawqal, Configuración del Mundo (fragmentos alusivos al Magreb y España), Valencia, Anubar Ed., 1971, p. 63.
46 No ano de 318 H. (Fevereiro de 930 a Janeiro de 931) al-Nâsir toma finalmente Badajoz que estava nas mãos de ‘Abd al-Rahmân b. ‘Abd Allâh b. Marwân, também conhecido, como o seu antepessado por al-Jillîqî-Ibn Hayyân, op. cit., p. 205).
47 “amân” como significando “graça, perdão, garantia de segurança” - Cf. Felipe Maíllo Salgado, Vocabulario básico de Historia del Islam, p. 29.
48 “Entre el río Tajo y el borde del mapa, junto al mar: Lisboa, Cintra, detrás de la cual en el continente se le: Santarem, Aviz, Juromenha, Elvas.” (...) “De Juromenha a Elvas, un día. de Elvas a Badajoz, donde se atraviesa el río, un día.” – Ibn Hawqal, Configuración del mundo..., pp. 15 e 68. O texto árabe fixado é o seguinte:
(“... e de Juromenha a Elvas um dia e de Elvas a Badajoz, onde se atravessa o rio, um dia...”) – Cf. Ibn Haukal (Abû ‘l-Kâsim ibn Haukal al-Nasîbî), Opus Geographicum, 3a ed., Bibliotheca Geographorum Arabicorum, II, Paris – Leiden, E. J. Brill, 1967, p. 115.
49 Trata-se de Abû Bakr Ahmad ibn Muhammad ibn Mûsà al-Râzî, um dos autores mais importantes para a História e a Geografia do al-Andalus. Recentemente António Rei debruçou-se sobre este autor e a sua obra, na sua dissertação de doutoramento.
50 Na edição de Diego Catalán a descrição do termo de Mérida termina com a referência ao Guadiana e à distância que separa esta cidade de Córdova. D. Catalán e M. S. Andrés, Crónica del Moro Rasis, Madrid, 1975, p. 79. O texto incluído na Crónica Geral de Espanha de 1344 também não refere Elvas – L. F. Lindley Cintra, Crónica Geral de Espanha de 1344, vol. II, p. 64.
51 Ahmad al-Râzî, edição de E. Lévi-Provençal, “La «description de l’Espagne» d’Ahmad al-Râzî”, Al-Andalus, XVIII (1953), p. 87.
52 Cf. E. Lévi-Provençal, op. cit., pp. 84-87; cf. Pascual de Gayangos, Memoria sobre la autenticidad de la crónica denominada del Moro Rasis, Real Academia de la Historia, 1853, pp. 53-54,
53 C. A. Ferreira de Almeida, em relação a esta peça, tanto considerou datar da primeira como já, possivelmente, da segunda metade do século X: “No Museu de Elvas expõe-se um pequeno capitel, bem conservado, de tipo coríntio, em mármore branco da região, muito cuidado e revelador de esplêndida técnica, o qual deverá datar da primeira parte do século X” – Carlos Alberto Ferreira de Almeida, Arte da Alta Idade Média, vol. 2 da História da Arte em Portugal, Publ. Alfa, Lisboa, 1986, p. 87; “Capitel califal (Museu de Elvas). Em mármore branco da região... A composição geral do capitel... e a finura do desenho colocam-no entre as boas produções de capitéis da época califal, possivelmente já sobre a segunda parte do século X. – Ibidem, p. 79, legenda da figura.
54 Segundo informações prestadas pelo senhor Marinho, foi encontrado em Elvas, em finais do século passado, um tesouro monetário constituído essencialmente por peças datáveis do período califal. O referido estudioso e especialista em numismática de época islâmica tem esse achado em mãos e em vias de publicação.
55 Cf. Rachel Arié, op. cit., pp. 26-27; sobre o significado de fitna, como “sedição, discórdia, tumulto” ou mesmo “guerra civil” veja-se F. Maíllo Salgado, Vocabulario..., p. 65.
56 Taifa é a palavra de origem árabe (do ár. tâ’ifa, pl. tawâ’if) com o significado de “partido” que é utilizada para o período que se segue ao desmoronar do Califado de Córdova.
57 É frequente o equívoco que este vocábulo gera, na medida em que pode significar “escravo”, bem como “eslavo”, visto que muitos dos “eslavos” que entravam no al-Andalus, entravam numa situação de escravatura. Para M. J. Viguera “Cabe observar que, a pesar de su etimología (siqlabí = eslavo; luego «esclavo»), por la importancia del elemento balcánico en la trata medieval, la mayoría de los esclavos «eslavos» traídos a al-Andalus procedían del occidente europeo (norte peninsular, costas francesas o italianas). Eran más valorados que los ‘abîd, esclavos africanos, también existentes en al-Andalus.” – Los Reinos de Taifas y las invasiones magrebíes (Al-Andalus del XI al XIII), Madrid, Ed. Mapfre, 1992, pp. 20-21.
58 O primeiro dos aftácidas a governar Badajoz foi inicialmente visir de Sâbûr; os filhos deste, embora reclamassem, a partir de Lisboa, os seus direitos ao poder, nunca o conseguiriam. Os aftácidas eram berberes da tribo Miknâsa.
59 María Jesús Viguera (Ibidem, p. 46), apresenta uma relação completa dos governantes desta dinastia. Daí se retirou, em grande medida, este levantamento:
I. Inícios eslavos:
Sâbûr (ap. 1009-1022).
II. A dinastia aftácida:
‘Abd Allâh b. Maslama b. al-Aftas, al-Mansûr (1022-1045)
Muhammad b. ‘Abd Allâh, al-Muzaffar (1045-1067-68)
Yahyà b. Muhammad, al-Mansûr (1067-68–1072 ap.)
‘Umar b. Muhammad, al-Mutawwakkil (1067-68, em parte do território da taifa, a partir de Évora; também em Badajoz desde, aproximadamente, 1072. Foi morto pelos Almorávides em 1095-96).
Al-Mansûr III, durante um curto período de tempo, a partir de Montánchez.
60 Trata-se de referências a um período de seca que alarmou a própria pessoa do monarca aftácida, seca essa que terminou com a chegada das almejadas chuvas (vejam-se Ibn al-Abbar, Al-Hulla al-Siyyara’, p. 97 e Al-Maqqarî, Nafh at-tib, Tomo I, pp. 439-440, citados por M. Terrón Albarrán, El solar de los Aftásidas (...), Badajoz, 1971, p. 651.)
61 Esta referência é deveras significativa, na medida em que coloca Elvas como ponto de passagem por quem utiliza as vias de acesso aos núcleos urbanos do Gharb localizados mais a ocidente, vias essas que deveriam ser decalque das vias de época romana.
62 Al-Maqqarî, op. cit., p. 440, citado por M. Terrón, op. cit., p. 651 e nota 610.
63 “Al-Fath al-Jaqan [ou al-Khaqan] cuenta en sus Qala’id este viaje (...); alude al paso por Elvas, en la que resplandecen sus espaciosos lugares plantados de árboles y donde a cualquer sitio que se mira se contempla un huerto o vergel magníficos (...)” – “Al-Fath al-Jaqan, en Specimen, de Hooguliet, páginas 86-90, citado por M. Terrón, op. cit., p. 651 e nota 611. A alusão a jardins, feita por al-Maqqarî, não deveria excluir o que se considera uma horta, tendo em conta o conceito islâmico de jardim.
64 Sobre a existência de casas de campo nos arredores dos núcleos urbanos do al-Andalus, às quais não faltavam jardins e hortas, veja-se L. Torres Balbás, “Los contornos de las Ciudades hispanomusulmanas”, Obra Dispersa I, vol. IV, Madrid, Instituto de España, 1982, (pp. 293-344), pp. 303, 307-320, 341-342 e passim. A semelhança com as villæ de origem romana é evidente.
65 Al-Maqqarî descreve essa quinta de recreio nos seguintes termos: “‘Umar había creado una munya junto ao río Guadiana, hermoso vergel, de aguas rientes y abundosas florestas, a la que se conocía con el nombre de al-Badi’, que significa en árabe la espléndida, la soberbia” – op. cit., I, pp. 421-422, citado por M. Terrón, op. cit., p. 649. A existência de palmeiras pode significar não obrigatoriamente uma aportação de árabes ou berberes, mas sim que a zona de Elvas era um território onde se faziam sentir influências orientais, ou seja, tradições existentes em outras zonas islamizadas, mas também em outras zonas da bacia do Mediterrâneo. Também citada por L. Torres Balbás, “Los contornos de las ciudades...”, pp. 341-342. Sobre o processo evolutivo de Alcácer do Sal durante o período islâmico veja-se Maria Teresa Lopes Pereira, Alcácer do Sal na Idade Média, Dissertação de mestrado em História Medieval apresenta à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 1998, pp. 35-43.
66 José D. Garcia Domingues, “O Garb extremo do Ândalus e «Bortuqal» nos Historiadores e Geógrafos Árabes”, op. cit., p. 100. Christine Mazzoli-Guintard refere a existência de um sábio, em Elvas, durante o período almóada; como, porém, a tabela de sábios por cidade que apresenta se divide em três períodos cronológicos (1 – de 711 a 961; 2 – 961 a 1058; 3 – época almóada) com uma lacuna de tempo de cerca de cem anos entre 1058 e o início do período almóada, é possível que esse sábio seja o referido Ibn Mucana, se se entender o terceiro período não só como “época almóada” mas como “até à época almóada”, na medida em que a embaixada enviada aos almorávidas tem lugar depois de 1058 - Christine Mazzoli-Guintard, Villes d’al-Andalus. L’Espagne et le Portugal à l’époque musulmane (VIIIe-XVe siècles), Rennes, P.U.R., 1996, p. 332. Este Ibn Mucana é – informação que agradeço ao Prof. Doutor Adel Sidarus – irmão do homónimo, natural de Alcabideche e que se celebrizou como poeta. Sobre esta última informação veja-se cf. A. Borges Coelho, Portugal na Espanha Árabe, vol. IV, p. 335.
67 A este propósito veja-se El siglo XI en 1a persona. Las “memorias” de ‘Abd Allah, último rey Zirí de Granada, destronado por los Almorávides (1090), trad. por E. Lévi--Provençal e E. García Gómez, Madrid, Alianza ed., 1980, pp. 293-296.
68 Ver Bernard Reilly, Cristãos e Muçulmanos. A luta pela Península Ibérica, Lisboa, ed. Teorema, 1996, pp. 128-129; Jacinto Bosch-Vilá, Los almorávides, ed. facsímil, Granada, 1990 (1a ed., 1956), pp. 49-58, com a útil actualização E. Molina López (Ibidem, pp. LIII-LXXIX).
69 José Mattoso afirma que o movimento do místico Abû-l-Qâsim al-Husayan ben Qâsî, geralmente conhecido por Ibn Qâsî teve as suas repercussões na zona de Elvas, na medida em que, em 1145, Abû Muhâmmad Sidray Ibn Wazîr (também ele um doshomens do movimento muridin) a partir de Évora passa a controlar a zona que se estendia até Badajoz; até que, no ano seguinte, em 1146, os almóadas são chamados por Ibn Qâsî na sequência das suas desavenças com Ibn Wazîr; na verdade, os almóadas atravessam o estreito de Gibraltar e apoderam-se, entre outras localidades, de Badajoz, permanecendo Ibn Wazîr com controlo sobre Évora. A zona de Elvas não deve ter vivido momentos tranquilos entre meados da década de 40 e até 1151, ano é que Ibn Qâsî é morto.
70 José Mattoso apresenta um completo mapa do teatro das operações levadas a cabo por Geraldo, através do qual se vê que Elvas parece ser sempre torneada pelas suas forças (“1096-1325” in História de Portugal, direcção de José Mattoso, vol. II, 1a ed., s/l, Círculo de Leitores, 1993, p. 77). Um autor fundamental como Ibn Sahib não cita Elvas, o que parece significar que esta localidade não se encontrou, estranhamente, no centro dos acontecimentos que envolveram Juromenha, Badajoz, Medellín, Lobón, Trujillo e outras localidades.
71 Se David Lopes considera Geraldo um “Cid português”, já para Ibn Sâhib al-Salâ ele não passa do “cão do Giraldo” - op. cit., p. 137.
72 Desconhece-se se Elvas teria ou não sido fortificada ou reforçada após a tomada e destruição causada em Évora por Ordonho II; caso tal tivesse acontecido, é possível pensar que as obras a efectuar não fossem de grande monta.
73 Al-Idrîsî integra os territórios de Mérida, Badajoz e Évora nos aqâlîm (pl. de iqlîm, divisão, distrito) de al-Qasr Abû Dânis (a futura Alcácer do Sal) – Cf. R. Dozy e M. J. de Goeje, Description de l’Afrique et de l’Espagne par Edrisi, Leiden, E. J. Brill, 1866, p. 175; vejam-se também M. Ángeles P. Álvarez, op. cit., p. 53; Christine Mazzoli-Guintard, op. cit., p. 239.
74 A este nível a tradução apresentada por Borges Coelho é menos rica: “À direita da estrada fica Elvas, praça forte situada no sopé de uma montanha. Na planície [não qualifica as terras] que a cerca há muitas casas e bazares. As mulheres são de grande beleza” – A. Borges Coelho (org.), op. cit., vol. I, pp. 75-76. Veja-se também a edição espanhola: “... Elvas, plaza fuerte situada al pie de una montaña. En la alegre comarca que la rodea, hay muchas casas y bazares. Las mujeres...” – Geografía de España, p. 23.
75 O texto árabe fixado na obra Opvs Geographicvm é o seguinte (p. 550):
É de destacar as expressões: (
) “madîna Ialbax”; (
) “... sûr” (muralhas); (
)”‘aswâq” (mercados, bazares); (
) “wa-diyâr (casas) kathîra (numerosos)...”.
76 Cf. Christine Mazzoli-Guintard, op. cit., p. 44.
77 Chalmeta, pegando nas escassas informações prestadas por Idrîsî, refere vários “mercados rurais” no Al-Andalus, de entre os quais esses dos arredores de Elvas (Cf. Pedro Chalmeta, El “señor del zoco” en España: edades media y moderna, contribución al estudio de la historia del mercado, Madrid, Instituto Hispano-Árabe de Cultura, 1973, pp. 89 e 147).
78 Miguel Cruz Hernández, El Islam de Al-Andalus, Historia y estructura de su realidad social, Madrid, 1992, p. 260.
79 Do árabe ‘amara, da raiz
(‘amara) que significa “estar habitado, ser frequentado por” – Federico Corriente, Diccionario Árabe-Español, Madrid, Instituto Hispano-Árabe de Cultura, 1977, p. 534.
80 É possível que se tratasse de munyas já existentes sob domínio aftácida, pertencentes a alguns dos seus magnates e que, tendo atravessado algumas décadas conturbadas, mostrariam vitalidade quando por Elvas passou al-Idrîsî.
Aliás, a agradabilidade de Elvas aos olhos de al-Idrîsî não se ficou por aqui; segundo este viajante algo mais havia a destacar: a beleza das mulheres agradou a este observador atento que parece ter guardado agradáveis recordações destas paragens.
81 Op. cit., p. 81.
82 Estes mercados de Elvas, segundo a interpretação de Christine Mazzoli-Guintard, não apresentam indícios de comércio a longa ou a média distância, o que leva a autora a classificá-los no seu “Tipo 4” - Ibidem, p. 84.
Sobre a sua categoria de “cidade secundária” - Ibidem, p. 124.
83 C. Mazzoli-Guintard considera que Badajoz não teve grande importância comercial. Trata-se, porém, de uma apreciação respeitante ao século XI: “Badajoz, capitale pendant presque trois quarts de siècle d’une principauté à propos de laquelle les sources que nous avons consultées sont muettes sur ses relations commerciales” - Ibidem, p. 232.
84 Al-Idrîsî, Los caminos de Al-Andalus en el siglo XII según «Uns al-Muhaŷ wa-Rawd al-Furaŷ» (Solaz de corazones y prados de contemplación), estudo, edição, tradução e anotações de Jassim Abid Mizal, Madrid, C. SI. C., 1989; data de meados do século XII - Ibidem, p. 28.
85 “Percurso A”, como lhe chama A. H. de Oliveira Marques - “O «Portugal» islâmico”, p. 170.
86 “La ruta Badajoz a la ciudad de Lisboa (Ušbûna) – De Badajoz a la ciudad de Elvas (Ilbaš) hay doce millas, a la alquería de ‘Ukâša una etapa, a la ciudad de Évora una etapa (...)” – Al-Idrîsî, Los caminos..., p. 82. A referida alcaria ainda não foi localizada.
87 “Percurso B”, como lhe chama A. H. de Oliveira Marques – (op. cit., p. 170).
88 “Las distancias que hay entre Badajoz a la ciudad de Lisboa (Ašbûnah) – De Badajoz a Marŷal-Abâlis hay una etapa, (...)” – Al-Idrîsî, Los caminos..., p. 82. O editor traduz à letra por «Prado de los diablos», ou seja, “prado ou almargem dos diabos”.
(“Marŷ al-Abâlis” = Marj al-Abâlis).
O texto editado (Ibidem pp. 144 – 49-50) é o seguinte:
89 Curiosamente, entre Évora e Beja existe um troço de calçada, possivelemente de época romana, e que era conhecida como a “estrada dos diabos” - Cf. Mário Saa, As grandes vias da Lusitânia, tomo IV, Lisboa, 1963, pp. 250-264
90 O próprio editor desta outra obra de al-Idrîsî, Jassim Abid Mizal, diz que “el copista posee un escaso conocimiento de la lengua árabe y un bajísimo nivel cultural, manifestado en la gran cantidad de errores que comete, ausencia de puntos diacríticos, mala colocación de los mismo, etc.” – op. cit., p. 27.
91 O “percurso B” (segundo a sistematização de Oliveira Marques) entre Badajoz e Lisboa tem as distâncias expressas em jornadas (markhalas) e não em milhas. Ao afirmar que a distância entre Badajoz e Marj al-Abâlis é de uma jornada e, tendo presente que uma jornada normal equivale a cerca de 24 a 29 milhas e, sabendo-se ainda que uma milha equivale, em média, a 1,825 km, é de aceitar a proposta de Oliveira Marques que coloca o local chamado de “prado dos diabos” a cerca de 40 km de Badajoz. Contudo, sabe-se que uma milha pode variar entre 1,2 e 2,1 km e que a markhala, em Idrîsî, apresenta valores que podem variar entre as 22 e as 35 milhas. Dessa forma, não era impossível que o “percurso B” de Badajoz para Lisboa, por Santarém, tivesse como final de uma etapa uma zona aprazível dos arredores de Elvas (“prado de Elvas”?), aproveitando o percurso de uma velha estrada romana, o que equivalia a uma jornada pequena fazendo contas a cerca de 1,2 km/milha. Sobre este assunto vejam-se Oliveira Marques, op. cit., p. 170, e as anotações de Jassim Abid Mizal em Al-Idrîsî, Los caminos..., pp. 36 e 106-107.
92 Cf. Gamal ‘Abd al-Karim,” La España musulmana en la obra de Yâqût (XII – XIII). Repertorio enciclopédico de ciudades, castillos y lugares de al-Andalus extraído del Mu‘ŷam al-buldân (Diccionario de los países)” in Cuadernos de Historia del Islam, no 6, Granada, Universidade de Granada, 1974. Trata-se de uma obra escrita entre 1225 e 1229 (Ibidem, p. 30), contendo muita informação referente ao século anterior.
93 Cf. Gamal ‘Abd al-Karim, op. cit., p. 61.
94 Em nota, a propósito de “Alîs”, Gamal ‘Abd al-Karim diz (p. 61): “Podría tratarse del lugar conocido actualmente por Santo Alixo (sic), situado entre Gelves [sic – Elvas?] y Sousel en Portugal. Tal vez sea Alias, en la provincia de Cáceres”
95 Aliás, o equívoco entre bâ e yâ medial (ou letras “B” e “I”) já é apontado, sem mais explicações, por David Lopes. Este autor diz, a propósito de uma outra edição do texto de Iacute, que “deve emendar-se I em B” – David Lopes, Os árabes nas obras de Alexandre Herculano, p. 66).
96 Elías Terés, sem grande convicção, embora não desconheça que Yâqût “registra un topónimo escrito Alîs como nombre de una ciudad (madîna) que estaba a una jornada de Badajoz”, encontra semelhanças entre este topónimo e o hidrónimo Guadalix, afluente do Jarama, perto de Madrid; (Elías Terés, Materiales para el estudio de la toponimia hispanoárabe – Nómina Fluvial, tomo I, Madrid, C.S.I.C., 1986, p. 379). A parte quinta do al-Muqtabis de Ibn Hayyân refere o topónimo Alsa (= Alîsha); os tradutores do texto perguntam-se se não se tratará deste topónimo referido por Yâqût - Cf. Ibn Hayyan, Al-Muqtabis V, pp. 210-211 e 421. Contudo, pela sua localização junto ao Tejo, entre Talavera e Toledo, deverá tratar-se de outro local. Sobre a dificuldade em identificar alguns topónimos, a partir das fontes escritas de época islâmica, vejam-se a título de exemplo: Félix Hernández Jiménez, “Estudios de Geografía Histórica Española”, Al-Andalus, XIV, pp. 329-332, (neste caso a propósito da identificação de Coruche nas fontes árabes); ‘Abd Al-Karim, Gamal, op. cit., pp. 60-61, notas 1, 4 e 5; Abû ‘Ubayd al-Bakrî, Geografía de España (Kitâb al-Masâlik wa-l-Mamâlik), (introd. e trad. de Eliseo Vidal Beltrán), col. Textos Medievales, no 53, Zaragoza, Anubar ed., 1982, pp. 9-10.
97 “Alish – Yâqût dice que es una ciudad de al-Andalus que está a un día de camino de Badajoz. Podría ser Albis y tratarse de Elvas o qualquer otro topónimo con éste étimo latino” – M. Ángeles Pérez Álvarez, op. cit., p. 258.
98 Esta afirmação de Yaqut pode ajudar a cimentar a ideia de que Marj al-Abâlis pode ser não mais que uma deturpação, hipoteticamente, de Marj al-Albis, já que Yaqut faz coincidir com Elvas a primeira etapa de quem vem de Badajoz para o Ocidente.
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