1.1. Enquadramento geográfico
p. 19-26
Texte intégral
Vaso já por vezes modelado pela vida tradicional, o território serve a esta não apenas de assento mas de condição, que o evoluir do tempo fará actuar de diversa maneira.
Orlando Ribeiro, Introduções Geográficas à História de Portugal, estudo crítico, Lisboa, 1977, p. 20.
1Fazendo parte da região actualmente designada como Alto Alentejo, o território em redor de Elvas possui características morfológicas e geológicas semelhantes às da região em que se integra. Não deixa, porém, de sugerir algumas particularidades, situação que não é de estranhar dado que o Alentejo tem sido perspectivado geograficamente como mais que uma simples região1.
2Por outro lado, o facto de o Alto Alentejo2, em geral, e a região de Elvas, em particular, carecerem de aprofundados estudos de carácter geomorfológico3 leva a que se coloque particular cuidado na caracterização de Elvas e da sua região.
3É sobre um naco de Maciço Antigo moldado por uma erosão intensa, onde dominam os suaves ondulados das peneplanícies, que se localiza a região de Elvas4. Mas essa antiguidade, em termos geológicos, de grande parte das suas terras, não significa que não tenha conhecido novidades. De facto, a região em que se insere Elvas, sob o ponto de vista geológico, é de grande riqueza e variedade5.
4A complexidade geológica da região deve-se também ao facto de a grande falha tectónica que atravessa o Alentejo também por aqui passar6, considerando-se provável que a dita falha (detectada a cerca de 3 km para SW e a cerca de 6 km para NE) atravesse o próprio núcleo urbano. Parte do subsolo urbano e uma grande mancha em seu redor são ricos em rochas eruptivas7. Entre Elvas e os campos da vizinha Espanha há semelhanças evidentes. Se as formações geológicas que se encontram ao longo do curso médio do Guadiana são idênticas junto a Elvas e a Badajoz, também no caso das formações do período Câmbrico do sistema da Era Paleozóica, essas mesmas formações continuam para Espanha8.
Altimetrias
5O relevo assume na região uma oscilação “morna”, variando entre os 150 e os 500 metros de altitude (Mapa 1).
Mapa 1 – Elvas na “Ibéria física”, segundo Bernard Reilly (Las Españas…, p. 291)

6Dentro deste intervalo dominam as altitudes inferiores a 400 metros, embora a zona oeste do termo de Elvas, junto a Vila Boim, apresente já altitudes superiores às demais zonas do território do termo9. Aliás o “alto” de Vila Boim, entre esta localidade e a capela de S. Lourenço, é precisamente o ponto do termo de Elvas em que se regista a cota de maior altitude, precisamente 495 m de altitude10.
7Em redor do núcleo urbano de Elvas dominam as cotas próximas dos 300 metros. A cota máxima urbana quase atinge este valor. A norte, no cabeço em que se encontra o forte da Graça e que, no período medieval, era conhecido como serra de S. Domingos, encontra-se a cota mais alta das suas imediações, precisamente 383 m11. Trata-se de um relevo que nunca impediu a penetração de ventos de civilização vindos sobretudo do sul (Mapa 1)12.
Hidrografia
8Sente-se a falta de um estudo aprofundado sobre as linhas de água na região, situação comum a outras regiões de Portugal13. Não faltam, porém, na região as linhas de água. No entanto, a quantidade de água disponível é, geralmente, escassa e, a esse nível, Elvas não foge às características próprias da zona raiana14.
9Assumindo papel de destaque está o rio Guadiana que corre sensivelmente a SE e ao qual se junta o rio Caia que corre na parte norte do termo de Elvas. A maior parte das ribeiras e dos pequenos ribeiros é a estas duas linhas de água que se vão juntar15 (Mapa 2).
Mapa 2 – Toponímia, hidronímia e atalaias

10O território do termo de Elvas, excepto uma pequena franja ocidental do mesmo, integra-se na área da bacia vertente para o Guadiana16, rio este que se sabe ser bastante irregular, mas cujo regime continua muito pouco conhecido17. Para a zona do curso médio do Guadiana, junto a Elvas, escasseiam as informações18. Em geral, as várias linhas de águas da zona de Elvas têm um regime muito irregular, dependente da pluviosidade e da dureza das estiagens19.
11Parece não terem sido publicados estudos específicos quanto às características da região a nível de águas subterrâneas20. Na verdade, registam-se algumas fontes e nascentes, locais de abastecimento de água de relevante importância.
12Orlando Ribeiro inclui o troço do Guadiana, que se localiza próximo de Elvas até montante de Mérida, numa zona de “navegação fluvial importante”21, o que transforma este troço médio do Guadiana numa estrada de indiscutível interesse, sobretudo para os tempos mais recuados.
Clima
13Segundo Lautensach, e de acordo com as medições efectuadas entre 1903 e 1932 na zona de Elvas, a precipitação média anual vai dos 500-600 mm a 700-800 mm anuais; precipitações semelhantes às registadas na Estremadura portuguesa, embora a zona mais oriental do termo de Elvas já registe precipitações mais fracas, comparáveis com as que se registam no actual Baixo Alentejo22. Trabalhos posteriores de Orlando Ribeiro acentuam a variedade de quantidades de precipitação registada na área do alfoz de Elvas, mostrando claramente que a zona Este e NE do seu termo são menos visitadas pela chuva e apresentam claras semelhanças com os campos das vizinhas terras da actual Extremadura espanhola23.
14Elvas integra-se, tal como todo o Alto Alentejo e o Vale de Tejo, numa região em que é de três o número de meses em que se registam chuvas escassas24. Segundo trabalhos mais recentes de Suzanne Daveau, Elvas localiza-se numa das zonas do actual território nacional continental em que a quantidade de precipitação anual média é menor25.
15Quanto a temperaturas, o alfoz de Elvas encontra-se maioritariamente dentro das zonas que, segundo a terminologia empregue por Suzanne Daveau, apresenta Inverno “fresco” e Verão “muito quente”, com temperaturas médias superiores a 32° no mês mais quente e 120 ou mais dias com máximas superiores a 25° de temperatura26.
16Sob o ponto de vista bioclimático, Elvas integra-se numa região bioclimática de tipo Pré-Mediterrâneo interior27. Para Mariano Feio, o clima português, pelo facto de ter chuvas a mais no Inverno e de menos no Verão, só é apto para algumas culturas, de entre as quais se destacam “a vinha, a oliveira, algumas árvores florestais (sobreiro, pinheiro e eucalipto) e determinadas culturas regadas”28. Este panorama, a que não falta até o regadio, será útil para compreender alguns aspectos do quotidiano dos espaços periurbanos da Elvas medieval.
17Quanto ao clima específico de Elvas, estudos da década de 70 do presente século demonstram que, apesar de ser uma localidade meridional, apresenta características continentais, com uma amplitude térmica diária média mais acentuada no Verão (17°) que no Inverno (estação em que essa amplitude térmica desce para 9°), devido à “forte insolação estival”29.
18Todos estes factores condicionam o tipo de cobertura vegetal dominante na região. A nível florístico Lautensach integrou Elvas na região que denominou “Alentejo Oriental”, a qual considerou ser a zona continental que “apresenta a maior percentagem de espécies mediterrâneas”30.
19Já se referiu a existência de nítidas semelhanças entre a geologia das zonas de Elvas e de Badajoz. Porém, as semelhanças entre essas duas terras vizinhas não se ficam pela geologia. Na verdade, já Amorim Girão tinha posto em evidência a existência de semelhanças entre a “paisagem física, animal e humana da Extremadura espanhola com a do Alentejo31.
Notes de bas de page
1 “Já se escreveu que «o Alentejo não é uma província, é um país» – tal a variedade de aspectos que nos apresenta” – A. de Amorim Girão, Geografia de Portugal, 3a ed., Portucalense ed., Porto, 1960, p. 412.
2 Se Lautensach inclui Elvas no “Alto Alentejo”, Orlando Ribeiro, em 1955, introduz uma curiosa nuance, na medida em que, para este geógrafo, a região de Elvas pertence ao Alentejo, embora dentro de uma “unidade de paisagem” que denomina de “Alto Alentejo”. Veja-se Orlando Ribeiro e Hermann Lautensach, Geografia de Portugal, com org., comentários e actualização de Suzanne Daveau, vol. IV – A vida económica e social, ed. J. Sá da Costa, 1.a ed, Lisboa, 1991, pp. 1239, 1245 (fig. 269) e 1270-1271 (fig. 261).
3 Ainda recentemente a geógrafa Suzanne Daveau considerava que “o Alto Alentejo continua [a ser], em conjunto, uma das regiões portuguesas menos estudadas do ponto de vista geomorfológico” (comentários e actualização de Suzanne Daveau a Orlando Ribeiro e Hermann Lautensach, Ibidem, vol. I, p. 224).
4 Maria Manuel Guerra Franco, Elvas vista numa perspectiva geográfica, Câmara Municipal de Elvas, Elvas, 1991, p. 11. Segundo Suzanne Daveau, “o interflúvio (...) que separa o Tejo do Guadiana, apresenta paisagens variadas, onde formas suavemente abauladas são dominadas por colinas e serras circunscritas, geralmente alinhadas de NW para SE” – (op. cit., vol. I, pp. 217-218).
5 Francisco Gonçalves, C. Torre de Assunção, Carta Geológica de Portugal, notícia explicativa da folha 37-A: Elvas, Serviços Geológicos de Portugal, Lisboa, 1970, p. 7.
6 A grande “falha da Messejana” que atravessa todo o Alentejo numa diagonal ascendente, sensivelmente no sentido SW-NE (e que desde Odemira se prolonga até cerca de Ávila, em Espanha), passa junto a Elvas, dotando esta zona de uma maior complexidade e riqueza geológica. Sobre esta característica geológica veja-se, por exemplo, Carlos Alberto Medeiros, op. cit., pp. 41 (fig. 6) e 54.
7 Destas rochas eruptivas destacam-se os gabros anfibólicos e piroxénicos, para além de “ante estefanianas”.
8 Ibidem, p. 42.
9 Cf. Mapa Hipsométrico de Portugal Continental, p. 38.
10 Carta Militar de Portugal, escala 1:25.000, Serviço Cartográfico do Exército, folha no 413.
11 Maria Manuel Guerra Franco, op. cit., p. 12.
12 “O Sul era outro mundo, há muito aberto a todos os ventos da civilização” – Orlando Ribeiro, “A Planície em Portugal” in Opúsculos Geográficos, vol. VI – Estudos Regionais, (pp. 231-238), p. 234.
13 “Os geógrafos portugueses deram, até hoje, pouca atenção aos rios.” – Comentário de Suzanne Daveau in Orlando Ribeiro e Hermann Lautensach, op. cit., vol. II – O Ritmo Climático e a Paisagem, 1994, p. 490.
14 Pode aplicar-se, mas de forma cautelosa, a opinião de Amorim Girão de que “No sul de Portugal, como na sua zona fronteiriça de este, a escassez da água é o fenómeno geográfico por excelência, «causa das causas», como estávamos tentado a dizer” – A. de Amorim Girão, op. cit., p. 413.
15 Maria Manuel Guerra Franco, op. cit., p. 14.
16 Suzanne Daveau, op. cit., vol. II figura 108, p. 491.
17 Ibidem, p. 518 e 520. Esta mesma autora lamenta que nem o próprio projecto da barragem do Alqueva – que atinge áreas do termo de Elvas – tenha dado origem a um “estudo hidrológico e geográfico aprofundado”.
18 Vejam-se as escassas 6 linhas que Suzanne Daveau dedica ao percurso situado entre Badajoz e o Pulo do Lobo. Por outro lado, para esta zona não há trabalhos como o que Mariano Feio elaborou em 1944 para “os terraços do Guadiana a jusante do Ardila” (Suzanne Daveau, Ibidem, II, p. 492). Amorim Girão quase que nem refere o troço que medeia entre Badajoz e o Pulo do Lobo (op. cit., pp. 145-146).
19 Sobre estes aspectos veja-se Maria Manuel Guerra Franco, op. cit., p. 14.
20 Veja-se Atlas do Ambiente, folhas 11 e 16 (1-4), O. Ribeiro et alii – Introdution à la Géologie Génerale du Portugal, S.G.P., Lisboa, 1977, pp. 94-98.
21 Orlando Ribeiro, Introduções Geográficas à História de Portugal, estudo crítico, Lisboa, 1977, pp. 98-99.
22 Estudo de Lautensach em Orlando Ribeiro e Hermann Lautensach, op. cit., vol. II, pp. 358-359.
23 Ibidem, II, p. 376; veja-se também o estudo da frequência da distribuição das precipitações segundo trabalho de Suzanne Daveau publicado em 1977 e 1978 (Ibidem, II, figuras 69-70, p. 403 e p. 405).
24 Considera Orlando Ribeiro que, quanto a número de meses de baixa precipitação, se verificam 2 na Cordilheira Central e 4 ou 5-6, respectivamente, no Baixo Alentejo e litoral algarvio – op. cit., II, p. 374.
25 Segundo um mapa publicado em 1977, elaborado a partir de medições efectuadas entre os anos de 1931 e 1960, a área do termo de Elvas é uma das que tem uma menor distribuição da precipitação anual média (comentário de S. Daveau, op. cit., II, pp. 398-399); veja-se também Carlos Alberto Medeiros, op cit., p. 85, fig. 6.
26 Ibidem, figuras 89 e 95, respectivamente, pp. 435 e 442. A autora coloca a zona NW do termo ou alfoz de Elvas já dentro duma área de Inverno “moderado”.
27 Expressão utilizada em estudo de Maria João Alcoforado, publicado em 1982, segundo “comentários e actualização” de Suzanne Daveau, op. cit., II, p. 455.
28 Mariano Feio, citado por Carlos Alberto Medeiros, op. cit., p. 99.
29 Ibidem, p. 423 e figura inferior da p. 427. Em síntese recente, Maria Manuel Franco considerou possuir Elvas um clima de “feição mediterrânea” mas com características de continentalidade, na medida em que, para além de “uma secura estival acentuada e um Outono e Inverno pluviosos”, há que ter em conta as grandes amplitudes térmicas resultantes das disparidades entre as altas temperaturas obtidas nos Verões e os Invernos pródigos em geadas e com temperaturas muito baixas (op. cit., p. 14).
30 Orlando Ribeiro e Hermann Lautensach, op. cit., II, pp. 548-551.
31 Amorim Girão, op. cit., pp. 30-31 (Estampa V) e p. 32, onde se reproduzem mapas das regiões naturais da Península Ibérica, segundo Dantín Cereceda e Hérnandez-Pacheco (figs. 11 e 12).
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