Cadernos de Viagem
Travel Journals
Résumés
Um edifício industrial não é construído com o intuito de conservar determinada simbologia ou memória, porém acaba sempre por ser encarado como uma parte indispensável e vivificadora de uma identidade cultural, uma vez que se torna portador de significados pela sua interação com a sociedade com o passar dos tempos. Esta memória, classificada como social e coletiva, encontra-se regularmente ligada à arquitetura, onde se preserva a memória do trabalho humano. Este património apresenta também valores científicos, tecnológicos e estéticos ao nível da arquitetura industrial, que nos levam a classificá-los como edifícios de exceção, uma vez que marcaram uma época em termos de produção, tipologias e paisagens (Carta de Nizhny Tagil sobre o Património Industrial, 2003).
As razões que justificam a proteção do património industrial decorrem essencialmente do valor universal e da singularidade de sítios excecionais. A fotografia tornou-se, assim, numa excelente ferramenta que contribui para a salvaguarda e preservação da memória, uma vez que permite realizar um registo do passado, do presente e até do futuro das indústrias.
As viagens pelo Alentejo resultam em visitas aos espaços indústrias por ele disseminado, de onde surge um registo fotográfico que se tornou pertinente e urgente compilar, como contributo para a preservação da memória dos edifícios fabris. Os cadernos de viagem são um roteiro fotográfico entre Portalegre, Crato e Ponte de Sor, que contemplam paisagens industriais, indústrias abandonadas e alguns antigos espaços fabris regenerados/recuperados.
An Industrial Building is not built with the intent to preserve certain symbology or memory, however it ends up being seen as an indispensable and invigorating part of a cultural identity, as it becomes a carrier of meanings through its interaction with society as time goes by. This memory, classified as social and collective, is usually linked to architecture, where memory of human work is preserved. This heritage presents also scientific, technological and aesthetic values at the industrial architecture level, leading us to classify as buildings of exception, since they marked an era in terms of production, types and landscapes (Carta de Nizhny Tagil sobre o Património Industrial, 2003).
The reasons that justify the protection of industrial heritage run from the universal value and singularity of exceptional sites. Photography became an excellent tool for the safeguard and preservation of memory, since it records the past, present and even the future of industries.
Traveling through Alentejo results in visits to industrial places spread through the region, creating a photographic record that became important and urgent to organize as a contribute to the preservation of the factory buildings’ memory. The travel journals are a photographic tour between Portalegre, Crato and Ponte de Sor, where the industrial landscapes, abandoned industry and some renewed/restored factory equipment are registered.
Entrées d’index
Keywords : industrial heritage, industrial spaces, industrial photography, photography
Palavras chaves : património industrial, espaços industriais, fotografia industrial, fotografia
Texte intégral
Memória
1A relação entre o tempo e a memória, ou seja, a antropologia, constitui uma parte essencial do monumento1, que tem múltiplas formas de estar presente no universo cultural.
«Chama-se momento a qualquer artefacto edificado por uma comunidade de indivíduos para se recordarem, ou fazer recordar a outras gerações pessoas, acontecimentos, sacrifícios, ritos ou crenças. A especificidade do momento prende-se então, precisamente com o seu modo de acção sobre a memória. Não só ela a trabalha, como também a mobiliza pela mediação da afectividade, de forma a recordar o passado, fazendo-se vibrar à maneira do presente.» (CHOAY, 1999, 16).
2Foi eloquente definir património cultural2, este é um conjunto de bens materiais e imateriais que contam a história de uma sociedade, que, pelo seu próprio valor, devem ser considerados de interesse revelante para a permanência e identidade da cultura através do tempo. Durante a Revolução Francesa (1789–95), consolidaram-se uma série de princípios orientadores de políticas para salvaguardar o património, com o objetivo de travar a vaga de destruição que o país assistia. A revolução teve um papel bastante importante na evolução da noção de património: é nesta fase em que se toma consciência do património, em que este passa de família à comunidade. Torna-se um bem comum da nação, um testemunho coletivo da história, da identidade de um povo, um reflexo da sua cultura, numa conceção teórica que ainda hoje perdura. O património é uma referência do passado e uma herança comum que interessa proteger (CHOAY, 1999; MATOS et al., 2003).
«(…) são ruínas silenciosas, mas ainda cheias de vozes que as habitam, migalhadas de tempos arcanos que ainda sussurram fios de histórias, que põem perguntas e nos convidam a saber mais.» (SILVA, 2014, 13).
3Como tudo na vida, também as construções arquitetónicas igualmente envelhecem e tendem a desaparecer, a não ser que sejam protegidas por medidas de proteção ou de preservação.
4A industrialização foi responsável por novas formas arquitetónicas e sistemas de produção que consequentemente mudaram o espaço e a dinâmica urbana e criaram memórias. As fábricas permitiram um crescente desenvolvimento durante anos, atravessando diversas gerações. O ciclo da industrialização passa por um processo de desindustrialização, que surge como uma consequência natural das mudanças económicas ou do surgimento de novas tecnologias e novos modos produtivos.
5Os edifícios industriais resultantes desse ciclo tornam-se parte importante do património na caracterização dos espaços e dos indivíduos. No contexto da arquitetura industrial, encontram-se diversos edifícios descontextualizados e sem função à espera de um novo uso:
«os edifícios que aqui se documentam, com memórias acumuladas e distintas valias, são seres viventes que, tal como as pessoas, estão sujeitos a leis inexoráveis de ruína e de devastação física, mas nem por esse facto deixam de ter uma dimensão estética que exige registo inventariante e impõem esforços de salvaguarda no sentido da sua possível recuperação» (SILVA, 2014, 12).
6É imprescindível documentar a existência física do património edificado e lidar com as memórias e as valias estéticas que ali se encontram, através de um estudo eficaz.
Figura 1. Fábrica Robinson, Portalegre.

Fonte: Autora.
Estratégias de Preservação Industrial
7Embora um edifício não tenha sido construído com o intuito de conservar determinada simbologia ou memória, acaba sempre por ser encarado como um elemento indispensável e vivificador de uma identidade cultural, uma vez que, com o passar dos tempos, se torna portador de significados pela sua interação com a sociedade da época. Esta memória, classificada como social e coletiva, encontra-se regularmente ligada à arquitetura, em que se preserva a memória do trabalho humano. Assim, o património industrial representa uma singularidade de testemunhos de atividades que tiveram profundas consequências históricas. Este património apresenta também valores científicos, tecnológicos e estéticos ao nível da arquitetura industrial, que nos levam a classificá-los como edifícios de exceção, uma vez que marcaram uma época em termos de produção, tipologias e paisagens (Carta de Nizhny Tagil sobre o Património Industrial, 2003).
«Como é do conhecimento geral, certas áreas, outrora industrializadas e fortemente desenvolvidas, entraram a certa altura em decadência acentuada. Para saírem de tal situação foi necessário elaborar projectos de restauro e requalificação de antigas estruturas, nos quais o património desempenhou papel relevante.» (MENDES, 2000, 202).
8O acelerado desenvolvimento tecnológico a que se assistiu levou à perda de alguns elementos importantes do património industrial. Como nem tudo foi passível de preservação e/ou requalificação, exigiu-se um conhecimento e competências para selecionar os mais significativos. Para tal, foram tidas em conta diversas fases de intervenção, desde a seleção, obviamente bem fundamentada dos elementos a preservar, à requalificação e a reutilização, adotando diversos critérios «históricos, estéticos, financeiros e tecnológicos» (MENDES, 1991, 117). Mendes, no seu artigo (1991), menciona duas estratégias para a preservação do património industrial: a primeira a ser realçada é a preservação, in situ, dos vestígios que merecem ser salvaguardados e valorizados, com a ressalva que se deve prestar atenção a todo enquadramento, máquinas, eletrodomésticos, mercados, estruturas em ferro, arquivos, fotografias, postais ilustrados, documentos, ou seja, todo o material que seja relevante para a identidade do património cultural. A segunda estratégia consiste na musealização de determinados monumentos, quando a sua preservação já não é possível, in situ, por se encontrar num estado de degradação avançado, tando devido à passagem do tempo como por ação do homem. Para dar resposta a esta nova necessidade foram criados museus e ecomuseus especializados de forma a responder ao novo programa, são exemplo o museu da ciência e da indústria, dos transportes, das indústrias e dos diversos ramos artesanais. Há a salientar intervenções de casos bem-sucedidos de museus, como é o caso do Museu do Caminho-de-Ferro em Madrid, o Museu da Ciência e da Indústria em Birmingham, e o Museu do Trabalho em Steyr, muitos outros surgiram e contribuíram para salvaguardar, preservar, estudar e divulgar espólios cada vez mais diversificados (MENDES, 1991).
9Segundo o arqueólogo industrial Kenneth Hudson (1916–1999), poder-se-ia preservar o passado das indústrias através de filmes, livros, imagens, fotografias, imagens e plantas, colocando-os em estantes ou arquivos, mas não seria a mesma coisa, perder-se-ia a oportunidade de entrar dentro dos espaços e de admirar as suas dimensões e técnicas construtivas. Uma das principais razões para a recuperação dos edifícios é poder recuperar a relação entre pessoas e o espaço do passado (MATOS et al., 2003).
Figura 2. Centro de Artes e Cultura de Ponte de Sor, antiga Fábrica de Moagem e Descasque de Arroz.

Fonte: Autora.
10A atribuição de novos usos para o património revela-se, nesse sentido, uma condição necessária para a sua preservação. Os edifícios industriais com as suas características próprias, espaços amplos e o pé-direito elevado permitem que sejam transformados e adaptados de forma a receber novos programas. Contudo, existe uma premissa em que alterações feitas ao edifício deverão respeitar o existente, devendo o programa adaptar-se ao mesmo. A conservação destes espaços requer assim um conhecimento profundo do edifício onde se vai intervir, as novas utilizações devem respeitar materiais de construção, esquemas de circulação e de produção (e mantê-los se possível), máquinas ou outros elementos que sejam caracterizadores do valor patrimonial. É importante notar que «uma reconversão é marcada pela alteração e adequação funcional e formal de um edifício, bem como por um conjunto de acções que visam introduzir os níveis de desempenho, necessidades e exigências pretendidos» (SANTOS, 2013, 60). As intervenções devem assim ser reversíveis e provocar impacto mínimo.
11Entende-se que foram desenvolvidos mecanismos para garantir a preservação do património e do seu valor. Devido às diversas tipologias arquitetónicas, o modo de intervir em cada uma delas deve ser também diferente de acordo com as suas características. Destacam-se assim três modos operativos: musealização, reutilização e reconversão.
Figura 3. Câmara Municipal de Portalegre demostra os diferentes usos do edifício. Da esquerda para a direita: Livros, Colégio e Igreja de São Sebastião; Panos, Fábrica Real de Lanifícios de Portalegre; Tear, Manufatura Tapeçarias de Portalegre.

Fonte: Autora.
Fotografia como Documento da Memória
12Percebida a importância e as diferentes formas de preservação do património, destacamos a fotografia como um importante auxiliar no registo documental de diferentes patrimónios: esta ferramenta «pode ressuscitar» (CHOAY, 1999, 19) memórias desaparecidas e captar novos momentos, contribuindo assim para a sua musealização. Esta duplicidade na fotografia tem o poder de atuar de diferentes formas na memória: assegurar uma história e fazer reviver um passado morto (CHOAY, 1999).
13Duarte Belo, arquiteto e fotografo, encontra na fotografia:
«uma forma de expressão dos lugares, e do tempo que os transforma, especialmente conseguida. Talvez seja o melhor modo de falar do espaço, de o representar. Mesmo não sendo isso possível, será, pelo menos, o modo mais fácil e acessível. Depois, queríamos ou não, o tempo também esta nas imagens. As imagens fotográficas são objetos planos, ambíguos e dúbios. Uma fotografia, seja de que natureza for, fala-nos de várias ordens de tempo. Mesmo que este não esteja retratado na imagem, por ser qualquer detalhe com um nível de abstração elevado, esse tempo estará na ótica utilizada, na tecnologia, no processo da impressão, no carácter do olhar de quem produziu. (…) Continuamos, no âmbito da reflexão sobre a natureza da imagem fotográfica, a fazer uma separação clara entre a fotografia artística, nobre, e a fotografia documental, o parente pobre.» (BELO, 2020, 156).
14As imagens fotografadas captam diferentes tipologias industriais, umas abandonadas, outras com uma nova utilização:
«são imagens que captam memórias cheias de força por assumirem perdas de um passado recente que está prestes a desvanecer, mesmo quando a sua qualidade plástica, o seu engenho artístico, a sua originalidade relevância, as tornam necessariamente “única”» (SILVA, 2014, 19).
Figura 4. Cadernos de Viagem.

Fonte: Autora.
15As imagens aqui relatadas captaram distintos graus de destruição e desuso, em que o tempo se foi ocupando de apagar a sua memória, destacamos aqui a Fábrica Robinson em Portalegre, por ser umas das mais importantes corticeiras do país, fundada no século XIX por George Robinson. Foi durante século e meio um caso invulgar no panorama industrial português, manteve ao longo do tempo uma laboração sem interrupções, sabendo sempre modernizar-se.
«A sua história confunde-se com a história de Portalegre, do Norte Alentejano e da Indústria Corticeira Nacional. Essa história consubstancia-se num importantíssimo património histórico, com destaque para um rico espólio no campo da arqueologia industrial» (VENTURA, 2017, 9).
16O conjunto industrial é formado pelos edifícios dispostos ao longo de uma espécie de percurso, as numerosas estruturas e equipamentos do século XIX, que a empresa conservou «alguns em perfeito estado de funcionamento, apesar das renovações tecnológicas periódicas» (VENTURA, 2017, 9), surgem como inspiração, tornando-se num espaço cenográfico. Os «restos» da maquinaria e das cortiças que permaneceram recordam as memórias de azafama laboral e tornam-se os elementos principais da fotografia. Hoje em dia este edifício encontra-se bastante degradado e em ruína. Este é um dos exemplos que aguarda a atuação rápida das medidas de preservação, antes que se perca totalmente o seu património e legado.
Figura 5. Caderno de viagem, Fábrica Robinson. Portalegre.

Fonte: Autora.
17Dentro da categoria de abandono, destacam-se ainda a Fábrica do Sabão no Crato, a Fábrica do Tomate em Montargil e a Corticeira Mundet em Ponte de Sor.
Figura 6. Caderno de Viagem, Fábrica da Mundet. Ponte de Sor.

Fonte: Autora.
18Durante o percurso, foi possível registrar três exemplos de indústrias revitalizadas onde as medidas de proteção e preservação atuam e são hoje espaços regenerados com uma dinâmica e função distinta da inicial. Iniciamos a viagem por Portalegre, onde visitamos a antiga Fábrica Real de Lanifícios, atual Câmara Municipal de Portalegre.
19Este edifício conta com uma vasta história desde o século XVII, inicialmente como Colégio e Igreja de São Sebastião, desocupado após a expulsão dos jesuítas de Portugal. Marquês de Pombal viu ali uma excelente oportunidade para instalar a Real Fábrica de Lanifícios. O edifício sofreu algumas obras de adaptação para receber toda a maquinaria adequada ao processo industrial dos lanifícios. Mais tarde, no final do século XVIII início do século XIX, surge um novo corpo que se desenvolve na continuidade da fachada principal para nascente, este é uma nave fabril, intitulada de Casa Grande, «protótipo das grandes naves industriais» (MENDES et al., 2003).
20Pela arquitetura do edifício, percebe-se que o Colégio e Igreja de São Sebastião e a Real Fábrica moldaram-se a diferentes usos durante os séculos XVII, XVIII e XIX. No século XX, o edificado correspondia a um conjunto de ocupações: a Manufatura de Tapeçarias de Portalegre3, COOPOR (cooperativa agrícola do concelho de Portalegre), Sociedade Musical Euterpe, Stand de automóveis e algumas construções precárias; estas instalações eram bastantes desadequadas à qualidade do conjunto pré-existente, que constitui um dos melhores conjuntos edificados da cidade de Portalegre, classificado como valor patrimonial nacional (MENDES et al., 2003).
21A Câmara Municipal de Portalegre adquire o antigo Colégio e Igreja de S. Sebastião e a antiga Real Fábrica de Lanifícios de Portalegre com o intuito de a recuperar e reabilitar para nele se instalar o conjunto de equipamentos e serviços do município: Centro de Congresso, Galeria de Exposições Temporárias, Centro de Turismo, Executivo Municipal, Serviços Municipais e Municipalizados e o Centro de Monitorização Ambiental, de forma a centralizar todos estes.
Figura 7. Caderno de Viagem, Câmara Municipal de Portalegre.

Fonte: Autora.
22Na nossa viagem, seguimos até a Vila do Crato, onde a antiga Moagem dá hoje lugar a um Jardim Temático. Do antigo espaço fabril permanecem apenas as paredes autoportantes correspondentes à fachada, todo o interior foi limpo. Retiraram-se todas as antigas construções em ruínas que faziam parte da estrutura fabril, limpou-se o interior de todas as edificações anexas e posteriores. O interior torna-se claro na sua espacialidade, dando lugar a um espaço aberto e verde. As diferentes zonas de estar são acompanhadas por um percurso de espelhos de água, sendo cada espaço representativo de um elemento que caracteriza a história do Crato (Requalificação do Espaço da Moagem do Crato e Criação de Jardim Temático e Zona de Lazer, 2018).
Figura 8. Caderno de Viagem, Moagem Jardim Temático. Crato.

Fonte: Autora.
23Seguimos um pouco mais na nossa viagem e paramos por fim em Ponte de Sor, onde se destaca antiga a Fábrica de Moagem e Descasque de Arroz. Este edificado com a tipologia da fábrica da altura ocupa hoje o Centro de Artes e Cultura de Ponte de Sor. Este edifício, construído com uma finalidade industrial, com uma planta de carácter extremamente funcional, onde os espaços foram construídos para acolher os usos industriais e a maquinaria, tem hoje um carácter público; para a reutilização sofreu alterações na estrutura e na envolvente existente, de forma a adaptar o novo programa para o Centro de Artes e Cultural e deixando toda a configuração fabril intacta.
24Este espaço destaca-se ainda pelo facto de preservar parte da maquinaria e se converter em museu, a sua reabilitação/reuso permite que todas as gerações usufruam desses espaços, podendo admirar as suas dimensões e máquinas e recuperar relações entre as pessoas e os espaços do passado.
Figura 9. Caderno de Viagem, Centro de Artes e Cultura. Ponte de Sor.

Fonte: Autora.
25Com a visita a estes antigos espaços industriais consta-se que o novo programa se adaptou à estrutura pré-existente, respeitando a sua configuração e preservando o seu valor cultural. O estudo da situação atual dos edifícios contribui para o conhecimento das edificações e de como as intervenções ajudaram a conservar as suas estruturas e preservaram a memória destes espaços, dando-lhes uma nova vida e salvaguardando aspetos importantes da sua arquitetura.
26Ainda na cidade de Ponte de Sor, tivemos oportunidade de fotografar uma das indústrias mais antigas que ainda permanecem em funcionamento: as indústrias Falcão. A escritura data de 28 de julho de 1945, com a denominação de Empresa Industrial de Pimentão, Lda.; esta dedicava-se ao comércio da indústria do pimentão, das cortiças ou qualquer outro que pudesse explorar (Diário do Governo, III série, n.º 227:1945). Hoje, nos letreiros que estão no exterior na fachada, sabe-se que esta fábrica se intitula Rações Falcão, Empresa Industrial de Pimentão, Lda.; para além da sua estrutura original pode-se observar uma arquitetura moderna dos imponentes silos, que marcam uma escala vertical no edifício.
Figura 10. Caderno de Viagem, Rações Falcão. Ponte de Sor.

Fonte: Autora.
27Este roteiro contribui assim para uma reflexão em três pontos: em primeiro lugar, destaca uma seleção de fotografias que representam a realidade deste património; em segundo lugar, documenta, através de casos de abandono, o património industrial; e, em terceiro lugar, mostra, pelo conjunto fotográfico, dinâmicas de recuperação e salvaguarda de industrias fabris, demonstra também edificações de diferentes épocas históricas e com diferentes propostas arquitetónicas com importante valor patrimonial, que inexoravelmente se irão perder, cuja memória identitária é preciso registar. É necessário que os saberes decorrentes destas reflexões – a análise de valores históricos-artísticos, o diagnóstico de causas destrutivas e o registo inventariante das memórias – reforcem uma consciência de salvaguarda do nosso património comum (CHOAY, 1999; SILVA, 2014, 15).
Bibliographie
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BELO, Duarte (2020) – Caminhar oblíquo. Lisboa: Museu da Paisagem.
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Diário do Governo, III série, n.º 227:1945 – Empresa Industrial do Pimentão, Limitada.
MATOS, Ana Cardoso de; RIBEIRO, Isabel Maria; SANTOS, Maria Luísa (2003) – «Intervir no Património Industrial: das experiências realizadas às novas perspectivas» [em linha]. In Sampaio, Maria da Luz (coord.) – Reconversão e Musealização de Espaços Industriais: Actas. Porto: Associação para o Museu da Ciência e Indústria, pp. 22–32. Disponível em http://hdl.handle.net/10174/10905
MENDES, António Rosa (2012) – O que é património cultural [em linha]. Olhão: Gente Singular. Disponível em http://hdl.handle.net/10400.1/2506
MENDES, Fernando Sequeira; CATARINO, Jorge (2003) – Colégio e Igreja de S. Sebastião e Real Fábrica de Lanifícios de Portalegre. Memória Descritiva e Justificativa. [s. l.]: Arquiespaço.
MENDES, José (1991) – A Arqueologia Industrial: Uma Nova Vertente de Conservação do Património Cultural. Revista Portuguesa de História: Arqueologia Industrial e Património Cultural. N.º 26, pp. 111–124.
MENDES, José Amado (2000) – Uma nova perspectiva sobre o património cultural: preservação e requalificação de instalações indistriais. Gestão e Desenvolvimento [em linha]. N.º 9, pp. 197–212. DOI: 10.7559/gestaoedesenvolvimento.2000.12.
10.7559/gestaoedesenvolvimento.2000.12 :Requalificação do Espaço da Moagem do Crato e Criação de Jardim Temático e Zona de Lazer (2018). Crato: Município do Crato.
SANTOS, José Miguel Pereira dos (2013) – Arquitectura Industrial a Obsolescência à Conversão. Porto: Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto. Dissertação de mestrado.
SILVA, Gastão de Brito e (2014) – Portugal em Ruínas. Lisboa: Fundação Manuel dos Santos.
VENTURA, António (2017) – Para uma cronologia da Fábrica Robinson 1848–1966. Publicações da Fundação Robinson. N.º 0, pp. 8–23.
Notes de bas de page
1 Monumento: termo que vem do latim monumentum, «ele próprio derivado de monere (advertir, recordar), o que interpela a memória» (Choay, 1999, 16).
2 «Originariamente (e é sempre muito elucidativo remontar às origens), a palavra latina patrimonium (derivada de pater, pai) aplicava-se ao conjunto dos bens pertencentes ao paterfamilias e por este transmitidos aos seus sucessores. O patrimonium era aquilo que se herdava; implica, por conseguinte, a ideia de herança. E esta ideia de herança – que carrega os nexos de continuidade, de entrega e recebimento, de tradição (tradição dizia-se em latim traditio, acção de passar algo às mãos de alguém), esta ideia de herança resulta capital para a apreensão do que património cultural» (Mendes, 2012, 11).
3 Manufatura de Tapeçarias é fundada em 1947 e, pela sua originalidade e valor artístico dos seus trabalhos, é um dos «ex-líbris» da cidade.
Auteur
-
Filipa Pereira
Universidade de Évora, Departamento de Arquitetura
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História e Relações Internacionais
Temas e Debates
Luís Nuno Rodrigues et Fernando Martins (dir.)
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Período Medieval e Moderno
Maria Filomena Lopes de Barros et José Hinojosa Montalvo (dir.)
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Património Textual e Humanidades Digitais
Da antiga à nova Filologia
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Análise Bibliométrica (2000-2010)
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Ecclesiastics and political state building in the Iberian monarchies, 13th-15th centuries
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Da Comunicação ao Sistema de Informação
O Santo Ofício e o Algarve (1700-1750)
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