Fábrica de Moagem e Descasque de Arroz de Ponte de Sor
Ponte de Sor’s Rice Milling and Hulling Factory
Résumés
A condição pós-industrial da economia contemporânea preencheu os territórios de quantidades significativas de artefactos industriais, chaminés, fornos, armazéns, entre outros. Estes edifícios de vanguarda, que em outro tempo foram protagonistas e símbolo do progresso social, tecnológico e arquitetónico, representam uma particularidade de testemunhos que tiveram profundas consequências históricas.
No Alto Alentejo, para além da vocação para agricultura, surgiram também diversos fatores responsáveis pelo desenvolvimento industrial. O território é marcado pelo progresso e pela indústria moderna, onde se insere a Fábrica de Moagens e Descasque de Arroz, que é de importante valor patrimonial e essencial para a história por se tratar de uma importante indústria no Concelho de Ponte de Sor.
O trabalho de investigação procura analisar como é que esta indústria fabril evoluiu morfologicamente até aos dias de hoje. Este estudo pretende contribuir para melhorar o conhecimento do Património Industrial na região e das técnicas construtivas.
The post-industrial condition of the contemporary economy filled the territory with considerable amounts of industrial artifacts, such as chimneys, ovens, warehouses, among others. These vanguard buildings were, at one point, protagonists and symbols of social, technological and architectural progress, by representing a singularity of testimonies that had profound historical consequences.
In Alto Alentejo, beyond the inclination for agriculture, several factors responsible for the industrial development also emerged. The territory is marked by progress and modern industry, and that’s where we find the Ponte de Sor’s Rice Milling and Hulling Factory, which has important patrimonial value and is essential to history by being an important industry in the Ponte de Sor County.
Research tries to analyze how this industry evolved morphologically from then to nowadays. This study intends to contribute to the improvement of knowledge of the Industrial Heritage and construction techniques.
Entrées d’index
Keywords : industrial heritage, reuse, Rice Milling and Hulling Factory, Ponte de Sor
Palavras chaves : património industrial, reutilização, Fábrica de Moagem e Descasque de Arroz, Ponte de Sor
Texte intégral
Introdução
1A arquitetura industrial surge a partir das antigas oficinas de manufatura até às fábricas dos nossos dias. Ao longo da sua atividade industrial, estes espaços modificaram-se, alterando o seu uso e configuração em função da tecnologia, tendo com consequência a perda da sua identidade e em alguns casos chegando mesmo ao abandono.
2Sendo o século XIX símbolo do progresso, este está associado à tecnologia e à introdução de novas máquinas, com a chegada dos novos materiais de construção surge um novo paradigma no espaço industrial, as indústrias modernizam-se e constroem-se novos focos de industrialização, como é o caso do Alentejo. As importâncias dos produtos endógenos desta região contribuíram como agentes atrativos para a criação de indústrias, o que originou num património industrial riquíssimo.
3O objetivo deste artigo consiste em identificar o património industrial que se desenvolveu no Alto Alentejo, estudando o caso particular da Fábrica de Moagem e Descasque de Arroz de Ponte de Sor. Pretende-se compreender a sua contextualização histórica e pertinência, bem como fazer um estudo morfológico da sua arquitetura desde da sua implantação até à sua reutilização.
4Com este estudo, compreende-se que o desenvolvimento industrial está associado ao progresso dos materiais de construção e das novas tecnologias, o que permitiu a construção de indústrias com diferentes tipologias e direcionadas para a sua atividade laboral. A sua localização no território ao longo dos tempos permite-nos identificar alguns padrões de localização, disponibilidade de mão-de-obra e a influência de recursos naturais. A importância do estudo dos edifícios industriais é essencial para a preservação do Património Industrial, este que em outros tempos fora tão importante e encontra-se agora bastante obsoleto e abandonado, levando a perdas irreparáveis na arquitetura.
Industrialização no Alto Alentejo
5O Alto Alentejo é uma sub-região do Alentejo, que corresponde na totalidade ao Distrito de Portalegre com uma área de 6230 km². Caracteriza-se com um clima quente e seco com estiagens longas. O clima instável, sendo somente regular nos meses de estio, é característico do clima mediterrânico-continental (GOMES et al., 1980).
6O Alto Alentejo caracteriza-se por um regime de cultura extensiva, com o cultivo de árvores de sequeiro, como o trigo, cevada, aveia, algum centeio e leguminosas, sujeitas a rotações, segundo o grau de fertilidade das terras. Culturas bastantes contingentes, em muitos casos, pela pouca adaptabilidade dos terrenos e pela irregularidade do clima.
7Compreende-se que é fundamentalmente da exploração agrícola que a população alentejana se sustentava. A introdução das máquinas agrícolas potencializou a industrialização da agricultura, trazendo elementos urbanos-industriais que contrastavam com o traçado corrente da construção dos montes alentejanos. Surge assim, uma nova paisagem resultante de plantio mais programado, organizado e da ação de medidas adotadas contra a erosão. Outro fator de evolução é o aproveitamento de águas, pela construção de barragens, junto das quais surgiram as primeiras manchas de culturas de regadio e algumas indústrias relacionadas com agricultura (GOMES et al., 1980).
Figura 1. Fábrica do Tomate, no Pintadinho, Montargil.

Fonte: Autora.
8O aproveitamento dos recursos naturais, principalmente dos que derivaram das atividades agrícolas, para o desenvolvimento da atividade industrial foi uma das preocupações do Estado no final do século XVIII. Este cuidado serviu como incentivo ao desenvolvimento da atividade agrícola. As principais indústrias desenvolveram-se principalmente no setor têxtil, moageiro e corticeiro (GUIMARÃES, 2006; MATOS, 1998).
9A indústria da moagem surge como atividade económica muito importante pela existência em abundância de cereais, dois quais se destaca o trigo. A moagem de cereais era uma atividade tradicional tanto no Alentejo como no conjunto do país: durante as primeiras décadas de oitocentos, existia uma extensa rede de moinhos hidráulicos e eólicos que produziam o fornecimento de farinha que assegurava o consumo do país.
10A partir de 1850, este setor conhece um surto industrial um pouco por todo o Alentejo. Após um período de crise, em 1889, surge um conjunto de medidas, «protecionismo cerealífero», que contribuíram para a sobrevivência de algumas unidades fabris e potencializou uma certa modernização (FONSECA, 1998, 1992; GUIMARÃES, 2006).
11O protecionismo Português distingue-se por ter criado um conjunto de leis extremamente eficazes para os produtores de cereais da concorrência estrangeira. O protecionismo cerealífero inicia-se na década de 1880, em que surge a Carta da lei de 1889, cujo objetivo era assegurar o aumento da produção de cereal e libertar o país da dependência dos trigos vindos do estrangeiro.
12O Alentejo já era visto como o celeiro de Portugal desde longa data, principalmente desde do final do século XIX, em que Évora, Portalegre e Beja já produziam mais de metade do trigo nacional, assegurando o abastecimento do mercado em Lisboa (REIS, 1979, 746). Assim, como resultado desta política, verifica-se o alargamento da área de cultivo através do arrendamento de terrenos incultos, seguindo-se o incremento na administração de adubos químicos para estimular o aumento da produtividade. Numa segunda fase do protecionismo, o Ministro da Agricultura, Elviro de Brito, desenvolveu um projeto, a Carta da lei de 1899, que visava a restauração do protecionismo cerealífero, ampliando-se as medidas instituídas nos últimos dez anos e incidindo nas fábricas de moagem. Estas medidas proporcionaram uma evolução na produção de trigo, reforçando o aumento e a modernização da produção de cereais (REIS, 1979; VIEIRA, 2016).
13Entre 1840 e 1870, surge uma modernização na indústria da moagem, esta caracterizando-se por um «padrão de localização», pois localiza-se em importantes áreas de produção de matéria-prima, como o trigo, milho e centeio. O processamento de moagem era realizado pelo sistema de mós, com frequência o sistema francês, mas a maior parte delas já eram acionadas por máquinas a vapor.
14Da década de 1870 aos anos 1890, surge um surto fabril:
«as fábricas passam a dispor de equipamentos de moagem mais moderno e mais caro […] o surto foi acompanhado de alguma modernização tecnológica nomeadamente a introdução de moagem por cilindros metálicos, o sistema austro-húngaro pelo qual a moenda se tornou uma operação complexa de trituração e peneiração com elevada seleção de produtos e rentabilidade no aproveitamento da matéria-prima» (FONSECA, 1992, 43–44).
15A região contava com algumas indústrias moageiras com um sistema moderno, como é o caso da Fábrica de Moagem e Descasque de Arroz de Ponte de Sor.
Figura 2. Vista nascente do recinto da Antiga Fábrica de Moagem de Cereais e Descasque de Arroz de Ponte de Sor. Em primeiro plano, no solo, estrado e balança (capacidade até 60 toneladas).

Fonte: Desconhecido, 1970.
Localização das Indústrias
16A implantação ao longo do tempo das unidades industriais no território permite-nos identificar algumas das suas configurações regionais e dos seus padrões de localização.
«As maiores disponibilidades de matérias-primas têm sido, a par das disponibilidades de mão-de-obra, da existência de vias de comunicação ou da abundância de água e minerais, um dos fatores considerados fundamentais para a localização das indústrias nas primeiras fases da industrialização» (MATOS, 1998, 273).
17A localização de indústrias relacionadas com agricultura implantara-se em zonas onde a sua matéria-prima era predominante, o que permitiu o desenvolvimento de importantes unidades industriais, aliadas sempre que possível às vias de comunicação.
18A importância do gado lanígero determinou na região do Alto Alentejo a existência de matéria prima favorável para a implantação e desenvolvimento dos lanifícios. Os concelhos de Castelo de Vide, Marvão e a parte norte de Portalegre caracterizam-se pelos seus belos soutos, vales e linhas de água, que tornavam esta zona fresca e cheia de hortas, pomares e olivais, condições favoráveis para indústrias agroflorestais. A sul nas planícies alentejanas, aparece a cultura do trigo, aveia, cevada e centeio, distribuindo-se por todo o distrito, com o centeio a predominar na zona norte; desta forma, a indústria dos cereais encontra-se um pouco por toda a região. Encontram-se também nesta região as indústrias relacionadas com a moagem e a panificação. O cultivo dos arrozais surge como exceção à regra, por se tratar de uma planta que necessita de bastante água, surge nas margens do Rio Sor no concelho da Ponte de Sor, Gavião e em Elvas; associado a esta cultura surgem as indústrias de descasque de arroz (CUNHA, 2001; RIBEIRO, 1987, 1998).
19A relação entre a implantação dos edifícios fabris e a sua proximidade aos cursos de água deve-se à multiplicidade de funções que o elemento água é capaz de produzir enquanto matéria-prima, força motriz, via de transporte de chegada e partida de mercadoria. A distribuição espacial das fábricas era muitas vezes determinada pela proximidade de uma linha de água, sendo por vezes coincidente com terrenos de produção agrícola.
20A possibilidade de utilização da energia hidráulica era condicionada pelas condições geomorfológicas: a redução de caudal de muitos rios e ribeiras na época de estio e a irregularidade destes durante o ano não permitiam assegurar uma produção contínua e com a mesma intensidade, o que inviabilizava o funcionamento das rodas hidráulicas. Para assegurar o funcionamento das indústrias, os estabelecimentos fabris construíram-se junto dos açudes de água, de forma a assegurar o fluxo necessário para movimentar as rodas hidráulicas que funcionavam no interior dos estabelecimentos (MATOS, 1998).
21O Alto Alentejo não dispunha de grandes recursos hídricos: embora a planície alentejana fosse atravessada por vários rios e ribeiras, a verdade é que a fraca pluviosidade, o regime de distribuição desigual das chuvas ao longo do ano e a configuração geomorfológica do terreno limitavam o caudal da maioria dos cursos de água que atravessavam a planície alentejana, o que limitava o aproveitamento deste recurso enquanto fonte produtora de energia (MATOS, 1998).
22As fábricas que se instalaram em Portalegre começaram por utilizar a energia hidráulica como força motriz, mas, devido às irregularidades dos caudais, algumas fábricas optaram por conjugar a energia hidráulica com a máquina a vapor, aproveitando desta forma as vantagens que ambas podiam oferecer. No ano de 1840, foi instalada a primeira máquina a vapor em Portalegre; no ano de 1881, a maioria das fábricas continuavam a utilizar os dois tipos de energia (MATOS, 1998).
23Acompanhando a evolução industrial, surge o investimento e expansão nas vias de comunicação, viária e ferroviária, que contribuíram para a fixação de grandes indústrias.
«A primeira linha ferroviária a ser concluída, em 1863, foi a Linha do Leste que, entrando no Alentejo em Ponte de Sor, termina na fronteira com Espanha no concelho de Elvas. Esta permitiu o acesso à ferrovia a todo o Alto Alentejo, onde se incluía a cidade de Portalegre, sede da grande unidade fabril corticeira da Robinson Cork Grower» (FAÍSCA, 2019, 67).
24O posicionamento das indústrias perto dos recursos naturais e das vias de comunicação possibilitou a redução de custos produtivos e uma maior proximidade com os mercados consumidores.
A Indústria do Arroz e do Trigo em Ponte de Sor
Caracterização do Concelho de Ponte de Sor
25O concelho de Ponte de Sor situa-se numa zona de transição entre o Alentejo e o Ribatejo. A sua morfologia é relativamente plana, a estrutura otográfica resume-se a um vale longitudinal por onde corre, numa orientação NE–SO, a Ribeira de Sor, ladeada por elevações de encostas mais ou menos abruptas, mas que nunca atingem cotas superiores a 300 metros. A região é marcada por um clima mediterrânico, verões quentes e secos, invernos frios e relativamente húmidos com pluviosidade irregular. Com uma rede hidrográfica razoável, na Ribeira do Sor converge um grande número de cursos de água secundários, alguns deles com um caudal digno de apreço, pode dizer-se que 90 % da superfície do concelho se encontra na Bacia Hidrográfica de Sor (CUNHA, 2001; FAÍSCA et al., 2015b).
26A agricultura divide-se em dois tipos de aproveitamento: a exploração florestal com extensos montados de sobro e olivais nas áreas mais altas, enquanto nas zonas mais baixas surgem os vales, bem-dotados de água, que permitem o desenvolvimento de hortas e o cultivo de cerais de sequeiro (CUNHA, 2001).
27O arroz é a principal cultura, seguindo-se o milho, pimentão, os pomares de citrinos e outras culturas. Nestas áreas em que a agricultura se intensifica, surgem os aglomerados de população. O concelho é atravessado pela Ribeira do Sor de um extremo ao outro, no sentido NE–SO. Este curso de água é de extrema importância para a agricultura:
«a água é cuidadosamente aproveitada para a rega e por isso, no meio de grandes extensões de charneca paupérrima, surgem amiúde verdes campos de arroz, pimentão, ferrejos, hortas […] sendo a maioria destes cursos de regime temporário, há sempre a preocupação com a falta de água na época de estiagem e é esse o motivo por que se recorre muito frequentemente à construção de pequenas represas, no caso da cultura do arroz, […]» (CUNHA, 2001, 8).
28Com a necessidade de água para a irrigação, surge assim, por ação do homem, o lago artificial da albufeira de Montargil, que se insere no plano de regadio do Vale do Sorraia. O concelho de Ponte de Sor possui assim a maior densidade de regadios do distrito de Portalegre (FAÍSCA et al., 2015a, 2015b).
Moagem e Orizicultura
29Sendo esta região dotada de uma razoável rede hidrográfica e com um histórico na produção de cerais de sequeiro, o concelho oferece boas condições ao longo da Ribeira do Sor para o cultivo de arroz e para moagem de farinhas. Esta região é constituída por um conjunto arquitetónico de azenhas, que estiveram em funcionamento desde meados do século XIII até à segunda metade do século XX (FAÍSCA et al., 2015b). Cunha refere que, em 1952, as «azenhas, que são apetrechadas na totalidade com 113 casais de mós de 1,10 m de diâmetro, moem anualmente cerca de 615 toneladas de milho, 250 toneladas de trigo e 33 toneladas de centeio» (CUNHA, 2001, 77). Estas estruturas foram bastante importantes para o desenvolvimento socioeconómico da região, por abastecerem o sector tradicional da panificação da farinha em rama, usada na produção do «pão rural» e no descasque de arroz (FAÍSCA et al., 2015b).
Figura 3. Moinho Novo da Tramaga, Ponte de Sor.

Fonte: Autora.
30Na obra Estado de Portugal no ano de 1800, o autor galego D. José Corinde faz referência à cultura do arroz, dizendo que esta remota ao final século XVIII na região da Ponte de Sor. A orizicultura teve um rápido desenvolvimento na região, surgindo ao longo da Ribeira de Longomel, da Ribeira de Sor e outros afluentes até Montargil. A evolução desta cultura foi bastante importante para o desenvolvimento em meados do século XX, sendo a segunda atividade económica agroflorestal mais importante no Concelho de Ponte de Sor (CUNHA, 2001; FAÍSCA et al., 2015a).
31Os arrozais são dispostos em pequenos tabuleiros com desníveis que permitem a passagem da água de uns canteiros para os outros. Esta planta semiaquática exige bastante água para a sua cultura. A preparação das terras inicia-se pela lavora da terra nos meses de janeiro e fevereiro, seguindo-se a plantação, feita por mulheres entre os meses de maio e junho. A ceifa inicia-se no mês de setembro, com o arroz Ponta Rubra, e dura até ao mês de outubro, com o arroz Chinês.
Figura 4. Seara de arroz, Foros de Arrão, Ponte de Sor.

Fonte: Autor desconhecido, 1960.
32A salmeja1 é feita com auxílio de carros de bois, a debulha e a malha dos cereais é toda feita de forma manual e artesanal. À colheita seguia-se a transformação do arroz, sendo este primeiro seco e depois descascado; até à industrialização, todo este processo era efetuado por moinhos (CUNHA, 2001).
33Sendo o descasque de arroz e a moagem duas indústrias bastante importantes para o desenvolvimento do concelho, surgiu, em 1920, a fábrica de Moagem de Cereais e Descasque de Arroz, propriedade da firma Sociedade Industrial, Lda. Esta unidade industrial incluía uma secção de descasque de arroz, uma secção de moagem de farinha espoada e uma outra de moagem de farinha em rama, usada pelos moleiros da região nos meses de estio (FAÍSCA et al., 2015b).
Figura 5. Fotografia mais antiga da Fábrica de Moagem e Descasque de Arroz.

Fonte: Arquivo Sociedade Industrial, Lda., 1920.
Fábrica de Moagem e Descasque Arroz de Ponte de Sor
Arquitetura e Tecnologia
34A arquitetura cerealífera corresponde à tipologia da fábrica da altura, apresentando uma fisionomia semelhante à das habitações, porém com características próprias para a indústria.
35Esta tipologia confere ao conjunto uma organização de espaço em função do processo tecnológico e apresenta um tratamento muito cuidado na composição de volumes e na ornamentação do edifício. As indústrias com esta tipologia desenvolveram-se perto dos novos meios de transporte (MORENO VEGA et al., 2011). Como podemos verificar, a localização escolhida para a instalação da fábrica de Ponte de Sor ocorreu num ponto equidistante entre a Vila da Ponte de Sor e a estação de caminho-de-ferro e esta posição estratégica confere-lhe um marco importante na malha urbana.
Figura 6. Planta de implantação e alçado da Fábrica de Moagem e Descasque de Arroz.

Fonte: Arquivo Sociedade Industrial, Lda., 1920.
36A fábrica funcionava com o sistema de produção Austro-húngaro, um dos mais modernos, que veio substituir os moinhos de pedra por cilindros de metal, produzindo farinha mais fina. Para a produção de farinha, implementava-se um sistema em linha vertical em torno das seguintes operações básicas: limpeza, lavagem, moagem, ensacamento e armazenamento. O processo industrial descrito requer uma organização em altura, em que se instalam os elementos necessários para o seu funcionamento de forma mecânica e rápida. Os sistemas mais utilizados foram os da empresa Suíça, Daverio & C. S. A.2 e a da Buhler3. Estas empresas dedicavam-se à fundição e ao desenho de maquinaria industrial (Arquivo Sociedade Industrial, Lda., 1920; MORENO VEGA et al., 2011).
37A Sociedade Industrial optou pela empresa Daverio. Os processos industriais descritos nos desenhos demostram um edifício em alvenaria de planta retangular com dois pisos de cor branca, como a maioria das moagens. Este complexo fabril distribui-se simetricamente, com um corpo central onde estava instalada parte da maquinaria e quatro corpos laterais, dois a sul e dois a norte, para o armazenamento dos cereais transformados e por transformar (Arquivo Sociedade Industrial, Lda., 1920).
Figura 7. Planta da Fábrica de Moagem e Descasque de Arroz (com o muro de separação entre as fábricas).

Fonte: Arquivo Sociedade Industrial, Lda., 1920.
38A cobertura de duas águas é construída em madeira e telhas cerâmicas, com vãos circulares de ventilação, denominados de «óculos», na parte da empena.
39Em torno do pátio surge um muro perimetral, o recinto industrial alberga o edifício principal, destinado ao diretor, pessoal técnico e vários setores dedicados à produção, onde no seu interior laboram os operários e os encarregados. No pátio, encontram-se outros edifícios de apoio, como a casa das máquinas com motor de expansão a gás pobre de 54 hp, refeitório, garagem e balneários.
40No interior da fábrica, destaca-se o uso da madeira nos pavimentos entre os pisos, nas escadas e na estrutura da cobertura, formada por asnas de madeira. O uso da madeira no pavimento deveu-se à necessidade de fazer múltiplas aberturas que se distribuíam pelo chão e permitir o cruzamento das tubagens por onde passavam os grãos, a farinha, produtos derivados e as correias das diferentes máquinas instaladas. A sustentação das lajes foi construída sobre uma base de vigas de madeira (Arquivo Sociedade Industrial, Lda., 1920; MORENO VEGA et al., 2011).
Figura 8. Corte estrutural da Fábrica de Moagem e Descasque de Arroz.

Fonte: Desenho da autora.
41A secção de moagem mais antiga e importante da fábrica localizava-se no corpo central do edifício. Porém a respetiva maquinaria não chegou até aos nossos dias, pelo que só é possível a perceção do espaço pela interpretação de desenhos. Como em todas as moagens modernas com o sistema Austro-húngaro, o processo de produção era contínuo desde a chegada do trigo até à sua saída já transformado. A maquinaria distribuía-se pelos diferentes pisos, comunicando-se por tubagens que faziam o circuito do grão. Na cave, estava instalado um sistema de roldanas e correias que acionavam o motor e punham em funcionamento a fábrica. No piso 0, situavam-se os moinhos de cilindro que moíam o cereal e, por fim, no piso superior realizava-se a peneiração e a separação da farinha por tipo 1 e tipo 2. O produto final descia pelas tubagens por gravidade até à zona de ensacagem; depois de ensacado era armazenado num local fresco, arejado e seco, pois a conservação da farinha dependia muito da temperatura e da humidade destes espaços (PALOMARES ALARCÓN et al., 2018; MORENO VEGA et al., 2011).
42O espaço da moagem da farinha em rama, que ainda hoje existe, era utilizado pelos moleiros da região nos anos em que a seca os impedia de utilizar as azenhas. Esta funcionava com a mesma força motriz que a fábrica de farinha espoada. Por volta de 1939/40, este espaço sofreu alterações, sendo fechadas todas as portas e janelas que comunicassem com a fábrica de farinha espoadas para não haver contaminação de farinhas; no exterior foi também construído um muro de separação entre as duas fábricas (Arquivo Sociedade Industrial, Lda., 1920).
43Quanto à unidade de secagem e descasque de arroz, a fábrica tratava de 3 a 3,5 milhões de arroz integral. O processo tinha início no piso térreo, sendo o arroz sugado para os pisos superiores através das tubagens. Ao circular nas máquinas, passava por três fases: limpeza, descasque e branqueamento. O produto final era ensacado em sacas de 50 ou 75 kg, seguindo para a secção de embalagem. A fábrica tinha a sua própria embalagem (Arquivo Sociedade Industrial, Lda., 1920).
44A morfologia da fábrica foi-se alterando ao longo dos anos, conforme as necessidades e as possibilidades económicas. Houve uma ampliação na linha de produção e comprou-se maquinaria, foram feitas reformas nos vestiários, balneários e refeitório, e foi adquirido um forno de padaria para servir a população no ano de 1927. O perímetro industrial também se foi alterando, sendo construídos a sul mais três armazéns, um deles para instalação de um secador de arroz em casca que se compõem de fornalha, ventoinha, câmara de secagem a motor, tendo capacidade média para 20 000 kg de arroz em casca em 24 horas de trabalho.
45Em 1957, foram feitas obras de ampliação do muro e a construção de mais dois armazéns de arroz. Após estas obras o complexo industrial fica com a configuração que conhecemos atualmente (Arquivo Sociedade Industrial, Lda., 1920).
Figura 9. Evolução morfológica, desde a implantação da fábrica até à atualidade.

Fonte: Desenho da Autora.
46No ano de 1968, a fábrica foi vendida à firma Sociedade Comercial e Industrial de Produtos Alimentares de Ponte de Sor, Lda. (SOSOR), que funcionou com o descasque de arroz, por alguns anos ficando assim conhecida como a Fábrica de Arroz.
47Em 1997, o edifício foi adquirido pelo Município de Ponte de Sor com objetivo de revitalizar este espaço. Do antigo edifício fabril, a maquinaria que restou foi da secção de secagem e descasque de arroz e da moagem de farinha em rama. A proposta apresentada pela Câmara Municipal pretendia criar um espaço cultural, preservando a estrutura do edifício e a maquinaria ainda existente, constituindo um importante núcleo de arqueologia industrial (CAVALLEIRA, 1998).
48O projeto para o Centro de Artes e Cultura ficou a cargo do atelier Walfredo Sangareau de La Cavalleria, Lda. e baseou-se fundamentalmente na adaptação dos espaços existentes para servir as novas funções que são agora pretendidas, como zonas de galerias, anfiteatro, restaurante e zonas de estar; o antigo espaço industrial encontrava-se em bom estado de conservação. No antigo pátio surge um grande jardim e os antigos edifícios foram preservados e recuperados com algumas adaptações. A intervenção dos arquitetos pretendia preservar a memória da fábrica mantendo a sua traça original com um aspeto mais contemporâneo.
49Para o desenvolvimento do projeto, desenvolveu-se um estudo sobre a fábrica, estrutura e materialidade de forma a perceber qual a melhor distribuição do programa em função dos espaços. O programa propunha manter o seu caráter industrial e adaptá-lo às novas funções. No desenvolvimento do projeto foi necessário derrubar algumas paredes e criar acessibilidades: surge assim a proposta para a entrada, um amplo átrio e uma galeria de acesso adossada ao edifício que incorpora elevador.
Figura 10. Corte esquemático de estrutura do Centro de Artes e Cultura de Ponte de Sor.

Fonte: Desenho da autora.
50Os armazéns do edifício principal foram adaptados a galerias de exposições e biblioteca. A fácil versatilidade e amplitude destes espaços permitiu criar em alguns locais um piso intermédio que possibilitou mais espaços de circulação e zonas de estar. Os armazéns exteriores foram reabilitados com outros fins, restaurante, anfiteatro, centro de formação e cultura contemporânea, na zona das antigas oficinas foram construídas as residências para artistas.
51O cuidado de preservar os elementos de construção existentes relevantes possibilitou o desenvolvimento de soluções arquitetónicas racionais, objetivas e ricas em pormenores que salvaguardaram a sua estrutura fabril (CAVALLEIRA, 1998).
52Conclui-se que a Fábrica de Moagem de Descasque de Arroz foi construída com a finalidade industrial, com uma planta de caráter extremamente funcional; entende-se que os espaços foram construídos para acolher os usos industriais e a maquinaria. Porém, atualmente este edifício tem um caráter público e entende-se assim que as tipologias industriais têm qualidades espaciais que permitem adaptar-se a distintos usos. A sua apropriação depende do estado de conservação da estrutura industrial do conjunto – degradação ou de ruína, razoável ou bom. O estudo de situação atual dos edifícios contribui para o conhecimento das edificações e de como as intervenções poderiam ajudar a conservar as suas estruturas e preservar a memória destes espaços, dando-lhes uma nova vida e salvaguardando aspetos importantes da sua arquitetura.
53Por fim, entende-se que o processo de reabilitação/requalificação deste conjunto industrial foi uma intervenção onde se respeitou a estrutura existente e a sua configuração original. A intervenção neste espaço permitiu recuperar a envolvente em que se inserem onde se realizam diversas atividades, o que permite atrair novos públicos e novas formas de habitar. A fábrica de Ponte de Sor destaca-se pelo facto de preservar parte da maquinaria e se converter em museu, a sua reabilitação/reuso permite que todas as gerações usufruam desses espaços, podendo admirar as suas dimensões e máquinas e recuperar relações entre as pessoas e os espaços do passado.
54Este conhecimento permite salvaguardar uma parte importante do património, demostrar a diversidade de intervenções e diferentes modos de agir no património industrial.
Bibliographie
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Notes de bas de page
Auteur
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Filipa Pereira
Universidade de Évora, Departamento de Arquitetura
lipavictorino@gmail.com
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