Cor e técnica na cerâmica de revestimento medieval
O caso dos ladrilhos cistercienses do Mosteiro de Alcobaça
Résumés
Fundado em 1153, o Mosteiro de Alcobaça reflete os valores originais da Ordem de Cister através da sua arquitetura austera e despojada. Os ladrilhos vidrados que outrora revestiam o pavimento da abside funcionavam, assim, como um raro elemento decorativo através dos padrões criados com as suas diferentes cores e formatos. Considerados peças originais do século XIII, estes ladrilhos serão um dos primeiros exemplos de azulejaria em Portugal. O objetivo deste trabalho foi caracterizar a sua paleta cromática, através do estudo multi-analítico dos vidrados. As técnicas utilizadas foram a microscopia ótica (MO), a micro-espectrometria de emissão de raios-X induzida por partículas (μ-PIXE) e a microscopia eletrónica de varrimento com espectroscopia de raios-X por dispersão de energia (SEM-EDS). As cores identificadas nos ladrilhos, todos monocromáticos, foram o branco, o azul-turquesa, o castanho e diferentes tonalidades de verde. As análises efetuadas permitiram concluir que esta paleta se deve à presença de óxidos de estanho, de cobre e de ferro em vidrados plumbíferos. A identificação de vidrados opacificados por estanho sugere que este é um dos primeiros exemplos do uso desta tecnologia islâmica em pavimentos de cerâmica no Portugal cristão.
Founded in 1153, the Monastery of Alcobaça reflects the original values of the Order of Cister through its elegant architecture. The glazed tiles that once coated the floor of the apse worked as a rare decorative element through the patterns created with their different colours and shapes. Considered 13th-century originals, these are some of the first examples of architectural glazed tiles in Portugal. The main goal of this research was to characterize their colour palette through a multi-analytical study of the glazes. The techniques used were optical microscopy (OM), particle-induced X-ray emission micro spectrometry (μ-PIXE), and electron scanning microscopy with energy-dispersive X-ray spectroscopy (SEM-EDS). The colours identified in the glazed tiles, all monochromatic, were white, turquoise blue, brown and different shades of green. The analyses revealed that this palette was obtained with tin oxide, copper oxide and iron oxide in different amounts mixed with lead glazes. The identification of tin-opacified glazes suggests this being one of the first examples of this Islamic technology used in ceramic pavements in Christian Portugal.
Entrées d’index
Keywords : tiles, ceramic, glazed tiles, chromatic palette, Alcobaça
Palavras chaves : ladrilhos, cerâmica, vidrado, paleta cromática, Alcobaça
Note de l’auteur
Em memória da nossa amiga e colega Vânia Solange Ferreira Muralha.
Este trabalho foi financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT): PTDC/CPCEAT/4719/2012, pelos projetos LA/P/0037/2020, UIDP/50025/2020 e UIDB/50025/2020 (CENIMAT/i3N), SFRH/BD/145308/2019 (F. Carvalho), CEECIND/00882/2017 (S. Coentro), UIDB/00729/2020 (VICARTE), UIDP/00729/2020 (VICARTE), PTDC/HAR-HIS/1899/2020 (ChromAz), LA/P/0008/2020 (Lab. Associado para a Química Verde - Tecnologias e Processos Limpos), UID/Multi/04349/2013 (C2TN), UID/FIS/50010/2013 (IPFN) e UID/Multi/04449/2013 (Lab. HERCULES).
Texte intégral
O Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça
1Classificado como Património Mundial da Humanidade pela UNESCO, o Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça é hoje um marco histórico-artístico não só pela sua arquitetura gótica religiosa, como também pelo papel fundamental que teve na afirmação do território português no século XII, a partir da doação de uma vasta área pelo rei D. Afonso Henriques à Ordem de Cister, em 1153 (TRINDADE, 2007; VILLAMARIZ, 2012).
2A Ordem de Cister era regida por princípios que definiam desde o local para a implantação dos mosteiros até aspetos mais práticos da vida diária dos monges. Estes guiavam-se pela simplicidade e humildade, refletidas num estilo de vida despojado e voltado para o trabalho, a oração e a caridade (JUBAINVILLE et al., 1958; VILLAMARIZ, 2012). Estes princípios eram fruto do pensamento de São Bernardo de Claraval, abade do Mosteiro de Claraval, em França, a quem foi dirigida a carta de fundação de Alcobaça (CUNHA, 2005; LEROUX-DHUIS, 2006; TRINDADE, 2018; VILLAMARIZ, 2012). Para São Bernardo, a decoração excessiva e luxuosa das igrejas e objetos de culto era inapropriada à vida religiosa, porque poderia desviar não só os monges da sua real função ligada à oração, como também os recursos financeiros necessários para a realização das obras de caridade (CUNHA, 2005; VILLAMARIZ, 2012). Desta forma, as construções deveriam ser desprovidas de elementos decorativos como esculturas, pinturas e vitrais coloridos que, no entanto, não resultavam na ausência de sentido estético e magnificência dos edifícios, muito menos na negligência com a qualidade dos materiais aplicados ou com a mão-de-obra especializada envolvida na obra. Os monges poderiam trabalhar nas diferentes fases construtivas, mas era bastante comum a presença de mestres de obra laicos de oficinas especializadas e aprendizes (LEROUX-DHUIS, 2006; VILLAMARIZ, 2012).
3Em território português, a Abadia de Santa Maria de Alcobaça foi a obra arquitetónica de maior importância para a Ordem de Cister e o primeiro edifício gótico construído à semelhança da Abadia de Claraval. A construção da igreja teve início em 1178 e demorou 74 anos a ser concluída (1178–1252) (LEROUX-DHUIS, 2006; TRINDADE, 2007; VILLAMARIZ, 2012).
Os pavimentos medievais
4O uso de ladrilhos cerâmicos para aplicação em pavimentos era bastante comum no contexto monástico medieval (SIMÕES, 1990). A área preferencial de aplicação deste tipo de revestimento na igreja era a zona da cabeceira (altares e capelas) e do transepto, sendo mais raro encontrá-lo na nave (DURBIN, 2005; NORTON, 1981; STOPFORD, 2005). O pavimento cerâmico medieval mais comum encontrado em contexto cristão era composto por ladrilhos monocromáticos, aplicados de modo a formar padrões geométricos, em que o elemento decorativo era dado pela alternância das formas e cores das peças (TRINDADE, 1997–1998, 2007).
5A produção dos ladrilhos medievais em cerâmica vidrada envolvia técnicas tradicionais de preparação da argila, moldagem em formas de madeira e cozedura em fornos a lenha (DURBIN, 2005). Normalmente, os ladrilhos eram relativamente espessos (> 2,5 cm) e chanfrados lateralmente, de modo que o tardoz ficasse menor do que a face principal. Este modelo de ladrilho possibilitava uma melhor adesão das peças ao solo, ao mesmo tempo que permitia um melhor encaixe da face principal do mosaico, quando assentado (DURBIN, 2005). As matérias-primas utilizadas variavam consoante a disponibilidade de material no local de produção (DURBIN, 2005; STOPFORD, 2005). A elaboração do vidrado também variava de acordo com as matérias-primas, as receitas e o conhecimento do mestre que o preparava. Em geral, eram utilizados vidrados plumbíferos como base para a preparação de vidrados coloridos por óxidos metálicos. A paleta de cores era relativamente restrita, embora houvesse bastante variação na tonalidade de uma mesma cor. O mais comum era o uso de vidrado incolor e de óxidos de cobre e ferro para obtenção de verdes e tons mais escuros (DURBIN, 2005).
O pavimento da Abadia de Santa Maria de Alcobaça
6O revestimento cerâmico vidrado estava de acordo com os preceitos cistercienses, tendo sido disseminado por diversas edificações da Ordem de Cister em diferentes países europeus (GRANBOULAN, 1984; TRINDADE, 2007). Em Portugal, ladrilhos cerâmicos foram utilizados para revestir o pavimento da cabeceira da Abadia de Alcobaça, composto tanto por ladrilhos lisos, como por ladrilhos com linhas incisas, ambos vidrados. Quando ainda existente, o vidrado apresenta-se frequentemente desgastado e corroído. Atualmente, apenas o deambulatório da igreja possui ladrilhos cerâmicos ainda aplicados. As peças em estudo, todas lisas e monocromáticas, fazem parte do espólio recuperado após as intervenções de restauro realizadas na década de 1930.
7Não foram encontrados documentos que comprovem exatamente a data em que o pavimento cerâmico foi assente. Acredita-se que sejam peças originais do século XIII, pelas características formais dos ladrilhos e padrões utilizados e também pela baliza das datas para o início das obras (1178) e a consagração da igreja (1252). Se considerarmos o início das obras pela zona da cabeceira da igreja, conforme sugerem alguns historiadores (VILLAMARIZ, 2012), esta corresponderá à parte mais antiga do edifício, sendo provável que, à data da consagração da igreja, toda esta zona já estivesse concluída. Além disso, mestres islâmicos poderiam estar relacionados com o fabrico dos ladrilhos vidrados utilizados no pavimento, uma vez que dominavam esta tecnologia. Marcas moçárabes-mudéjares foram identificadas na cantaria da abside da igreja, indicando não apenas a presença de mestres islâmicos na região, como também comprovando a participação destes trabalhadores na construção (RASQUILHO et al., 2007; TRINDADE, 2007). Em 2000 e 2007, Trindade chamou a atenção para a presença, nos pavimentos, de vestígios de vidrado hispano-muçulmano, como sejam o branco de estanho e o azul-turquesa, além da restante paleta de vidrados cristãos. Esta descoberta inédita demostrou, para o caso português, o afastamento definitivo de fabrico destes pavimentos em França, afastando-se das congéneres europeias e comprovando, por outro lado, a tecnologia de vidrados do sul islâmico (TRINDADE, 1997–1998, 2007).
8Há poucas referências sobre os padrões compostos pelos ladrilhos monocromáticos ou a localização original deste pavimento. Alguns dos documentos relativos às intervenções realizadas na década de 1930 registam informações sobre o pavimento como, por exemplo, o rebaixamento do piso, então utilizado à época, para descobrir o «pavimento primitivo» (1930, SIPA, TXT.00325645), bem como a descoberta de ladrilhos abaixo do lajeamento da «capela mor» (1931, SIPA, TXT.00325728). Foi encontrado apenas um documento que descreve um dos padrões utilizados, bem como a sua localização exata na zona absidal da Abadia. Trata-se de uma carta escrita por Jorge Colaço, publicada a 16 de outubro de 1932, no jornal Diário de Notícias. Nesta carta, o autor denuncia a remoção do pavimento medieval aplicado no cruzeiro da igreja, cujo padrão era composto por «ladrilhos verdes em formato de cruzeta, nos quais se encaixavam pequenos círculos de pasta mais clara, “sem vidrado” (…)» (COLAÇO, 1932). Santos Simões descreve também outra campanha de remoção dos pavimentos medievais, ocorrida em 1939 (SIMÕES, 1990; TRINDADE, 2007). Neste período, acreditava-se que o pavimento cerâmico pudesse ter sido um acrescento do século XVII e, por esta razão, optou-se por removê-lo (MARTINS, 2011; SIMÕES, 1990; TRINDADE, 2007). Apesar de não mencionar onde estavam aplicados, Santos Simões conseguiu reproduzir 11 dos padrões removidos, incluindo aquele citado por Colaço, em 1932. Com base nestes documentos, é possível concluir que, até ao início dos anos 40, a maior parte do pavimento cerâmico aplicado na abside da igreja tinha sido removida.
9Considerado um dos primeiros exemplares da azulejaria portuguesa em contexto cristão, o pavimento cerâmico será estudado do ponto de vista da caracterização química e morfológica dos vidrados, principalmente no que se refere à paleta cromática utilizada, deixando de parte o estudo do corpo cerâmico, já considerado numa publicação anterior (CARVALHO et al., 2016).
Procedimento experimental
Peças estudadas
10Os ladrilhos em estudo constituem um conjunto de 15 peças, das quais em 14 delas foram estudados os vidrados (Tabela 1). As peças são relativamente espessas (≈ 2,3 a 3,5 cm) e o corpo cerâmico visualmente heterogéneo. As formas variam entre geométricas simples como quadrados, círculos e triângulos e formatos mais complexos que conjugam recortes arredondados e linhas retas. A paleta de cores é relativamente reduzida: identificaram-se como cores principais o branco, o verde, o azul-turquesa e o castanho, sendo que o verde apresenta diferentes tonalidades.
11O estudo foi realizado a partir da observação das peças e da análise de pequenas amostras dos vidrados, todos lisos e monocromáticos. Em razão da existência de sinais de corrosão ou da heterogeneidade observada na cor de um mesmo vidrado, na maioria das peças foram retiradas mais do que uma amostra sendo, no total, analisadas 28 amostras de vidrados. Estas foram montadas em resina epoxídica Araldite 2020® e polidas para observação em secção transversal. As amostras foram observadas por microscopia ótica e analisadas quantitativamente por µ-PIXE. As concentrações elementares calculadas são apresentadas em percentagem mássica dos óxidos correspondentes, usando-se para tal o símbolo %. As análises por SEM-EDS foram realizadas em 11 das 28 amostras e permitiram obter mapas de distribuição elementar nos vidrados. Na Tabela 1 são apresentadas as peças em estudo (ladrilhos) associadas à cor observada do vidrado, o número de amostras retiradas e as análises realizadas em cada ladrilho.
Tabela 1. Ladrilhos em estudo do pavimento cerâmico de Alcobaça, de acordo com a cor observada do vidrado, a amostragem e as análises realizadas por amostra.

Técnicas analíticas
Microscopia eletrónica de varrimento com espetroscopia de raios-X por dispersão de energia (SEM-EDS): microscópio eletrónico de varrimento HITACHI S-3700N, com espectrómetro de raios-X por dispersão de energia Brüker Xflash 5010 acoplado, resolução 123 eV (Mn Kα). As análises foram realizadas em modo de pressão variável, sob pressão de 40 Pa na câmara de análise, e tensão de aceleração do feixe primário de 20 kV, para obtenção de imagens em modo de eletrões retrodifundidos (BSE) e análise química. O software Esprit 1.9 (Brüker Corporation) foi usado para análise e semiquantificação. (Lab. HERCULES, U. Évora).
Micro-espectrometria de emissão de raios-X induzida por partículas (µ-PIXE): acelerador Van de Graaff de 2,5 MV, com microssonda nuclear Oxford Microbeam OM150, ajuste de foco de 3×4 µm2 para feixe de protões de 1 MeV. Irradiação em vácuo, em câmara equipada com detetores de raios-X, de Si(Li), com resolução em energia de 145 eV. Mapas de distribuição elementar de 750×750 µm2. Tratamento dos dados e a quantificação: softwares OMDAQ e Gupixwin. (IST, U. Lisboa).
Microscopia ótica: microscópio ótico Axioplan 2 Imaging, com máquina fotográfica digital Nikon DMX acoplada. Observação em luz refletida e filtros de contraste interferencial, campo escuro e luz polarizada. (FCT NOVA).
Resultados e Discussão
Vidrados monocromáticos
12A composição química dos vidrados obtida por μ-PIXE é apresentada na Tabela 2. Os resultados indicam que os vidrados são plumbíferos, apresentando teores de óxido de chumbo (PbO) no intervalo de 39–63 %, com exceção do valor de 23 % encontrado para a amostra azul-turquesa. Este intervalo alargado de valores encontrados para a percentagem mássica de PbO está relacionado com as receitas utilizadas para a obtenção das diferentes cores, observando-se teores de PbO mais baixos nos vidrados opacos, ou seja, naqueles que apresentaram maiores percentagens de óxido de estanho (SnO2). A proporção de óxidos colorantes também está diretamente relacionada com as cores obtidas.
Tabela 2. Composição química dos vidrados, em percentagem mássica (%), obtida por μ-PIXE.

13A paleta cromática identificada nos ladrilhos de Alcobaça, e aqui apresentada, teve em conta a observação visual e a análise química dos vidrados (Figura 1). As variações tonais correspondem a diferenças na receita inicial e serão discutidas adiante.
Figura 1. Diagrama esquemático da paleta cromática dos vidrados estudados de acordo com a sua composição química em óxidos colorantes.

Paleta cromática
Branco
Figura 2. Ladrilhos monocromáticos brancos.

14A cor branca deve-se à presença de óxido de estanho (SnO2) sob a forma de aglomerados de partículas, que conferem cor e opacidade ao vidrado. Os teores de SnO2 utilizados na formulação dos vidrados são relativamente elevados e bastante variados, situando-se entre 7–20 % (Tabela 2). As imagens de SEM em modo BSE e de microscopia ótica (Figura 3) mostram que, em geral, os aglomerados de óxido de estanho (SnO2) estão distribuídos pelo vidrado de forma heterogénea e possuem dimensões variadas.
Figura 3. Amostra 31AN1997-e. a) Observação do vidrado branco por MO; b) Imagem SEM em modo BSE do vidrado branco em (a); c) Mapa de composição elementar correspondente a (b), onde se observa a distribuição de K, Sn, e Ca, sendo a cor vermelha atribuída ao Sn.

15A utilização de óxido de estanho para obtenção de brancos foi uma tecnologia desenvolvida e produzida pela primeira vez no Iraque, no século VIII (TITE et al., 1998; TRINDADE, 2007), tendo chegado à Península Ibérica entre o final do século IX e o início do século X (SALINAS et al., 2018). A presença do vidrado branco estanífero comprova a assimilação e o uso desta tecnologia, tipicamente islâmica, para aplicação em contexto medieval cristão, em território português (TRINDADE, 2007, 2018).
Azul-Turquesa
16O óxido de cobre (CuO) em matriz alcalina produz uma tonalidade azul-turquesa (MARITAN et al., 2006). De facto, esta amostra apresenta os teores mássicos mais elevados em óxido de silício (≈ 47 % SiO2), óxido de sódio (≈ 4 % Na2O) e óxido de potássio (2 % K2O), e teores baixos em óxido de chumbo (≈ 23 % PbO), quando comparados com os restantes vidrados. Apresenta ainda valores elevados para o óxido de estanho (≈ 15 % SnO2), enquanto o óxido de cobre, que funciona como cromóforo, aparece com teor de 1,2 %. O vidrado apresenta aglomerados de óxido de estanho de dimensões variadas, dispersos na matriz vítrea (Figura 4).
Figura 4. Peça com parte do vidrado azul-turquesa. (a) Observação do vidrado por MO. (b) Imagem SEM em modo BSE do vidrado. (c) Mapa de composição elementar onde as partículas contendo estanho correspondem às manchas rosadas.

Verde
17A cor verde foi identificada em nove dos 14 ladrilhos estudados (Figura 5). As tonalidades variam de verde escuro a verde amarelado. A cor é obtida pela adição de óxido de cobre (CuO) em percentagens mássicas entre 1–5 %, adicionado a uma matriz plumbífera que é cozida em atmosfera oxidante. Além da percentagem de CuO utilizada, a tonalidade da cor é ainda influenciada pelos teores em óxido de ferro (Fe2O3) e também pela quantidade de óxido de estanho (SnO2) adicionada ao vidrado. Em conjunto com o óxido de cobre, a adição de óxido de ferro confere tonalidades de verde mais amareladas e/ou acastanhadas, enquanto a adição de óxido de estanho resulta em tonalidades de verde mais claro, uma vez que este óxido atua de modo equivalente à adição de um pigmento branco. Além de alterar a tonalidade da cor, o óxido de estanho atua simultaneamente como opacificante do vidrado. De modo geral, os vidrados verdes apresentam teores elevados de óxido de chumbo (PbO), entre 48 % e 63 %.
Figura 5. Observação por MO das diferentes tonalidades de verde. As imagens estão organizadas, em ordem decrescente (de cima para baixo), consoante a percentagem de CuO.

18A tonalidade de verde mais escura, quase negra, parece dever-se a uma percentagem mais elevada de óxido de cobre (7 %) e a uma camada mais espessa de vidrado aplicado (Figura 6). As tonalidades de verde visualmente mais similares entre si apresentam vidrados com poucas inclusões. Além disso, a proporção entre os óxidos de ferro e cobre são semelhantes, embora as percentagens de Fe2O3 variem entre 1 % e 2 % e os teores em CuO sejam ligeiramente superiores, entre 2 % e 4 %. Em três amostras, o óxido de ferro foi quantificado numa percentagem superior à encontrada para o óxido de cobre, o que resultou em tons verde mais acastanhado (≈ 2 % Fe2O3, < 1 % CuO), verde azeitona (≈ 1,7 % Fe2O3, ≈ 0,2 % CuO) e verde amarelado (≈ 1% Fe2O3, ≈ 0,15 % CuO) (Figura 6). O ladrilho AN3-a apresenta o vidrado verde mais opaco, o que, de facto, corresponde à maior percentagem mássica de SnO2 (≈ 5 %) (Tabela 2).
Figura 6. Amostras de três tonalidades distintas de vidrados verdes, observadas por SEM em modo BSE. Os vidrados (parte mais clara da imagem) são homogéneos em todos os casos, embora a amostra 31AN1997-b verde amarelada apresente bolhas e fissuras. Observa-se também que a amostra 31AN1997-a, correspondente ao verde muito escuro, apresenta a camada mais espessa de vidrado.

19A composição dos vidrados verdes é coerente com as composições típicas do período medieval, em que a cor é obtida pela adição de óxido de cobre numa matriz plumbífera incolor. No caso de Alcobaça destaca-se, ainda, o uso do óxido de estanho em alguns verdes, contribuindo com a cor branca para a obtenção de outras tonalidades daquela cor, e influenciando também a opacidade do vidrado.
Castanho
20O vidrado castanho foi amostrado em apenas um dos ladrilhos estudados. Foi aplicado sobre a chacota numa camada irregular e muito fina (≈ 90,0 µm), constituindo o vidrado de menor espessura analisado. Ainda assim, apresenta bolhas e fissuras na camada vítrea (Figura 7). De todas as amostras, é aquela que apresenta o maior teor de óxido de ferro (5,1 % Fe2O3), o que justifica a tonalidade castanha escura. Este vidrado apresenta alto teor de óxido de chumbo (≈ 55 % PbO), sendo este um dos principais componentes, juntamente com o óxido de silício (≈ 33 % SiO2) e a alumina (≈ 4 % Al2O3) (Tabela 2).
Figura 7. Vidrado castanho observado por (a) MO; (b) SEM em modo BSE e (c) mapa de composição elementar. O vidrado apresenta uma fina camada aplicada sobre o corpo cerâmico. As imagens de SEM-EDS revelam a homogeneidade da camada vítrea, a presença de fissuras no vidrado e a zona de interface bem definida.

Conclusão
21Os resultados obtidos nas análises dos vidrados são coerentes com outros estudos publicados sobre cerâmica medieval (GONÇALVES, 1989; GRANBOULAN, 1984; LEROUX-DHUIS, 2006; TRINDADE, 2007, 2018), o que é consistente com a hipótese deste conjunto ser efetivamente do século XIII.
22A composição geral dos vidrados também está de acordo com a reduzida paleta de cores das produções medievais. O vidrado base era composto maioritariamente por sílica e óxido de chumbo. Os verdes tinham como óxido colorante o óxido de cobre (CuO), embora nas tonalidades de verde mais quentes (acastanhado, azeitona e amarelado) tenha sido identificado o óxido de ferro (Fe2O3) em maiores percentagens do que o óxido de cobre. Destaca-se ainda o uso do óxido de estanho (SnO2) para obtenção de outras tonalidades de verdes. Para o castanho foi identificado o óxido de ferro como colorante. Mas é o vidrado estanífero aquele que constitui uma das provas mais importantes sobre o contexto medieval de fabrico dos ladrilhos e a difusão do conhecimento islâmico sobre a tecnologia envolvida nesta produção. O vidrado branco estanífero e, sobretudo, o azul-turquesa eram relativamente raros em outras Abadias Cistercienses, ainda no século XIII. No caso de Alcobaça, é importante ressaltar que os resultados indicam o fabrico intencional da cor azul-turquesa, também formulado com óxidos de estanho e óxidos de cobre, adicionados em matriz alcalina. O grande diferencial do pavimento de Alcobaça, fazendo deste um caso único em Portugal, é justamente o facto de que, além da tecnologia de produção de vidrados típica deste período, com vidrados de chumbo transparentes coloridos por óxidos metálicos, encontram-se também exemplares característicos de uma tecnologia de produção tipicamente islâmica, com os brancos e o azul-turquesa utilizados em contexto cristão. Desta forma, o pavimento cisterciense da Abadia de Alcobaça é, no mínimo, inovador em contexto pavimentar cristão português, sobretudo no que se refere à tecnologia de fabrico.
Bibliographie
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Format
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Auteurs
-
Fernanda Carvalho
Autor correspondente
Universidade Nova de Lisboa / Faculdade de Ciências e Tecnologia, CENIMAT/i3N
fb.carvalho@campus.fct.unl.pt -
Susana Coentro
Universidade Nova de Lisboa / Faculdade de Ciências e Tecnologia, VICARTE
scoentro@fct.unl.pt -
Luís Cerqueira Alves
Universidade de Lisboa / Instituto Superior Técnico, C2TN-IST/UL
lcalves@ctn.tecnico.ulisboa.pt -
Rui C. Silva
Universidade de Lisboa / Instituto Superior Técnico, IPFN-IST/UL
rmcs@ctn.tecnico.ulisboa.pt -
Cátia Relvas
Laboratório HERCULES
catia.relvas@gmail.com -
Teresa Ferreira
Universidade de Évora / Escola de Ciência e Tecnologia, DQB, Laboratório HERCULES
tasf@uevora.pt -
José Mirão
Universidade de Évora / Escola de Ciência e Tecnologia, DGEO, Laboratório HERCULES
jmirao@uevora.pt -
Rui André Alves Trindade
Museu Nacional de Arte Antiga
ruieatridade@gmail.com -
Isabel Costeira
Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça
icosteira@malcobaca.dgpc.pt -
Vânia Solange Ferreira Muralha†
Universidade Nova de Lisboa / Faculdade de Ciências e Tecnologia, VICARTE
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