Prefácio
Texte intégral
1Foi a partir de um retiro eremítico feminino existente já em 1169 junto da ermida da Vera Cruz, à Porta da Lagoa, e que mais tarde escolheria o isolamento da ermida de S. Bento na encosta do monte do mesmo nome, que Cister marcou presença em Évora através do mosteiro de S. Bento de Cástris. Respeitando o ideal cisterciense de afastamento do mundo na escolha do locus, o mosteiro de monjas bernardas foi o segundo na história monástica da cidade de Évora e o primeiro extra-muros. Em 1275 S. Bento de Cástris é citado documentalmente como mosteiro da Ordem de Cister, enquanto complexo que abrigaria toda a comunidade regular: desde o sector religioso aos serviços (dormitórios, cozinha, refeitório, claustro) e outras dependências (celeiro, lagar). Cástris ficaria pertencendo, dentro dos mosteiros femininos portugueses (tal como Cós, Odivelas, Almoster), às comunidades que se constituíram sob o patrocínio e visitação dos abades de Alcobaça, distinguindo-se das comunidades fundadas pelas Santas Princesas em sujeição directa a Claraval ou à Santa Sé (Lorvão, Celas, Arouca).
2A Idade Média marcaria a afirmação do mosteiro na história local e nacional, à imagem das suas abadessas, com cargos vitalícios, e que a História tiraria do anonimato: nomes como Joana Peres Ferreirim, prima da aleivosa Leonor Teles, no dizer de Fernão Lopes, ou Mor Paes Perdigoa, parente do Condestável. Essa afirmação far-se-ia notar também a nível construtivo, simbolizada pela consagração da igreja no primeiro terço do século XIV, pela recém-descoberta existência de obras no lanço sul entre a igreja e o então dormitório do mosteiro na transição do século XV para o XVI, e que o período manuelino-joanino confirmaria. Ao crescimento populacional do mosteiro no período moderno corresponderam tanto vultuosas campanhas de obras (arquitectura, pintura de cavalete e a fresco, carpintaria) como o apreciável apetrechamento em termos de Livros de Coro que têm vindo recentemente a ser alvo de intenso estudo através do Projecto ORFEUS, Projecto que encontraria uma das suas formas de maior consagração na proposta de reconstituição do repertório musical das religiosas.
3Do percurso do mosteiro de S. Bento de Cástris fica-nos o registo de que ele não é um caso de excepção, de excelência ou de protagonismo, mas tão simplesmente um caso de normalidade monástica que se afirmou pela interioridade, pelo silêncio, pela prática dos ofícios divinos, numa relação intensa com o meio que o determinou e que ele ajudou a determinar. É com a sua força, vinda já da medievalidade, a força com mais de 700 anos de história, que vimos procurando reconhecer a sua vivência quotidiana, a sua relação com o meio, as suas respostas às dificuldades colocadas pelas próprias circunstâncias históricas, e, através das Residências Cistercienses no mosteiro que se têm vindo a realizar, evocar os seus espaços e os seus tempos.
4Esta evocação assenta na importância que se deve reconhecer à história das comunidades monásticas na história do país e das regiões em que se implantaram. As religiosas de Cástris, filhas humildes de Alcobaça, a cujo abade obedeciam, foram crescendo em património, em população monástica, em espaço edificado; a abadia-mãe impunha-lhes obediência, por vezes austera e pouco tolerante através de reformas várias, mas também as apontou como exemplo e escolheu para fundadoras de novas comunidades.
5É a memória desta comunidade e o seu legado patrimonial que nos reúne, e que a todos cumpre salvaguardar, sendo as Residências Cistercienses realizadas no mosteiro desde 2013 uma das formas encontradas para essa salvaguarda. Essa realização vem apostando numa organização conjunta entre o CIDEHUS/ Universidade de Évora e a Direcção Regional de Cultura do Alentejo, com o apoio, desde o início, do CEHR/Universidade Católica Portuguesa e de investigadores do DECA-Universidade da Beira Interior. O nosso agradecimento estende-se ainda a diversas Unidades de Investigação (CEHUM, CESEM/UniMem, CHAIA-UÉ, CHAM, CHC, CITAD, CITCEM, CHSC-SoPoC, IHA, Lab2PT) e, nas últimas edições (2014 e 2015) ao Projecto FCT ORFEUS, entre outros. Como responsáveis pela organização do presente volume, não podemos também deixar de agradecer a todos os Colegas das Comissões Científicas da I e II Residências Cistercienses, bem como a todos participantes na iniciativa.
Fig. 1 – Interior da Igreja de São Bento de Cástris

Auteurs
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Antónia Fialho Conde
UÉ – CIDEHUS, CEHR, HERCULES
estuda aprofundadamente o monaquismo cisterciense feminino, com relevância para o Mosteiro de São Bento de Cástris, a história de Portugal e de Évora no período moderno e o património e cultura material.
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António Camões Gouveia
CHAM, FCSH, UNL/Uaç; CEHR, UCP
estuda as mentalidades, ideias e práticas sociais modernas, com aflorações na história da nobreza, dos saberes, da vida religiosa e do dia-a-dia e repercussões no património e na museologia.
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