“Escrevo-lhe porque me parece a única pessoa capaz de me ajudar nesta aflição”
As colunas de conselhos pessoais em Modas e Bordados e Crónica Feminina (1970-1978)
Résumé
A partir de duas revistas femininas, a Modas e Bordados e a Crónica Feminina, procura-se estudar os conselhos pessoais fornecidos às leitoras sobre temas relativos às suas vidas amorosas e, mais raramente, profissionais. Escolheu-se uma cronologia que vai dos últimos anos do Estado Novo aos primeiros do pós 25 de abril para percecionar eventuais alterações potenciadas pelas vivências em liberdade e democracia.
Entrées d’index
Palavras chaves : conselhos pessoais, Crónica Feminina, Estado Novo, Modas e Bordados, Portugal
Texte intégral
“É particulamente interessante a forma como a imprensa periódica feminina dá voz e visibilidade às mulheres. Transmitindo princípios, valores e normas de comportamento, esta imprensa constituí-se em acção pedagógica relevante na (in)formação das mulheres influenciando e difudindo modelos sociais próprios a cada época”1.
1Partindo de duas revistas femininas portuguesas, a Modas e Bordados – Vida Feminina e a Crónica Feminina, publicações de ampla divulgação, pretende analisar-se alguns aspetos dos quotidianos das mulheres numa época de transição politica em Portugal, isso é, no período pouco antes e pouco depois da revolução de 25 de Abril de 1974, tentando compreender a perceção da condição e dos papéis femininos. Tivemos em linha de conta o que escreveu Ivone de Freitas Leal:
“Os periódicos femininos permitem-nos conhecer em primeiro lugar o que os seus autores entendiam sobre o que as mulheres podiam ou deviam ler. Por outro lado numa série longa mostram-nos como e quando as mulheres ganham a terminação suficiente para assumir publicamente as suas opiniões. Neles se descortina também a lenta e trabalhosa afirmação do feminismo assim como se encontra o discurso anti-feminino que persiste renovado e elaborado por mulheres ou com a sua colaboração”2.
2As revistas femininas não só refletem os problemas das mulheres, como também forneçem a possibilidade de observar as mudanças ao longo do tempo: “vale a pena estudar os periódicos femininos. Tal estudo permite [...] seguir a lenta evolução do modo de estar no mundo de todo um grupo biossocial”3. Assim, neste artigo, estudam-se as colunas de conselhos pessoais na Modas e Bordados – Vida feminina e na Crónica Feminina. Juntaram-se os métodos qualititativos aos elementos da pesquisa quantitativa. O período analisado situou-se entre 1970 e 1978, tendo-se optado por não estudar Mulher. Modas e Bordados, a revista que, entre outubro de 1975 e fevereiro de 1977, sucedeu à Modas e Bordados – Vida Feminina, atendendo a que nasceu num contexto político e social completamente diverso do anterior4.
As colunas de conselhos pessoais
3A necessidade de pedir ajuda e conselho em momentos difíceis da vida é um dos mecanismos mais básicos do comportamento humano5. O aconselhamento é uma parte significativa da ajuda psicológica, dentro da qual cabem práticas como terapia, prevenção e intervenção6. É suficientemente flexível para ser fornecido em pessoa e por comunicação à distância, isso é, através de correspondência tradicional, de chamada telefónica ou da internet7. Se a participação ativa de um profissional é uma condição essencial para se poder falar de aconselhamento psicológico, convém não ignorar algumas tentativas de outro tipo ainda que não possam de forma alguma ser comparadas às de quem possui formação universitária. São os casos dos conselhos pessoais publicados na imprensa feminina. Por norma, encontra-se uma coluna especializada onde se publicam as cartas das leitoras e as respostas da redação, as quais contêm conselhos para resolver um problema. Há casos em que psicólogos profissionais colaboram com as revistas mas, na esmagadora maioria, os conselhos publicados constituem uma resposta elaborada por jornalistas sem formação académica no campo da psicologia.
4As colunas de conselhos pessoais das revistas femininas portuguesas nunca foram estudadas sob o ponto de vista científico, ao contrário do que aconteceu na literatura anglo-saxónica8. Sobre o fenómeno, chamado em inglês coloquial agony advice (e as autoras destas colunas designadas por nome de agony aunts), afirmou Susan McKay: “there are many early precursors of the agony pages that arouse historical curiosity as they document something of the prevailing values of the times”9. A mesma estudiosa viu as colunas como “cultural intermediaries”, servindo-se da expressão de Pierre Bourdieu10, especificando: “advice columns can operate as cultural intermediaries, at least in a superficial sense, as cultural gatekeepers on an idealized, but mediated, world of what is moral, what is acceptable, what is right”11. Susan Mckay referiu ainda um outro aspeto: “Hermes´s study suggests that, for some readers, reading about other people´s problem ratifies their own experiences and their own decision-making and contributes to what she calls repertories of practical knowledge and connected knowing that give readers an imaginary and temporary sense of identity and confidence”12.
5Desconhece-se onde e quando apareceram os conselhos pessoais publicados na imprensa portuguesa feminina. Quanto ao mundo anglo-saxónico, segundo W. Clark Hendley, surgiram em Inglaterra nos finais do século XVII e primórdios do XVIII, pouco depois da chamada restauração do rei Carlos II no trono inglês em 1660, ou seja, quando começaram as práticas jornalistas como hoje as conhecemos13. Pode, pois, afirmar-se que o presente texto é uma abordagem original e exploratória do tema. Não obstante, Irene Vaquinhas, no seu estudo sobre As mulheres na imprensa regional. O caso de A Comarca de Arganil (1901-1980), escreveu:
“Nos anos sessenta, já enquadrado por um novo cenário político e idelógico, o jornal passaria a incluir uma "Página Feminina", onde, a par de breves notícias sobre moda ou de pequenos artigos de carácter literário ou científico, se davam alguns conselhos às leitoras. Deles emergem mensagens persuasivas que, embora sem o estilo panflético e a retórica pesada e solene de alguns artigos de fundo, reiteram os comportamentos tradicionais femininos, censurando-se as condutas que fugiam às normas (amores proibidos, atitudes de mulher fatal ou de vamp, etc.), ou se recomendava às esposas a arte de fingir - "sofrer e calar" – quando os respectivos cȏnjuges perdiam a auréola de "principe encantado". Desconselhava-se, no entanto, em qualquer circunstância, o divórcio”14.
6Outro exemplo encontra-se na obra Mulheres em Discurso, de Ana Vicente. A autora analisou as cartas das leitoras da Crónica Feminina que foram recebidas por ocasião de um projeto desenvolvido pela Comissão da Condição Feminina. Entre abril de 1979 e dezembro de 1981, a referida organização publicou na revista um conjunto dos textos sobre planeamento familiar. No fim de cada um, informavam-se as leitoras que poderiam escrever à Comissão, se desejassem obter mais informações ou fazer qualquer pergunta relativa ao assunto. A sede em Lisboa e a delegação no Porto receberam em conjunto 10.230 cartas no período compreendido entre abril de 1979 e março de 1982, as quais obtiveram respostas individuais. No estudo de Ana Vicente foram analisadas 700 missivas, publicando-se as que foram consideradas mais interessantes. O objetivo era perceber as dúvidas das mulheres relativamente à questão do planeamento familiar, definido de forma muito vasta, e desenhar um perfil da educação que tinham na área em causa15.
7Na Modas e Bordados e na Crónica Feminina, as cartas das leitoras revelaram as preocupações e os problemas das mulheres da época. As respostas da redação, de uma forma indireta, fizeram o mesmo, mas mostraram sobretudo o modelo de comportamento desejado na época: “as revistas femininas, mais do que ‘acerca das mulheres’, são acerca da feminilidade [...]. A feminilidade que se aprende é, por outro lado, a que justifica a necessidade de repatriação das instruções e das regras que constituem normalmente a parte mais substancial das revistas femininas e que as marcam como importantes agentes de socialização”16.
8Em ambas as revistas, os conselhos foram dados por mulheres cuja formação é desconhecida. Nada se sabe sobre Guida, Leonor e Camila, eventuais pseudónimos, que aconselharam as leitoras da Modas e Bordados, nem sobre Gabriela, que desempenhou a mesma função na Crónica Feminina. É pouco provável que qualquer delas fosse psicóloga com formação superior, embora na época funcionasse, desde 1962, o Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA). Só depois do 25 de abril de 1974, nasceram cursos de Psicologia nas Universidades do Porto, Coimbra (1976) e Lisboa (1977)17. Nada se sabe, entretanto, a respeito de estudos feitos por mulheres portuguesas no estrangeiro.
Colunas de conselhos pessoais em Modas e Bordados – Vida feminina
9Entre 1970 e 1975, a secção de conselhos pessoais da Modas e Bordados sofreu várias transformações. No primeiro número de 1970, de 7 de janeiro, encontra-se uma coluna intitulada Problemas Sentimentais. Nós e a vida, assinada por Guida. Na parte baixa da página pode encontrar-se o endereço para onde deveria dirigir-se a correspondência18. Era publicada semanalmente. No número de 4 de março do mesmo ano, consta uma informação sobre a partida, para África, de Guida, a quem sucedeu Leonor. Ao longo do período analisado notaram-se várias interrupções, a primeira entre o número 3090 (de 23 de junho de 1971) e o 3106 (de 18 de agosto de 1971), perfazendo 16 semanas sem a coluna. A situação repetiu-se entre junho de 1972 e maio de 1973, regressando então o aconselhamento de forma completamente remodelada, o que provavelmente está ligado à renovação gráfica da revista, ocorrida em março de 1973.
10A coluna, que entretanto se passara a chamar Correio do Coração, deixou de surgir em dezembro de 1974. A partir de 14 de maio de 1975, passou a chamar-se Cartas de Amor, com a seguinte explicação:“Correio de Coração, tradicional em revistas femininas (será que os homens não têm?) passa a ser chamado Cartas de Amor. Isto porque quase todas as cartas que nos chegam são cartas de «desamor», com queixumes, sofrimentos, lamentos, conflitos. Mas nós sabemos que nem todo o correio de coração tem estas características. «Cartas de amor, quem as não tem?» Esta secção ficará, pois, aberta a todos os corações. Também para aqueles que, como diz a canção, o amor não rima com dor”19. Acrescente-se ainda que houve várias semanas em que a coluna não apareceu, nunca tendo havido qualquer explicação para o facto.
Coluna de conselhos pessoais em Crónica Feminina
11A coluna de conselhos da Crónica Feminina sofreu menos mudanças e interrupções do que a das Modas e Bordados. Durante todo o período analisado, Gabriela escreveu não uma, mas duas colunas: Conversando e Correio Sentimental. Cada uma aparecia de duas em duas semanas, o que significa que num mês típico havia dois números com Conversando e dois com Correio Sentimental. A diferença principal entre ambas é que, enquanto Correio Sentimental continha somente as respostas de Gabriela às leitoras, Conversando publicou tanto as cartas como os conselhos. Em março de 1973, apareceu uma nota: “Por motivo de doença de Gabriela ficam suspendidos, temporariamente, Correio Sentimental e Conversando”20. A 13 de setembro do mesmo ano, reapareceu o Correio Sentimental, extinguindo-se a outra coluna. Optou-se, neste texto, por estudar Conversando, atendendo à sua maior riqueza informativa, só se tendo recorrido ao Correio Sentimental a partir do momento em que a primeira desapareceu.
Metodologia
12Devido ao enorme volume de informação, optou-se pela seguinte metodologia: em cada mês, escolheu-se um conselho – por norma do segundo número de cada mês ou, quando tal não foi possível, por ausência da coluna, o do número um ou do número três – e determinou-se o problema principal descrito pela leitora. Criaram-se categorias temáticas e nas mesmas agruparam-se os conselhos. Assim, todos os meses ficaram representados na contagem total. No caso de Modas e Bordados o período analisado foi de 1970 a 1975, o que permitiu uma análise quantitativa. Como a Crónica Feminina durou até 1978, para não criar grande desequilíbrio entre as duas fontes, na parte quantitativa incluiram-se somente os dados recolhidos dos números publicados entre 1970 e 1975. Os restantes três anos foram objeto de reflexão somente qualitativa. A par da investigação quantitativa, fez-se uma análise qualitativa dos dados, estudando-se minuciosamente os conselhos, escolhidos arbitrariamente, tendo em conta o critério da maior representatividade.
As revistas Modas e Bordados – Vida Feminina e Crónica Feminina
13Modas e Bordados – Vida Feminina nasceu em 1912, como suplemento semanal do jornal O Século. Em 1938, era já tão popular que ganhou independência. Era então sua diretora (foi-o de 1928 a 1947) Maria Lamas (1893-1983), a quem em grande parte se deve o sucesso da revista. Em 1975, Modas e Bordados – Vida Feminina deixou de existir na sua forma original. Foi continuada por Mulher – Modas e Bordados, que desapareceu em 1977.
14Um outro aspeto merece ser referenciado. Em 1945, surgiu uma seção intitulada Nós e a Vida, redigida por universitárias. Incluiu artigos como “O papel da Mulher na História”, “A Mulher pelo mundo” ou “Consultório cultural”. Tinha como objetivo contribuir para o aperfeiçoamento cultural do sexo feminino. Aliás, logo no primeiro número se afirma pretender “que alguns dos nossos jornais comecem a compreender que não é com os artigos fúteis e vazios que nos costumam dedicar que se forma a mentalidade desejável da mulher e da mãe portuguesa”21. A coluna Nós e a Vida nasceu, portanto, como um espaço de doutrinação, evoluindo depois para uma secção de aconselhamento.
15Quanto ao conteúdo de Modas e Bordados, observou-se, na década de 1970, grande diversidade de temas. Ao lado de Nós e a vida, existiram colunas semanais de astrologia, conselhos de beleza e conselhos de cuidado e decoração do lar. Houve também secções dedicadas à moda e à produção de peças de vestuário, como Tricot e Crochet, bem como uma coluna de culinária intitulada Correio de Pantagruel, da responsabilidade de Bertha Rosa-Limpo22. Modas e Bordados também fornecia entretenimento, publicando fotonovelas e uma banda desenhada intitulada Gabriela Jones. Não se deve esquecer igualmente Joaninha, um espaço para as leitoras mais jovens.
16A Crónica Feminina surgiu em 1956, isso é 44 anos mais tarde de que Modas e Bordados. Os elementos fundamentais desta revista eram “a linguagem simples e o tom familiar, íntimo; a coerência estrutural conferida pela voz e pela presença tutelar da chefe de redacção; as referidas condições modestas, e mesmo artesanais, da produção; a diversidade do conteúdo, redutível a uma fórmula (fantasia + real) de que são emblemáticas a fotonovela e a reportagem do quotidiano”23. Como a Modas e Bordados, a Crónica Feminina destacou-se pela grande diversidade de conteúdos24. Os textos publicados raramente ultrapassaram duas páginas, notou-se grande abundância de fotografias e ilustrações, especialmente bem visíveis na publicidade, a fotonovela foi um elemento sempre presente e, de vez em quando, encontraram-se concursos organizados pela redação. Tudo isso lhe deu caraterísticas de maior levesa. “Na Crónica Feminina, no entanto, o mundo mais presente é [...] sem dúvida o mundo quotidiano de quem tem um emprego e uma casa para cuidar”25. Os aspetos do quotidano estiveram nas raízes desta revista juntamente a uma certa missão educadora que se manifestou em secções com conselhos de diferente natureza. “O elevado número de correios (sentimental, astrológico, grafológico, jurídico, médico, literário), se traduz a importância reconhecida à socialização na feminilidade [...], desempenha igualmente importante papel no processo de individualização das leitoras e da sua paralela integração numa comunidade”26.
A Mulher no Estado Novo
17Ao contrário da questão das colunas de conselhos, o tema mulheres no Estado Novo tem sido investigado por numerosos historiadores portugueses27. O objetivo destes parágrafos é, apenas, esboçar a linha ideológica do regime face ao sexo feminino, para depois verificar, com base nas fontes escolhidas, se e como as mesmas refletiram os valores e comportamentos promovidos pelo Estado Novo.
18Segundo Anne Cova e António Costa Pinto, “todas as ditaduras reafirmam no campo ideológico e político a apologia do ‘regresso ao lar’, a glorificação da ‘materniadade’ e de um certo modelo de ‘família’ enquanto função primordial, ao mesmo tempo que se confrontaram com a questão da ‘integração’ das mulheres no campo político, elevando algumas destas funções à meta nacionalista e mobilizadora importante dos seus regimes”28. E, curiosamente, uma parte destes valores era defendida quer pelas apoiantes quer pelas opositoras do Estado Novo29.
19A Constituição que entrou em vigor em 1933, estabelecia a igualdade plena de todos os cidadãos. O artigo 5 da Parte I (“Das garantias fundamentais”) afirmava que “O Estado português é uma República unitária e corporativa, baseada na igualdade dos cidadãos perante a lei”. Haveria igualdade entre homens e mulheres, se não fosse esclarecido no parágrafo seguinte: “A igualdade perante a lei envolve o direito de ser provido nos cargos públicos, conforme a capacidade ou serviços prestados, e a negação de qualquer privilégio de nascimento, nobreza, título nobiliárquico, sexo ou condição social, salvas, quanto à mulher, as diferenças resultantes da sua natureza e do bem da família, e, quanto aos encargos ou vantagens dos cidadãos, as impostas pela diversidade das circunstâncias ou pela natureza das cousas” 30.
20A ideologia do Estado Novo considerava a natureza da mulher um fator que justificava a desigualdade entre os sexos. Neste contexto, Anne Cova e António Costa Pinto sublinharam que o regime “manteve-se fiel às mensagens inalteravelmente repetidas, com um intervalo de quarenta anos, pela Igreja Católica, nas encíclicas Rerum Novarum (1891) e Quadragesimo anno (1931), em que a ‘natureza’ predispôs as mulheres a ficarem em casa a fim de educarem os seus filhos e de se consagrarem às tarefas domésticas”31. O papel da Igreja Católica na criação do modelo da feminilidade do Estado Novo foi bem visível. Até porque, além de todas as outras virtudes que o sexo feminino devia possuir, a sua caraterística principal era de ser boa cristã. Consideravam-se as mulheres naturalmente predestinadas para ficar em casa, cuidar dos filhos, governar o lar e agradar ao marido, o chefe de família. A esfera pública era um espaço quase exclusivamente masculino enquanto as mulheres deveriam ficar confinadas ao espaço privado.
21Este projeto era divulgado principalmente pelas duas organizaçãoes femininas do Estado Novo: a Mocidade Portuguesa Feminina (MPF) e a Obra da Mães pela Educação Nacional (OMEN)32. O público alvo da primeira foram as jovens enquanto a segunda foi destinada às mulheres maduras. Ambas tiveram programas ideológicos muito claros. Numa das revistas da MPF, a Menina e Moça, lê-se, a dado momento: “a mulher ideal deverá ser boa dona de casa, mas sem marcar os outros com os acontecimentos caseiros, compreensiva dos gestos e das necessidades alheiras, afetuosa para a família, pontual, discreta com os amigos, económica, sincera e leal, com bom génio, dócil, sincera, confiante, pouco tagarela e sem usar bâton”33. Desde a juventude, às raparigas era ensinado pudor, pureza, simplicidade e modestia no seu aspecto físico. Em maio de 1957, apareceu, uma vez mais, na Menina e Moça, um artigo intitulado “Proibido às raparigas”, onde se enumerou cuidadosamente o que as raparigas deveriam evitar em termos de vestuário e adornos: “os decotes exagerados e as costas nuas”, “os perfumes deixando atrás deles um rasto”, “os chapéus complicados”, “as faces muito pintadas e os olhos com retoques artificiais” e “o calçado extravagante”34. Baseando nestas recomendações, facilmente se deduz o tipo de comportamento que as mulheres e as raparigas deviam apresentar em público e principalmente com os homens. O mais desejável era que fossem modestas, submissas, puras, pundonorosas, dóceis e pouco assertivas. O objetivo principal da cada mulher devia ser tornar-se esposa e mãe, pois só no casamento e na maternidade, por natureza, encontrava a felicidade maior.
22Só após a revolução de 25 de abril de 1974 é que as mulheres se tornaram membros de pleno direito da sociedade portuguesa. Desapareceram as desigualdades em termos de sexo que se achavam consignadas na lei, o direito ao voto universal passou a ser uma realidade e restabeleceu-se o divórcio. Mas quanto a mentalidades, as mudanças foram lentas e graduais o que constitui uma questão essencial no âmbito do presente estudo.
23Entretanto, importa recordar que o período analisado no presente estudo já é de algumas transformações. A década de 1960 foi um tempo de “abertura à Europa e ao mundo dum ponto de vista cultural e artístico. O regime resiste a esta tendência de todas as maneiras que pode, chegando a proibir os primeiros concertos de jazz ou de música pop, e a ‘censurar’ a imprensa americana. A partir de 1969, torna-se evidente que o esforço é inútil. É praticamente impossível controlar a entrada de meios culturais estrangeiros quando há 1,5 milhões de turistas. A partir de então, não só os meios culturais da Europa e de além-Atlântico chegam livremente a Portugal, como, com a liberalização caetanista, se assiste a uma importante divulgação nos meios urbanos e estudantis do cinema soviético e da literatura marxista, até aqui conhecidas só no estrangeiro ou clandestiamente. É durante estes anos que [...] a imprensa francesa, inglesa e americana passa a ser consumida de forma regular nos centros urbanos. [...] Numa sociedade como a portuguesa, tradicionalmente fechada ao exterior [...] o impacto desta mudança maciça de gestos e mentalidades é imenso”35.
24No caso do sexo feminino, convém não esquecer que, a partir dos anos de 1950, aumentou o número de mulheres a trabalhar fora de casa. Em 1966, Portugal aprovou uma convenção da Organização Internacional do Trabalho que impedia a desigualdade salarial entre os sexos. Entretanto, algumas profissionais, como as enfermeiras e as funcionárias do Ministério dos Negócios Estrangeiros puderam passar a casar (respetivamente em 1962 e 1963) e as professoras do ensino primário deixaram de necessitar da autorização do Ministério da Educação Nacional para contrairem matrimónio (1969). Em 1970, pela primeira vez, uma mulher tornou-se membro do governo e no mesmo ano, surgiu, integrado no Ministério das Corporações, o Grupo de Trabalho para a Participação da Mulher na Vida Económica e Social, que, em 1973, mudou o nome para Comissão para a Política Social Relativa à Mulher. Liderava-o Maria de Lurdes Pintasilgo36.
Anos antes da Revolução de 25 de Abril
25O objeto de análise quantitiativa teve como base 118 conselhos, 58 da revista Modas e Bordados e 60 da Crónica Feminina, dos quais se fez uma selecção usando a metodologia anteriormente explicitada. Dividiram-se em sete grupos temáticos: namoro, problemas no casamento, problemas familiares, aparência física, vida sexual, vida professional e casos amorosos. Nem sempre a classificação se revelou evidente.
26Dentro da categoria “Namoro”, entraram temas como relações à distância, final de namoros duradouros, violência física e psicológica, dúvidas acerca da escolha do namorado, o desejo de casar e vários outros. Quanto à categoria “Problemas familiares” também se notou uma variedade significativa de tópicos, como a severidade exagerada dos pais, a falta de amor dos mesmos, a diferença profunda das opiniões entre pais e mulheres jovens, as dúvidas acerca do comportamento das crianças e as relações com a família mais distante. Outra vasta categoria que merece especificação é a dos problemas no casamento, onde se acham as questões que incomodavam as mulheres no âmbito da vida conjugal. As restantes, representadas por um menor número de conselhos, são muito mais monolíticas.
Os dados quantitativos: os temas mais populares dos conselhos
27Antes de 25 de abril de 1974, a data que divide o material analisado em duas partes, tratou-se um total de 83 conselhos (42 de Modas e Bordados e 41 de Crónica Feminina). O quadro 1 ilustra os resultados da contagem e apresenta a clasificação em grupos temáticos.
Quadro 1 - Número de Conselhos por categoria nas revistas Modas e Bordados e Crónica Feminina antes de 1974
Categoria | Modas e Bordados | Crónica Feminina | Total | Percentagem |
Namoro | 20 | 19 | 39 | 46,99% |
Problemas no casamento | 9 | 7 | 16 | 19,28% |
Problemas familiares | 7 | 11 | 18 | 21,69% |
Aparência física | 1 | 1 | 2 | 2,41% |
Vida sexual | 3 | 0 | 3 | 3,61% |
Vida profissional | 1 | 1 | 2 | 2,41% |
Casos extraconjugais | 1 | 2 | 3 | 3,61% |
28A questão que mais levou as mulheres a pedir conselho foi a do namoro, o que nos indicia o tipo de pessoas que recorria a estas colunas. Seguiram-se problemas familiares e, em terceiro lugar, a vida conjugal. Temas como a aparência física, a vida sexual, questões profissionais ou casos amorosos extraconjugais ficaram significativamente menos representados. Parece então que, antes do 25 de abril de 1974, o que dominava a vida das mulheres era o lar, a família e o homem, fosse namorado ou marido, o que corresponde à linha ideológica que o Estado Novo pretendera implantar acerca do modelo desejado de feminilidade. Algum pudor dominante na mentalidade da época, sobretudo feminina, pode ajudar a explicar tão baixa percentagem de questões sobre a vida sexual.
Análise qualitativa das cartas e dos conselhos escolhidos
29À primeira vista nota-se com facilidade que a maioria das mulheres que dirige as suas cartas à redação é jovem e que há uma certa glorificação da instituição do matrimónio, que se deve proteger a qualquer custo. Num conselho de 8 de abril de 1970, podemos ler “Tantos anos de casamento e quatro filhos são uma realidade difícil de afastar. Se o seu marido é terrivelmente desconfiado e lhe faz a vida impossível – por ciúmes – é porque não caiu na indiferênca em que cai, infelizmente, uma grande maioria de cônjuges ao fim duns bons pares de anos de casamento, o que não deixa de ser um aspecto positivo para qualquer mulher”. O comportamento escandaloso do marido, que obviamente maltrata a sua mulher, seja fisicamente seja psicologicamente, está claramente justificado, tornando ao mesmo tempo o sofrimento da mulher banal e sem sentido. Sem hesitações, desculpa-se o homem. E vai-se mais longe: “Compreendo, porém, que uma vida assim se torne dolorosa, esteja com os nervos escangalhados, sinta desejo de se libertar. Mas não terá também o seu marido os nervos abalados? O temperamento violento e colérico que o leva a ser brutal para consigo não é apenas por culpa dele. Talvez que um tratamento adequado lhe atenuasse bastante os excessos, já de carácter doentio, do seu temperamento. Veja se consegue que ele seja examinado por um médico!”. Retira-se, portanto, toda a responsabilidade ao marido, até se explica o comportamento dele pelo carácter, isso é, por fatores inatos que não podem ser influenciados nem mudados. Segundo a conselheira, quem deve mudar nesta situação não é o homem, o causador da viôlencia, mas a mulher: “Cara leitora, já que conhece tão bem o fraco do seu marido, não poderia agir com um bocadito mais de cuidado de forma a evitar as suas cóleras?” Desconselha-se claramente a ideia de abandonar a casa: “Se obtar por abandonar a casa não creio que o seu sofrimento diminuirá. Dos seus filhos, três são ainda crianças, será fácil destruir-lhes o lar. Peço-lhe que siga as minhas sugestões e aguarde que tudo melhore. Antes disso, não tome qualquer atitude que poderia ser irremedíavel” 37. A solução proposta reduz-se a sofrer silenciosamente e continuar a ser a mulher submissa numa relação de abuso e de violência doméstica38.
30Carta bastante semelhante aparece também em julho de 1973. A mulher queixa-se: “tenho 19 anos, o meu marido 20. Ele é muito ciumento (e eu também). Faz-me cenas incríveis e desde há um mês que me bate. Nunca esperei isto da sua parte. Da primeira vez fiquei tão sufocada que não consegui articular uma palavra e ele recomeçou. Não mereço este tratamento. Sou boa dona de casa e estou a aprender a cozinhar. Agora ele exigiu que deixasse de me maquilhar. Além disso, não quer que me vista segundo a moda, mas não me importo porque o amo. Foi o meu primeiro amor e será o último. Excluindo os dias em que arma ‘sarilhos’ entendemo-nos bem, a vida é bela […]. Ando completamente abalada com os meus nervos”. Esta carta mostra muito claramente a posição das mulheres dentro do lar. O marido desta leitora trata-a como se fosse sua propriedade com que pode fazer o que quer. É, entretanto, um dos poucos casos em que se fala sobre a aparência física. A proibição de usar maquilhagem parece ser o único tópico que aponta para uma vivência pública e não privada39. Como no exemplo anterior, na resposta da conselheira desculpa-se o homem, justificando o seu comportamento por doença, “acho que ele está doente. Porque não o convence a consultar um médico, talvez um médico vosso amigo? O ciúme irracional é um estado patológico” e transferindo toda a responsabilidade para a mulher: “se ele lhe bate, talvez aconteça ser a leitora a culpada por o irritar muito, não? Também não deve acirrá-lo se notar que ele não está bem”40.
31Nem todos os conselhos têm um tom tão radical e conservador e nem todos respondem a situações tão graves. Veja-se uma resposta a certa leitora que se queixa de uma mudança de atitude do seu marido. Desta vez, embora mantendo muitos traços da promoção de um modelo de mulher sumbissa e pouco assertiva, nota-se um tom diferente. A conselheira diz: “Parece-me, assim, que o melhor caminho será uma conversa a dois, durante a qual poderá fazer ao seu marido as interrogações que me fez. Fale-lhe meigamente, sem cair na tentação do ‘interrogatório’ nem se comportar como queixosa; mostre-se mais interessada em ajudá-lo do que numa auto-satisfação”. Sublinha-se o estatuto muito mais igualitário da mulher em comparação com o conselho antes citado. Todavia, não deixa de se dar instruções acerca do modo como a mulher deveria falar com o seu marido: meigamente, sem se queixar abertamente para não o ofender. Mesmo assim, o conselho conclui com um comentário bastante moderno: “A terminar, gostaria ainda de focar uma outra faceta do problema: aceite como certo o princípio de que à mulher cabe a faculdade da iniciativa; recuse-se a uma atitude passiva, actue naturalmente e não em função de estímulos que, impostos exteriormente (a educação ministrada às raparigas é, neste caso, quase sempre insuficiente e defíciente), nada têm de saudável e positivo num casamento. Seja a companheira, a melhor companheira do seu marido, e não receie os obstáculos” 41. A afirmação de que a mulher é a companheira (palavra cujo sentido implica uma relação igualitária) do homem, difere muito dos conselhos onde se desculpava o abusador e se aconselhava a primeira a sofrer em silêncio e a tentar não provocar o marido.
32A ideia de trabalhar a vida conjugal aparece muitas vezes. Ao responder a uma carta onde a leitora descreve os seus problemas no casamento, que dura apenas há alguns meses, a conselheira escreveu: “os primeiros tempos de casamento são, muito frequentemente, os mais difíceis, o que se justifica na medida em que se trata de um período durante o qual os dois cônjuges começam a conhecer-se e a revelar-se nas suas mais íntimas manifestações de personalidade. Daí não serem raros os choques de temperamentos, algumas zangas, bastantes desilusões, à mistura com o alicerçar de sentimentos que constituirão as bases sólidas do matrimónio”. Percebe-se então as dificuldades da vida conjugal e motiva-se a trabalhar para melhorar esta relação. Mesmo assim, sublinha-se a divisão entre os mundos do homem e da mulher: “deve compreender que um homem, ao chegar a casa fatigado, muitas vezes enervado, com um duro dia de trabalho, raramente está disposto a conversar sobre os assuntos que interessam apenas à mulher” 42. Consequentemente, quem deve trabalhar a relação não é o casal, mas apenas a mulher.
33Na óptica do Estado Novo, o objetivo do casamento é obviamente a procriação. Através dos conselhos promovem-se decisões conscientes, sublinhando o enorme valor da maternidade. A dada altura, adverte-se: “quanto ao filho que tanto deseja, não pense nele, querida amiga, como solução para todos os seus problemas; pelo contrário, criar uma criança exige maturidade e autoconfiança, acarreta muitas preocupações e bastantes sacrifícios, aliás todos eles plenamente compensados pela alegria e pela felicidade que só a maternidade pode conceder.” A maternidade é muitas vezes vista como uma essência da vida da mulher, desde que dentro do casamento legítimo. Em outro conselho, de julho de 1972, diz-se: “ao casar-se, assumiu responsabilidades que não pode repudiar com insensatez […]. Não me diz por que razões não tem filhos; se a maternidade não lhe está vedada, creio que uma criança daria sentido à sua existência e preenchia a sua solidão”43.
34O modelo de feminilidade promovido pelas colunas de conselhos é bastante ambígua. Por um lado, aconselham-se as mulheres a serem submissas e suportarem os maus tratos por parte dos maridos, desculpando e justificando ao mesmo tempo o comportamento deles, mas por outro notam-se preocupações com a violência doméstica e até tentativas de intervir para melhorar situações de leitoras particulares. Num conselho publicado em 1971, a autora declarou: “vou tentar ajudar-te, e não apenas com as palavras que aqui agora te dirijo; tentarei saber se há possibilidade de um auxílio mais eficaz [...]. Não quero prometer-te nada que não possa concretizar; farei, no entanto, o que me for possível para encontrar uma solução para o teu problema”. Neste caso, já não se desculpa o comportamento masculino, não se lhe retira a responsabilidade pelos seus atos. Antes pelo contrário: “evita qualquer situação que desencadeie zangas; leva tudo com calma, procura ganhar a confiança desse homem, aceitando o seu ciúme como uma prova de insegurança e de fraqueza da parte dele”44. O ciúme já não é definido como uma garantia de amor e interesse contínuo, mas é considerado uma prova de insegurança e fraqueza de carácter.
35Também em 1971, encontram-se uma carta e um conselho que fogem do modelo feminino promovido pelo Estado Novo. A leitora escreve: “tenho 21 anos e sou casada há um ano. Temos um grupo de casais amigos com quem costumamos reunir-nos e, depois dos almoços em comum, é hábito os homens irem ao café enquanto nós, mulheres, ficamos a lavar a loiça. Embora goste de o fazer, assim não me agrada, pois parece que eles são os patrões e nós as criadas”. Nesta carta observa-se a revolta da mulher jovem e casada contra os papéis tradicionais dos sexos e a separação dos mundos masculino e feminino, um público outro privado, ligado à casa. É interessante que a resposta da conselheira não criticou este sentimento de revolta, antes pelo contrário: “não deixe nunca de ser mulher amante, companheira, camarada e amiga; não se envergonhe de dizer o que pensa e de defender os seus pontos de vista (porque não dizer-lhe que quer ir ao café com ele depois de todos juntos tratarem de loiça?)”. A carta da leitora exprime também grande desagrado face ao comportamento e às atitudes das outras mulheres: “além disso, detesto falar com mulheres na ausência dos homens, porque se queixam com isso e aquilo e acabam por me fazer irritar e revoltar contra o meu marido, porque me ponho a pensar que talvez um dia ele seja assim também. Dizem coisas esquisitas que eu não entendo, como por exemplo que os homens não são leais, que com o decorrer dos anos arranjam outra mulher, etc.” Na resposta da conselheira manifesta-se uma visão moderna e madura do casamento, onde a mulher não é submissa ao chefe do lar, mas é a companheira e possui diretos, sendo assim igual ao homem. O que está criticado é a percepção tradicional do casamento que outras mulheres exprimem: “o melhor é não dar ouvidos a essas conversas ‘de cozinha’ feitas por mulheres que ainda não compreendem que são as companheiras dos homens e não as pobres vítimas que em casa esperam a traição infaliável e o afastamento [...]. Não dê ouvidos a essas mulheres frustradas que não sabem o que é verdadeiramente o casamento” 45.
36Esta carta prova que, no início dos anos de 1970, o modelo feminino e a perceção do casamento dentro da óptica do Estado Novo estavam ainda bem enraizadas. Mas a leitura, tanto da carta como da resposta, mostra também que já havia muitas mulheres com uma visão muito mais moderna, que tentavam romper com a divisão tradicional dos papéis femininos e masculinos e com o estatuto inferior da mulher na sociedade.
37Um pouco diferentes foram as questões do namoro. Desta vez, não se encontrou nenhum conselho que recomendasse suportar os abusos em silêncio ou que culpasse a vítima. Antes pelo contrário, notaram-se observações que tinham como objetivo encorajar as mulheres no sentido de terminarem relações com os namorados abusadores. Por exemplo: “ele bate-te, tortura-te, anula a tua personalidade, trata-te como uma prisioneira, humilha-te em frente de todos, destrói a tua autonomia, persegue-te com um ciúme doentio, de louco, fez de ti um farrapo sem vontade e sem vida própria. Não sendo sequer casados, apenas me resta perguntar-te por que razão suportas tudo isso. Por amor? Não creio. […] Um conselho me pedes; pois bem: neste momento acaba com essa ligação, pega nas tuas coisas, enfia-as numa mala e parte para sempre”46. Em outro momento, lê-se: “por favor, não desejes para ti uma existência desgraçada, com um homem que te maltrata, por muito que penses amá-lo. O adágio ‘quanto mais me bates mais gosto de ti’ apenas deve ser interpretado simbolicamente, e não como traduzindo em realidade saudável. Só quem é masoquista deseja sofrer, física e moralmente, por amor, quando este deve, sim, inspirar alegria e tranquilidade”47.
38Através da leitura das cartas nota-se que as mulheres jovens viviam sob grande pressão da família para se casarem. Uma das leitoras escreveu: “meus pais gostavam dele e aceitei namoro talvez influenciada pela minha mãe que tem medo (embora ela diga que não) que eu não me case; também eu terei pena, não medo, se não casar. Há poucos dias ele disse-me que queria casar no fim do ano. Talvez pela novidade, senti-me feliz mas havia qualquer coisa dentro de mim que dizia que eu não estava a proceder bem. Ele e a minha mãe começaram logo a pensar no que se devia comprar ou não comprar, alugar casa, etc. Nada me entusiasma. Sinto um vazio tão grande que parece impossível como me pude sentir feliz no dia em que ele disse para nos casarmos”. Resistindo à pressão materna, a autora desta carta decidiu não se casar com o namorado, o que mostra um certo nível da emancipação e de liberdade de escolha. A conselheira claramente apoia a decisão da leitora e critica a atitude da respetiva mãe, dizendo: “claro que fez (espero que sim!) a única coisa que devia fazer: pôr fim a esse namoro que afinal nada significava. Felizmente reconheceu a tempo o seu erro e não deu ouvidos à sua mãe que, com o seu conceito errado de uma mulher tem de casar, podia tê-la impelido a cometer o grave erro de aceitar um marido que não ama”. No fim desta carta encontra-se uma frase que parece ser aplicável a muitas outras mulheres. A leitora escreve: “eu, como tantas raparigas, tenho um ideal e tento encontrá-lo”. Um problema recorrente nas cartas das leitoras era a tendência destas apresentarem um pensamento exageramente romântico e infantil acerca do namoro. As conselheiras tentavam explicar que a vida real não correspondia à imaginação: “Sua mãe tem uma certa razão ao combater o seu romântico apego a um ideal, pois deve aprender a apreciar as pessoas pelo seu verdadeiro valor e não de acordo com padrões previamente estabelecidos” 48.
39Muitas vezes se ridiculizaram problemas tidos por exageramente românticos ou infantis. Por exemplo, uma leitora estava preocupada pois o namorado nunca a tinha pedido formalmente em namoro. A resposta fornecida claramente minimizou o problema da leitora classificando-o como infantil: “Santo Deus, mas que coisa é para ti, afinal, pedir namoro? Julgarás então que, para haver namoro, este é antecedido por uma fórmula típica mágica, sem a qual ele não existe? Se há rapazes que ‘pedem namoro’, outros limitam-se a namorar com uma determinada rapariga. É este o vosso caso. E que diferença existe afinal? Não são as palavras, mas sim os sentimentos que contam, sobretudo se o que está em causa é amor. Deixa-te, pois, de chinesices e vive alegremente essa ligação terna [...]”49. Em tom irónico responde-se também a outro problema considerado exagerado. Neste caso a ridiculização é ainda maior, tornando o tom da resposta antipático: “Estás casada há poucos meses e tens um problema ‘gravíssimo’ na tua vida conjugal: o teu marido possui, não sei onde uma tatuagem com um nome feminino. Terrível! Claro, a solução é tirar a tatuagem. Perguntas-me qual a maneira de a fazer desaparecer… Devo esclarecer-te que apenas sei tirar nódoas de gordura com pó-de-talco. Mas tatuagens... Bem, vejamos, deixa lá ver se me lembro como é... Enquanto penso, porque não experimentas a lixívia?”50.
40A tendência para exagerar parece ser muito comum entre jovens. Uma das leitoras relata que beijou um rapaz. Respondeu-se-lhe: “estás a fabricar problemas sem razão. Se tu mesma confessas que achaste engraçado esse beijo infantil, por que motivo lhe atribuis agora motivos e consequências que não vivem senão na tua imaginação?”51. Este conselho introduz outro aspeto recorrente nas cartas das leitoras: a questão do pudor e da decência. Acerca do beijo a leitora diz: “parece-me ter feito um crime”. A respeito do que era e não era conveniente para a rapariga portuguesa de 1970, uma leitora de 17 anos descreve uma situação problemática em que se encontrou: “Tenho uma amiga que tem dois irmãos e eu ia muito a casa dela e ela à minha, pois somos amigas íntimas. Mas, tive de deixar de lá ir porque este maldito povo começou a dizer que eu ia a casa dela para me fechar no quarto com um dos irmãos que tem 18 anos. Claro que não era verdade, pois os moços pouco falavam comigo e quando o faziam era com o máximo respeito e eu estava sempre acompanhada pela minha amiga”52. Esta observação permite percecionar que o sentimento do pudor e as convenções sociais promovidos pela Igreja Católica e pelo Estado Novo estavam ainda fortemente enraizados na mentalidade da sociedade portuguesa no início da década de 1970. Como se vê, a vida das mulheres, mesmo jovens, era controlada, pelo menos parcialmente, por um conjunto das regras que estabeleciam quais os comprtamentos que lhes eram adequados.
41Os guardas da moralidade impecável das jovens não eram só um “povo maldito” mas, muitas vezes, os pais que tinham a seu cargo a vigilância do comportamento das filhas. Uma das leitoras, de 15 anos, pediu conselho porque sentia grande incompreensão por parte dos seus progenitores e mostrou-se cansada do controlo que sobre ela exerciam:
“Os meus pais educaram-me à sua maneira e não admitem o mais pequeno desvio. Não me deixam ir ao cinema [...]. No Carnaval, pedi-lhes para me deixarem ir a um baile organizado pelas minhas colegas de turma mas responderam-me com um ‘não’ rotundo, dizendo que as meninas honestas e bem educadas não vão a bailes porque têm mais juízo do que eu que só gosto dessas porcarias. Se estou a ouvir música ié-ié no rádio ou noutro aparelho, ralham e dizem que é música de doidos e que se fosse como eles não ouviria aquilo. Se vou a casa duma amiga ou pessoas de família, não posso demorar nem mais um minuto do que o que eles determinaram e se tal acontece, quando volto para casa, já sei que tenho de os ouvir, pois dizem que uma menina bem educada não anda pelas casas alheias. Se em casa tento dar a minha opinião sobre qualquer assunto dizem-me que não tenho pensar e devo estar calada. Não me deixam ler qualquer espécie de livro ou revista a não ser os livros de estudo”53.
42As cartas das leitoras relatavam muitas situações de relacionamentos com os pais, mas raramente se encontraram as que abordaram as dificuldades de ser mãe e de criar as crianças. Numa das pouquíssimas respostas sobre este problema diz-se: “Os teus filhos, Lolita, são os únicos que não são culpados do que se passa; pensares ou dizeres o contrário é um profundo erro e sobretudo uma horrível injustiça. Tens feito muitos sacrifícios por eles, mas esse é pura e simplesmente o teu dever”54. Sublinha-se o dever da mãe que é obrigada a cuidar das crianças da melhor maneira que sabe e a sacrificar-se por elas.
43O quotidano feminino parece estar cheio dos problemas também com os membros da família mais distantes. Talvez os mais frequentes sejam os desentendimentos com as sogras. Uma das leitoras queixou-se não só dos vários conflitos entre ela e a mãe do marido, mas também da falta de reação do cônjuge que, em vez de tomar o lado da sua mulher, ficava sempre de acordo com a sua mãe, o que, aparentamente, frustrava imenso a leitora, que se queixou: “A minha sogra vem-nos visitar todos os domingos e almoça connosco. Contraria-me em tudo e nunca me dá razão [...]. Nunca me diz uma palavra agradável, nunca me felicita por nada. Gostaria que espaçasse mais as suas visitas. O meu marido não dá opinião, muito pelo contrário, está sempre de acordo com ela”55.
44Embora raramente, encontram-se conselhos acerca da vida profissional das mulheres. Num destes, as referências sobre o trabalho foram bastante afetivas, como se fosse uma missão e não só uma maneira de ganhar dinheiro: “a tua obra não deixou de ser esplêndida pelo facto de outros a terem desvirtuado depois; se ela perdura ainda é que nela permanece, apesar de tudo, a marca da tua presença”. E bastante interessante que a atividade profissional da mulher foi comparada à maternidade: “amá-la como a um primeiro filho”. Aliás, a ocupação da autora da carta era tipicamente feminina, educadora de infância. A conselheira sugere que a mesma se transfira para a capital: “visto teres o curso de educadora infantil e considerada a vaga crescente de jardins de infância e colégios pré-primários, facilmente arranjas ocupação em Lisboa” 56. É portanto um conselho profissional bastante geral.
45Sobre a vida sexual das mulheres fala-se pouco e não abertamente. Até é difícil deduzir do conteúdo do conselho a matéria específica da vida íntima. Escreve-se de forma obscura, evitando qualquer palavra que explicitamente indique o verdadeiro tema que estava em causa. Por exemplo: “Estou convencida que a tua perturbação assenta em bases demasiado frágeis para a importância que lhes atribuiste; as conversas que escutaste envolvem muito mais exibicionismo do que realidade, ou então por detrás delas encontravam-se experiências mais completas do que a tua. Deves ainda saber que as reacções de cada individuo aos mesmos estímulos são muito diversas o que acarreta a conclusão de que nada mais natural que não sintas o mesmo que as tuas colegas. Quanto ao teu noivo não podes avaliar as tuas reacções pelas dele, já que nesses aspectos os homens sentem de maneira diferente. […] é junto do teu marido que descobrirás os mais secretos e fecundos escaninhos da tua feminilidade”57.
46Mesmo assim, estigmatiza-se a ignorância das jovens nesta área: “Evidentemente que nada se passou do que imaginas; caso contrário não terias dúvidas. Vejo que vives na mais completa ignorância dos problemas da vida sexual; com 15 anos é mais que altura de seres elucidada”58. É interessante que, em vez de sugerir leituras ou a visita a um ginecologista, recomendou-se uma conversa com a mãe, esquecendo-se que uma jovem que se dirige a uma coluna de conselhos não pode ou não quer falar com a progenitora.
47Sobre a sexualidade dos homens nada se refere, salvo em contexto de casos amorosos. São os primeiros os que traem ou que têm outra mulher e as esposas as que choram e sofrem, mas afinal perdoam: “o meu marido confessou-me que há alguns meses tivera uma aventura e que uma criança nascera há 15 dias. Foi um golpe terrível. Sempre tive o meu marido em boa conta, nunca duvidei dele e aquela descoberta parecia-me um sonho. Chorei de dia e de noite e ele compartilha a minha dor e pede perdão”59.
Anos depois da Revolução de 25 de Abril: Os dados
48Como no caso das colunas de conselhos do período antes da revolução, fez-se a análise quantitativa dos dados recolhidos. Analisaram-se 35 conselhos publicados entre maio 1974 e dezembro de 1975. Dezasseis foram publicados na Modas e Bordados e 19 na Crónica Feminina.
Quadro 2 - Número de Conselhos por categoria nas revistas Modas e Bordados e Crónica Feminina depois de 1974
Categoria | Modas e Bordados | Crónica Feminina | Total | Percentagem |
Namoro | 2 | 11 | 13 | 37,14% |
Problemas no casamento | 3 | 2 | 5 | 14.30% |
Problemas familiares | 4 | 3 | 7 | 20% |
Aparência física | 2 | 0 | 2 | 5,71% |
Vida sexual | 2 | 0 | 2 | 5,71% |
Vida profissional | 0 | 2 | 2 | 5,71% |
Casos amorosos | 3 | 1 | 4 | 11,43% |
49A questão que provocou o maior número das dúvidas foi, de novo, o namoro. Como antes do 25 de abril, em segundo lugar ficaram os problemas familiares e logo depois os que se viviam no seio do casamento. Os restantes três tópicos vida sexual, vida profissional e aparência fisica continuaram a ser bastante marginais. Uma vez mais se recorreu igualmente a uma análise qualitativa.
Análise qualitativa das cartas e dos conselhos escolhidos
50Apesar da frequência dos tópicos mais abordados permanecer aproximadamente no mesmo nível, uma leitura ainda que desatenta das cartas escolhidas mostra que a maneira de falar sobre muitas matérias mudou em relação ao período antes do 25 de abril de 1974. Os problemas recorrentes dentro das relações matrimoniais já não eram os maus tratos que a mulher sofria do homem, mas a falta de ternura por parte do mesmo. Uma leitora dirigiu à redação de Modas e Bordados uma carta do seguinte teor: “O meu marido só me presta atenção quando temos relações mais íntimas e, se lhe chamo a atenção para o facto, responde-me que todos os homens são assim. Mas esta resposta não me satisfaz. Não sei como devo comportar-me perante esta situação. Talvez a Camila me possa dar um conselho”60. O que logo se repara é a questão de “relações mais íntimas”, que por pudor ainda não são nomeadas de maneira mais direta, mas que já estão no primeiro plano da carta da leitora. Obviamente, quem escreve à revista não aceita a explicação do seu marido e não acredita que a “natureza” dos homens os leve a ser frios e distantes. A resposta da conselheira é, do ponto de vista desta análise, ainda mais interesante do que a própria carta. Desta vez, não se ridiculiza o problema, nem se considera o mesmo infantil ou exagerado. Antes pelo contrário, leva-se muito a sério a questão, valorizando desta maneira os sentimentos femininos. Além disso, tenta-se explicar a origem do problema e faz-se isso sem desculpar o homem:
“o seu marido não é, infelizmente, o único a conduzir-se dessa forma que aponta. É uma questão de educação. As mães dos ‘nossos homens’ não lhes ensinaram a ser ternos, conciliadores e prestáveis. Trataram-nos a maior das vezes como uns «pachás», adulando-os e servindo-os. [...] O mal vem de muito longe e não é fácil que de um dia para o outro o homem deixe de ser aquilo que pensa que é: o nosso dono! [...] Dê-lhe a entender claramente que ‘relações sexuais’ sem mais nada, sem ternura, sem conversar não lhe interessa de forma alguma. Ensine-o a ter uma nova perspectiva sobre o que é um casal e como ambos os constituintes se devem comportar um com o outro. Dialogando em plano de igualdade, é o que as mulheres de hoje pretendem. Se as mães dos nossos maridos os educaram à antiga, incutindo-lhes concepções agora já ultrapassadas sobre as relações entre um homem e uma mulher – e refiro-me às relações de camaradagem, amizade e respeito, em casa, nos empregos, na rua, nos locais públicos – sejamos, pois, nós mulheres, a educá-los para uma nova concepção de vida em comum ou, simplesmente, de vida em geral”61.
51Este conselho claramente confronta as atitudes velhas com as novas, as quais só puderam ser manifestadas abertamente depois do 25 de abril de 1974. Parece que a conselheira usufruiu da liberdade de as exprimir com toda a força, não tendo escrúpulos em usar a expressão “relações sexuais” e não “relações mais íntimas”. Lembremos que a censura à imprensa havia desaparecido logo a seguir à queda do Estado Novo.
52A falta de interesse por parte do marido foi abordada igualmente por outra leitora. Queixou-se de que: “o meu marido transforma o lar numa autêntica pensão: vem almoçar e jantar à pressa, folheia o jornal à pressa, fala raramente e quando o faz é de política, regressa tão tarde que me encontra a dormir [...]. A nossa vida sexual está reduzia ao mínimo, raramente nos encontramos”62. Ou seja, somos levadas a concluir que, no período depois da revolução, se o comportamento dos homens não mudou, continuando a corresponder à estruturas estabelecidas no Estado Novo, as mulheres rapidamente ganharam coragem para falarem abertamente sobre esses problemas. Dentro da questão do casamento, surgiu ainda um outro aspeto muito significativo. Começou a estar presente o divórcio, que, de resto, havia sido restabelecido pela legislação portuguesa em 27 de maio de 1975. “O divórcio foi inventado mesmo para esses casos. Não é a tua culpa se ele, depois de teres terminado tudo com ele, da sua livre e inteira vontade, resolveu divorciar-se”63.
53É interessante verificar que os problemas entre namorados deixaram de se restringir às traições ou às aventuras masculinas. Numa das cartas, escrita por uma mulher viúva, que tinha uma relação romântica com um homem casado, pode ler-se: “conheci um homem com quem comecei a conversar até que lhe falei da minha infelicidade. Levou-me a casa dele e da mulher e começámos a ir à praia com os nossos respectivos filhos. Dei-me conta de que aquele casamento era falhado e certo dia ele contou-me que era muito infeliz porque não amava a mulher, com quem casara por imposição da família. Em resumo, sabe ou adivinha o que aconteceu!”64. Por muito complicada que seja a situação descrita nesta carta, o próprio facto de que se discute o caso amoroso da perspetiva da amante parece muito diferente dos relatos das esposas traídas que perdoaram aos seus maridos.
54Uma outra novidade que vale a pena referir é a de se ensinar às mulheres alguma auto-estima. Começaram, nas respostas às cartas, a aparecer frases como estas: “nada de trocas de olhares com um homem que não merece, sequer, que olhares para ele...”65 ou “Perdoa se te ensinei a ser egoísta. Não foi por mal”66.
55A realidade política do pós 25 de abril parece interferir também nos namoros. Uma das cartas espelhou o encontro de dois mundos mentais, um ainda enraizado no passado e outro já democratizado, que conviviam lado a lado. Uma mulher jovem mostrou-se preocupada com a estabilidade da sua relação por causa de grandes diferenças ideológicas que a separam do namorado e o peso da culpa manifestou-se:
“Entretanto, conheci um estudante da Faculdade, de cabelos compridos e vestido de qualquer maneira. Começámos por conversar, acabámos por namorar. Mas as ideias dele não convergem com as minhas, nem sobre as relações mulher-homem, nem sobre política. Ele não liga à virginidade nem ao casamento, frequenta reuniões políticas e pertence a um partido diferente do meu. Os companheiros dele vivem com moças sem serem casados. Não penses que sou bota-de-elástico, tento integrar-me na época em que vivemos, mas sempre desejarei ter um lar e filhos. Certo dia aconteceu dormirmos juntos, o que para ele foi uma coisa natural, mas eu senti-me culpada e fiquei com receio que ele me abandonasse, embora tivesse depois disso e mais de uma vez confirmado o seu amor por mim”67.
56Levando em conta outras cartas, verifica-se que era a mulher que preservava os valores tradicionais, enquanto o homem parecia estar muito mais afastado da mentalidade do passado, o que se explica pelo peso da educação fornecida às mulheres e pela maior liberdade de acção concedida aos homens. É interesante notar também que se referem abertamente as relações sexuais mantidas por jovens antes do casamento. Começou igualmente a falar-se sobre gravidez fora do casamento, mas não em tom condenatário. Contudo, pelas cartas das leitoras continuou a manifestar-se grande preocupação pela estigmatização social e familiar. Numa das missivas pode ler-se: “A verdade é que estou grávida e não sei o que fazer. Sou contra o aborto, além disso quero ter o meu filho. Mas como? Não posso dizer aos meus pais, pois expulsar-me-iam de casa considerando o seu nome manchado”. Era o peso da virgindade feminina antes do casamento, ainda muito fortamente enraizada, como também um certo modelo de relações sociais e familiares. Mesmo assim, respondendo a esta carta, a conselheira desconstrói esta visão, na opinião dela já anacrónica, dizendo: “Expulsá-la de casa?! Sentirem o nome manchado?! Isso já passou de moda...” 68.
57Falar sobre a maternidade também sofreu algumas alterações. As mulheres deixaram de ser idealizadas como mães que sacrificavam tudo pelas criança. Começou a prestar-se mais atenção à condição da mulher como pessoa. Além disso, introduziram-se os temas do pleneamento familiar e da contraceção. Uma das leitoras referiu abertamente: “Sim, sou uma mãe coelha, tenho nove rapazes! Vivo numa cidade de província, trabalho em casa, pois não, com estes filhos todos para criar, mas começo a estar farta. Imagine que o meu marido agora quer ter mais um filho para ver se sai rapariga. Não tenho a mínima vontade, quero viver o resto da minha vida em paz e sossego! Para filhos chega, não acha?”. As dificuldades de ser mãe e dona de casa são portanto expressas sem escrúpulos e sem mergulhar numa retórica da feliz esposa, mãe e dona de casa sempre risonha. Ainda se observa uma divisão dos papéis muito tradicional: é a mulher que fica em casa com nove filhos e o homem que trabalha fora para sustentar toda a família. A resposta a esta pergunta dá muita importância à decisão da leitora: “Se acha que chega, também acho! Sabe que esse sentimento é muito pessoal. Se lhes apetecesse ter mais uma criança e as suas condições económicas, físicas e psíquicas estivessem em ordem, então não haveria que hesitar. Assim, talvez fosse melhor praticar qualquer método anticoncepcional e falar com o seu marido” 69.
58O tema de contraceção surgiu quase imediatamente depois do 25 de abril. As cartas que foram publicadas nas colunas de conselhos muitas vezes abordaram essa questão. Foram tanto as de mulheres que queriam recorrer a métodos anticoncepcionais como as das mães de jovens solteiras que tinham relações sexuais. A própria presença deste tema nas colunas de conselhos foi completamente inovadora. Escolheram-se duas cartas que se citam na integra pois mostram muito bem a abordagem do problema.
“Contracepção sim, mas como?
Escrevo-lhe porque me parece a única pessoa capaz de me ajudar nesta afiliação. Tenho 20 anos, vivo com os meus pais e namoro um moço com quem tenho relações sexuais mas tenho medo de engravidar. Os meus pais não perceberiam o meu problema porque não concordam com relações pré-matrimoniais, que eu defendo porque acho que uma rapariga deve conhecer fisicamente o homem com quem virá a casar. Como hei-de comprar a pílula e que marca me aconselha?
Resposta:
O seu problema está muito generalizado, os jovens defendem cada vez mais que devem ter relações sexuais antes de casarem. Mas como a contracepção legalizada continua a ser não uma realidade mas apenas uma aspiração das mulheres portuguesas (as farmácias só vendem a pílula com receita médica, as Caixas de Prevência só a pagam se for receitada por médico), os problemas continuam a surgir como o seu: medo de engravidar, gravidez, aborto, etc. Depois do 25 de Abril começaram, no entanto, a espalhar-se pelo País centros de Planeamento Familiar, onde qualquer pessoa, de qualquer idade, pode fazer a consulta sobre contracepção, onde paga o que puder e onde é guardado o mais absoluto sigilo. Na nossa revista número 3310 de 23-7-75 encontrará um mapa-guia com os centros que existem em Portugal”70.
59É interessante verificar que a leitora considera a colunista a única pessoa capaz de a ajudar. Mesmo que o tema tenha surgido no espaço público, as mulheres que queriam falar abertamente sobre este assunto enfrentavam ainda grandes dificuldades em combater a moralidade conservadora. Como apontou a conselheira, o acesso livre à contracepção hormonal era apenas uma aspiração, mas pelo menos o tema já era objeto de discussão.
60O segundo conselho que vale a pena mencionar aborda as dúvidas da mãe de uma jovem que pretendia começar a usar contracetivos. Repare-se logo que a leitora usa a expressão “liberdade consciente” para descrever o tipo de criação que deu à filha. Logo no início, assinalou-se a distinção entre formação tradicional e conservadora e uma outra mais moderna. A resposta, como na carta anterior, com todo o empenho, apoiou o uso dos metódos contracetivos.
“As adolescentes e a pílula
A minha filha de 17 anos, que eduquei nos princípios da liberdade consciente, pede-me autorização para usar a pílula porque namora e receia que aconteça ‘alguma coisa’. Acha que devo consentir?
Resposta:
Uma mãe que educa uma filha nos princípios de ‘liberdade consciente’ tem obrigação de levar essa educação atá às últimas consequências, isto é, até ao ponto talvez mais difícil, que é este mesmo: a jovem pensa ter relações sexuais e receia engravidar. Habituada a conversar livremente com a mãe pede-lhe ‘autorização’ para usar a pílula. A sua dificuldade de mãe (ou melhor, a sua hesitação) creio que se encontra sobretudo no receio das relações íntimas que a sua filha (aquela bebé que nasceu do seu ventre, aquela doce criança que criou com tanto amor, aquela adolescene que começa a fugir-lhe, que se prepara para cortar definitivamente o cordão umbilical com os pais, para o estender noutro caminho) pensa e quer ter com um jovem, um rapaz, um homem, um estranho à família, ao processo de educação, um estranho aos vossos laços familiares. A pílula ou outro contraceptivo evita o aborto. Onde está a dúvida? No entanto, não seria incorreto a jovem consultar um ginecologista para conhecer não só o seu estado de saúde como a fisiologia do seu aparelho genital. Para terminar pergunto a mim própria – e a si – se a sua filha teve na realidade uma educação mesmo consciente... Porque pedir ‘autorização’, como quem pede autorização para ir ao baile ou para comprar uns sapatos”71.
61Não só a contraceção entra nas colunas de conselhos. Antes, citou-se uma resposta que de maneira extremamente indireta e obscura abordava um tema da vida sexual do casal. Num número de Modas e Bordados de 1975, publicou-se uma carta que abertamente falava sobre o sexo, o que foi especialmente bem visível ao nível do vocabulário. A leitora, sem recorrer a metáforas nem a expressões indiretas, escreveu: “suponho – e digo suponho porque tenho medo de encarar a verdade – que nunca atingi o orgasmo”. A autora da carta parecia ter uma educação razoável no campo da sexologia, pois mencionou também que “antes de casar li imensos livros sobre sexologia, livros de autores considerados, como Masters e Johnson, por exemplo, a fim de me informar corretamente sobre o amor sexual, pois considero importante ter um conhecimento despreconceituoso deste assunto”. Todavia, não escapou à atenção a declaração da mulher que só foi capaz de falar sobre o assunto porque não o fez pessoalmente, mas através da carta: “Falo-lhe a si porque não me atrevo a dizer isto a mais ninguém, a si não a vejo! Mas gostaria que me dissesse qual a sua opinião isto é, se devo consultar o ginecologista, embora sinta um grande pudor de falar nisto frontalmente” 72. Confirma-se que, apesar de surgimento dos temas que envolveram a questão do sexo, os obstáculos criados pela moralidade conservadora ainda impediam que o discurso completamente livre fosse parte integrante da própria mulher.
Conclusão
62Os resultados da pesquisa provam claramente que, ao longo dos anos estudados, ocorreu uma mudança bastante visível no conteúdo das cartas e dos conselhos enviados às revistas. E, como tanto umas como os outros refletem a mentalidade das suas autoras e os valores em que acreditavam, particularmente no caso das respostas, pode afirmar-se que ocorreu também uma mudança na mentalidade das mulheres portuguesas nos seus quotidianos.Os temas mais abordados permaneceram os mesmos ao longo de todo o período em estudo. As mulheres procuraram conselhos particularmente na área do namoro, problemas familiares e problemas no casamento. Os tópicos como vida sexual, vida profissional, aparência física ou situações que envolviam casos amorosos foram menos problemáticos, mas não deixaram de surgir. Provavelmente nestas áreas temáticas as mulheres sentiram-se mais competentes, menos inseguras, ou simplesmente podiam contar com o apoio mais vasto da família e dos amigos. Por outro lado, subsistia ainda, no Portugal da década de 1970, alguma divisão entre espaço público dominado por homens e espaço privado reservado às mulheres, achando-se a maior parte da vida feminina ligada ao lar.
63Nos anos antes do 25 de abril de 1974, nota-se o peso da ideologia da Igreja Católica e do Estado Novo. A visão da mulher submissa, passiva, reduzida às funções de boa dona de casa, mãe e esposa estava ainda profundamente enraizada na mentalidade das mulheres e dos homens de então. Na época, o casamento era considerado um acto quase sagrado e impossível de romper, enquanto o namoro era tratado com maior leveza. O pudor estava ainda muito presente no discurso público, tanto como nas restrições das convenções sociais. Nada disto desapareceu de repente depois da queda do Estado Novo, mas notou-se uma mudança inquestionável. Embora com timidez, nos conselhos e nas cartas entraram temas como o sexo, a contraceção, a gravidez e as relações sexuais fora do casamento e notaram-se as queixas das mulheres insatisfeitas com o comportamento dos maridos. Em vez de os desculpar e de as persuadir a permanecer em relações não satisfatórias, falou-se abertamente em divórcio. Os casos amorosos deixaram de ser somente do domínio exclusivo dos homens, pois discutiu-se também a perspetiva das mulheres amantes. Em poucas palavras, observou-se a democratização e a modernização do pensamento da sociedade em geral. Visivelmente diminuiu-se também a doutrinação ideológica que muitas vezes era observável através do conteúdo das respostas formecidas no período antes do 25 de abril de 1974. Não se deve esquecer do facto de que a mudança, mesmo que fosse notável, não era completa. As mulheres falavam sobre sexo nas cartas, mas no mesmo tempo confessavam que provavelmente não abordariam esse assunto cara a cara. Parece, portanto, que as colunas de conselhos desempenharam na vida feminina portuguesa da década de 1970 uma função muito importante: estabeleceram um espaço seguro e anónimo onde se podia livremente expor, perguntar e discutir.
64É importante ainda lembrar que a situação das mulheres na época não era influenciada somento pela evolução da conjuntura política interna, repleta de novidades e de alterações, uma vez que os anos de 1970 assistiram, em várias partes do mundo, à segunda vaga do feminismo, o que significa que a situação se foi gradualmente transformando, não tendo Portugal ficado de fora desse movimento.
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Notes de bas de page
1 Maria Alice Pinto Guimarães, Saberes, Modas e Pó-de-Arroz. Modas e Bordados. Vida Feminina(1933-1955), Lisboa: Livros Horizonte, 2007, p. 7.
2 Ivonde de Freitas Leal (coord.), Fontes portuguesas para a história das mulheres, Lisboa: Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 1992, p. 15.
3 Ivone de Freitas Leal (coord.), Fontes portuguesas …cit., p.10. As revistas femininas têm sido objeto de diversos estudos, entre os quais se destacam Maria Helena Vilas-Boas e Alvim, Do Tempo e da Moda. A Moda e a Beleza Feminina através das Páginas de um Jornal (Modas & Bordados – suplemento de O Século – 1912-1926), Lisboa; Horizonte: 2005; Andreia Agostinho, “A sociedade feminina do século XX vista através da Modas & Bordados”, Jornalismo e Jornalista, n.º 30, Lisboa, 2007, pp. 54-64; Maria Alice Pinto Guimarães, Saberes, Modas & Pó-de-Arroz. Modas & Bordados, Vida Feminina (1933-1955), Lisboa: Horizonte, 2008; Isabel Drumond Braga e Paulo Drumond Braga, “A Mocidade Portuguesa Feminina e a formação culinária em Menina e Moça (1947-1962)”, Cadernos Pagu, n.º 39, Campinas, 2012, pp. 201-226; Mariline Direito Rodrigues, Mulheres e Cidadania na Revista Modas & Bordados. Representação de um Percurso de Mudança entre 1928-1947, dissertação para obtenção do grau de Mestre em Jornalismo apresentada à Escola Superior de Comunicação Social, exemplar policopiado, Lisboa, 2016.
4 Blog: Largo dos Correios, Uma data de datas – LXVIII – A revista Modas & Bordados, 02.02.2014, <https://largodoscorreios.wordpress.com/2014/02/02/uma-data-de-datas-lxviii-a-revista-modas-bordados/> [consultado a 10-12-2014].
5 Philip G. Zimbardo, Richard J. Gerrig, Psychology and life, Boston: Pearson, 2005.
6 Steven D. Brown, Robert W. Lent, Handbook of counseling psychology, New York: John Wiley, 1992; Richard Nelson-Jones, The theory and practice of counselling, London: Cassell, 1993; Edward S. Bordin, Psychological counseling, New York: Appleton-Century-Crofts, Educational Division, Meredith Corporation, 1968; Hanna Sek, "Podstawowe rodzaje pomocy psychologicznej”, in: Hanna Sek (coord.), Społeczna psychologia kliniczna, Warszawa: WN PWN, 1998, pp. 365-380.
7 EFPA, European Federation of Psychologists’ Associations, The provision of psychological services via the internet and other non-direct means, 2006, <http://www.efpa.eu/ethics/efpa-guidelines> [consultado a 10-12-2014].
8 Margaret Beetham, “The agony aunt, the romancing uncle and the family of empire: Defining the sixpenny reading public in the 1890s”, in: L. Brake, B. Bell, D. Finkelstein, Nineteenth-century media and the construction of identities, Houndmills: Basingstoke: Palgrave, pp. 253-270; D. Currie, “Dear Abby: Advice pages as a site for the operation of power”, Feminist theory, n.° 2(3), 2001, pp. 259-281.
9 Susan Mckay, "Advice columns as cultural intermediaries", Australian Journal of Communication, vol. 35 Issue 3, 2008, p. 94.
10 Pierre Bourdieu, Distinction. A social critique of the judgment of tase, Cambridge, MA: Harvard UP, 1984.
11 Susan Mckay, “Advice columns …cit., p. 98.
12 Susan Mckay, “Advice columns …cit., p.100.
13 Clark W. Hendley, “Dear Abby, Miss Lonelyhearts, and the eighteenth century: the origins of the newspaper advice column”, Journal of Popular Culture, n.° 11(2), 1977, pp. 345-352.
14 Irene Vaquinhas, As mulheres na imprensa regional. O caso de A Comarca de Arganil (1901-1980), Lisboa: separata Ler História, 2003, p. 85.
15 Ana Vicente, Mulheres em Discurso, Lisboa: Imprensa Nacional – Casa de Moeda, 1987.
16 Graça Abranches, João Paulo Moreira, “Sobre a Crónica Feminina”, in: A mulher na sociedade portuguesa. Visão histórica e perspetivas atuais, Coimbra: Instituto de História Económica e Social da Faculdade de Letras, Coimbra, 1986, p. 390.
17 Sindicato nacional dos Psicólogos, Psicologia em Portugal – Breve Cronologia, 12.06.2004, <http://www.snp.pt/index.php/o-sindicato-mainmenu-37/hist-mainmenu-11/49-psicologia-em-portugal-breve-cronologia.html >. [consulta 09.12.2014].
18 “Dirigir toda a correspondência a: Guida - «Nós e a vida» Rua de O Século, 63, Lisboa”.
19 Modas e Bordados. Vida Feminina, n.º 3199, de 30 de maio de 1975.
20 Modas e Bordados, n.° 849, de 1 de março de 1973.
21 Modas e Bordados, 08/08/1945: 5, apud. Maria Alice Pinto Guimarães, Saberes, modas e pó-de-arroz…cit., pp. 30-31.
22 Isabel M. R. Mendes Drumond Braga, Inês de Ornellas e Castro, “Saberes e Fazeres de Berta Rosa-Limpo. A Construção de um Êxito: o Livro de Pantagruel”, Faces de Eva, n.º 29, Lisboa, 2013, pp. 45-66.
23 Graça Abranches, João Paulo Moreira, “Sobre a Crónica Feminina…cit., p. 389.
24 Graça Abranches, João Paulo Moreira, “Sobre a Crónica Feminina…cit., p. 389.
25 Graça Abranches, João Paulo Moreira, “Sobre a Crónica Feminina…cit., p. 394.
26 Graça Abranches, João Paulo Moreira, “Sobre a Crónica Feminina…cit., p. 392.
27 A bibliografia deste assunto é bastante rica. Além dos estudos citados ao longo deste trabalho, mencionem-se Inês Brasão, Dons e disciplinas do corpo feminino: os discursos sobre o corpo na história do Estado Novo, Lisboa: Organizações não Governamentais do Conselho Consultivo da Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres, 1999; Virgínia do Rosário Baptista, As Mulheres no Mercado de Trabalho em Portugal: Representações e Quotidianos (1890-1940), Lisboa: Organizações não Governamentais do Conselho Consultivo da Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres, 1999; Idem, Proteção e Direitos das Mulheres Trabalhadoras em Portugal. 1880-1943, Lisboa. Instituto de Ciências Sociais, 2016; Vanda Gorjão, Mulheres em Tempos Sombrios. Oposição Feminina ao Estado Novo, Lisboa: Instituto de Ciências Sociais, 2002; Manuela Tavares, Feminismos. Percursos e Desafios (1947-2007), Lisboa: Texto, 2011; Paulo Drumond Braga, Mulheres Deputadas à Assembleia Nacional (1935-1974), Lisboa, Assembleia da República, 2015; Helena Pereira de Melo, Os Direitos das Mulheres no Estado Novo. A Segunda Grande Guerra, Coimbra: Almedina, 2017.
28 Anne Cova e A. Costa Pinto, “O Salazarismo e as Mulheres: uma abordagem comparativa”, Penélope, nº 17, Lisboa, 1997, p.71.
29 Isabel Drumond Braga, “O Papel Feminino no Espaço Doméstico: as propostas de Estela Brandão e Maria Lúcia Namorado (Portugal nas décadas de 1930-1940)”, Revista Relicário, vol. 4, n.º 8, Uberlândia, 2017, pp. 80-116.
30 Constituição Política da Republica Portuguesa, Diario do Governo, 22.02.1933, <https://dre.pt/application/dir/pdf1sdip/1933/02/04301/02270236.pdf >. [consultado a 13-12-2014].
31 Anne Cova e A. Costa Pinto, “O Salazarismo e as Mulheres: uma abordagem …cit., p. 72.
32 Sobre a MPF e a OMEN veja-se Irene Flunser Pimentel, História das organizações femininas do Estado Novo, Lisboa: Temas e Debates, 2001.
33 Apud. Ana Paula Alão, Maria Belo, Iolanda Neves Cabral, “O Estado Novo e as mulheres”, in: O Estado Novo: Das Origens ao Fim da Autarcia (1926-1959), vol. II, Lisboa: Fragmentos, 1987, p. 269. As autoras não indicam a origem precisa da citação.
34 “Proibido às raparigas”, Menina e Moça, n.°117, maio de 1957, p. 8.
35 António José Telo, “Portugal, 1958-1974: sociedade em mudança”, in: João Medina. (dir.) História de Portugal. Dos Tempos Pré-Históricos aos nossos Dias, vol. 13, tomo 2. Amadora: Ediclube, 1995, p. 328.
36 Paulo Drumond Braga, Mulheres Deputadas à Assembleia Nacional (1935-1974)..., cit., pp. 17-19.
37 Modas e Bordados. Vida Feminina, n.° 3035, 08-04-1970, p.17.
38 Trata-se de uma linha de pensamento bem presente em outras publicações femininas, de décadas anteriores. Cf. Breviário da Beleza, Lisboa: ABC, [anterior a 1927].
39 Situação semelhante encontra-se em número 3218 de Modas e Bordados de 10 de outubro de 1973, página 34: “O meu marido é mais velho do que eu 7 anos. Eu pintava-me, mas lá em Angola pouco podemos pintar por causa do calor. Além disso, ele pediu-me para eu não me pintar, e assim aconteceu até que vim para a Metrópole, mas aqui sinto-me inferior por ver as minhas amigas todas pintadas e eu não”.
40 Modas e Bordados, n.° 3205, 11-07-1973, p. 40.
41 Modas e Bordados, n.° 3053, 12-08-1970, p. 4.
42 Modas e Bordados, n.° 3044, 10-06-1970, p. 10.
43 Modas e Bordados, n.° 3153, 17-07-1972, p. 5.
44 Modas e Bordados, n.° 3083, 10-03-1971.
45 Crónica Feminina, n.° 784, 02-12-1971, p. 81.
46 Modas e Bordados, n.° 3132, 16-02-1972, p.6.
47 Modas e Bordados, n.° 3040, 13-05-1970, p. 3.
48 Crónica Feminina, n.° 694, 12-03.1970, p. 81.
49 Modas e Bordados, n.° 3122, 08-12-1971, p.4.
50 Modas e Bordados, n.° 3157, 09-08-1972, p. 2.
51 Modas e Bordados, n.° 3106, 18.08.1971, p. 6.
52 Crónica Feminina, n.°689, 15-01-1970, p. 81.
53 Crónica Feminina, n° 709, 18-06-1970, p. 81.
54 Modas e Bordados, n.° 3161, 06-09-1972, p. 10.
55 Modas e Bordados, n.° 3199, 30-05-1973, p. 37.
56 Modas e Bordados, n.° 3144, 10-05-1972, p. 4.
57 Modas e Bordados, n.° 3066, 11-11-1970, p.5.
58 Modas e Bordados, n.° 3096, 09-06-1971, p.16.
59 Crónica Feminina, n.° 720, 10-09-1970.
60 Modas e Bordados, n.° 3256, 10.07.1974, p. 34.
61 Modas e Bordados, n.°3256, 10-07-1974, p. 34.
62 Modas e Bordados, n.°3300, 14-05-1975, p. 12.
63 Crónica Feminina, n.° 973, 17-07-1975, p. 96.
64 Modas e Bordados, n.° 3248, 08-05-1974, p. 30.
65 Crónica Feminina, n.° 937, 07-11-1974, p.96.
66 Crónica Feminina, n.° 929, 12-09-1974, p. 96.
67 Modas e Bordados, n.° 3313, 13-08-1975, p.35.
68 Modas e Bordados, n.° 3274, 13-11-1974, p. 34.
69 Modas e Bordados, n.° 3265, 11-09-1974, p. 38.
70 Modas e Bordados, n.°3321, 08-10-1975, p. 47.
71 Modas e Bordados, n.° 3324, 29-10-1975, p. 15.
72 Modas e Bordados, n.° 3288, 19-02-1975, p. 40.
Auteurs
-
Kamila Choroszewska
Formada em Psicologia e em Filologia Ibérica, especialização em Língua e Cultura Portuguesa pela Universidade de Varsóvia
-
Isabel Drumond Braga
Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras e CIDEHUS-UE
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